Epílogo (Estrela)
Alguns anos no futuro, a Colecionadora de Defeitos estava fazendo a cama, com o quarto mergulhado em penumbra, quando olhou para trás e viu seu filho, de pouco mais de um ano, parado diante do raio de luz que entrava pela janela, tentando tocá-lo com um dedinho gorducho.
Ele levava o dedo bem devagarinho de encontro ao raio, mas então seu dedo passava através dele, até o outro lado. Um olhar curioso e inquisidor estampava seu rostinho de bebê, e a Colecionadora riu diante da visão, lembrando-se de quando ela mesma fazia igual.
O tempo havia passado, e sem que ela se desse conta, havia saído do papel de filha para o papel de mãe. Agora ela testemunhava, bem diante de si, seu próprio filho descobrindo as coisas que ela antes descobrira.
E vê-lo crescer todos os dias, aprender e ver o mundo pela primeira vez, olhar para as coisas de um modo tão lúdico, a fez entender pela primeira vez na vida que tinha exatamente ali tudo o que precisava.
Não precisava mais colecionar objetos, nem acumular bens materiais. A riqueza da sua vida daqui em diante era colecionar as primeiras vezes do seu filho, e todos os momentos lindos que viveriam juntos.
Ela sabia agora que se um dia sua casa pegasse fogo, ou precisasse viajar sem rumo, a única coisa de que precisava era sua família.
No fundo, ela jamais deixaria de ser uma Colecionadora. Jamais deixaria de juntar dentro de si coisas belas e feias, comuns e exóticas, boas e ruins. Jamais deixaria de apreciar a diversidade das coisas da vida, a autenticidade e exclusividade das características de cada um, e de tudo.
Mas agora sabia que apesar de tudo isso, só uma coisa era seu tesouro verdadeiro: aquele menininho corado, cheio de dobrinhas, que olhava para tudo com olhos de encanto e assombro.
E pela primeira vez na vida a Colecionadora tinha um lar verdadeiro. Pela primeira vez na vida sentiu vontade de ter um nome próprio, pois já não era mais uma Menina, nem somente uma Colecionadora de Defeitos. Agora ela tinha encontrado seu verdadeiro eu, que era uma mistura de tudo isso, e de muito mais.
Seu nome veio num dia em que ela estava deitada no alpendre de casa, olhando o céu. Ângelo e o filhinho deles, Liam, batizado em sua homenagem, plantavam mudinhas nos vasos, quando a Colecionadora viu uma estrela cadente cruzar o céu. E esse foi o seu pedido: “eu quero ter um nome”.
Quando contou para o Ângelo da estrela, ele lembrou que há muitos anos atrás, da última vez que tinha visto uma, pediu para que a próxima fosse dela. Parece que seu desejo fora atendido.
E foi ali, exatamente naquele momento, que a Colecionadora descobriu o seu nome. Estrela. Ester.
***
— Que linda a sua casinha, mamãe! — Liam exclamou, apontando para o desenho que ela havia feito.
— Que bom que você gostou, amor! A mamãe vai te contar um segredo... Além dos limites da cidade, lá no alto de uma colina, existe uma pequena casinha, que é o meu refúgio nos dias ruins. Lá é o lugar onde tudo é melhor, e onde você vai estar sempre a salvo.
— De verdade mesmo?
— Palavra de escoteira.
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