CAPÍTULO XXXVIII - PÁRIS E GUILHERME

Hoje vi o sol nascer, não consegui dormi muito. Primeiro porque a comemoração foi até tarde. Afinal, não é todo dia que o filho da garçonete entra no curso de Direito de uma das faculdades mais prestigiadas do país. Além disso, há o nervosismo por hoje começar as provas finais e terminar a competição que premiará a equipe vencedora com uma bolsa de estudos em um renomado colégio particular.

Élio ficou de passar aqui, mas estou tão ansioso que não vou esperar. Mando uma mensagem e vou pegar o ônibus. Tenho a sensação de que tem alguém me seguindo, mas a rua está cheia de gente, trabalhadores a caminho do emprego, alunos a caminho da escola. Deve ser coisa da minha cabeça, levando em consideração que já fui espancado e sequestrado nessa mesma rua. Tudo isso é compreensível.

Espero Lucas na porta da escola. Nossos dias de estudos nos tornaram mais confiantes e seguros, mas não depende só da gente. Há outros membros na equipe.

- Dormiu bem? – pergunto a ele quando se aproxima.

- Sim. Como uma pedra - ele responde.

- Nossa! Passei a noite em claro, como você consegue?

- Me masturbei até o corpo ficar cansado e dormi - ele fala como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nossa amizade tinha chegado a níveis extremos.

Ri muito dele e fomos pra aula, lá encontramos Roberta e Joseph. Ela ansiosa com as provas; ele despreocupado. Fizemos a primeira prova. Joseph é o primeiro a entregar, depois de algum tempo saio e vejo ele no refeitório.

- Já vai para o QG dos excluídos? - ele pergunta quando me vê passando - Senta aqui, você não está mais sozinho.

- Ninguém vai subir na mesa e fazer um discurso hoje, não é? – pergunto lembrando de algo que aconteceu alguns dias atrás.

- Não! dessa vez não – ele dá um risinho.

- Ansioso para as provas? - pergunto para mudar de assunto.

- Não - ele responde direto.

- E pelo jogo no fim de semana? – eu sei que esse é um assunto mais prazeroso para ele.

- Aí sim, dá uma ansiedade, um pouco de medo, fico com frio na barriga só de pensar - ele coloca a mão no abdômen.

- Você não fica ansioso nas provas, mesmo podendo reprovar, mas fica com um jogo. Engraçado.

- Nas provas é só eu, se passar é mérito, se reprovar faço de novo. Agora no time são muitos, e todos dependem uns dos outros. Se eu não fizer a minha parte, o time perde e aqueles que dependem de mim serão prejudicados - ele disse olhando nos meus olhos.

Roberta se aproxima, dá um beijo em sua bochecha e senta do seu lado, seguida de Élio, que havia chegado atrasado e pouco tempo depois chega Lucas.

- Último a sair, esse tem um dez garantido - brincou Joseph.

- Que nada, não estava consegui... - Lucas é interrompido pelo seu laptop que está fazendo um barulho estranho, parece o bip de um carro dando ré.

Ele rapidamente tira o aparelho da mochila e começa a digitar. Seus olhos sempre miúdos pareciam fechados diante do monitor. Ficamos olhando para ele esperando uma explicação: não vinha por que ele estava completamente absorto nesse mundo virtual no qual ele conhecia tão bem.

- Achei... o... celular... do... fake - Lucas fala devagar, mais pra si mesmo do que para a gente.

- O celular do Fake? Aquele do Instagram falso? - pergunta Élio se levantando e indo até o Lucas. - Quem é?

- Eu consegui hackear o celular usado para fazer as postagens. Mas para localizar eu precisava que o celular estivesse ligado, mas isso não acontecia há muito tempo - ele explica enquanto aguarda algo no monitor. - Mas o celular foi ligado nesse exato momento e eu estou tentando rastrear a localização.

Roberta pega o celular dela e entra no Instagram. Depois de um tempo ela grita:

- Postou, ele fez uma postagem. Um nudes do Élio.

- O quê? - Élio grita surpreso.

- Consegui, ele está... Aqui – Lucas dá uma pausa e continua digitando.

- Aqui? - falamos ao mesmo tempo.

- Mais especificamente...no ginásio - Lucas fala rápido.

- Élio vai pra lá com Lucas e Páris, vejam o que está acontecendo. Joseph acha o Aloysius. Eu vou procurar o diretor, nos encontramos no Ginásio - fala Roberta e sai correndo.

Mas antes de terminar as ordens, Élio já tinha corrido em direção ao ginásio, se ele pega o cara ele mata.

Por ser quase fim do primeiro período de aula e ser prova, há cerca de 30 alunos no local. Chegamos com os celulares filmando para não perder ninguém.

Professor Aloysius chega com o Joseph e chama todos para o centro da quadra. Ficamos de olho nas saídas para ninguém fugir. Roberta chega com o diretor e Lucas explica o que está acontecendo.

- E como encontramos esse celular? - pergunta Aloysius.

- Eu tenho o número gravado. Agora é só ligar, o telefone que tocar é do fake - explica Lucas.

O diretor pede para todos colocarem o celular no chão e se posicionarem atrás dele, pega o número e liga, nenhum celular recebe a ligação.

- Não estou entendendo, o celular tá chamando e está aqui - fala Lucas olhando para o laptop.

- Vamos olhar nas arquibancadas - sugere Roberta.

Élio, Joseph, Roberta e eu vamos à arquibancada e nos aproximamos das mochilas. De repente Élio grita:

- Aqui tem um celular chamando.

- Traga aqui - pede o diretor - de quem é essa mochila?

- Da Mônica - fala alguém na fila.

- Mônica, abra sua mochila por favor - ordena o diretor.

Mônica, cabisbaixa pega a mochila e abre, Aloysius revista e encontra um celular vibrando, atende e confirma que é o mesmo celular.

- Senhorita Mônica, me acompanhe até minha sala – fala o diretor - Professor Aloysius e Lucas também.

Elessaem. Os outros alunos voltam ao que estavam fazendo. Dessa vez comentandosobre o que acabou de acontecer, e nós vamos ao refeitório.

- Eu sabia que aquela lambisgoia estava metida nisso. Eu tinha certeza - fala Roberta com cara de indignação.

Vemos Guilherme sentado em uma mesa sozinho e vamos até ele.

- Menino, tu não sabe o babado que acabou de acontecer ali na quadra - começa Roberta, e conta toda a história.

- Bem que eu desconfiei daquele projeto de malévola - diz Guilherme.

Conversamos sobre assuntos aleatórios até chegar ao namoro de Guilherme. Roberta tenta abrir seus olhos para o tipo de relacionamento que ele estava, mas ele não quer ouvir, pede para parar com esse assunto, ela insiste e ele fala:

- Mas o que você quer? Que eu ande atrás de você novamente que nem um cachorrinho? Quer que eu seja o amigo gay que toda menina gostaria de ter? Eu estou com ele por que ele se importa comigo. Ele me dá atenção, desde que você começou a namorar que é Joseph pra cá, Joseph pra lá, e eu fui ficando de escanteio. Todos vocês arranjaram alguém mais importante, e eu? Agora eu tenho alguém que gosta de mim, que se preocupa, que me coloca em primeiro lugar. Se for preciso, eu me afasto do mundo inteiro para viver com ele, é isso que eu farei, por que a vida é minha, e eu faço com ela o que eu quiser.

Quando termina, Guilherme levanta e sai. Olho para Roberta e vejo que ela está chorando. Élio a abraça e ficamos ao lado dando apoio. Percebemos agora o quanto somos importante na vida uns dos outros.

No final da tarde, Aloysius passa na minha casa para me levar para a competição, deixo Heitor e minha mãe se arrumando, eles vão depois, e entro no carro. A caminho da casa de Lucas, é a primeira vez que eu fico sozinho com Aloysius depois do sequestro.

- Eu quero lhe pedir desculpas por tudo o que aconteceu. Saiba que estou apenas fazendo o meu trabalho - ele fala enquanto dirige.

- E seu trabalho já terminou? - pergunto - ou só quando prender o meu pai?

- Minha missão era verificar se vocês tinham contato. Então ela terminou sim. Mas já que o ano está finalizando, vou ficar até o fim do período escolar e depois saio.

Eu estou olhando para a janela, não sinto raiva, mas não consigo encará-lo como antes, talvez seja vergonha. Ele parece que lê meus pensamentos, pois pergunta:

- Está com raiva de mim?

- Não - eu respondo - Está convencido que não tenho contato com meu pai?

- Sim. Ou estou errado?

- Não. Nunca o vi. E se não queria antes, agora tenho mais motivos para querer ficar longe.

Ele ri e fala:

- É bom mesmo! você é um bom garoto, não quero ter que prender você.

Pegamos Lucas e vamos para o local da competição. Quando chegamos, descobrimos que será transmitido ao vivo no canal deles no YouTube. Nos reunimos com os outros alunos e tentamos acalmar uns aos outros, de qualquer forma já somos uma entre as três melhores escolas do país, estamos prestes a entrar quando Lucas fala:

- Espera, está faltando uma coisa muito importante!

Todos nós paramos assustados e olhamos para ele.

- O chocolate, o Aloysius não me deu meu chocolate.

Alguns ficam reclamando por achar que era uma coisa importante; outros começam a rir. Aloysius tira da mochila seis barras de chocolate e dá para cada membro da equipe. Professora Thays não gosta muito, mas não diz nada dessa vez. Lucas termina o dele bem na hora que chamam nossa escola, então entramos no palco.

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