CAPÍTULO XXXIV - PÁRIS E ALOYSIUS

Assim que me jogam no carro, eles aumentam a velocidade, ajeitam o saco na minha cabeça e prendem minhas mãos para trás. Fico ali dentro em silêncio pelo que me parece horas, ao meu lado há o corpo de duas pessoas, mas não consigo identificar se uma delas é o Lucas.

Sinto o carro parar e sou conduzido para fora. Ando alguns metros e subo uma escada, caminho mais um pouco e eles me param, soltam minhas mãos e retiram o capuz. Espero meus olhos se acostumarem com a luz fraca do ambiente e percebo que estou sozinho num cubículo sem janelas. Apenas uma porta de saída, parecia abandonado pela quantidade de sujeira e pó. Próximo a mim há um colchão imundo, só então percebo que eu estou preso por uma corrente a uma viga de ferro que sai da parede. Lucas não está comigo, o que terá acontecido com ele? Será que o colocaram em outro quarto igual a esse?

Sento no pé da parede e começo a pensar: O que está acontecendo? Por que estão fazendo isso com a gente? São perguntas que não saem da minha cabeça. Começo a pensar na minha mãe e meu irmão e percebo que só sentirão minha falta amanhã após a aula. Que estúpido eu sou! Meus olhos se enchem de lágrimas, mas eu não posso chorar. Eu tenho que ser forte, eles vão me achar e tudo isso vai passar, penso. As lágrimas caem teimosamente molhando meu rosto, eu limpo com as costas das mãos, coloco os braços sobre os joelhos e a cabeça sobre os braços. Sem querer, eu adormeço.

Acordo sendo chacoalhado por um homem com o rosto coberto, ele coloca o capuz e vai me conduzindo para outro cômodo. Quando tira o capuz, estou em um banheiro apertado em frente a uma pia, além dela há um vaso sanitário e nada mais. Ele me entrega uma escova de dentes já com pasta e se posiciona na porta de frente para mim, abro a torneira e começo a escovar os dentes. Quando termino, ele pega a escova e aponta o vaso, pergunto se ele vai ficar ali e ele não responde. Faço que não com a cabeça e ele coloca o capuz e prende meus braços novamente.

De novo sou conduzido para algum lugar. Eles me param e me obrigam a sentar. Quando tiram o capuz, vejo luzes fortes no meu rosto, não consigo abrir os olhos, tento proteger baixando a cabeça, mas um deles pega meu queixo e levanta bruscamente. Aperto os olhos e vejo o que parece alguém com uma câmera. Um deles começa a falar em inglês, e aponta para mim constantemente, tento entender o que está acontecendo, mas não consigo. Nada disso faz sentido para mim.

Eles colocam o capuz e, mais uma vez, sou conduzido novamente. Dessa vez, sinto a corrente sendo presa no meu pé e, quando tiram o capuz, reconheço o quarto de horas atrás. Em cima do colchão há um copo descartável com café e um pão. Não vou comer isso, sento novamente no canto da parede e espero.

O tempo passa e nada acontece. Minha barriga começa a roncar, tento chegar até a porta mas a corrente não permite. Começo a gritar e logo a porta se abre, lembro que eles conversam em inglês, não sei se para que eu não entenda ou realmente não sabem falar português. Falo "banheiro" apertando a barriga, ele não faz nada e fecha a porta.

Alguns segundos depois, ele abre novamente e coloca o capuz na minha cabeça, tira a corrente e me conduz novamente ao banheiro. Mais uma vez ele fica na porta. Com muita vergonha abaixo a bermuda um pouco e sento na privada. Ele joga o papel higiênico e finalmente vira de costas.

Quando volto para o quarto, a fome está tão grande que não consigo resistir. Então tomo o café com pão que ainda está ali. O calor está enorme, estou suando muito. Depois de um tempo, um deles entra com uma quentinha e uma garrafa d'água. Eu como tudo e a barriga para de roncar. Nada mais acontece, estou suando tanto que tiro a camisa, mas deixo perto para vesti-la rápido quando alguém entrar.

Horas depois alguém entra e repete o mesmo processo: capuz, prende as mãos, solta a corrente, conduz a algum lugar. Dessa vez voltei pra cadeira, mas não havia luz forte nem câmera, apenas um deles falando no celular. Ele coloca no viva voz e aproxima do meu rosto.

- Alô – ouço uma voz estranha no celular.

- Alô – respondo.

- Qual o seu nome? – A voz pergunta.

- Páris – respondo. – Quem é você?

- Vai ficar tudo bem viu? Eu já estou resolvendo isso – diz a voz estranha.

Tiram o celular e me levam para o quarto. O tempo passa sem nada acontecer até eu adormecer novamente.

Acordo e percebo que estou em um estado deplorável: suado, sujo e cheio de poeira. Nesse tempo todo ainda não vi sinal do Lucas por aqui. Estou começando a ficar preocupado.

O dia passa sem nada acontecer, me tiram do quarto duas vezes. Como no dia anterior, tomei aquele café de sempre e comi duas quentinhas. Digo o dia por intuição, pois como no quarto não entra luz do sol, não sei quando começa ou termina o dia. Durante as vezes em que saio e mesmo daqui do quarto ouço eles discutirem entre si e não gosto, fico pensando que me confundiram com alguém e agora descobriram que somos pobres e vão nos matar.

Resolvo lutar contra o sono e permanecer acordado dessa vez, mas meus olhos pesam e estou quase dormindo quando ouço tiros. A imagem de Lucas executado me vem à cabeça e eu começo a me desesperar, tento arrancar a corrente, mas não consigo e meus pulsos sangram. Ouço mais tiros, dessa vez mais próximo. Dois deles entram no quarto correndo desesperados e tentam trancar a porta, mas ela não tem trava por dentro. Um deles está sem capuz e coloca a arma na minha cabeça enquanto o outro tenta tirar a corrente.

A porta abre com um barulho antes dele conseguir e eu não acredito no que vejo: Aloysius, meu professor de Educação Física, com uma roupa preta, um colete à prova de balas empunhando uma arma. Além dele, mais uns quatro caras atrás entram no quarto e dá um tiro certeiro na cabeça daquele que tentava abrir a corrente. O outro fica me usando de escudo com a arma na minha têmpora.

- Eu vou matar o garoto – fala o bandido atrás de mim.

- Tu não tem pra onde fugir. Tu tá cercado – grita o Aloysius do outro lado.

O homem, vendo a situação em que se encontrava, levantou as mãos em sinal de rendição, os agentes atrás de Aloysius aproximam e o imobilizam.

- Você está bem? – pergunta Aloysius se aproximando

- E o Lucas? Onde ele está? Você tem que encontrar ele – falo angustiado.

- Como assim? Ele não foi sequestrado. Está com a gente. Foi graças a ele que encontramos você.

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