5. Mudanças

Capítulo 5 | O Som do Silêncio

Os meses se arrastaram até que dezembro finalmente chegou. Por sorte ou algum milagre, Liam não ficou em recuperação em nenhuma matéria. Todos pareciam empolgados com a comemoração da formatura, menos ele. O que ele menos queria era comparecer àquela escola para fingir que tudo foi uma maravilha. No mínimo, receberia um certificado por ter sobrevivido a uma guerra civil escolar. A pequena festa de comemoração seria no pátio do colégio, e os alunos podiam levar os pais e os amigos.

Liam preferiu ir a uma pizzaria com Marcela e os pais. Pela primeira vez, Antônio não estava presente - o que seria um tanto desconfortável com a presença do pai. Liam desejou secretamente que Lana estivesse ali, mas aquilo dependia de Marcela.

Ele sabia que a pizzaria seria a melhor escolha. Fora uma noite bastante agradável. Seus pais, apesar de divorciados, se respeitavam e conversavam normalmente entre si. Liam se sentiu como se estivesse voltado ao tempo.

Na véspera de Natal, Lana apareceu no apartamento deles pela primeira vez. Ela deu a Liam um box de uma coleção de livros que ele queria; fato que deixou sua noite um pouco mais agradável. Por que, é claro, Antônio estava lá; como se fizesse parte daquela família há anos.

Liam se lembrava muito bem de quando Marcela puxou-o para o quarto deles, enquanto Lana conversava com a mãe na cozinha.

- Nenhum pio sobre meu namoro. - ela sussurrou.

- Quando é que você vai falar? - Liam perguntou, um pouco irritado.

- Em breve... - Marcela prometeu. - Lana comprou a casa.

- Ah! - Liam exclamou, surpreso.

- Vamos contar para a mamãe em janeiro. - a irmã disse baixinho. Ela parou para escutar a voz de Lana conversando alegremente - Vou contar tudo.

❀❀❀

Foi mais fácil que Liam havia imaginado.

A mãe ficara um pouco atônita com ao saber do relacionamento da filha, mas ela já tinha gostado tanto de Lana que não houve grandes complicações.

A parte da mudança foi mais difícil. Ela não queria ficar longe dos filhos. Marcela lhe disse que a cidade era perto e que faria bem a Liam. Mencionou a escola e o ensino médio. Ainda absorvendo o fato, a mãe cedeu com rapidez. O garoto mal podia acreditar que finalmente se mudaria daquela cidade sufocante. Logo quando tudo ficou resolvido, Liam começou a colocar sua coisas em caixas e enfiar em grandes sacos antigos brinquedos que havia guardado para a doação. Ele não precisava mais daquilo.

- Parece que alguém está empolgado! - Liam levou um susto ao ouvir a voz de Lana.

- Caramba! - ele deu um pulo, quase deixando uma caixa cair no chão. Virou-se para a cunhada, que riu de sua reação. Liam analisou-a enquanto ela se sentava na cadeira, cruzando as pernas. Lana usava uma calça jeans e uma camisa justa preta, os longos cabelos descendo pelos ombros. Mesmo com vestimentas tão simples, Lana conseguia ficar elegante.

- O que é isso? Você machucou o braço...? - ela estreitou os olhos, fitando o braço esquerdo do garoto. O coração de Liam deu um pulo, esquecendo-se completamente que havia arregaçado as mangas. Havia tempo que não se cortava, mas as marcas ainda estavam ali; bem visíveis.

Ele rapidamente escondeu sua pele com o tecido da blusa de manga longa que usava. Baixou a cabeça, pegando a fita para fechar a caixa.

- Não é nada. Eu me arranhei quando fui pegar as coisas na parte de cima do guarda-roupa. - mentiu.

Liam não conseguiu olhar para a mulher. Sabia que não a tinha convencido.

- William, isso é sério - a voz dela perdeu o tom brincalhão. Ela suspirou. - Eu devia ter desconfiado. Nunca te vi usando roupas de manga.

- Eu não gosto. - Liam murmurou.

Lana se aproximou, agachando-se ao lado dele. Pegou em seu rosto, fazendo-o encarar seus olhos castanhos. Suas mãos estavam quentes.

- Eu não vou te julgar. Eu só te peço... Não faça isso com você. Por favor. - ela disse. - Eu e sua irmã estamos aqui para te ajudar. Eu te disse que poderia te indicar um psicólogo...

- Não quero merda de psicólogo! - Liam gritou, os olhos se enchendo de lágrimas. Largou a fita, jogando-a fortemente no chão.

Lana havia dito, há muito tempo, de que ela poderia ajudar-lhe financeiramente com a terapia. Mas o garoto negou, e a cunhada não insistiu mais nisso.

Envergonhado, ele levantou a cabeça e fitou o rosto assustado de Lana. De repente, ela pareceu uma criança desolada. Liam não queria ter gritado com ela. Mas às vezes ele estava tão mal, tão irritado, que não conseguia se controlar. Sabia que não era assim.

- Desculpe - ele disse, fungando. - É que eu...não quero. Ninguém vai entender.

- Eu sei o que está passando - Lana apoiou as mãos nas coxas, sem olhar para ele. - Nunca tentei me machucar dessa maneira, mas... Eu sei, Liam. E eu quero te ajudar, mas não sou a pessoa ideal.

Lana tinha os olhos marejados. Culpou-se mais uma vez por ter sido tão estúpido.

- Eu posso te acolher quando precisar. Dar conselhos ou te oferecer uma mão. Posso te levar para comer pizza, tomar sorvete ou passear... Mas não sou nenhuma profissional. - ela continuou. Depois, riu sem humor. - Por mais que eu não tenha tido experiências muito boas...

Liam sentou-se no chão, cruzando as pernas. Passou a mão no nariz, fungando mais uma vez e espantando as lágrimas.

- O que aconteceu? - perguntou baixinho. - Quero dizer... Você sentia o que eu sinto?

- Muitas pessoas sentem ou já sentiram, garoto - ela também se sentou no chão. - Mas cada história é única. A minha...bem, a minha é um pouco mais complexa.

Liam levantou uma sobrancelha. Lana deu um sorrisinho, sabendo que havia atiçado a curiosidade do garoto.

- Primeiro, vamos levar essas caixas para o carro - ela disse, dando uma piscadela - Te conto tudo no caminho. A propósito, você aceita um sorvete?

❀❀❀

Seu novo quarto ficava no andar de cima da casa; assim como os outros aposentos. O teto de madeira era baixo e a janela retangular exibia uma paisagem serrana. Aquilo era mais do que Liam havia desejado. Estava tão empolgado que em algumas horas tudo que havia trazido do apartamento já estava em ordem. Montara sua estante, organizando objetos e livros. Alguns dias depois, todo o quarto - e toda a casa - já havia sido organizada. Mudanças eram cansativas, mas foi tão divertido que Liam não se importou. Sempre que davam uma pausa para descansar, os três sentavam-se no tapete da sala e comiam algo. Lana, que era uma fã de pizza, pediu uma caixa exclusivamente para ele. Era tudo tão agradável - a casa, seu novo quarto, a comida, as conversas - que Liam temeu que tudo não passasse de uma ilusão.

Aquele ano havia começado melhor que havia imaginado. Inicialmente, Liam sentiu falta da mãe, mas adaptou-se rapidamente à nova rotina e ambiente. Sentia-se mais livre e menos pressionado a esconder seus sentimentos; que às vezes eram difíceis de lidar. Lana e Marcela estavam claramente apaixonadas uma pela outra e nunca brigavam. Às vezes, Lana a chamava carinhosamente de esposa - mesmo que não fossem casadas oficialmente, já dividiam suas vidas o suficientes para se importarem com formalidades. O garoto gostava da relação delas - o que o fazia pensar constantemente se um dia teria um relacionamento tão maduro quanto aquele.

Liam, acompanhando Lana, começou a acordar mais cedo mesmo sem ter aulas. Tomavam café juntos enquanto Marcela dormia. Calçando seus tênis, os dois corriam para o portão e caminhavam pelas ruas vazias do condomínio. Lana dizia que exercícios pela manhã a tornavam mais produtiva.

- É uma da vantagens de se trabalhar em casa. - ela dizia enquanto caminhavam. Apesar de ser sete da manhã, o sol já estava quente. - Sair cedo para pegar trânsito? Sem chances.

Liam riu e colocou uma mão na costela. Mal faziam meia hora que caminhavam e percebeu que seu preparo físico estava péssimo. Fez uma careta, fitando um dos banquinhos da praça ali perto.

- Sem chances de pegar o seu ritmo, Lana. - ele murmurou.

- Tudo bem. Pausa de cinco minutos - ela cedeu, puxando-o para um dos banquinhos.

Liam observou os brinquedos das crianças na praça distraidamente, aproveitando a luz do sol que batia em suas costas. Ainda se recusava a usar blusas sem mangas, mesmo Marcela já sabendo de tudo. Era desconfortável deixar aquelas marcas visíveis.

O garoto estava prestes a dizer a Lana que já estava descansado quando viu uma pedra se mover no chão. Não...não era exatamente uma pedra. Franzindo o cenho para enxergar melhor, ele se levantou e foi até o escorregador. Algo pequeno e cinza havia se movido ali.

- Lana, eu vi algo aq...ah! - sua voz ficou mais aguda quando de se deparou com um par de olhos escuros e esbugalhados. - Eu achei um gatinho!

O garoto se agachou com cuidado, passando o dedo delicadamente no pelo do filhote assustado. Não era recém-nascido, tampouco adulto. Liam não entendia muito de gatos, mas estava óbvio que estava perdido. O felino recuou um pouco, mas logo deixou que Liam o pegasse no colo. Aparentemente, era um macho.

- Pobrezinho - Lana aproximou-se, passando a mão na cabeça do gato. - Deve ter se perdido da mãe. Vamos procurá-la.

Liam apertou o filhote levemente sobre o peito, escutando-o miar baixinho. Os dois rodaram a praça a procura de alguma mãe-gata desesperada, sem êxito.

- Tsc tsc. Acho que teremos que comprar ração de gato. - Lana colocou as mãos na cintura. - E espero que você não tenha alergia aos bichanos.

Liam abriu um sorriso, como uma criança prestes a abrir os presentes de Natal.

- Zeus - ele acariciou as pequenas orelhas do animal. - Ele vai se chamar Zeus.

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