CAPÍTULO XXXIII - PÁRIS E LUCAS

Acordo mais cedo que o normal. Hoje tenho um dia cheio e algumas coisas para fazer antes de começar. Encontro minha mãe na cozinha, que se assusta ao me ver acordado tão cedo.

- Bom dia, Páris, caiu da cama foi? – ela pergunta sorrindo e... meu Deus como eu amo esse sorriso!

- Queria conversar antes de você ir ao trabalho – eu começo. – Mãe, desculpa por aquela conversa. Eu não tenho o direito, eu só tenho medo.

- Meu filho, eu não vou fazer nada que prejudique a vocês. Mas eu quero que você me prometa uma coisa, sem segredos ou omissões: quero que você me conte tudo, qualquer coisa, mesmo que me machuque, você pode fazer isso?

- Posso sim! – e ela me abraça, aquele abraço gostoso e acolhedor que só mãe sabe dar.

- Boa sorte nos estudos hoje. Depois você vem pra casa? – ela pergunta se arrumando para sair.

- Não, vou dormir na casa do Lucas mesmo.

- Comporte-se e mande um abraço para Hyun – ela tira dinheiro da carteira e me entrega.

- Você devia casar com Senhor Hyun. Ele é uma boa pessoa, e o Lucas seria meu irmão.

- Meu Deus do céu, Páris! você tem cada uma... – ela fala saindo e rindo.

- E ele gosta de brasileira! – eu grito.

Vou para o banheiro, ligo o chuveiro e deixo a água passar pelo meu corpo. De repente imagino as mãos do Élio me tocando como se fosse aquela água e começo a relaxar. Acordo com os gritos de Heitor:

- Páris, libera o banheiro, ainda preciso trabalhar, morreu aí dentro foi?

Termino o banho rápido e saio. Visto o uniforme e vou para a escola.

A primeira aula é Educação Física, Aloysius nos dividiu em 3 equipes para o jogo da velha com cones e bambolês. Infelizmente nós perdemos.

- Páris, eu quero conversar com você. – diz Aloysius após a aula.

Guilherme, Lucas, Élio e Joseph vão esperar na arquibancada enquanto o professor me leva para o meio da quadra.

- Páris, você tem alguma foto do seu pai? – Professor Aloysius pergunta franzindo a testa.

- Não, minha mãe se livrou de todas assim que ele a abandonou. Por quê? – pergunto. Essa obsessão do Aloysius no meu pai já estava me irritando

- Nada. Apenas uma teoria que criei – ele fala desconversando. – Se ele entrar em contato com você, de qualquer forma, você tem que me avisar, está certo? É para o seu próprio bem.

- Mas se ele nunca me procurou, por que faria isso agora? Professor, você está me assustando! Aconteceu alguma coisa? – pergunto.

- Não é nada, Páris, apenas me avise se ele entrar em contato. É muito importante! Venha, vamos para seus colegas.

Chego ao vestiário e Guilherme, Joseph e Élio já estavam nos chuveiros. Como sempre Lucas os espera terminarem. Tomamos nosso banho e fomos nos encontrar com Joseph do lado de fora.

- Vocês fizeram o trabalho de Português? – Joseph pergunta.

- Não. Nós fomos dispensados – eu falo contente.

- Eu fiz. – Lucas fala cabisbaixo.

- Seu traíra, por que não me avisou? – pergunto indignado.

- Era só ler um livro, eu já estava lendo mesmo, agora vou só apresentar. E você fez? – se dirige ao Joseph.

- Eu tentei ler um livro da lista da escola, mas era muito chato, acabava dormindo. – ele responde cabisbaixo.

- Não precisava ser da lista da escola. Ela disse que poderia ser qualquer gênero – eu lhe explico.

- Eu sei, mas é que eu queria impressionar – ele ri de si mesmo. – Mas como não consegui eu li uma revista em quadrinhos.

- Uma revista em quadrinhos?! – falo assustado.

- Não é bem uma revista. É um livro, só que sobre quadrinhos – ele tenta se explicar.

- Você está prestes a apresentar um livro para a turma e não consegue explicar ele para a gente? – pergunta Lucas, que havia ficado calado até agora.

Joseph dá uma risadinha de desespero e entramos na sala.

Durante a aula há as mais diferentes indicações. Autores clássicos e contemporâneos, romance e terror, livros famosos e os desconhecidos pela maioria. Como Roberta já havia dito, ela indica "Um Herói Entre Nós", do escritor novato Felipe Martins. Guilherme opta pelo sobrenatural e indica "Diários de Um Vampiro: O Despertar" de L. J. Smith. Joseph se atrapalha ao apresentar "A Dinastia M" de Brian Bendis. Lucas fala sobre "Steve Jobs, a biografia" escrito por Walter Isaacson, e Élio surpreende a todos defendendo magnificamente o Livro "O Príncipe e o Plebeu" de Maximilan Cavalcante, seu autor favorito.

Na saída da escola ouço Élio me chamando:

- Páris, trouxe o livro que você pediu, o "S.O.S Garotos ao Mar" - Ele tira o livro da mochila e me entrega. – É um ótimo livro! Você vai gostar. Está indo pra casa? Eu te dou uma carona.

- Estou indo para a casa do Lucas – eu falo.

- Se quiserem posso deixar vocês lá – ele fala já caminhando para o estacionamento.

Como íamos a pé, em razão do pai de Lucas estar viajando, aceitamos a carona. Élio nos mostra seu carro novo, que ganhou de aniversário.

- E aí Lucas, já se recuperou? – ele pergunta já a caminho de casa.

- Sim, parece que meu organismo rejeitou a substância. – responde Lucas olhando pela janela.

- E de ser pego na cama agarrado pelo Noah? – Élio provoca.

Lucas não responde e o assunto morre.

- Eu terminei com a Mônica – Élio fala de repente.

- Não sabia que vocês estavam namorando! – respondo tentando parecer indiferente olhando a estrada.

- Bom, não estávamos, mas agora ficou bem claro que não temos nada, nem real nem fake.

Não falo nada, apenas olho pela janela do carro. Atualmente, tenho uma coisa mais importante para pensar. Ficamos em silêncio até chegar ao apartamento de Lucas. Eu fico pensando no que o Professor Aloysius falou sobre meu pai, mas não chego a nenhuma conclusão.

- Obrigado! Pelo livro e pela carona – falo fechando a porta do carro.

- Espero que goste do livro, e se quiser algo mais picante eu tenho "O Abaixador de Bermudas" do Chris Max. Esse vai deixar você excitado – ele fala sorrindo. – e sobre a Mônica... Eu só queria que você soubesse.

Sorrio e me despeço. Entramos no apartamento e Lucas vai logo para o banheiro. Ele ficou chateado com o comentário do Élio, pois passou todo o tempo calado. Ouço o barulho do chuveiro. Ele deve estar tentando esfriar a cabeça.

Olho em volta e percebo algo diferente da última vez que estive aqui, há um notebook com um aplicativo parecendo um radar ligado, uns aparelhos novos espalhados pela bancada que ele costuma jogar.

Ele termina o banho e eu começo o meu. De novo não sai da minha cabeça a conversa que tive com Aloysius. Tento pensar em outra coisa, mas não consigo. Saio do banho e vejo Lucas tentando organizar a bancada, o notebook com o radar estava desligado agora.

Comemos alguma coisa e começamos a estudar, Duas horas depois paramos para um lanche e eu insisto que continuássemos. Lucas já estava esbaforido quando resolvemos parar.

- O que deu em você? Ligou o modo turbo foi? – pergunta ele deitado sobre os livros.

- Quero manter a mente ocupada para afastar um pensamento da cabeça. – respondo-lhe me deitando e olhando o teto.

- O que tá acontecendo?

Conto a conversa que tive com o Professor Aloysius e como ela ficou martelando o dia todo.

- Eu não vou conseguir tirar isso da cabeça enquanto eu não falar com minha mãe – me levanto e o encaro. – Eu tenho que ir pra casa!

- Mas como você vai? Meu pai nem está aqui para te levar! – ele reage assustado.

- Eu vou sozinho, pego um ônibus, chego lá rapidinho. Eu me conheço, Lucas, não vou conseguir dormir se não tirar isso da cabeça.

- Liga pro teu irmão então, vê se ele pode vir te buscar – ele começa a ficar preocupado.

Ligamos e cai na caixa postal. Alguns minutos depois ele liga de volta e eu pergunto se ele pode vir me pegar.

- Aconteceu alguma coisa? – pergunta ele do outro lado.

- Não! Só quero conversar com a mãe. Tenho uma coisa muito importante para falar com ela – respondo.

- A moto do Senhor Geraldo foi pra oficina, se fosse emergência eu conseguiria outra, mas como não é, durma aí, amanhã vocês conversam, ou ligue e fale com ela.

- Não é uma conversa que se tenha pelo celular, eu vou de ônibus... - tento argumentar.

- Nem pensar! Já vai anoitecer e é muito perigoso. Seja o que for pode esperar – e ele desliga.

- E então? – pergunta Lucas curioso.

- A moto tá na oficina. Vou ter que ir de ônibus – falo sem encará-lo, para não perceber que eu estou mentindo.

- Eu vou com você, deixo um recado para meu pai avisando, amanhã eu explico tudo.

Lucas coloca algumas coisas na mochila e saímos para minha casa.

Quando descemos do ônibus já está escuro.

- Não gosto de andar por aqui. Me faz lembrar aquele dia – fala Lucas. – é assustador.

- Aquilo não vai mais acontecer – respondo com firmeza.

Um carro vem por trás, mais devagar que o normal, empurro discretamente Lucas para a calçada. Quando o carro fica ao nosso lado, as portas se abrem e três homens encapuzados descem, ficamos parados, um deles trás um saco de pano na mão, coloca na minha cabeça e não vejo mais nada. Apenas sinto eles me arrastando e jogando dentro do carro.

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