Capítulo 1

Rafael

(Segunda-feira) 12 de julho de 2019

Recobro a consciência no chão gelado do quarto onde estou hospedado. O sol está nascendo e as janelas estão abertas, deixando uma brisa fria entrar entre as cortinas pretas. Minha cabeça está latejando com força e não estou enxergando muito bem com o olho direito. A luz do sol entra pela janela meio aberta, deixando o quarto meio na escuridão. Escuto pegadas no corredor e tento levantar meu corpo dolorido devagar do chão. Lembro que bebi na festa, mas não o suficiente para me deixar deitado no chão do quarto, como estou agora. Lembro vagamente da noite passada.

MERDA. Tive outro apagão.

Fico em pé e consigo me ver no espelho que fica bem na minha frente. Minha camisa está rasgada e completamente suja de sangue com terra em determinadas partes, não estou calçado e minha calça social está do mesmo estilo que a camisa.
Minha cabeça volta a da pontada, coloco a palma da mão na testa para tentar amenizar a dor. Quando minha mão volta, ela está coberta de sangue.
Consigo me segurar na beirada da cama enquanto tento me levantar do chão.
– Sr.Rafael, aqui é a polícia. – minha mão escorrega da cama e caiu de novo no chão gelado. – Tá tudo bem aí dentro?

Mau braço começa a doer com a pancada enquanto caminho para o banheiro, a sensação que tenho é como se meu braço estivesse quebrado, mas quando olho de perto vejo que não é bem isso. Meu braço esquerdo está completamente rasgado. Tento manter a calma. O que a polícia está fazendo aqui?
– Estou bem. Só um minuto, por favor.

A porta abre no exato momento em que fecho a porta do banheiro atrás de mim. Me olho no Box de vidro e vejo que não estou nada bem dessa vez. Entro no Box e ligo o chuveiro, deixo a água cair durante um tempo sobre minha cabeça. Quero gritar de dor quando entro debaixo da água quente, mas me controlo mordendo a toalha com força. A cor da água ta rosa escura e meus cortes estão bem profundos. Estou perdendo muito sangue e não consigo parar de pensar no pior, minha própria sanidade.


– Rafa? – minha irmã bate na porta. – Acho melhor você sair logo, a polícia tá esperando no andar de baixo. – Escuto seus passos saindo do quarto e a porta fechando logo em seguida.

 
Retiro toda a sujeira e sangue do meu corpo. Minha perna e costela estão com vários hematomas roxos. Não havia reparado antes no corte na minha sobrancelha esquerda. Volto para o quarto com uma caixa de primeiro socorro.


Por mais que meu corpo estivesse sujo, o quarto não apresenta que tenha acontecido nada de errado nele, tudo está em seu devido lugar. Não tem marcas de sangue no chão e a sujeira parece nem ter existido. Minha mão direita começa a tremer levemente.


Limpo a janela e algumas pequenas gotas de sangue do chão com um lenço descartável. Coloco compressas de gazes no meu braço, enrolando com esparadrapo bem fino e visto uma roupa que cobre todos os hematomas, tanto dos braços como da perna e coloco um band-aid na sobrancelha.

 
Caminho para a sala onde minha família me espera. Caminho normalmente como se nada tivesse acontecido.

Valter

12 de julho (Segunda-feira) 11:25h

Estamos nós dois sentados em um escritório na casa onde quatro pessoas estão desaparecidas. Estou exausto de tantos depoimentos que peguei hoje pela manhã de cada membro dessa família, onde a cada relato, um acaba parecendo mais suspeito que o anterior. Estou apostando todo meu salário que esse cara na minha frente é o suspeito número um.

Nunca perdi uma aposta e não estou disposto a perder agora. Então estou observando cada movimento que ele fez dês que entrou pela porta. A primeira coisa que percebi foi um movimento manco na sua perna direita, seu olhar aparenta realmente de uma pessoa que está passando por um luto. Faz cinco minutos que estou interrogando e até agora suas respostas estão sendo diretas e claras. Já estive em muitos casos e se eu não estivesse olhando atentamente para sua expressão e postura, não teria reparado na cara de desagrado dele quando se sentou na minha frente, como se alguma parte do seu corpo estivesse dolorido devido algum hematoma recente.

– Então Rafael, tem absoluta certeza que não viu nada de suspeito e nem ouviu nada durante a festa? – Falo lentamente, observando seu jeito cansado..

– Sim, como eu já disse não lembro muito da festa. – Sua voz parece realmente de uma pessoa cansada, ele tenta se ajeitar na cadeira e novamente aquela expressão de desagrado aparece.

– Você me disse que não bebe nem um tipo de bebida alcoólica e nem utiliza drogas, então me responda, como pode estar presente em uma festa e no dia seguinte não se "lembra MUITO dela"?

Me inclino mais para a frente e olho bem para seus olhos, sei que ele está escondendo algo, meus instintos falam que ele pode ser o culpado, mais preciso somente de uma prova e pronto, caso encerrado.

Rafael

Sei que ele está observando cada movimento e expressão que faço, nunca estive nessa situação, mas sei que se deve fazer o certo para as consequências fluírem normalmente.

– Realmente não posso tomar bebida e nem utilizar drogas, desmaio quando meu humor altera rapidamente e nessa festa foi isso que aconteceu. – Respondo calmamente.

O detetive Valter parece que não pisca nunca e sua postura é muito formal de uma forma que tudo misturado aparenta que ele observa o fundo da sua alma.

– Não lembro MUITO da festa por conta de uma briga que tive com minha família no início dela. Comecei a sentir muita dor na cabeça, e esse é o primeiro sinal que posso a qualquer momento sair do ar, entende? – ele não responde. contínuo. – Então subi para o meu quarto e acordei algumas horas atrás com vocês batendo na porta, trazendo notícias que minha família está desaparecida e provavelmente estão mortos. – tento segurar o choro, mas não consigo. Enxugo rapidamente com minha blusa vermelha algumas lágrimas que cai. Não sou de chorar, mas nessa situação não consigo me controlar.

– Só quero que vocês achem logo o culpado por isso.

– Não precisa se preocupar com isso. Vamos achar o culpado. Sua irmã comentou sobre suas dores de cabeças e que quando essas dores acontecem você apaga, ela também comentou rapidamente sobre a discussão de vocês. É somente uma regra de rotina depois de uma denúncia.– A expressão do detetive Valter muda e sua postura também, depois que conto sobre a briga e sobre minhas crises de humor. Parece que ele relaxa e compreende meu caso. Não tenho porque mentir.

Valter

Sento melhor na cadeira e faço algumas anotações no meu bloco:

1- aconteceu uma discussão entre a família de Rafael ao qual cinco deles estão desaparecidos;

2 – Rafael tem enxaqueca crônica, aparentemente( não procura um medico);

3 – Dormiu durante toda a festa?

Preciso de uma certeza para liberar ele.

– Alguém pode afirmar que você passou a noite toda no quarto, dormindo? – falo observando sua postura. Rafael não pisca para responder e nem se mexe na cadeira, será mesmo que eu estou enganado dessa vez?

– Sim, minha família toda que estava na festa pode afirmar isso. Todo mundo escutou a discussão e me viram entrando no quarto.

Olho novamente para meu bloco de anotação e tudo bate direitinho com os relatos dos demais parentes que já peguei os depoimentos. Faço um certo na lista do número três.

Não quero está enganado, nunca errei nesses vinte e dois anos na polícia, como posso estar enganado agora?

– Posso ir agora? – Rafael pergunta e pela sua postura ele não aguenta ficar nessa sala nem mais um minuto, então o líbero com um aceno de mão. Quando ele se levanta, a cara de dor aparece.

– Espera só um momento. – levanto dando a volta na mesa e fico na sua frente. – poderia levantar sua camisa, por favor?

Dessa vez consigo ver bem sua personalidade e não é inocência. Seu olhar é de fúria e sua postura está tensa. Coloco a mão na arma disfarçadamente enquanto ele levanta a camisa devagar. A prova que eu estava precisando para fechar esse caso se comprova na minha frente.

Seu braço direito estava todo fechado com gases e esparadrapo, seu abdômen completamente roxo alaranjado. Dou a volta e vejo suas costas toda arranhada, ainda saindo pingos de sangue de alguns arranhões. Ele coloca uma das mãos em um lado da cabeça é quase que me dou um murro na cara quando vejo que deixei escapar esse corte recente bem pequeno acima da sua sobrancelha esquerda.

– Desculpa detetive, mas você não entenderia. – Tiro o revólver da cintura no mesmo momento que ele gira a cadeira de madeira antiga atingindo na minha cabeça. Caiu no chão e vejo a arma perto da minha mão, tento alcançá-la e outra pancada me atinge na cabeça de novo, de novo, de novo...

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