4: A Casinha no Topo da Colina - Parte 1
Ao chegarem, a Colecionadora ficou encalorada e tirou o casaco. Por baixo usava um short jeans com a barra desfiada, uma camisa de flanela xadrez em vermelho, com os dois primeiros botões abertos, e suas botas. Tinha também um lenço na cabeça, prendendo para trás os cabelos que sempre caíam em sua testa, e formando no topo um laço, com as pontas. Quando estava de chapéu, virava as pontas para trás, para a nuca, mas nesse momento tinha tirado ele também, então estavam viradas para cima. Além de tudo, ela usava ainda óculos de sol.
Na mão tinha um copo grande de suco de laranja, que bebericava enquanto Ângelo abria o mapa sobre um banco de madeira que ali havia, e jogava a luz da lanterna sobre ele.
Dessa vez, um desenho diferente apareceu. Era o vilarejo onde estavam. Na lateral direita, onde antes aparecia a casa deles, agora havia o desenho de um pequeno mercadinho, com uma gota piscando na porta, que marcava a localização dos dois. A estrada que cortava o vilarejo, e que estava bem diante deles, estava marcada com uma série de pontinhos que seguiam reto e subiam a colina.
Lá no topo da colina, no ponto mais distante, havia o ícone de uma casa, com uma grande árvore do lado, e um "x" desenhado embaixo dela. Era lá que acabava o caminho pontilhado.
- Hm, então é pra lá que devemos ir... - A Colecionadora observou, dando mais um gole em seu suco.
- Foi mais fácil do que pensamos, afinal! Faltam só alguns minutos para o pôr do sol, não vamos conseguir chegar lá na luz do dia.
- A distância parece ser bem maior do que daqui até a cidade... Se a gente sair agora, pelo menos não pegamos sol quente... Podemos fazer uma parte do caminho ainda hoje, quando ficar tarde montamos acampamento na floresta, e terminamos de chegar amanhã bem cedo, antes do almoço.
- É, parece uma boa ideia. Podemos almoçar por lá, e fazemos o caminho de volta quando o sol abaixar novamente.
- Vamos precisar de um saco de dormir, talvez uma barraca, para nos proteger do vento noturno. O fogo da fogueira eu já tenho, é claro.
- Ok. Saco de dormir. Eu dou um jeito nisso.
Um fato interessante sobre a Colecionadora e Ângelo, era que os dois haviam crescido em cidades de interior, onde as pessoas são muito simpáticas e prestativas, gostam de conversar e contar histórias, e, principalmente, gostam de ter alguém que ouça seus causos.
Isso significava, em outras palavras, que os dois tinham muita facilidade em conseguir as coisas que precisavam, fossem elas informações ou objetos. Eles conquistavam a todos com um sorriso radiante e alguns minutos de conversa animada.
Esse era meio que um segredo dos dois: era possível conseguir quase qualquer coisa, ou contornar a maioria das situações com educação e simpatia. Ninguém resistia a uma pessoa cativante, o que ambos eram. E foi exatamente assim que em poucos minutos Ângelo conseguiu um saco de dormir muito fofinho e uma barraca.
- Muito obrigado mesmo, seu Zé! Devo estar de volta amanhã a essa hora, sem falta! E não se preocupe, tenho certeza de que sua nora vai mudar de ideia. Te vejo amanhã! - Ângelo deu um sorriso mais brilhante que o sol, e dizendo isso, se virou e andou na direção da Colecionadora, que já tinha subido na bicicleta, e estava pronta para sair.
Ângelo amarrou a bagagem na garupa de sua bike e os dois saíram pela estrada, em direção ao topo da colina. O sol estava baixo no horizonte, e fazia um pouco de calor. Não muito, pois já estava quase de noite, mas ainda assim, o tempo estava bom para pedalar ao ar livre, e eles estavam descansados o suficiente.
Como mencionado anteriormente, estavam acostumados a andar ou pedalar grandes distâncias. No período que passaram procurando aventuras, iam de cidade em cidade de ônibus, a pé, e de bike, então, não era novidade para eles.
Eles adoravam viajar. Gostavam de ver as árvores passando na beira da estrada, às vezes cobertas por flores, às vezes desfolhando, com um tapete colorido a seus pés, quando as flores já haviam caído, outras, secas e retorcidas... Algumas grandes e frondosas, de tronco grosso e copa cheia e fofa, outras magrinhas e encurvadas, a depender da estação, da qualidade do solo, e do clima daquela região...
Gostavam de olhar as vastas paisagens, o capim listrado com inúmeros tons de verde, do mais vivo ao mais amarelado, os animais pastando aqui e ali, alguns como pontinhos brancos, pretos e marrons ao longe, outros bem mais próximos, mastigando galhos e folhagens; os enormes barrancos que se estendiam para muito além deles, de terra e barro, as raízes que de lá saíam, e as plantas enroscadas...
O ar puro e refrescante. O aroma de folhas e terra. De natureza. O vasto céu acima de suas cabeças, muitas vezes pontilhado com nuvens gordas de algodão, ou cinzentas e pesadas, carregadas de chuva, outras vezes coberto por neblina, mas sempre infinito e belo.
Naquele momento as primeiras estrelas já estavam visíveis. O céu estava colorido de azul, roxo, rosa, laranja e amarelo. Como se alguém tivesse colocado cinco pingos de tinta nessas cores em uma bandeja, e misturado tudo com o dedo. Era mesmo lindo de ver, como algo saído de um sonho.
Os dois pedalaram, cantaram suas canções de viagem, contaram fábulas um para o outro, e também fizeram um silêncio contemplativo, como forma de passar o tempo até se cansarem, e ficar escuro demais e frio demais para prosseguir. Então, desceram das bicicletas e passaram a empurrá-las, adentrando o mato da beira da estrada. Procuraram uma clareira cujo chão fosse relativamente limpo, um lugar que parecesse seguro, sem formigueiros e coisas do tipo, e ali montaram acampamento.
A Colecionadora acendeu uma fogueira, enquanto Ângelo estendia o saco de dormir dentro da barraca que tinha montado. Depois da fogueira pronta, os dois queimaram nela algumas nozes e torraram pedaços de pão com queijo. Beberam água, que era a única bebida que dava para levar numa viagem com a segurança de que não iria azedar com o tempo e o calor.
- Quando eu era criança, meus pais costumavam acampar o tempo todo - Ângelo disse enquanto observava o fogo crepitando.
- É?
- Meu pai e os amigos dele gostavam de pescar, e levavam a família toda pra beira do rio... Meu melhor amigo era filho de um dos amigos do meu pai... A gente brincava muito nesses passeios, fazíamos castelos de areia, tomávamos banho de rio, explorávamos tudo ao redor...
- Parece divertido!
- Era mesmo! Fora a parte de pescar - Ele riu - Mas faz tanto tempo, que às vezes parece que eu sonhei tudo. Que foi em outra vida...
Depois disso passaram um tempo abraçados diante da fogueira, conversando e olhando as estrelas, fazendo carinho nos cabelos um do outro, e logo foram dormir, porque no outro dia acordariam bem cedo pra prosseguir viagem quando ainda estivesse fresco.
Acordaram antes do sol nascer, a fogueira já tinha apagado há um bom tempo. Escovaram os dentes com uma mistura de pó de carvão vegetal que a Colecionadora havia levado, comeram sanduíches e frutas como café da manhã, desfizeram o acampamento, limparam o lugar, e se preparam para partir.
Ainda estava escuro quando pegaram novamente a estrada, mas logo alguns raios de sol começaram a despontar. Os dois seguiram seu caminho como no dia anterior. Subiram a colina, mais calados que o normal, pois como todos sabemos as subidas são mais difíceis, até chegarem em uma cabaninha de madeira abandonada, com uma árvore bem grande ao lado, como representado no mapa.
Eles estacionaram as bicicletas do lado de fora, e entraram. A cabana estava completamente vazia. Não tinha móveis, nem um objeto sequer. Somente paredes, e janelas tão grandes, que tinham quase o tamanho de uma pessoa. De uma criança, talvez. A Colecionadora abriu uma delas, com certa dificuldade, e a luz adentrou. A vista era fantástica. Dava para ver quilômetros e quilômetros de árvores e capim. Dava para ver todo tipo de nuances de azul e verde.
Atrás da cabana havia um banco de pedra, no qual a Colecionadora se sentou e contemplou a imensidão à sua frente, enquanto Ângelo cavava embaixo da árvore, no lugar marcado no mapa com um "x". Ela notou que as montanhas mais distantes adquiriam um tom de azul marinho quando olhadas daquela distância. Notou que o ar parecia mais quente ali do que o normal. E notou pequenas flores rasteiras a seus pés, pontinhos cor-de-rosa espalhados por toda parte, como pragas.
Como já fora um Espírito Primitivo uma vez, sempre sentia uma sensação de plenitude e paz quando estava cercada pela natureza. Como se sua energia fosse renovada. Em parte, era por isso que amava viajar. E mesmo quando não podia, sempre procurava estar ao ar livre, cercada de verde, de plantas, e dos quatro elementos o máximo que pudesse. Buscava essa conexão sem cessar, e estar num lugar como esse enchia seu coração de contentamento.
Enquanto estava ali, no alto da colina, cercada de tanta beleza, se sentia uma só com o mundo, e estava tão preenchida, que era como se estivesse ali há muito tempo, uma vida inteira. Mas quando se levantou e foi até Ângelo, ele não tinha cavado mais que um par de palmos, e ela se pôs a ajudá-lo.
Depois de um tempo, e de uns três ou quatro buracos em que não encontraram nada, os dedos da Colecionadora tocaram algo que parecia um pedaço de madeira. Os dois afastaram a terra em volta do objeto, até conseguirem removê-lo. Era um baú, pouco maior que a palma da mão. Tinha uma tranca meio enferrujada na face frontal. Ao que tudo indicava, eles não possuíam a chave. Eles tentaram quebrar a fechadura, ou mesmo a caixa, mas foi em vão.
- Podemos testar as chaves da minha coleção. Eu sei que é improvável que a certa esteja lá, mas não custa tentar...
- É, não deixa de ser um plano.
- O que você acha que tem dentro? - Questionou a Colecionadora.
- Não faço ideia... Podia ser uma joia antiga, uma série de fotos de coisas bizarras, alguma relíquia esquecida, ou coisa assim...
- Uma carta de amantes desafortunados...
- Ela divagou.
- Uma receita secreta de alguma comida bem gostosa... - Tentou ele.
- A escritura de alguma propriedade importante...
- É uma pena a gente não conseguir abrir, eu fiquei mesmo curioso.
- É, sim. Mas a parte boa é que podemos fantasiar sobre o conteúdo! Até que é divertido imaginar todas essas coisas...
A Colecionadora lançou um último olhar pensativo para a caixinha, e em seguida a guardou no bolso. Os dois encheram novamente os buracos feitos, forraram sua toalha de piquenique no chão, sob a sombra da árvore, e se deitaram, Ângelo de barriga pra cima, com um dos braços atrás da cabeça, e o outro em volta da Colecionadora, que descansava a cabeça em seu peito.
Eles inventaram formatos para as nuvens até caírem no sono. Cochilaram um pouco, e ao acordar fizeram uma refeição simples, organizaram suas coisas, e partiram. A essa altura, a tarde já devia estar pela metade.
A Colecionadora se despediu com muito carinho daquele lugar tão especial, e prometeu voltar um dia, para se unir outra vez à paisagem. Colheu algumas florezinhas no chão, que guardou de lembrança daquele dia.
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