13: Engrenagens
O próximo ponto sinalizado no mapa ficava a alguns quarteirões de distância da praça de pedra.
Até onde a Colecionadora se lembrava, esse lugar era uma pracinha sem nada. Só um círculo coberto de grama, com uma ou duas árvores. Por isso, os dois foram preparados. Levaram pás e coisas de jardim em geral.
Ela não quis ir no meio da noite, porque não gostava de ficar acordada de madrugada, e, para ser sincera, não gostava das vibrações desse período. Não gostava de ver o mundo todo sombrio daquele jeito, e se sentia meio mal.
Então, eles foram de manhã bem cedinho, alguns minutos antes do sol nascer.
Quando chegaram lá, porém, a praça estava muito diferente das lembranças da Colecionadora. Bem melhor, inclusive. Ela tinha se transformado num parque, com uma casinha de madeira no meio, na qual se entrava por uma escada, e saía-se por um escorregador. Haviam também balanços, gangorras, e outros brinquedos do gênero.
Os dois sentaram-se no chão de grama, abriram o mapa, e pela lupa a Colecionadora viu o que ela costumava ver antigamente, um gramado, uma árvore, e um cepo, onde o pontinho indicativo brilhava.
- Ali - mostrou ela.
Eles caminharam até o cepo, mas a mais curiosa das coisas tinha acontecido.
Outra árvore havia nascido por cima de onde a primeira foi cortada, e ficou com aparência de uma cadeira de árvore. O cepo sendo o assento, e a árvore nova o espaldar.
- Esse trono-árvore é perfeito para uma coleção! - disse a Colecionadora com os olhos brilhando - Coisas improváveis que aconteceram na natureza e são tão lindas quanto funcionais.
Ângelo olhava para ela com uma cara divertida.
- Tá, eu preciso trabalhar nesse título. Mas, sei lá... Parece uma coisa saída de um livro! Parece que alguém cortou ela desse jeito de propósito! Enfim... O mapa diz que o que procuramos está aí. Mas essa eu já saberia por mim mesma, esse é o único lugar possível!
Ângelo se abaixou e começou a procurar por alguma fenda na árvore. Inspecionou a parte de cima do cepo, as raízes, o tronco e galhos da outra árvore. Nada.
- Será que está lá dentro? - perguntou ele por fim.
- De jeito nenhum você vai abrir um buraco nessa árvore.
- Mas...
- É sério! Procura de novo. Se não encontrarmos, vamos embora e seguimos adiante. Sem chance de você estragar essa obra prima da natureza.
- Tá bom - disse ele emburrado.
A Colecionadora começou a procurar também.
- Vamos pensar com calma - disse ela - a árvore não existia aqui antes. Deve estar no cepo.
Ela andou em volta dele olhando cuidadosamente. Viu, na base, perto das raízes, um pedaço lascado da casca, que estava coberta de musgo. Puxou com cuidado, e arrancou um pedaço. Por trás havia uma pequena fenda. Puxou um pedaço maior, e um quadrado solto surgiu, com o entalhe: A+A dentro de um coração, uma espécie de gavetinha.
- Achei! A árvore tinha cicatrizado por cima. A gente vai precisar de uma espátula, ou algo assim pra puxar pra fora.
Ângelo trouxe uma, e eles começaram a puxar a gavetinha para fora. Quando ela finalmente se soltou, viram lá dentro um saquinho de pano meio apodrecido, onde dava para ver restos de bordados dourados.
O tecido se desfez na mão da Colecionadora quando ela o pegou. Mas por dentro havia outro saquinho, esse de plástico, bem fechado, com um pedaço de papel dentro.
Ela guardou o papel envolto em plástico no bolso, e devolveu os restos de tecido para dentro da gaveta.
- Eu sinto que talvez eu devesse deixar alguma coisa em troca... Mas não tenho nada aqui.
Ângelo tirou a carteira do bolso, e pegou uma pequena foto dos dois que carregava por aí. Andou alguns passos, se abaixou, e colheu um raminho de flores rasteiras que estavam espalhadas por toda parte.
- Obrigada!
Ela colocou a foto e as flores junto, e fechou a gaveta. Ângelo pegou seu canivete, e entalhou um pequeno A+C perto do coração já existente. Colocaram por cima o pedaço de casca que haviam tirado, e tamparam com musgo e grama da melhor forma possível.
- É... Não ficou exatamente igual estava antes, mas já dá pra enganar.
A essa altura, o sol já tinha saído, e algumas pessoas já circulavam por ali, direcionando olhares curiosos para os dois.
- É melhor a gente ir pra casa. Vem - Ângelo estendeu a mão para a Colecionadora, e ajudou-a a se levantar. Ela limpou as mãos, recolheram suas coisas, e, mais uma vez, voltaram para casa.
***
"Querido diário,
Não sou tão boa para escrever quanto a Aurora, mas ela insiste que eu preciso registrar as coisas que acontecem na minha vida, senão vou esquecê-las com o tempo.
De toda forma, a história que vou contar hoje merece mesmo ser registrada.
Ano passado, nós duas viajamos juntas para a capital, porque ela queria se familiarizar com a cidade onde moraria quando fosse para a faculdade. Fomos ao cinema. Visitamos uma avenida cheia de livrarias dos dois lados, e gastamos horas inteiras escolhendo livros.
A Aurora comprou tantos, que eu nem sabia como íamos trazer de volta todo esse peso. Nós também andamos na rua de mãos dadas, e ninguém pareceu se importar. Quem diria.
Em uma dessas tardes, depois de tomar milk-shake, andávamos por uma rua qualquer quando ela viu uma relojoaria e decidiu entrar para comprar engrenagens. Segundo ela, ficariam lindas em um colar, e faria todo sentido, pois "funcionávamos bem melhor juntas".
Nós entramos, e o dono pegou uma caixa cheia de todo tipo de velharias inúteis e nos entregou. Ela enfiou a cara lá dentro e ficou horas procurando pelo par perfeito.
Depois de horas, finalmente encontrou um que a deixou satisfeita.
Pagamos, e fomos embora. Ela disse para eu guardar a minha com carinho, que iríamos começar a usar na virada do ano, "porque a virada do ano é tempo de renovação, e o que eu desejo para o ano seguinte, é que a gente possa ficar juntas de vez".
E assim a gente fez. Guardamos os cordões por mais de seis meses, até que o ano acabou, outro se iniciou, e começamos a usar nossos colares. É aí que vem a reviravolta da história. Eu passei três dias com o meu, e consegui perder o pingente de engrenagem.
Eu não sei como eu fiz isso, de verdade. Procurei por toda parte, e não consegui achar. Quando contei pra Aurora, ela não ficou brava. Mas sei que ficou um pouco decepcionada, lá no fundo. E eu também. Eu nem acreditava que depois de todo esse tempo guardando a tal engrenagem, eu a tinha perdido logo quando começamos a usar, foi bem frustrante.
Nós chegamos a voltar na rua onde pensamos que a relojoaria ficava, mas não a achamos mais. Andamos por vários quarteirões ao redor, mas o lugar tinha sumido mesmo. Não temos ideia de onde ele fica, ou se ele ainda existe.
Um dia eu estava andando por aí, e me deparei com uma tabacaria que vendia as mais diversas coisas. O pai do dono era relojoeiro aposentado, então pensei: "quem sabe?". Entrei. O cara estava atrás do balcão, com um pássaro no ombro. Acho que era um corvo. Perguntei se ele não teria, por acaso, um relógio que não funcionasse mais para me vender. E adivinha? Ele tinha!
Minutos depois, voltou com um relógio velho e me entregou. Eu estendi uma nota para ele, mas antes que ele sequer levantasse um dedo, o pássaro veio, pegou minha nota com o bico e saiu voando. Até hoje eu não acredito que isso aconteceu realmente, mas juro que é verdade.
Peguei o meu relógio e fui pra casa. Abri, tirei cuidadosamente todas as engrenagens, limpei-as, até que todo óleo tivesse saído e elas estivessem reluzentes como ouro.
Então, fechei o relógio de volta, e mudei os ponteiros para seis e onze, que foi a hora exata em que eu a vi pela primeira vez.
Dei o relógio de presente para ela, e encontrei uma engrenagem que se encaixasse na dela tão bem quanto a que eu tinha perdido.
Meu cordão ficou lindo. Peguei uma corrente bem comprida que eu tinha, e coloquei. Gostei tanto, que não tiro pra nada, nem pra dormir.
Toda vez que olho, lembro dela. Lembro de nós duas andando pelas avenidas movimentadas, onde ninguém nos conhecia, e rindo das palhaçadas uma da outra, comendo doces, procurando livros... Toda vez que vejo esse cordão, me lembro o quão intenso é o meu amor por ela.
Amélia."
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