CAPÍTULO XXVII - O VERDE DE JOSEPH
Chega o dia da competição, como o planejado estudamos todas as tardes na escola. Eu levava meu almoço na mochila. Ir almoçar em casa e voltar seria um desperdício de tempo e dinheiro. Aloysius percebeu e conseguiu autorização para eu ficar dentro da escola, e as vezes ele mesmo levava almoço e me fazia companhia. Nesses dias ele ainda perguntou sobre meu pai duas vezes e obteve as mesmas respostas de antes.
Como fazemos em todo intervalo, Lucas e eu estamos no final do corretor. Dessa vez assistindo a uma animação que ele é completamente viciado chamada Animals. Toda semana é lançado um episódio e ele não sossega enquanto não assiste.
- Preparado para a competição? - eu interrompo.
- Sim. Depois de estudar com você, eu ainda continuava estudando sozinho em casa – ele responde depois de dar pausa no vídeo.
- Não é isso. Falo de apresentador, público, pressão - enumero nos dedos - e não sei se quero ganhar essa bolsa e me afastar dos meus amigos.
Ele não responde. Da pausa no vídeo novamente e fica olhando para a parede como se fosse uma tela de TV.
- Eu não sei se vamos ganhar. Mas acho que não vamos nos separar. Podemos estudar lá e continuarmos amigos - fala finalmente.
Joseph, Roberta e Guilherme chegam conversando animadamente.
- Os alunos do 3° ano vão organizar o baile da primavera, com a escolha da Rainha da Primavera - Roberta estava falando - E eu vou participar!
- Nosso time vai jogar contra os Lions! - Joseph fala e mexe as mãos olhando para Roberta.
Enquanto eles discutem qual a competição mais importante, Guilherme senta com a gente.
- Que desenho é esse? – pergunta a Lucas.
- Animals – responde Lucas visivelmente chateado.
- É sobre o quê? – Pergunta Joseph sem se dá conta de que está sendo inconveniente.
- São adolescentes que descobrem superpoderes depois que os pais deles passam por experiências científicas e se juntam para salvar o mundo.
- Ah! – fala Joseph sem entender nada – Meninos! – ele fala mudando de assunto - independente do que aconteça hoje. Nós estamos muito orgulhosos de vocês.
Acenamos positivamente com a cabeça. O sinal toca e voltamos para a sala. No caminho chamo Roberta e falo:
- Rô! Eu queria conversar com você sobre o Élio.
- Ah, Migo! Eu prometi a ele que não falaria nada. Mas você vacilou feio viu – ela fala enquanto caminha. – olha, não se preocupa, ele ainda te ama. Espera a poeira baixar que vai voltar tudo ao normal.
Fala e entra na sala para a aula. Entro logo em seguida e sento no meu novo lugar, ao lado do Lucas. Olho para Élio que não me dá atenção. Acho difícil tudo voltar ao normal.
À tarde, Joseph chega ansioso na minha casa. Pergunta por Heitor, eu digo que ele está no trabalho e ele resolve esperar. Senta no sofá da sala e não para de mexer as pernas. Constantemente olha para a porta.
- Algum problema, Joseph? – pergunto já impaciente com essa situação.
- Não! Nenhum – ele responde. – é que o Heitor está com a resposta do diretor sobre o projeto da escola de futsal. E eu quero saber se ele vai permitir que a gente treine no ginásio.
- Mas se não for lá vai ser em outro lugar. Não é?
- Claro. Não vou desistir. Vai dar certo!
Ele fala mais para ele mesmo do que pra mim. Queria se convencer que ia terminar tudo bem. Heitor chega e Joseph levanta de um pulo e corre ao seu encontro. Heitor faz suspense, o que deixa Joseph mais angustiado.
- Tudo certo – fala meu irmão finalmente. – temos autorização para treinar na escola.
Joseph não cabe em si de alegria, está eufórico.
- Beleza, beleza - Ele tenta se acalmar. – e agora? O que faremos?
- Marcamos uma reunião com os pais e divulgamos – responde Heitor.
- Eu vou providenciar isso – Joseph fala e sai apressado.
Me arrumo e espero o Professor Aloysius, que não demora muito. Passamos na casa do Lucas, que também já estava nos esperando na portaria.
Chegamos ao Centro de Convenções, mesmo lugar da final do torneio de games que Lucas venceu e imagens daquele dia me vem à mente, mas tento afastar esses pensamentos. São 27 escolas na competição, mas só nove irão competir hoje. Daqui passarão três para a próxima fase.
Somos os primeiros da equipe a chegar. Nos bastidores, um barulho de adolescentes que são exatamente iguais a nós: ansiosos, preocupados e nervosos.
- Comam isso - Aloysius nos entrega duas barras de chocolates. - vai diminuir a ansiedade.
Thays chega com os outros alunos.
- Desculpem o atraso. Já fizeram o sorteio? O que vocês estão comendo? Joguem isso fora. Todo mundo estudou? Vocês tem que ficar calmo - ela parecia que estava ligada no 220.
Quando Lucas ouve ela mandar jogar o chocolate fora, coloca todo o seu na boca. E agora ele estava muito engraçado. O sorteio é realizado, nós participaremos da segunda bateria.
Yuri, o garoto do terceiro ano, vem até nós e pergunta:
- Vocês estudaram?
- Sim - eu respondo.
- Estou muito ansioso. Ano passado chegamos até a semifinal. Esse ano eu queria chegar à final.
- Isso é chocolate? - ele pergunta apontando para a minha mão.
- Sim. Quer um pouco?
- Não deixem a Professora Thays ver vocês comendo. Ela diz que a boca atrapalha o cérebro.
Ele tira um pedaço e coloca na boca rápido. Lucas olha pra mim com cara de quem não entendeu. Eu dou de ombros, tiro mais um pedaço, dou o resto para ele, e vejo desaparecer naquela boca que mais parecia um buraco negro devorador de chocolates.
- Você é o Lucas, não é? - Yuri fala apontando. Lucas só balança a cabeça afirmativamente.
- Aquela menina ali - ele aponta para uma aluna do segundo ano - está a fim de você.
Lucas se assusta e fica vermelho. Eu começo a rir dele. Yuri fica sem entender o que está acontecendo e continua esperando uma resposta. Professor Aloysius vem e fala:
- Vamos nos preparar meninos, entramos já.
Quando entramos no palco, tenho noção de quanta gente está presente. Quase todos os alunos das nove escolas estão ali. Tento encontrar nossa turma e vejo alguém de cabelo rosa pulando e balançando os braços. Todos estão ali ao seu lado: Guilherme, Roberta, Joseph, Heitor e até o Élio. Eles pulam e gritam nosso nome. Menos o Élio, que parece entediado.
Temos sorte, das dez perguntas sorteadas para nossa equipe, apenas duas eram do primeiro ano e nós acertamos as duas. Os outros também fazem as suas parte e somos classificados para a semifinal.
Nossos amigos nos esperam na saída. E já nos recebem com abraços e parabéns.
- Vocês são demais, gente - Roberta fala eufórica - eu sabia que não iam decepcionar.
- Professor Aloysius, podemos levar os meninos para casa? - Joseph pergunta.
- Bom, eles estão na minha responsabilidade, mas acho que posso confiar em vocês - ele fala depois olha para mim e Lucas e acrescenta – Parabéns, meninos e se cuidem.
Quando procuro Élio, ele já tem indo embora, os outros nos acompanham até em casa e cansado logo durmo.
No dia seguinte, começamos a divulgar a reunião da escolinha de futsal. Roberta conseguiu folders e nós distribuímos nas ruas próximas, na praça e nas escolas.
No dia da reunião, Joseph e Roberta são os primeiros a chegar. Organizamos tudo e esperamos. Alguns pais chegam, dois na verdade. Professor Aloysius chega logo depois. E após meia hora de espera há quatro pais e uma mãe. Aloysius não quer mais esperar e começa a reunião.
Ele, Heitor e Joseph apresentam o projeto, alguns pais tiram as dúvidas e todos concordam em permitir a participação de seus filhos. Eles parabenizam pela iniciativa e se colocam à disposição para ajudar.
Roberta, Joseph e eu organizamos a sala novamente, já que foi exigência da direção. Quando terminamos, encontramos Aloysius e Heitor conversando na saída.
- Vai ser muito difícil montar essa escola aqui - falou Aloysius. - Será que ele vai desistir?
- Nem pensar - falou Joseph quando nos aproximamos. - Tenho cinco crianças, já é um começo, outras virão quando começar.
- Não seria melhor você transferir para outro bairro? – pergunta Aloysius. - Um bairro que tenha mais apoio!
- Mas é por isso que vou ficar aqui. Por que eles não têm apoio. É aqui que eles precisam de mim. Sinto que é aqui que eu devo estar.
Todos nos entreolhamos admirando a determinação dele.
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