8: Não Sobrou Ninguém
"Minha querida Amélia,
Hoje quero te contar uma história que é engraçada, mas também um pouco triste.
Por incrível que pareça, quando adolescente eu tinha muitos amigos. Era uma turma pra lá de esquisita, de fato, mas foi a única época da minha vida em que me senti parte de algo.
Tudo começou numa noite, quando eu estava sentada num banquinho na Praça de Grama, e vi dois meninos vindo ao longe, um sentado sobre os ombros do outro, vestindo um sobretudo gigante, como se fossem uma só pessoa.
O de cima, a "cabeça", conversava com as pessoas e interpretava o personagem, e instantaneamente eu soube que ele se tornaria muito importante pra mim. Nós começamos a conversar, e ele era tão divertido, tão diferente dos outros meninos que eu conhecia, que ficamos mesmo muito próximos. Ele se tornou meu melhor amigo, e eu o adorava!
É aqui que vem a parte "engraçada": quando comecei a escrever pra você, me dei conta de que os meus amigos eram: um banguela, um gordo gago e um corcunda.
O menino de cima do sobretudo gigante tinha nascido com uma espécie de condição em que os seus dentes não cresciam apropriadamente, e muitos ficavam moles e caíam, e não voltavam a nascer, e por isso ele tinha uma quantidade de dentes bem menor que o normal, e entre os da frente havia um vão, como os do Tico e Teco. Ele fingia não se importar, mas sei que se envergonhava disso. Já eu nunca me importei. Ele era tão incrível, que isso não fazia diferença pra mim, simplesmente não fazia.
Já o menino debaixo do sobretudo, era só um cara normal. Muitas meninas da cidade, inclusive, o consideravam bonito, mas para mim ele não tinha nada demais.
O gago era também gordo, e um dia um pastor decidiu ensiná-lo a tocar violão e cantar, porque ele achava que poderia ajudar com a gagueira. E ele não só aprendeu a tocar violão, como também teclado. Nós estudávamos juntos, e ele desenhou um teclado na capa de seu caderno, pra poder praticar durante a aula.
Esse foi provavelmente o amigo que eu mais amei na vida. Ele era um irmão pra mim, de verdade. E o pior: ele cresceu, e não ficou mais nem gordo nem gago. Aprendeu a tocar todos os instrumentos possíveis, construiu seu próprio estúdio, e gravava as músicas que compunha sozinho. Fazia todos os instrumentos um por um, e a voz. E se tornou o músico mais espetacular que eu já conheci.
O quarto era o corcunda. Ele era magricela e tinha um cabelo castanho comprido, na altura da cintura, e sempre usava tênis vermelho. Às vezes, eu olhava pela janela do meu quarto, e o via, vindo pra minha casa, com as costas arqueadas, carregando uma mochilinha, olhando pra baixo, pro tênis. Ele era o "complexo" da turma, que fazia origamis, montava cubos mágicos em cinco minutos, se perdia em conversas consigo mesmo e nenhum de nós conseguia entender direito ou acompanhar.
Uma das coisas que eu mais gostava, era que entre eles eu não era "a menina" do grupo. Apesar de eu mesma parecer bem normal, com eles eu era um dos caras. Inclusive era o que eles diziam, que eu era como "um cara legal cabeludo".
Talvez você esteja se perguntando por que eu andava com essa galera... Bom, além de me tratarem como igual, nós criávamos e interpretávamos histórias. Na época, era o mais perto que adolescentes do interior que não sabiam nada sobre o mundo lá fora chegavam de jogar RPG. Ou, pelo menos, é assim que eu vejo hoje em dia.
Nós criávamos cenários, realidades paralelas, personagens, alter-egos, grupos aliados e rivais, e encenávamos tudo, muitas vezes no quintal da minha casa, onde havia uma grande árvore caída que fingíamos ser uma ponte mágica... Eu cheguei a escrever algumas histórias baseadas nas nossas brincadeiras...
Além desses eu tinha muitos outros amigos, que também eram amigos entre si. E nós éramos mesmo muito unidos. Nos víamos todos os dias, íamos juntos a todos os lugares. Eu sempre estava na casa de algum deles, ou eles na minha casa. Sempre almoçávamos juntos aos fins de semana, e mesmo no meio da semana, às vezes.
Eu sentia que eu era realmente importante para alguém. Que haviam pessoas que sentiam minha falta quando eu não estava, e me odeio por ter ido embora. Eu fui a primeira a ir embora.
Meu sonho era estudar. Pra valer mesmo, sabe? Aprender muitos idiomas, ostentar muitos diplomas, conhecer o mundo lá fora... Queria sair dessa cidade a todo custo, e descobrir meu potencial longe daqui...
Em retrospectiva, eu não sabia o valor do que eu tinha. Eu não sabia como era raro e frágil ser tão presente na vida de alguém. Possuir algo tão verdadeiro. Tão desinteressado. Porém, eu não achava que perderia meus amigos nunca.
Uma parte de mim acreditava que quando eu decidisse voltar tudo seria exatamente igual, nós manteríamos contato por toda a vida, porque era isso que planejávamos... A gente sonhava com os nossos filhos brincando juntos! Mas quando voltei, não havia mais ninguém aqui. Ninguém esperou por mim, é claro. E fui tola e egoísta de acreditar, mesmo que por um minuto, que o fariam. A vida seguiu, e cada um tomou um rumo diferente, para longe.
Ontem eu encontrei um antigo amigo, e ele me olhou como se nunca tivesse me visto antes. Não perguntou como eu estava, o que andava fazendo... Não demonstrou nenhum interesse em mim, nenhuma surpresa, ou alegria em me ver. Nada. Foi tão esquisito! Eu ia cumprimentá-lo, perguntar sobre a vida...
Eu não sei. Eu estava feliz em vê-lo. Mas desisti de tudo quando ele me lançou o olhar mais descrente do mundo, como se eu nem estivesse ali. Como se eu fosse parte da decoração, e irrelevante.
Hoje eu daria tudo para ter aquilo novamente. Para ser querida. Mas hoje somos todos adultos, e a vida não é tão simples como costumava ser. Hoje estamos carregando nos ombros o peso do mundo. Não nos sobra tempo. E eu nunca estive mais sozinha.
Com amor,
Aurora."
Quando terminaram de ler, Ângelo e a Colecionadora ficaram um bom tempo em silêncio, sem saber o que dizer sobre a carta. Ela ainda sentia dentro de si uma fina neblina dos sentimentos de mais cedo. Ainda podia sentir o gosto de solidão na boca.
- Eu tenho a sensação de que consigo entender perfeitamente esse sentimento, como se eu mesmo já tivesse vivido a mesma coisa... - Refletiu Ângelo, quebrando o silêncio - E acho que vivi. Quer dizer, quem nunca se sentiu dessa forma?
- Eu queria que tivesse algo que eu pudesse fazer por ela... Eu entendo exatamente o que ela quis dizer. E... É horrível.
- Você quer falar sobre o que houve na casa?
- Não compreendo muito bem... Eu lembrei de um monte de coisas que nunca aconteceram. Acho que por um momento eu era ela. Ou me sentia como ela... Eu não sei.... Só sei que eu fiquei tão bem, como se tudo estivesse no lugar certo, como se a vida fosse boa. Eu era feliz! E de repente tudo acabou. Não sobrou nada. E eu fiquei completamente vazia.
- Sinto muito, mesmo. Você viu alguma coisa? Sobre ela? - Ângelo indagou.
- Não. Não era como uma visão. Eu só... Sentia. Eu só sabia dentro de mim como era vivenciar todas aquelas coisas... Desculpa. Eu não consigo mais pensar nisso. - Uma pequena lágrima brotou no canto do seu olho.
- Ei, você não tem que se desculpar por nada! Quer que eu te faça um bolo? Podemos assistir alguma coisa no sofá e raspar a panela da calda. - Propôs ele.
- Parece perfeito, obrigada!
Ela lançou um olhar pesaroso para dentro da caixa, onde haviam algumas folhas de papel dobradas, e um pedaço de casca de árvore embrulhado em um plástico translúcido colorido, que a Colecionadora de alguma forma sabia que era da árvore caída que os amigos fingiam ser uma ponte mágica.
Ângelo fechou a caixa, guardou-a, e começou a dispor os ingredientes que iria usar em cima da mesa. Enquanto isso, a Colecionadora foi até o seu armário e pegou sua calça de moletom de conforto, que era velha, desbotada e cheia de pequenos buraquinhos, e ela só as usava quando precisava se sentir abraçada, como quando estava menstruada, inchada, e nada parecia vestir bem. Vestiu-as, em conjunto com uma camisa folgada do Ângelo, se deitou no sofá e ficou encarando o teto até perder a noção do tempo.
Quando deu por si, Ângelo vinha da cozinha, segurando dois pratinhos com fatias de bolo cobertos calda, que escorria pelas bordas.
- Agora você vai ficar melhor - Ele prometeu.
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