12: Lupa de Relojoeiro
- Você quer almoçar? - Perguntou a Colecionadora quando os dois chegaram em casa.
- Por incrível que pareça, acho que não. Eu não me sinto muito bem, por causa do que aconteceu, e tudo. Por um momento, era como se ela estivesse lá... E de repente, não estava. Tudo voltou a ser como antes. Ela nem sabia quem eu era.
- Amor, eu sinto muito, de verdade. Eu sei o quanto vocês eram próximos, e não consigo imaginar como deve ser vê-la bem aqui com a gente, mas ao mesmo tempo tão distante...
- Acho que eu preciso de um tempo sozinho. Não é nada demais. Eu só... Preciso ficar quieto um pouco.
- Tá bom. Mas olha, aquela chave que ela te deu? Eu posso afirmar quase com certeza que é a chave que abre o primeiro baú.
- Você pode abrir sem mim, se quiser.
- Tem certeza?
- Vai em frente! Investigação solo, por hoje.
- Tá bom, se você insiste... Me chama se quiser conversar.
- Obrigado. Mas acho que por enquanto não.
- Ok.
Ângelo foi para o quarto se deitar, e a Colecionadora para a sala, levando a caixa com os itens coletados nessa expedição.
Pegou o baú que tinham encontrado na casinha da colina, e experimentou a chave na fechadura. Como ela havia suspeitado, as duas eram um par perfeito.
O baú se abriu na mesma hora, e lá dentro a Colecionadora viu um objeto cor de cobre, em forma de gota, mais ou menos do tamanho de uma moeda, das maiores.
Segurou-o entre os dedos, e virou-o pra lá e pra cá. Olhou de perto. Olhou de longe. Até que viu uma divisão nas laterais dos dois lados. Ele devia abrir.
- Uma lupa de relojoeiro? - Perguntou para si mesma.
Puxou a parte de baixo, e, de fato, uma pequena lente saiu de dentro, mas, diferente das lupas de relojoeiro comuns, essa era vermelha.
A Colecionadora olhou através dela, bem de perto, e com o outro olho fechado, mas tudo o que viu foram detalhes aproximados de seus móveis sob um filtro vermelho.
Em todos os seus anos como Colecionadora, nunca tinha visto nada assim. Parecido, talvez. Mas igual? Definitivamente não.
Acabou decidindo guardar a lupa, e olhar com cuidado em um outro momento. Não estava tão abalada quanto Ângelo, mas estava bastante cansada, emocionalmente. Fechou a caixa com as cartas e baús, e foi para a oficina, esvaziar a mente com trabalho.
***
- Você tem que ver isso! - Disse a Colecionadora, olhando através da pequena lupa, a pupila do seu olho direito em escala aumentada, preenchendo toda a lente.
Ângelo estava sentado ao seu lado, jogando um facho de luz sobre o mapa. Os dois trocaram de objeto, ela pegou a lanterna e iluminou o mapa, e ele pegou a lupa e colocou sobre o olho.
Uma versão desenhada da sala da casa dos dois saltou do mapa, com linhas que variavam entre tons de azul, violeta e vermelho. Ângelo viu uma representação tridimensional do sofá deles, com uma caixa de papelão em cima. Dentro dela brilhavam em vermelho vivo, quase laranja, destacado em relação às outras coisas, as cartas e baús.
Sem a lupa, o mapa continuava o mesmo: os edifícios da cidade, e uma gotinha marcando a localização deles. Com ela, era como dar um zoom onde eles estavam. Podiam ver tudo o que se encontrava ao seu redor, e brilhando como fogo, onde estavam os objetos que faziam parte da caçada.
- Nossa vida teria sido tão mais fácil se tivéssemos isso desde o começo - falou Ângelo, fechando a lupa e entregando para a Colecionadora.
- Fazer o quê, né. Mas agora que temos, vamos logo procurar o próximo item!
Os dois olharam para o mapa, e pela primeira vez, raios de luz pequenininhos emanavam do desenho da praça de pedra.
- Agora ele resolve colaborar - disse Ângelo com voz inconformada, mas ele estava só fingindo. Tinha apreciado o tempo que passaram na procura, apesar de tudo.
***
Era um domingo à tarde, e não tinha viva alma na rua. Cidades de interior costumam ser tranquilas no dia-a-dia, mas no fim de semana ficam verdadeiramente desertas.
Por isso, era um dia perfeito para vandalizar bens públicos. Mas com a melhor das intenções, é claro.
Os dois estacionaram suas bikes na calçada da praça, e sentaram-se em um banquinho, sob a sombra de um imenso pé de tamarindo. Abriram o mapa, Ângelo iluminou com a lanterna, e a Colecionadora olhou ao mesmo tempo através da lupa.
A praça se materializou por sobre o mapa, com todos os banquinhos, a árvore onde eles estavam, e tudo o mais, mas algumas coisas estavam diferentes. Uma fonte que já não existia mais aparecia no meio da praça, algumas outras árvores que foram cortadas, e faltavam algumas plantadas mais recentemente.
Eles deduziram que aquela era a versão antiga do lugar, de anos atrás. Um pontinho incandescente surgiu, em um canto mais distante.
- Pra lá - a Colecionadora apontou o lugar.
Os dois caminharam até onde devia ser o ponto indicado. No chão, os ladrilhos formavam o desenho de um grande peixe. Se abaixaram para olhar de perto, e Ângelo notou que o olho do peixe era um buraco.
- Enfio o dedo? - Questionou ele, meio rindo, meio nervoso - Não deve ter uma fera monstruosa comedora de dedos aí dentro, mas... Ainda assim...
- Talvez a gente devesse cutucar com um graveto primeiro, só por garantia! - Respondeu ela, e assim fez. Nada aconteceu. - Barra limpa.
- Tá bom, vamos lá.
Ângelo sentiu que os blocos ao redor do buraco estavam meio soltos, e começou a tentar puxá-los. Com algum esforço, alguns saíram, e eles puderam ver um desenho colorido por baixo da terra.
- A gente vai precisar de ferramentas dessa vez.
- Como é que a sua avó escondia essas coisas? Não faz sentido nenhum! Nem quero pensar o que vai acontecer se alguém pegar a gente arrancando as pedras da praça.
- Uma picareta, talvez? - Ângelo pensou alto, alheio às preocupações dela.
- Ângelo! Foco! Como a gente vai arrancar isso tudo e colocar de volta sem ninguém saber?
- Não tá tão resistente assim. Com a mão eu vou demorar anos pra tirar, mas com uma picareta, poucos minutos. A gente arranca as pedras, pega o que tiver dentro, passa um cimento e cola tudo de novo. Ninguém vai perceber. As pessoas não olham realmente por onde andam.
- Eu não vou conseguir te convencer a desistir disso, né?
Ele negou com a cabeça.
- Foi mal.
- Tá. Fica aí que eu vou em casa buscar as coisas.
- Obrigado.
***
Um bom tempo depois, a Colecionadora voltou com uma caixa na mão, que continha algumas ferramentas: uma picareta, um martelo, umas outras coisas que poderiam ser úteis, e um baldinho de massa de cimento.
- Anda logo!
Ela deixou a caixa ao lado dele, deu as costas e começou a andar em direção ao banco embaixo da árvore.
- Enquanto você foi lá, não passou um cachorro na rua. Juro! - Afirmou ele, e a resposta que obteve foi um dar de ombros.
A Colecionadora estava cochilando quando Ângelo terminou. E para falar a verdade, era mesmo improvável alguém perceber a mudança. De toda forma, já estava feito.
Ela acordou com o barulho de passos se aproximando de onde estava.
- E aí? - Perguntou, sonolenta.
- Terminei. Quer ver o que encontrei?
- Já que a gente tá aqui mesmo...
Era uma lata de biscoitos colorida, envolta em muitas camadas de plástico sujo. Eles rasgaram o plástico, e juntaram tudo numa bola, para jogar fora depois. Abriram a tampa, e lá dentro havia um relógio de corda.
O relógio estava parado em seis e onze, e muitas de suas engrenagens estavam soltas lá dentro.
A Colecionadora se animou pela primeira vez naquele dia. Por um lado, o esforço para conseguir aquele relógio foi grande demais. Por outro, ela era a Colecionadora de Defeitos. E além do mais, era o Ângelo quem tinha feito todo o trabalho sujo.
Ela segurou a peça nas mãos. Sentia cheiro de óleo de máquina, e podia ouvir o estalar dos mecanismos no interior.
- Uau. Esse é realmente melhor do que eu esperava! É lindo!
- Vamos pra casa? Preciso de um banho. E tô cansado. E com fome.
A Colecionadora guardou o relógio de volta na lata com todo cuidado. Colocou-a na cestinha de sua bicicleta, amarrou a caixa de ferramentas na garupa, e voltaram para casa.
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