10. Como uma mariposa
❀ Capítulo 10 | O Som das Flores ❀
𝒁𝒐𝒆𝒚
Ela queria sair correndo em direção à praia e nunca mais voltar. Queria fazer um buraco com as próprias mãos ao encontro do núcleo da Terra para que enfiasse sua cabeça e nunca mais a tirasse. Mais uma vez, desejou ser uma tartaruga — ou um tatu, qualquer ser que se escondia a qualquer sinal de perigo humano; sejam elas ameaças reais ou não. Zoey queria poder parabenizar a si mesma pela coragem de ter feito o que fez, mesmo que parecesse um gesto bobo à princípio. Mas ela teve vontade de chorar. Sentia-se culpada como se tivesse feito algo terrível. E se Liam nunca mais olhar para a minha cara? Ela perguntou a si mesma. E se eu estiver me apaixonando por ele? E se ele nunca gostar de mim?
Todos aqueles pensamentos não a deixaram ter uma boa noite de sono. E, para piorar, o silêncio de Liam durante e depois de estarem com as mãos unidas havia deixado Zoey apreensiva. Porém, se ele não tivesse gostado, porque teria insistido em segurar sua mão? No fundo, ela sabia que se tratava da insegurança dela falando mais alto. No fundo do seu coração, a moça temia perder a amizade dele. Ela não sabia se realmente se arrependeu de ter demonstrado o que sentia através daquele gesto, pois fora uma ação impulsiva. Ela não pensou nas consequências, e talvez não precisasse se preocupar tanto assim.
Pela manhã, ela não conseguiu dar bom-dia a Liam como antes. O rapaz parecia o de sempre, como se nada tivesse acontecido na noite anterior (Zoey repetira mil vezes na sua mente que não foi nada de mais), mas Zoey não conseguiu disfarçar seu constrangimento no café-da-manhã.
Ela ficou em silêncio, alimentando-se devagar. Liam estava ao seu lado, parecendo ainda mais eufórico, e ela sabia que havia um motivo especial para isso — o dia seguinte seria primeiro de fevereiro, ou seja; o aniversário de dezoito anos de Liam. O rapaz ficou ainda mais animado quando Lana falou do presente.
— Agora não há mais desculpas, Marcela — Lana disse a ela, tomando um gole de café em seguida. — Seu irmão vai fazer dezoito anos.
— Bem...Não sou eu quem vai enfrentar a mamãe — Marcela deu de ombros.
— Ela não precisa saber — Liam deu um sorriso travesso. — Como Lana disse, eu vou fazer dezoito anos. E eu moro com vocês.
— O que vocês estão falando? — Zoey finalmente abriu a boca para falar, como se para espantar aquela sensação irritante no estômago. Além disso, estava curiosa, pois não fazia a menor ideia de que presente seria aquele.
Liam olhou para ela.
— Você verá — ele disse. — Amanhã. É uma surpresa.
Zoey não perguntou mais sobre aquilo. Era estranho pensar que ela já tinha dezoito anos e era mais velha que o amigo. Foram muitas as vezes que sentiu que o rapaz era bem mais maduro do que ela, principalmente quando se conheceram. Para ela, Liam parecia tão seguro de si — até Zoey conhecer seus confrontos internos.
Durante a tarde, eles ficaram na praia para aproveitar os últimos dias, pois a viagem estava chegando ao fim. Não estava tão calor quanto antes, mas o céu estava aberto e o sol brilhava intensamente sobre as ondas. Zoey e Liam caminharam juntos, tomando sorvete de baunilha e comentando sobre alguns acontecimentos da escola; quando ainda estudavam juntos no ensino médio. Não falaram nada sobre o acontecimento da tarde anterior, por mais que Zoey não conseguisse parar de pensar naquilo. Pelo menos, estava um pouco mais aliviada pelo fato de Liam não estar diferente com ela. Era realmente como se nada tivesse acontecido — ou porque o rapaz não se importou, ou porque era indiferente aos sentimentos dela.
— Estou curiosa quanto ao presente — ela disse olhando para o próprio sorvete. — É assim tão polêmico?
— Bem, depende do que você chama de polêmico — ele disse, apontando para uma grande rocha no meio da praia. — Vamos nos sentar ali.
Zoey levantou as sobrancelhas, sentando-se ao lado do amigo. A água ia de encontro à grande pedra, chocando-se sem força contra a parte inferior. Ela começou a devorar a casquinha (sua parte favorita) quando Liam continuou:
— Mas acho que não vou me arrepender.
— Nenhuma dica? — Zoey insistiu, mas Liam balançou a cabeça em sinal negativo.
— Amanhã — ele disse com firmeza.
— Tudo bem. Amanhã — a moça concordou.
Liam fez um bico, olhando para os braços nus. Zoey tinha um pouco de receio de olhar para aquelas marcas, sobretudo em seu braço esquerdo, pois sabia que Liam tinha vergonha delas — não tanto quanto antes, pois ele sempre as escondia sobre roupas de manga longa mesmo no calor do verão. Naquela hora, porém, ela não conseguiu evitar. Lembrou-se do dia em que vira pela primeira vez as cicatrizes de Liam — que estavam bem piores — quando estavam fazendo um trabalho de escola na casa de uma colega. Ele não fazia mais aquilo, mas ainda parecia ser um assunto delicado para ele.
Zoey desviou o olhar, observando algumas aves marinhas ao longe. Pelo canto dos olhos, ela ainda podia ver o amigo observar os próprios membros, pensativo.
— Zoey? — ele a chamou de repente.
— Sim? — a moça se virou para ele.
— Lembra do dia em que você falou comigo pela primeira vez?
— Claro. Como vou me esquecer? — ela deu um sorriso sem graça.
Liam sorriu de volta. Sua mão direita foi lentamente ao encontro da sua, que estava descansando sobre o joelho. Zoey congelou mais uma vez, mas não se afastou e nem teve vontade de fugir.
— Eu também nunca vou me esquecer — o rapaz declarou.
❀❀❀
No dia seguinte, Lana levou Liam a um estúdio de tatuagem. Mesmo sem saber do que se tratava, Zoey também foi. Apenas quando Lana parou frente a um pequeno prédio de muro escuro é que a moça soube. Seu amigo estava completando dezoito anos naquele dia e seu primeiro presente seria uma tatuagem.
Ele estava claramente nervoso, mas estava tão convencido daquilo que em nenhum momento mudou de ideia. Zoey o acompanhou até uma pequena sala, ainda sem saber o que ele pretendia marcar em sua pele. Ela só soube quando a tatuadora, uma mulher alta com alargadores e os braços tatuados, colou o desenho de uma mariposa em seu antebraço esquerdo. A moça percebeu que o desenho cobria boa parte das cicatrizes, ainda proeminentes sobre a pele bronzeada de Liam.
O rapaz parecia orgulhoso de si mesmo quando a tatuadora concluiu o desenho, feito com uma habilidade e uma rapidez impressionante. Zoey não sabia dizer se fora um trabalho rápido ou se o tempo havia acelerado subitamente, pois logo eles estavam de volta ao carro de Lana — após ouvirem todas as recomendações dadas sobre os cuidados que Liam deveria ter.
— O que achou? — Liam perguntou, estendendo o braço esquerdo. Zoey viu seus olhos brilharem, como uma criança em frente a um brinquedo dos sonhos. Ela queria perguntar o motivo daquele desenho, pois tatuar uma mariposa não parecia algo que Liam faria.
— Ficou muito bonito — Zoey admitiu, pois havia realmente ficado lindo. Os traços eram fortes, destacando-se no braço de Liam. E então, de repente, ela compreendeu o motivo dele ter escolhido aquele local para tatuar.
Não havia muito tempo que Liam andava com blusas de frio para esconder as cicatrizes, mesmo no calor do verão — para que ninguém visse o que ele fazia e, principalmente, porque sentia-se mal com elas. Agora, ele havia ressignificado aquelas marcas, que provavelmente ficariam ali para sempre.
Mas ela estava curiosa quanto ao significado que Liam atribuiu àquele misterioso e peculiar inseto. Liam percebeu sua curiosidade, mas só conversaram sobre quando chegaram na pousada. Era o último dia deles ali, por isso, já começaram a organizar as malas e juntar as coisas que haviam se espalhado pelo quarto.
— Por que uma mariposa? — Zoey finalmente perguntou.
Liam olhou para ela e depois para a nova tatuagem, coberta por um plástico transparente.
— Não é nada interessante, acho — ele disse.
— Aposto que é interessante — Zoey sentou-se na cama, ajudando-o a dobrar algumas roupas; já que a sua mala já estava praticamente arrumada. Liam fez o mesmo.
— Bem...Eu sempre gostei de mariposas. Mas me lembro de uma noite, há três anos, que eu estava com insônia e muito mal — ele começou, franzindo as sobrancelhas com a lembrança. — Eu costumava ir para a janela do meu quarto quando isso acontecia, principalmente para me acalmar de uma crise de ansiedade. Nessa madrugada, uma mariposa pousou perto da minha mão e ficou ali até que eu tivesse vontade de voltar para a cama.
— E você diz que não é interessante? — Zoey sorriu para ele.
Liam deu de ombros.
— Foi um acontecimento idiota, mas me fez refletir um pouco — o rapaz continuou, sério. — Sobre tudo. A mariposa...ela se atrai pela luz. E também simboliza a morte. E acho que morremos e nascemos um poucos todos os dias, não acha? Quero dizer, nunca somos as mesmas pessoas... Eu não sou a mesma pessoa de três anos atrás. Nem você.
Zoey baixou a cabeça, apertando delicadamente uma camisa de Liam em seus dedos. Por algum motivo, ela gostava de tocar nas coisas dele. Começou a dobrá-las lentamente, pensando no que o amigo havia acabado de dizer. Aquilo fazia sentido para ela.
— Então...você é como uma mariposa — ela concluiu. — Mesmo na escuridão, escolheu ir em direção à luz?
— Oh, grande filósofa Zoey! — ele riu. — Eu não tinha pensado por esse lado. Não sei se me atraio pela luz, mas eu prefiro ela ligada para não bater o dedinho em nada.
Zoey riu, jogando uma camisa na cara dele.
— É sério, William — Zoey sentiu as bochechas corarem. — Você evoluiu tanto. Parece até mais...brilhante. E feliz. Eu fico satisfeita por isso.
O sorriso de Liam desapareceu, mas seus olhos continuaram alegres; como se eles ainda estivessem sorrindo.
— Olha quem fala! — Liam disse, congelando logo em seguida. Zoey arqueou as sobrancelhas, fingindo espanto. — Hã...desculpe. Não foi a intenção dar esse trocadilho. Desculpe. Eu sei que...
Zoey soltou uma gargalhada, jogando o corpo para trás. Olha quem fala, Zoey repetiu para si mesma. Olha quem fala! Ela estava falando com Liam. Rindo com Liam. Aquilo parecia tão impossível a alguns anos atrás — impossível e doloroso — que aquilo era estranhamente engraçado. Ela sabia que não era a intenção dele falar aquilo, mas Zoey percebia que não se importava — pois sua ansiedade que a impedia de falar com seu melhor amigo não existia mais.
Liam também riu, colocando as mãos sobre o rosto. Zoey pulou em cima dele, abraçando-o enquanto riam sem parar. Queria demonstrar o quanto estava aliviada, o quanto gostava dele e o quão grata se sentia por aqueles momentos que estavam passando juntos — apesar de toda a confusão de sentimentos que começara a surgir em seu coração.
A mala caiu no chão, desfazendo todo o trabalho de dobrar e organizar roupas, mas não se importaram naquele momento. Estavam ocupados demais tentando se acalmar de uma terrível crise de risos.
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