5: Violeta e o Caminho de Volta
Descer a colina foi bem mais rápido que subir, e logo os dois já estavam na estrada novamente. Uma lua em forma de sorriso brilhava à frente. Ângelo e a Colecionadora tinham descido de suas bicicletas, e seguiam a pé, empurrando-as. Os dois andavam tranquilamente à beira do caminho, respirando o ar fresco de fim de tarde, em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos.
Eles planejavam montar acampamento mais ou menos no mesmo lugar da noite anterior, mas antes que chegassem lá, uma Kombi vermelha parou ao lado dos dois. A janela do passageiro se abriu, e uma cabeça feminina de longos cabelos negros cacheados apareceu:
- Ei, vocês precisam de carona?
Ângelo olhou para a Colecionadora de forma apreensiva. Ao longo de suas andanças, pegavam carona eventualmente, mas sempre era uma questão complicada, porque: que tipo de pessoa aceita abrigar desconhecidos? E que tipo de pessoa aceita entrar no automóvel de um desconhecido?
- Olha, eu não tenho a intenção de assustar vocês. É só que... Vocês devem estar vindo de muito longe; a cidade mais próxima naquela direção fica a centenas de quilômetros, e devem estar cansados, se estão vindo de lá de bicicleta. Além do mais, já está escuro. A estrada pode se tornar traiçoeira daqui pra frente.
- Você mora naquela cidade?
- Não exatamente. Eu moro no mundo. Mas estou vindo de lá, sim.
- Nos dê licença um instante, por favor.
Os dois se afastaram alguns passos da Kombi, e a Colecionadora sussurrou para ele:
- Não tem como saber se uma pessoa é confiável só de olhar, mas acho que ela não vai nos fazer mal.
- É claro que essa seria exatamente a aparência de alguém que iria, de fato, nos fazer mal. Ninguém ia chegar e dizer simplesmente "oi, eu sou um assassino, querem uma carona?", eles sempre disfarçam!
- Ahn... Nem sempre, na verdade a maioria dos pirados entrega o jogo logo de cara, mas entendo seu ponto de vista.
- Estamos na estaca zero. Não temos como saber que tipo de pessoa ela é.
- Se a gente fosse se guiar pela intuição, eu diria que ela é uma boa pessoa. Ou uma pessoa comum, pelo menos. Não uma assassina.
- É, acho que sim. Se eu tivesse que responder rápido, a primeira coisa que me viesse em mente, diria que ela é uma pessoa ok.
- Então vamos! Podemos chegar em casa hoje ainda.
Os dois se aproximaram novamente.
- Senhora...?
- Violeta. Só Violeta.
- Tudo bem. Violeta. Nós decidimos aceitar sua oferta. E agradecemos a generosidade.
- Ah, que maravilha! Entrem! Imagina, o prazer é meu. Vamos colocar as bicicletas lá atrás. Sabe, já mochilei muito por aí, e é sempre bom encontrar alguém que nos proporcione um pouco de descanso! Vocês são?
- Ângelo.
- Colecionadora.
- Que curioso! O que você coleciona?
- Defeitos, principalmente. Mas um pouco de tudo.
- Antigamente eu gostava de colecionar coisas, mas quando comecei a viajar por aí sem rumo, tive que me desfazer de todos os meus bens materiais. Sabe como é. Não ia caber tudo aqui...
Eles acomodaram as bikes na traseira, entraram, Violeta no banco do motorista, evidentemente, a Colecionadora no meio, e Ângelo na janela, e seguiram viagem. A Colecionadora aninhou a cabeça no ombro de Ângelo, e dormiu, como fizera tantas vezes antes, em todos aqueles trajetos de ônibus que fizeram juntos.
Não foram poucas as vezes que viajaram à noite, depois de um dia cansativo de atividades, e ela sempre era a mais sonolenta dos dois. Incapaz de virar uma noite acordada, ela pegava no sono com a maior facilidade. Era só encostar a cabeça, que logo já estava cochilando. Ele, não. Ficava em estado de alerta, sua mente zanzava entre pensamentos diversos, e se recusava a desligar. Assim, enquanto ela dormia, zelava por seu sono, como agora.
Violeta ligou o rádio, e uma música dos Scorpions tocava baixinho: "uma noite sem você é como um sonho perdido", cantava melancolicamente Klaus Meine. Ângelo via de relance as silhuetas das árvores passarem correndo, enquanto admirava o céu noturno. Ele tinha um fascínio especial pelo céu. Pensava sobre a imensidão, quando uma estrela cadente traçou um risco prateado sobre a negritude da noite.
Ângelo imediatamente fechou os olhos e fez um pedido. Queria tanto que a Colecionadora tivesse visto! Até hoje ela só tinha visto uma em toda a vida, enquanto ele já tinha visto pelo menos catorze. Ele desejou: "a próxima vai ser dela".
- Violeta, será que podemos parar naquele vilarejo por alguns instantes?
- Claro!
Ângelo desceu no mercadinho e devolveu os equipamentos que tinha pegado emprestado.
- É, nós voltamos antes do esperado! Sim, foi tudo bem. Conseguimos achar o que estávamos procurando. Com certeza. Não se preocupe, em breve a gente volta pra tomar um café, ok? Muito obrigado mesmo! A gente se vê, boa noite!
Dali até a casa deles foram apenas alguns minutos. Agradeceram muito a Violeta pela carona, e se ofereceram para assar para ela alguns biscoitos, ou fazer um chá, ou leite quente, mas ela disse que não ia poder agora, porque estava atrasada para um compromisso, mas que se um dia passasse pela cidade novamente, faria uma parada na casa deles para um lanche. Se despediram.
A Colecionadora foi direto para a cama, enquanto que Ângelo guardou as bicicletas dos dois, desfez rapidamente suas sacolas de viagem, tomou um banho, escovou os dentes, vestiu seu pijama, e só aí foi se deitar.
Na manhã seguinte a Colecionadora foi a primeira a acordar. Fez limonada, torradas com manteiga e mel, e picou algumas frutas numa tigela. Enquanto esperava Ângelo acordar para tomarem o café juntos, pegou a caixa de madeira que guardava sua coleção de chaves, dispôs todas sobre a mesa, e começou a testar uma por uma na fechadura do baú. Eram muitas, mas mesmo assim conseguiu testar todas antes dele acordar.
Quando ele entrou na cozinha, a Colecionadora já estava guardando as chaves de volta.
- Nós não temos - Disse ela de pronto - Essa pode ser a primeira vez na vida que eu não tenho algo que preciso, e devo confessar que é um sentimento muito estranho para mim.
- Você tem uma ideia de que tipo de chave estamos procurando?
- Acho que sim. Pela aparência do cadeado, dá pra imaginar a chave que seria correspondente. Mas não dá pra saber com certeza, nunca dá.
- Um palpite?
- Eu diria que é uma chave antiga. Daquelas ornamentadas, que tem desenhos na parte onde a gente segura, e a ponta que vai no cadeado é reta nas laterais. Mais ou menos deste tamanho, eu suponho - ela fez mais ou menos um centímetro com os dedos indicador e polegar.
- Hm... Não lembro de ter nada parecido. Mas uma hora a gente acha. Talvez seja a próxima parada no mapa, inclusive.
- É, talvez.
- Bom dia - Ele se aproximou e deu um abraço apertado nela, e um beijo na testa.
- Bom dia - Respondeu ela, enrolando no dedo um cacho do cabelo dele.
E com isso tomaram café da manhã, conversando sobre outras coisas que não o mapa (como por exemplo se deveriam plantar uma mini horta de verão, e será que o canteiro de flores dele ia abrir totalmente ainda esse mês).
Depois do café abriram o mapa sobre a mesa, iluminaram com a lanterna, e notaram a gotinha brilhante que mostrava a localização dos dois, bem acima do desenho da casinha deles. O mapa mostrava o mesmo desenho que na primeira vez: uma réplica em miniatura da cidade, mas dessa vez não dava nenhum indício de para onde deveriam ir em seguida, então eles optaram por ir até o ponto mais próximo da casa deles, que era a praça central da cidade, conhecida pelos moradores como Praça de Grama.
De toda forma, já era costume dos dois passear nessa praça aos fins de tarde, então, durante o dia eles trabalharam, a Colecionadora em sua oficina e Ângelo fazendo serviços gerais da casa, e quando o sol estava abaixando, tomaram banho, se arrumaram, e foram para a praça.
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