10: A Resposta de Amélia
"Minha amada Aurora,
Antes de mais nada quero que saiba com toda a certeza do seu coração que sinto muito pelo que você passou. Não sei se posso amenizar a dor que você sente somente com palavras... Até porque eu não sou tão boa nisso quanto você. Mas tente entender que a vida é feita de ciclos, e quando um se encerra, é realmente difícil lidar com o sentimento de perda.
Eu já estive na mesma posição que você várias vezes, de pensar como as coisas seriam se eu tivesse feito diferente, onde eu estaria agora, e será que eu seria mais feliz, mas não vale a pena se torturar assim.
Você seguiu o que achou que era certo. A culpa de maneira alguma foi sua. Infelizmente, às vezes as pessoas seguem em frente, e os caminhos se distanciam dos nossos... É terrível pensar em quanta coisa boa perdemos em cada curva, mas precisamos seguir sempre em frente. Essa é a natureza da vida, acordar um dia após o outro, e continuar.
Nada vai ser como antes, é claro. Mas talvez seja melhor! Tantas experiências incríveis te esperam virando a esquina! Você é tão forte, e já tem dentro de si tudo o que precisa para encarar os desafios que virão.
Você não está nem na metade do caminho! Vai ter tempo de sobra para cativar outras amizades, conquistar outros amores, criar outros laços... Confie em mim! Se você passar por só mais um dia, amanhã tudo vai parecer melhor, e no dia seguinte, ainda melhor, até que você vai estar bem de novo.
Você é única e especial. Lembra quando me disse que só precisava fazer a diferença em uma vida, nem que fosse a sua própria? Você fez a diferença na minha. Isso já são não uma, mas duas vidas.
Não importa o que os outros dizem, eu sei que vou te amar pra sempre, mesmo quando estiver longe. Mesmo quando todos acharem que eu estou louca. Mesmo quando eu for velhinha e mal me lembrar do meu passado.
Talvez você não tenha agora uma legião de amigos (se eu pudesse, eu te daria uma, qualquer coisa pra te ver feliz), mas você encontrou alguém que é leal a você. Alguém que vai te apoiar não importa o que aconteça.
E saiba que foi você mesma quem me ensinou que a qualidade importa mais do que a quantidade. Eu posso ser uma só, mas sou sua pro resto da vida.
Com amor,
Amélia."
***
A Colecionadora de Defeitos pescava pipocas de dentro de um saquinho de papel, enquanto caminhavam pela calçada de pedras marrons que ficava na porta da prefeitura da cidade.
A porta era de vidro dupla, com três bandeiras hasteadas ao lado: uma da cidade, uma do estado, e uma do país. Na bandeira da cidade, pequenas vaquinhas tremulavam num fundo vermelho.
Antes de entrarem, a Colecionadora jogou na boca as últimas pipocas, amassou o saquinho e colocou no bolso, até encontrar a lixeira mais próxima.
- Vou te esperar aqui de fora, tá? - Perguntou ela.
- Ok. Volto num minuto. - Ângelo disse, e saiu, levanto sua pasta de documentos debaixo do braço. Naquele dia, ele usava uma camiseta lisa de mangas compridas de um tom de verde profundo, com fundo azulado, uma cor que combinava perfeitamente com o tom de sua pele.
Enquanto esperava, a Colecionadora cumprimentou todos os vasos de planta. Conversou com todas as flores. Até se ver diante de uma parede com as fotos de todos os prefeitos da cidade, desde o ano de sua fundação, até o governo atual.
Ela não conhecia nenhum deles pessoalmente. Mas o quarto, da esquerda para a direita, tinha uma expressão engraçada no rosto. Ela leu seu nome em voz alta. Notou que o quinto prefeito também era o sétimo, e também era o nono, pois foi reeleito três vezes em anos diferentes.
Era engraçado ver como o rosto dele mudou ao longo dos anos... Na primeira, era um rapaz cheio de viço, e na última, um senhor experiente, ostentando rugas de um rosto que já se expressou bastante na vida.
Só tinha um outro que foi reeleito, mas a foto dele era a mesma nos dois mandatos.
- Não tem nenhuma mulher - ela concluiu, para si mesma. E, em seguida, notou um cachorro, bebendo água de um potinho que os cidadãos deixavam ali para os animais que passassem, alguns degraus abaixo dela - Oi, cachorrinho - Cumprimentou, descendo até lá para fazer carinho nele.
Afagou-o por um tempo, e depois ele se levantou, e saiu andando. Deu alguns passos, parou, e olhou para trás, direto para a Colecionadora.
Os dois se encararam, e então ela foi atrás dele, que sempre dava alguns passos, e olhava para trás, para garantir que ela ainda o seguia.
Quando estavam chegando na calçada, ouviram passos acelerados vindo ao seu encontro. Era Ângelo, é claro.
- Ei! Onde você vai?
- Não sei. Esse cachorro tem algo pra me mostrar.
O cachorro olhava para os dois como se dissesse "por que vocês estão parados? Vamos logo gente!".
- Tá bom, vamos lá - Concordou Ângelo, e voltaram a seguir os passos do seu guia.
Ao lado da prefeitura havia uma pequena igrejinha branca, com janelas de vidro colorido, e uma cruz do tamanho de uma pessoa ao lado da porta da frente.
O cachorro contornou a construção, e sentou-se diante da entrada dos fundos. Sem precisar de explicação nenhuma, a Colecionadora abriu a porta, que estava destrancada, e os três entraram.
O cachorro seguiu direto para o altar, e deitou-se aos pés do piano que ali havia.
Ângelo procurou por algo diferente dentro dele, e ao redor, mas não encontrou nada.
Até que puxou o assento do banquinho onde o pianista sentava, e lá dentro havia um bauzinho pouco maior que uma caixa de fósforos.
Era de madeira, com a aparência exata de um baú do tesouro, só que em miniatura. Por fora era pintado de lilás. Não tinha fechadura. Ângelo abriu a pequena tampa, e viu lá dentro, sobre um forro de cetim vermelho, um relicário adornado por fora com raminhos de flores.
Dentro, haviam duas fotos em preto e branco. Ambas mostravam duas garotas jovens, mais ou menos da mesma idade do próprio Ângelo e da Colecionadora, abraçadas, com o vento nos cabelos, e sorrindo de maneira radiante.
Olhando bem, Ângelo conseguiu reconhecer uma versão jovem e alegre da sua avó.
- A outra só pode ser a Aurora - concluíram os dois.
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