CAPÍTULO XXVIII - O PRETO DE MÔNICA

Minha mãe coloca apenas a cabeça na porta e fala:

- Boa noite, meus príncipes, vou tomar um banho e quero falar com vocês.

Olho para Heitor, que está estudando na mesa, e ele ri. Fico tentando lembrar o que eu fiz de errado, mas nada me ocorreu. Então resolvo esperar.

Minha mãe entra e senta na cama.

- Meu filho, você já têm 16 anos, e já está passando da hora da gente ter uma conversa - ela começa.

- Tudo bem, mamãe. Pode falar - eu não tenho ideia do assunto a ser tratado.

- Como eu já tive essa conversa, vou saindo – levanta-se Heitor.

- Pode sentar! Você vai me ajudar, afinal agora você é o homem da casa. - minha mãe fala antes que ele conseguisse sair.

Heitor senta-se e minha mãe segura minha mão. Ela sempre faz isso quando o assunto é delicado. Começo a ficar nervoso. Será que eu fiz algo grave sem perceber?

- Páris - ela começa. – eu não estou dizendo que está na hora de fazer. E eu não faço ideia do que você sabe sobre isso, mas está na hora de falarmos sobre sexo.

Então é sobre isso que ela quer conversar? Sempre achei que esse dia chegaria e agora acho que não estou preparado para ter essa conversa. Ela percebe a minha aflição, acaricia minha mão e começa a falar:

- Meu filho, a primeira coisa que eu quero que você saiba é que estaremos sempre aqui. Você pode nos contar ou perguntar qualquer coisa, seu irmão e eu somos as pessoas que você mais pode confiar. A segunda coisa: lembra quando você era pequeno e eu disse que ninguém pode tocar seu corpo sem sua autorização?

Balanço a cabeça afirmativamente torcendo para que essa conversa termine rápido.

- Ainda vale para hoje – ela continua. – ninguém pode tocar você sem que você concorde, e depois que concordar, ainda pode mandar parar. – ela olha nos meus olhos. – tem que ser prazeroso para ambas as partes, entendeu?

Novamente faço que sim com a cabeça, visivelmente constrangido com essa conversa.

- E para completar, você sabe que tem que se prevenir, não sabe? Seu irmão comprou uns preservativos. Você sabe usar?

- Sim, sim - eu falo rapidamente. - Acho que sim. Mas mãe, eu não preciso, não pretendo fazer agora. E o que o Élio vai pensar se vir uma camisinha nas minhas coisas.

- Ter um preservativo não significa que você tem uma vida sexual, nem significa que você quer transar. Apenas quer dizer que quando chegar a hora, você estará preparado. E se o Élio achar ruim mande ele vir falar comigo. Por falar nisso, cadê ele? Nunca mais o vi. Vocês estão bem?

- Não muito!

- Ih! Até que eu botava fé nesse negócio. Quer conversar sobre isso?

- Não – falo rápido e com segurança.

- Tudo bem então. Quando precisar de mim estarei sempre aqui. Para vocês dois. E boa sorte na competição! Você é meu tesouro! – ela me dá um beijo no rosto e levanta.

Quando ela sai, olho para Heitor que está arremedando ela de forma engraçada:

- Você é meu tesouro! – ele fala enquanto faz ruídos de beijos, depois joga um pacote com três camisinhas em mim. – Você sabe usar, não sabe?

- Qualquer coisa, eu peço para o Élio me ensinar. – Falo e deito logo em seguida, mas ainda consigo ver quando ele balança a cabeça em tom de desaprovação.

Fico pensando em tudo o que minha mãe falou. Pego o celular e digito uma mensagem para o Élio.

"Precisamos mesmo conversar. Não dá para continuar assim. Nem que seja para pôr um ponto final."

Coloco o celular de lado e fico pensando em como essa situação fugiu do meu controle. Nada que fiz foi para prejudicar ou magoar ninguém. Quando percebo, Heitor está me encarando.

- Aconteceu alguma coisa, Heitor? – pergunto preocupado.

- Páris - ele levanta, senta na cama e fala baixo, quase sussurrando. – Eu quero lhe perguntar uma coisa. Mas é um pouco pessoal.

Antes de responder o celular toca, é o Lucas. Vou desligar a chamada, mas Heitor fala:

- Atenda, pode ser importante, outra hora conversamos.

- Tem certeza?

- Claro, não é tão urgente que não possa esperar.

- Ei, vamos repassar o conteúdo aqui em casa antes da competição – Lucas fala do outro lado da ligação.

- Beleza, chego já aí – eu respondo.

Estamos na semifinal da competição, na qual nossa escola foi eliminada no ano anterior, se ganharmos hoje será um feito inédito do CEMA.

Nossos amigos hoje não estão presentes. Joseph está jogando contra os Lions, melhor time de futsal da cidade. Roberta está participando do desfile para escolha da Rainha da Primavera e o Guilherme está ajudando-a, e Élio foi participar de um concurso de bandas com as meninas.

Nos reunimos com a equipe nos bastidores, Aloysius trouxe chocolate novamente, o que deixa Lucas feliz e mais calmo. Mas novamente ele tem que comer escondido e rápido. A professora Thays continua nervosa e não para de falar e dá conselhos. A garota do 2° ano da nossa equipe, que está a fim do Lucas, não para de encarar ele. Yuri, o aluno do 3° ano e suposto líder da equipe, está suando. Eu estou apreensivo, sinto falta do apoio dos meus amigos.

Pego o celular e está cheio de mensagens. Abro e começo a lê-las:

"Você é um presente que Deus me deu, vocês são o que tenho de mais importante na minha vida, eu te amo, nunca esqueça disso." Mensagem da minha mãe, Lúcia.

"Migos, tenho ctz que vão lacrar novamente, mostrem para eles quem manda nessa bagaça. Cheiro no oi. PS: Roberta tá mandando um beijo. PS²: diz pro luquinhas que eu mandei um beijo naquele lugar 😉" Guilherme.

"Mandem ver aí, que nós vamos mandar ver aqui. Boa sorte! Depois comemoramos a vitória quádrupla. 🏆" Joseph

"Agora o caminho está livre. 👏👏👏" João Pedro

Do que o João Pedro está falando? Chega uma imagem e fica carregando.

- Vamos pessoal, vocês são os próximos - Aloysius chama. A imagem continua carregando. – PÁRIS! – ele grita na minha direção.

Levanto devagar ainda olhando para o celular. A imagem carrega vagarosamente.

- Páris, meu filho! – Aloysius vem em minha direção.

A imagem carrega, é um print do Facebook da Mônica e nele posso ler "Em um relacionamento sério com Élio" vejo uma selfie que ela tirou com ele dormindo ao fundo, deitado sem blusa na cama dela. Aloysius me toma o celular e me empurra delicadamente em direção ao palco.

A competição começa e eu não consigo me concentrar. Aquela imagem do Élio na cama da Monica não sai da minha cabeça. As perguntas são sorteadas, a número três é para o primeiro ano, eu sei a resposta mas não consigo lembrar. Lucas trava e não consegue falar ao microfone. Nosso primeiro erro.

- Que diabos está acontecendo com vocês? – Yuri pergunta zangado.

Eu tento focar nas pergunta, mas é em vão, meu corpo está ali mas minha mente não. A pergunta número seis também é para nós. Lucas me olha, com cara de assustado, ele sabe a resposta mas não consegue falar. Ele diz ao meu ouvido e eu reproduzo. Ponto para o CEMA. Mal tive tempo de respirar e já tivemos que responder a pergunta oito. Dessa vez Lucas já se aproxima, fala ao meu ouvido e eu já respondo.

Ganhamos na pergunta de desempate, que graças a Deus era para o terceiro ano. Todos ficam felizes e comemoram. Pela primeira vez na história, o CEMA chega a final da competição. Apenas eu não sentia essa felicidade. Era como se tivessem arrancado um pedaço de mim.

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