7. Palavras em clausura
❀ Capítulo 7 | O Som do Silêncio ❀
Sem que Liam soubesse, Marcela havia marcado uma consulta com uma psicóloga. Sabia que nem ela e nem Lana aceitaria um não como resposta. Ele tinha consciência que aquilo era para o seu próprio bem, mas não tinha ideia de como seria. Lana havia dito para ser sincera quanto aos resultados que a terapia pudesse ter, pois nem sempre o primeiro profissional escolhido seria a melhor ajuda.
Liam foi à primeira consulta sem resistência, mas sem qualquer tipo de expectativa. Só a ideia de expor seus sentimentos mais íntimos a um desconhecido o deixava desconfortável. Mas, para a sua surpresa, não foi tão ruim quanto ele havia imaginado que seria. A psicóloga, Priscila, parecia ter aproximadamente trinta anos. Era gentil e passava uma segurança e um otimismo que quase convenceu Liam de que tudo estava bem. Mas ele sabia que não estava. Pois, ainda que estivesse tentando, seus olhos ainda acordavam inchados pela falta de sono e pelas teimosas lágrimas que insistiam em aparecer.
Janeiro passou em um piscar de olhos. A chegada do mês seguinte significava duas coisas: a volta às aulas e seu aniversário de quinze anos. Para sua sorte - ou azar - seu aniversário cairia exatamente no primeiro dia de aula, em uma segunda-feira. Liam não estava nada animado.
O despertador tocou mais cedo que o normal naquela manhã, lembrando-o do inevitável. Primeiro dia de aula. Seu aniversário. Pelo barulho no andar debaixo, Marcela e Lana já haviam acordado e estavam bastante animadas. Liam se arrastou pelo quarto até o banheiro do corredor, quase tropeçando em Zeus - que havia crescido e engordado tanto que nem parecia o mesmo gato. O garoto tomou um banho e colocou o uniforme, vestindo um moletom preto que havia ganhado de Natal. Tentou pentear os cabelos, mas os cachos castanhos claros não estavam de bom humor naquele dia.
E nem ele.
- Feliz aniversário, meu amor! - Marcela deu um pulo quando Liam desceu as escadas. Ele jogou a mochila no sofá da sala e olhou para a irmã e a cunhada.
- Bom dia - ele disse com a voz sonolenta. - O que é isso?
O garoto olhou para a mesa do café da manhã maior que o normal. Aquilo era um pão de queijo em formato de coração?
Lana deu-lhe um abraço apertado, levando-o até a mesa. Havia uma caixinha de presente ao lado de sua xícara de café. Ele deu uma mordida no pão de queijo deformado (mas Liam achou realmente fofo a tentativa de coração) e abriu a caixa, não fazendo ideia do que seria. Não era grande, mas estava pesado.
- Espero que goste - Marcela disse. - Considere como um presente de nós duas. Lana queria pagar tudo, mas eu não deixei.
Liam rasgou o embrulho rapidamente, e seu coração quase parou quando viu uma caixa de celular. Com os olhos arregalados, ele ergueu a caixa.
- Lana! - ele exclamou. - Isso é...esse é caro!
- O seu celular não estava velho? - ela perguntou.
- Eu estava prestes a jogá-lo na parede - ele sorriu, abrindo rapidamente a caixa. - Obrigado. Vocês duas.
Lana sentou-se ao seu lado, colocando a mão em seu ombro gentilmente.
- Qualquer coisa...qualquer coisa mesmo - ela disse séria. - Você liga para mim ou para sua irmã. Ou mande uma mensagem. Ah, e sem celular em sala de aula. Mas sei que é um menino responsável.
Liam sorriu e prometeu que entraria em contato com elas quando precisasse. Havia quase se esquecido que havia acordado de mal-humor. Ele deixou o presente de lado e comeu seu café-da-manhã. Dez minutos depois, estava no carro de Lana a caminho do colégio. Quando despediu-se da cunhada e cumprimentou o porteiro, o desânimo tomou conta novamente. É seu aniversário, William, ele disse para si mesmo. Custa ficar um pouco menos depressivo?
NÃO, seu subconsciente respondeu.
Liam respirou fundo. Colocou o capuz do moletom na cabeça e começou a caminhar entre novatos e veteranos sonolentos. Não teve muita dificuldade para achar sua sala. Logo ao lado da placa com os dizeres 1º ANO, TURMA 1, uma lista com os alunos selecionados para aquela turma estava colada na parede. William, como sempre, era um dos últimos.
Quando entrou na sala, a maioria das carteiras já estava ocupada. Algumas pessoas olharam para ele, mas Liam ignorou-os e andou até uma das carteiras vazias ao lado da parede. Na frente, já havia uma mochila indicando que alguém já ocupava aquela mesa. Atrás, uma menina de moletom roxo e cabelos cor de caramelo parecia tão tensa que mal levantou a cabeça quando Liam sentou-se à sua frente. Era a única que não conversava com ninguém. Os outros conversavam entre si, gesticulando, dando abraços e falando alto. Como, às sete horas da manhã, aqueles jovens conseguiam ser tão barulhentos? Dava para sentir a animação dos reencontros e a alta expectativa de terem entrado no ensino médio. Liam sentiu-se mais entediado ainda. Para sua sorte, não se sentiu tão sufocado quanto no dia em que foram fazer a matrícula - e havia bem mais pessoas dentro daquela sala. Talvez estivesse emburrado demais para se incomodar o suficiente e querer sair correndo dali.
Logo o primeiro professor chegou. Geografia. Não era a matéria favorita de Liam, mas agradeceu por não ser alguma matéria chata de exatas - mesmo que não houvesse muita coisa importante no primeiro dia de aula. Em toda escola era a mesma coisa: os professores falavam sobre o planejamento do semestre, as matérias, contavam sobre eles mesmos e a escola fazia uma recepção no intervalo. Ah, e é claro: as apresentações. Liam não se importava nenhum pouco em falar em público. Mas por qual razão ele iria dizer que seu nome era William se, em menos de cinco minutos, o professor o chamaria de outro nome?
Como o professor começara pela outra fileira, William seria um dos últimos a se apresentar. Ele ouviu os nomes e tentou gravar os rostos - nunca se sabe quando precisará deles. Todos se identificaram falando seus nomes e se eram novatos ou não. Até que, quando chegou a vez da menina de moletom roxo atrás de Liam, o silêncio se instalou na sala.
Primeiro, ele achou que ela não tivesse prestando atenção. Ou quem sabe dormindo. Porém, quando Liam olhou por cima do ombro, viu que a garota estava bem acordada. Sua cabeça continuava baixa, os olhos fitando a mesa. Sua postura era de tensão e suas mãos tremiam. Ele tinha a leve impressão que havia visto aquela moça no dia em que fora fazer a matrícula.
- E você? - o professor perguntou para a garota. Não houve resposta. O silêncio começava a ser constrangedor até mesmo para Liam. A garota levantou o rosto e olhou para o professor, mas nada disse. Por que ela não respondia logo? - Ei, qual é o seu nome?
- O nome dela é Zoey - uma outra garota disse. - Ela não fala.
- Como assim? - o professor interrogou, os cenhos franzidos. - Mas ela escuta?
Liam reprimiu uma careta. A garota estava claramente nervosa e desconfortável, e a fala do professor passou-lhe a impressão de que desconsiderou sua presença.
- Ela escuta. Só não fala. - a colega respondeu.
O professor ignorou Zoey e olhou para Liam com uma sobrancelha levantada.
- Meu nome é William - ele disse de imediato. - Mas prefiro Liam.
- Liam... De que escola você veio? É da cidade? - o professor perguntou. Provavelmente, Liam tinha cara de novato.
- Colégio Professora Leia - respondeu. - Sou novo na cidade.
O professor fez um gesto em direção à cabeça de Liam.
- Por favor, Liam, não é permitido o uso de capuz ou bonés em sala de aula - ele advertiu-o. - Certo?
Liam assentiu e passou a mão pela cabeça, tirando o capuz. O professor finalizou as apresentações e começou a dizer sobre as matérias daquele semestre, lembrando a todos que em três anos teriam que fazer uma escolha que mudariam suas vidas para sempre - o que Liam achava uma grande bobagem. Não houvera nada de irrelevante na primeira aula, mas ela passou em um piscar de olhos. O garoto estava ocupado demais pensando no que havia acontecido nas apresentações. Zoey o havia deixado um tanto perturbado. Por que aquilo tudo lhe soava tão familiar? A timidez excessiva deixava qualquer um nervoso para falar em público, mas não ponto de deixar alguém tão amedrontado a ponto de não falar. A reação de Zoey dava-lhe a sensação que estava sendo exposta a um perigo iminente. A garota não falou nada durante as três primeiras aulas.
Então, Liam lembrou-se de Lana. Como se uma chave tivesse virado em sua cabeça de repente, o garoto voltou ao dia em que a cunhada descobrira suas cicatrizes e resolveu levá-lo para tomar sorvete, contando parte de sua história.
Ele podia estar enganado quanto à condição de Zoey. Mas se não estivesse?
- Um sorvete misto, por favor - Lana pediu à moça da sorveteria. - Com bastante recheio de chocolate. E para esse menino aqui...
- Baunilha - Liam disse. A moça assentiu e foi até máquina de sorvetes, e ele voltou a fitar a cunhada. - E então...?
- Você é curioso - Lana observava uma cascata de chocolate ao longe, e Liam temeu que fosse obrigado a limpar sua saliva. - Gosto disso. Bom, por onde eu começo?
- Pelo começo...? - Liam sugeriu.
- Engraçadinho - ela deu a língua. Lana conseguia ser tão madura quanto infantil em questão de segundos. Ele achava aquilo hilário. - O problema é que eu não sei exatamente como começou tudo isso.
Liam assentiu. Ele entendeu o que ela queria dizer.
- Em resumo, eu tive um transtorno que me impedia de falar com as pessoas - ela continuou. A mulher trouxe os dois sorvetes, e Lana lambeu o chocolate que havia escapado de dentro da casca. - Obrigada, moça. Isso está maravilhoso.
Antes que a cunhada desse mais importância ao sorvete que à conversa, Liam perguntou:
- Como assim? Impedia de falar com as pessoas?
Lana assentiu.
- A não ser com meus pais e com meus dois irmãos, eu não conseguia falar com ninguém. - ela contou. - Veja bem: Eu não conseguia, por mais que eu quisesse.
- Eu nunca ouvi falar disso - Liam estava um pouco impressionado.
- Eu também não... Até os meus dezoito anos de idade, quando finalmente consegui falar com a primeira pessoa que não fossem meus pais ou meus irmãos. - a cunhada contou. Liam percebeu algo estranho em seu olhar; como se lembrar daquilo a fizesse sentir um misto de emoções. - Quando descobri o que era, e que havia um nome para aquilo, é que consegui compreender e me superar cada vez mais. Sozinha. Acho que é a coisa que eu mais me orgulho. A maioria das pessoas, incluindo os psicólogos, não sabem o que é; apesar de transtornos de ansiedade serem bastante comuns.
- Transtornos de ansiedade... - Liam murmurou. - É quase como se você tivesse fobia de falar.
- Transtorno de ansiedade, fobia social... - Lana balançava a cabeça. - A vergonha e a impossibilidade de falar. Mutismo seletivo. Já ouviu falar?
- Não. - Liam balançou a cabeça. O sorvete derretia em sua mão. - Eu sinto muito.
- Não faça essa cara de cachorro triste - ela fez um gesto com a mão. - Está tudo bem agora. Mas, de qualquer forma, não foi fácil. Eu tive depressão e crises de ansiedade depois disso. Só quem passou por essas coisas sabe como é. É por isso que eu não quero que passe por isso sozinho.
- Acha que estou deprimido? - Liam perguntou, já sabendo a resposta. - Essa coisa no peito...a vontade de chorar sem motivo. Eu não sei o que é.
- Estar deprimido é um estado que pode ser considerado normal. O que não está certo é manter-se deprimido constantemente. E você... - ele pegou a mão de Liam, analisando suas unhas. - Sua irmã me disse que você é bem ansioso.
- O que minha ausência de unhas tem a ver com isso?
Lana deu um sorriso triste.
- Você desconta sua ansiedade nas unhas e a tristeza nos braços. - ela disse, soltando a mão dele. - O corpo fala mais que nós imaginamos. Não havia dúvidas que aquela menina insegura de olhar cabisbaixo e postura envergonhada tinha algum problema.
Liam olhou para a mulher a sua frente. Era quase impossível imaginar aquele ser que parecia tão segura de si daquela forma.
- Não consigo imaginar o quão desconfortável é se sentir incomunicável. É quase como se você estivesse enclausurada - ele observou, tristonho. - E ainda depois disso tudo... Sentir o que eu sinto.
A cunhada limpou as mãos no guardanapo e sorriu para ele.
- É das nossas maiores fraquezas que tiramos a nossa maior força - Lana disse. - Lembre-se disso, Liam.
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