Capítulo 3

Leticia

(Quinta-feira) 8 de julho

Levanto da cama e ando pela sacada do nosso apartamento, no último andar, girando a taça cheia de vinho na mão. O barulho da cidade energizada não consegue retirar da minha cabeça as mensagens que recebi mais cedo de minha mãe pelo celular.

"Dia nove de julho. Fernanda foi convidada por ele. Não se atrase."

Três mensagens breves: data, intimação e mandato.

Puxo nossa cadeira de ferro e subo no parapeito do prédio, sentando na beirada, enquanto fico admirando os pedestres andando pela rua lá baixo. Imaginando o que deve passar na mente das pessoas que não precisam lidar com esse tipo de situação.

A reunião é nesse final de semana e já não durmo tranquila há quase um mês. Balanço minhas pernas ainda arquitetando planos, detalhados, para não comparecer. Mesmo sabendo que não tenho opção, o não nunca é aceito.

Os tabloides já começaram a soltar notícias sobre possíveis preparando para o encontro da minha família. Encontro esse, que só ocorre a cada cinco anos, e todos se matariam para ser convidado e descobrir os "podres'' da nossa família.

As regras são simples: Comparecer e nunca contar o que acontece durante o encontro. Fim!

Lembrar do último encontro, ainda, me causa arrepios e vontade de chorar. Lembro do olhar frio da Alice e dos gritos pela casa vindo do Rafael. Tomo um gole do vinho e balanço os pés, sentindo o frio gelado da cidade subindo pelo meu corpo, coberto pelo tecido fino de seda azul do robe aberto.

Fernanda entrou na minha vida como um escape de tudo que tenho que enfrentar. Minha vida nunca me pertenceu, desde o meu nascimento. Sou uma figura pública, não tenho direito a ter opinião própria, tenho sempre que viver à beira do aceitável pela sociedade. Ser vista utilizando outra marca de celular, por exemplo, pode ser um crime à minha reputação de empreendedora aos dezenove anos de idade. Tenho mais dinheiro do que posso imaginar, somando com patrimônio da família Martins, somos capazes de comprar dois países e ainda deixar o troco em cima da caixa registradora. Mas nada disso importa, porque não posso aproveitar nada que realmente quero. Ele não permite.

Um grupo de adolescentes da minha idade andam, abraçados, rindo do vento batendo em suas nucas. Eles estão bêbados e andam cambaleando, conversando sobre tudo ao mesmo tempo, sem coerência no diálogo entre si. E por um momento me vejo andando com eles, querendo rir de coisas sem sentindo e beber sem preocupação. Acidentalmente deixo a taça de vinho cair da beirada e estilhaça no chão próximo a eles. A garota loira grita, pulando para trás. Ela olha para cima e me vê balançando as pernas, encarando eles de volta.

- OI... ESTÁ TUDO BEM AI EM CIMA, MOÇA? - ela grita para mim. Volto a realidade e digo de volta antes que um deles possa me reconhecer.

- SIM. ME DESCULPE? ALGUÉM SE MACHUCOU? - digo escondendo meu rosto na escuridão da sacada enquanto respondo de volta.

- ESTAMOS BEM. - ela acena e o grupo segue em frente.

Que merda estava passando pela minha cabeça, ficar em exposição dessa forma, na frente do prédio onde moro. Sou uma completa estúpida. BURRA, BURRA, BURRA. Puxo alguns fios do meu cabelo como punição por nunca aprender com meus erros.

A luz do quarto acende e a varanda começa a ser iluminada. Fecho meu robe e alinho meu cabelo curto, alisando com a mão, enquanto me apoio na beirada e fico admirando a lua, enrolando uma mexa solta com o dedo.

Fernanda me abraça por trás e finjo um susto, sorrindo verdadeiramente para ela.

- O que você está fazendo parada dessa forma, não conseguiu dormir? - respiro fundo.

- Estou admirando a noite. - viro, ficando de frente para ela.

Fernanda é bem mais alta que eu e seu corpo perfeitamente detalhado é totalmente acessível ao meu. Nos encaixando perfeitamente, como se fossemos feita uma para a outra.

Não foi um choque quando anunciei publicamente que estava namorando uma das modelos da revista Queens. Pelo contrário, consegui mais seguidores e ainda fui capa de várias revistas, como uma mulher revolucionaria, que não aceita ser contida pelos padrões da sociedade. Grande piada.

- Você está estranha desde que recebeu aquela mensagem, mais cedo, da sua mãe. - ela se senta no outro par da cadeira, cobrindo todo o corpo com o robe. - Por acaso não quer me apresentar para sua família? Oficialmente!

- Não é nada disso. Acho que estou nervosa em encontrar todos novamente, essas reuniões são cansativas.

- Mas vocês já não fazem isso quase todo ano? Você nunca me contou o que acontece nesses encontros. - Fernando fecha o punho e finge ser uma jornalista, arrancando uma risada minha de sua péssima atuação. - Senhorita Martins, pode saciar nossa curiosidade e nos contar, de uma vez por todas, o que realmente acontece nessas reuniões da família mais bem sucedida e, EXTREMAMENTE, linda? O que acontece por traz daquelas portas fechadas, por que tão ricos e por que tantos segredos? Aproveitando, quero ressaltar a beleza única que vocês têm.

Segurando sua mão fechada em punho, sendo na cadeira em frente a sua, que usei para subir no parapeito da sacada e faço minha melhor pose com as pernas cruzadas, piscando os olhos, rindo de cada cantada que recebo, jogando meu cabelo curto para o lado.

- Obrigada pelo elogio Fê. Esses encontros, como todos sabem, têm como objetivo e único propósito reunir toda a família em uma determinada data, para que possamos nos fortalecer enquanto família. Somos bastante unidos e gostamos das companhias uns dos outros.

- Nossa! Quase chorei com suas palavras. Agora queremos a verdade, visto que boatos surgem a cada ano que vocês têm pacto com o diabo e por isso a fortuna exacerbada e a beleza avassaladora. O que você tem a dizer sobre isso?

Fernando volta o microfone improvisado para mim.

- Sim, Fê, dormimos em caixões e trocamos água por sangue de virgens, em benefício dessa beleza e do nosso trabalho incansável pelo sucesso. - jogo meus cabelos para trás com a mão e deixo eles balançarem com a força do vento, sorrindo para as câmeras inexistentes.

- Mal posso esperar para fazer parte disso e conhecer todos os outros membros da sua família.

Fernando se levanta e senta comigo na cadeira. Ela beija meu rosto e encosta sua cabeça na minha, enquanto nos abraçamos.

Não posso permitir que ela conheça minha família ou que pise naquela casa. Não estou preparada, mas também nem um deles estavam, quando precisaram cumprir com o combinado em nome da família.

Abraço ela com mais força e segura a vontade de chorar.

- Leticia, me conta o que estar acontecendo, nunca vi você nesse estado antes?

- Não é nada. Sério, estou bem.

- Ainda bem, porque estou doida para ser apresentada à sua prima, Alice. Aquela mulher parece uma deusa reencarnada. - ela tenta me fazer rir, mas mal sabe ela que falar sobre qualquer um deles é a causa do meu sofrimento. - Sangue de virgem é?

Começamos a rir, quando mordo o pescoço dela de leve.

Alice

(Quinta-feira) 8 de julho

O diretor do estúdio corta a cena no exato momento que recebo um tapa forte no rosto da minha mãe. Finjo cara de choque e raiva do que aconteceu. A câmera se aproxima do meu olhar vingativo e, finalmente, terminamos essa cena por hoje.

- Corta! - o diretor de cena grita.

Minha assessora entra no cenário cinematográfico, olhando horrorizada para mim.

- Estava tão ruim assim minha atuação? - pergunto, colocando a mão no rosto onde fui tapeada.

- Não é isso, Alice. Melhor você mesma ler a notícia que acabou de ser anunciada.

Meu celular dança loucamente com notificações chegando rapidamente na tela do meu aparelho. Meu nome rapidamente dispara como o assunto mais comentado do momento em todas as redes sociais.

#ALICE, #REUNIAOMARTINA, #FAMILIAMAISLINDADOMUNDO, #QUERIAESTARLA, #MARTINS

Verifico se recebi alguma mensagem no grupo da nossa família ou do meu pai para entender o que está acontecendo, mesmo não precisando pesquisar muito para entender o suficiente do que está acontecendo.

Não fui chamada esse ano.

Ando apressadamente para meu camarim, ignorando todo mundo que tenta falar comigo pelo caminho. Deixo minha assessora cuidando de todos os detalhes e fecho a porta com força atrás das minhas costas.

Minhas pernas estão tremendo, mas não sei se é de alívio ou preocupação. A voz dele preencher meu cérebro avisando que já concluí meu propósito e não preciso retornar. Devo aguardar e ficar calada. Essas são as regras e sempre foram.

O grupo de administrador das minhas redes sociais, mandam mensagens perguntando como devem proceder e o que devem responder para meus seguidores e fãs. Nunca havia sido dispensada antes e ficar fora desse encontro vai gerar muitas perguntas e curiosidade de todos que tentam descobrir o que acontece na reunião dos Martins, a família mais rica e linda do Brasil.

Somos notícias em todos os países e quando se pesquisa, sobre qualquer coisa relacionada ao nosso país, sempre somos referenciados e destacados. Alguns de nós nem precisamos mais pisar no chão para ser alguma coisa, simplesmente tiveram o azar de nascer na nossa família, outras buscam algumas formas de conseguir o próprio dinheiro e tentar se livrar do nome Martins, como eu.

Sou atriz há mais de quinze anos, comecei ainda criança e já fiz inúmeros papéis. Estou morando em Los Angeles, na Califórnia, há seis anos e mesmo assim, nunca tinha sido dispensada.

Mando um áudio para minha equipe, informando que devem avisar nas mídias sociais que estou extremamente empolgada em encontrar meus parentes esse ano e mal posso esperar para chegar o final de semana. Minha irmã, Brena, pergunta se estou bem, aproveito e mando outro áudio para ela.

- Bre, vou terminar a filmagem do filme amanhã e depois vou pegar o primeiro voo para o Brasil. Por favor, não vá nessa viagem antes deu chegar em casa. Preciso ter uma conversa com você, é importante. - ela responde com um "ok".

Deslizo minhas costas contra a porta até esta sentada no chão gelado. Solto meu cabelo e fico me encarando no espelho que fica do outro lado do cômodo. Meu cabelo pintado de loiro está um caos, mesmo recebendo muitas críticas pelo jeito que decidi cortá-lo, de um lado channel e do outro comprido, chegando até meus seios o comprimento. Duas versões de mim em uma única pessoa. Quem sou agora e a pessoa que foi destruída no último encontro pela minha própria família.

Quatro anos atrás fiz uma promessa para mim, e esse final de semana é o momento de, finalmente, concretizar meu desejo.

Voltarei para casa e vou encontrar minha família.

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