17: Coletânea de Frames
A Colecionadora acordou naquela manhã sentindo seu corpo pesado. Seus olhos se recusavam a abrir, mas ela insistiu. Abriu um primeiro, depois o outro, piscou algumas vezes... O outro lado da cama estava vazio. Ela ficou encarando o quarto, sem conseguir reagir. Estava submersa em um rio de sono.
Viu um raio de sol entrando por uma fresta da janela, e lembrou-se de ver esse mesmo raio, nessa mesma fresta, quando era criança.
Lembrou de quando sua tia dobrava as cobertas de manhã, com ela ainda na cama, vendo os milhares de pontinhos luminosos, como partículas de glitter. Na época ela ficava tão encantada, que poderia passar horas ouvindo o barulho do tecido estalando no ar, e olhando os brilhinhos voando e rodopiando dentro do raio de sol, como se uma fadinha tivesse passado por ali e deixado um rastro de mágica.
Hoje, ela sabia que tudo não passava de poeira flutuando, visível graças ao sol. Mas mesmo assim, gostava de olhar e se lembrar de como tudo parecia tão surreal quando era criança.
Levantou da cama com custo, e se arrastou até a cozinha. Bebeu um copo de água gelada. Pegou uma fatia de pão, passou manteiga nos dois lados, torrou na frigideira, e repetiu o processo com algumas outras fatias.
Ela não gostava de beber café, então, fez chá de canela, que despejou em sua caneca de girafinha, com rosto e braços em relevo, e sentou-se à mesa com a caneca e um prato com uma pequena pilha de torradas.
Assim que deu a primeira mordida, Ângelo entrou com tudo, carregando uma grande sacola de pano.
- Você acordou, finalmente! - exclamou ele, ao mesmo tempo colocando a sacola na mesa.
- Oi. E aí?
- Estou voltando da feira. Comprei aquelas cenouras que você gosta, que parecem dedinhos.
- Eba!
- Já sei onde é o próximo local do mapa. Você quer ir hoje depois do almoço?
- Não dá. Tenho que ir visitar a dona Emília, eu prometi - disse ela.
- Amanhã, então?
- Você pode ir sem mim, se quiser. Só faltam mais dois lugares, você deve estar ansioso.
- Estou. Mas tudo bem, eu espero você - ele respondeu, tirando as verduras da sacola e colocando em uma grande bacia cheia de água, com algumas colheres de água sanitária.
***
No dia seguinte, de tardinha, os dois cruzaram a porta de entrada do colégio local. Dessa vez, eles nem precisavam da lupa para saber que deveriam ir para a biblioteca.
As aulas do dia já haviam terminado, e somente alguns funcionários circulavam pelo local. Ângelo, com seu jeito cativante, convenceu o pessoal da secretaria a deixá-los entrar, inventando uma história qualquer.
A biblioteca era pouco maior que uma sala de aula comum, com três mesinhas no centro, e estantes cobrindo todas as paredes ao redor. A bibliotecária perguntou se podia ajudá-los, e Ângelo contou para ela a mesma história de antes, que estavam fazendo uma pesquisa sobre as bibliotecas locais, com inventário sobre algumas das obras disponíveis, ou qualquer coisa assim.
Enquanto isso, a Colecionadora, escondida atrás de uma estante, abriu o mapa e localizou o que procuravam dentro de um armário de vidro, que ficava bem atrás do balcão de registro.
Ela passou por trás da atendente e sinalizou para Ângelo que ele deveria distraí-la para ela poder abrir o armário lá atrás.
- Vocês têm obras de autores regionais? - perguntou ele com seriedade.
- Temos, algumas.
- Eu vou precisar da relação completa, se não for incômodo.
- Tá bom, deixa eu pegar nosso catálogo. Ainda não digitalizamos - ela virou para trás, para pegar o enorme catálogo de todos os livros disponíveis na biblioteca, ao que a Colecionadora imediatamente se jogou ao chão, agachada atrás de uma mesa.
- Aqui está - disse ela se voltando para frente novamente, e abrindo o livro no balcão, para que Ângelo pudesse ver.
- Me ajuda a procurar?
Os dois enfiaram o nariz no catálogo, e a Colecionadora se levantou depressa, e abriu a porta de vidro do armário com a maior calma possível, para não fazer nenhum barulho.
Lá dentro haviam alguns livros raros, primeiras edições e edições de colecionador, alguns troféus ganhos pela escola em concursos de redação e coisas do tipo, e fotos de antigos alunos em atividades acadêmicas.
Em uma das fotos, a Colecionadora reconheceu Aurora. Tateou perto da moldura, apressada, e lá no fundo, atrás de um monte de objetos empoeirados, havia um álbum com capa de veludo vermelho, com um "A" desenhado.
Ela, num segundo, puxou o álbum com todo cuidado, e o enfiou dentro do casaco. Fechou a porta novamente, fez um sinal afirmativo para o Ângelo, e sumiu no meio das estantes outra vez.
- Acho que esses aqui vão bastar para a minha pesquisa - disse ele, tentando encerrar o assunto para poderem ir embora.
- Tem certeza? Mas ainda faltam quatro páginas!
- É, mas esses aqui abrangem, basicamente, o foco do meu estudo. Muito obrigado! Se eu precisar, volto outro dia para pegar o resto.
- Tá bom, você quem sabe...
A Colecionadora saiu do meio das estantes.
- Vocês tem uma ótima coleção, aqui! - disse, sendo simpática.
- Obrigada, eu acho.
A bibliotecária começou a desconfiar que os dois estavam agindo de forma estranha, mas nem teve tempo de desenvolver o raciocínio, porque os dois se despediram, e saíram às pressas.
- Tem caroço nesse angu - a moça disse para si mesma quando eles saíram.
***
Dentro do álbum haviam dezenas de fotos, presas em quatro cantoneiras, em folhas de papel. A primeira mostrava uma dezena de pessoas, que eles não conheciam, fazendo poses engraçadas para a câmera. Bem no cantinho, do lado direito, estavam Aurora e Amélia, dando as mãos timidamente, sem ninguém perceber.
A próxima, era uma foto das duas, com o uniforme da escola, sentadas num banco da praça. O rosto de Aurora estava todo contorcido em uma gargalhada, seus cabelos voando desalinhados, e Amélia olhava para ela com um sorvete na mão, e o esboço de uma risadinha nos lábios.
A outra, mostrava três amigas fazendo careta para o fotógrafo, duas delas eram Aurora e Amélia, a outra eles não conheciam.
Haviam várias fotos. As duas de bicicleta, Aurora carregando pilhas imensas de livros; muitas delas tinham o colégio como cenário, e várias outras pessoas apareciam junto com as duas, abraçando-as, em poses espontâneas e divertidas de todos os tipos.
Por fim, as últimas fotos mostravam Aurora um pouco mais velha, ao lado de pessoas diferentes, e sem Amélia. Uma das fotos mostrava ela, de pé, vestindo beca e capelo, com seu diploma na mão.
Haviam algumas de Amélia sozinha também, posando para a câmera, vestida de noiva, com um sorriso radiante no rosto, de jardineira jeans, pintando a parede de sua casa, com um bebezinho no colo...
Era uma coletânea de diversos frames da vida das duas. Vários momentos congelados e impressos em papel, lembrando que um dia elas existiram, e foram tanto felizes quanto tristes. Amaram, tiveram amigos, realizaram sonhos.
No meio do álbum, porém, havia um espaço em branco, onde um retrato faltava.
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