1. A resposta de todas as coisas
❀ Capítulo 1 | O Som do Silêncio ❀
William nunca foi como as outras pessoas.
Pelo menos, era isso que sentia toda vez que entrava em algum grupo ou se via obrigado a se socializar. Contudo, o contato com pessoas nunca foi uma grande dificuldade para ele. O problema era se identificar com outras pessoas. O sentimento que possuía era de que era a única pessoa naquele mundo com aquela história - obviamente, ele tinha consciência de que ninguém era igual a ninguém - mas muitas vezes se achava um idiota por ser ele mesmo.
O fato de ser adotado, ao contrário do que muitos pensavam, não era o maior problema dele. Liam sempre soube, desde criança, que aqueles adultos que o criaram não eram seus pais biológicos. Aquilo fora complicado para ele durante um bom tempo, gerando mil questionamentos - por que alguém abandonaria uma criança? Sua mãe não o quis? Seus pais morreram? Não tinham condições de cuidar dele?
O garoto só foi descobrir o porquê quando já era bem grande. A mãe biológica, abandonada pelo pai, não tinha condições de criá-lo e era uma viciada em drogas - e o médico havia dito que ele não andaria. Todo o contexto no qual o pequeno bebê William se encontrava contribuiu para que ele parasse em um orfanato. Até os dois anos e meio, ele realmente não andou. O fato dificultou muito o interesse de alguém para adotá-lo. Fazia fisioterapia, ia ao pediatra regularmente - e de repente William começou a andar normalmente. Os médicos não souberam explicar a mudança repentina.
Sua vida mudara completamente quando, próximo ao seu aniversário de três anos, um casal não tão jovem o viu no meio das crianças. Eles disseram que foi amor à primeira vista. Liam lembrava-se vagamente, mas não o suficiente para lembrar-se das palavras e expressões que presenciou depois. O processo de adoção foi rápido, e logo o pequeno Liam tinha uma casa, pais, uma irmã e irmão pré-adolescentes.
Ele tinha muita sorte e amava sua família mais que tudo. Mas as coisas começaram a se complicar à medida que foi crescendo - e graças ao irmão mais velho. Eles nunca foram tão próximos quanto Liam gostaria. Ele sempre fora mais ligado à irmã, Marcela, e não a Jonathan. Liam sempre teve a impressão que o irmão o considerava um impostor na família. Sempre fora isolado e um tanto problemático - tirava notas ruins na escola e se metia em brigas - mas Liam sempre acreditou que ele pudesse melhorar. A educação dada pelos pais fora o melhor possível, mas isso pouco contribuiu para o caráter e a personalidade difícil de Jonathan.
O irmão sempre caçoava de Liam, sobretudo quando era uma criança indefesa. O garoto chegava a tremer dos pés à cabeça quando Jonathan chegava em casa, geralmente atrasando-se para o almoço após a escola. Liam corria para o quarto da irmã - que sempre o defendia - e lá ficava até que o irmão se trancasse no quarto e só saísse no dia seguinte.
Marcela e Jonathan eram muito parecidos fisicamente; apesar das personalidades distintas: cabelos escuros - de um tom castanho, quase negros - olhos escuros e pele pálida. Ambos tinham um semblante sério, o que surpreendia as pessoas quando se tratava de Marcela. Quando alguém a conhecia, via o quanto ela era engraçada e educada. Jonathan era o oposto, obviamente.
A irmã era tudo para Liam. Eles sempre estavam juntos. Marcela sempre fazia questão de ajudá-lo em deveres de casa e em trabalhos da escola e, quando Liam tinha pesadelos à noite e corria para o quarto da irmã, Marcela o acolhia com um beijo e ajeitava o cobertor sobre o corpo trêmulo e gelado do caçula.
Ter pais mais velhos que a maioria dos pais dos amigos e colegas também nunca foi um problema. Eles eram pais experientes e souberam lidar muito bem com Liam - sobretudo em sua fase de adaptação. O garoto os amava e não se importava se eles tinham o mesmo sangue ou não. Seu conceito de família sempre fora um tanto abrangente e orgulhava-se por ser tão amado.
Mas isso não impediu que as pessoas fossem um pouco cruéis. No fundamental, Liam dizia sempre que era adotado - não para que ficassem com pena, e sim para afirmar um fato que para ele já era normal. Porém, para as outras crianças, aquilo era estranho. Nenhum colega de sua turma era adotado. Liam já havia escutado inúmeras vezes as mesmas perguntas: Quem são seus pais de verdade? Você não os conhece? Foi abandonado? Por que eles não te queriam?
O garoto sabia que não era por maldade. Era possível sentir a curiosidade na pergunta daquelas crianças, mas isso não fez com que doesse menos. Sem perceber, aqueles questionamentos o fazia se sentir diferente de todos os outros colegas. Alguns olhavam-lhe estranho pelo simples fato de ser adotado. Outros o olhavam com pena. Liam nunca entendera isso.
O que faz com que uma família seja uma família, afinal? O sangue? A compatibilidade genética? Um tipo de padrão que todos deveriam seguir? Liam não pensava daquela forma. Quando cresceu, percebeu o quanto aqueles julgamento eram absurdos. Se ele não tivesse sido adotado, ainda estaria em um orfanato, e talvez não tivesse as mesmas oportunidades - e a mesma educação que recebera dos pais - caso ele não tivesse tido aquela sorte.
Apesar disso, Liam prometeu que guardaria sua vida pessoal para si. Não havia motivos para alguém saber daquilo. Era algo dele, e não valia a pena se passar por um incompreendido ou um coitado. Liam não era nada disso.
Não era apenas o fato de ter sido adotado por uma família que ele havia uma visão diferente das pessoas e do mundo. Liam, sempre muito curioso, gostava de estudar sobre tudo - especialmente História - o que fez com que ele sempre procurasse o motivo das coisas; como um incansável filósofo: Por que o mundo funcionava daquela forma? Por que aquela pessoa é assim? Como a chuva se forma no céu e cai em nossas cabeças? Por que o céu é azul, e não amarelo? Como as pirâmides do Egito foram construídas? Por que as pessoas insistiam em serem babacas, mesmo após anos e anos de evolução humana?
Nem todas as respostas estavam ao seu alcance. A vida era um mistério. As coisas acontecem de uma maneira que nem sempre é possível compreender, e a aceitação é a melhor forma de lidar com tudo.
❀❀❀
Quando a polícia ligou para os pais de Liam pela primeira vez, comunicando que o filho menor de idade fora parado por uma blitz completamente bêbado, foi o estopim para toda confusão que se instalou em seguida. Jonathan havia pegado um carro de um amigo e, sem carteira e alcoolizado, fora perseguido por policiais em alta velocidade. Os pais tiveram que pagar uma quantia para liberá-lo, senão ele seria mandado para uma instituição responsável por menores infratores. O pai garantiu que ele melhoraria, e Liam continuava a acreditar no irmão.
Mas tudo piorou quando Jonathan começou a usar drogas e abandonou o último ano escolar. Os pais começaram a brigar e um divórcio estava por vir. Marcela, que começara a fazer faculdade, não conseguia conciliar tudo e não parecia nada bem com aquilo. Ela faltava várias vezes para ficar com Liam, que começava a se sentir cada vez mais infeliz no meio daquela confusão. Sentia-se deixado de lado, e às vezes os pais irritavam-se com ele por nada. Então Marcela o pegava e levava-o ao parquinho próximo a casa deles, enquanto os pais brigavam e Jonathan estava desaparecido desde o dia anterior.
Em um desses dias, Marcela pegou seus cadernos e livros e sentou-se em uma das mesas da pequena praça enquanto algumas poucas crianças se divertiam nos brinquedos. Mas Liam não queria brincar. Ele sentou-se junto com a irmã, cabisbaixo, conforme o vento gelado castigava suas orelhas. Marcela lia um texto, concentrada, e o garoto podia perceber seus olhos marejados.
- Vá brincar – ela disse sem olhar para ele. – Só não fique muito longe.
- Não quero... – Liam murmurou. Aqueles brinquedos não tinham mais graça para ele. A irmã às vezes esquecia-se de que Liam já tinha doze anos.
Marcela suspirou e fechou o livro. Passou o punho pelo nariz, e, com um gesto, mandou o irmão se aproximar. Liam foi até ela e a irmã o abraçou por trás.
- Sinto muito por ter que passar por isso – ela disse. – Mas as coisas vão melhorar. Eu prometo.
- Papai e mamãe vão se separar? – ele perguntou.
- Não sei. – ela admitiu. – Eles se gostam muito, sei que se gostam, mas... Não sei se isso é suficiente para sustentar um casamento. Eu...
Um celular começou a vibrar, e ambos olharam para a tela do aparelho sobre um dos cadernos. Alguém ligava para ela. Liam franziu a testa para ler: LANA.
- Quem é Lana? – o garoto perguntou, curioso.
- Uma colega da faculdade. – ela pegou o telefone, recusando a chamada. – Depois eu retorno. Vamos ficar um pouquinho a sós.
Liam suspirou e Marcela apoiou o queixo na cabeça do irmão. Eles ficaram ali até o meio-dia. Resolveram voltar a casa para almoçar, e tudo parecia mais calmo entre os pais. Até Jonathan chegar – após ter dormido fora sem avisar. Outra briga começou.
Mais uma vez, Liam correu para os braços da irmã. A impressão que tinha era que aquela maldita tempestade nunca passaria.
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