CAPÍTULO XXII - O AZUL DE LUCAS

Heitor me acorda cedo no dia seguinte. Nos preparamos e ficamos esperando os outros. Mamãe também levanta para nos ver sair.

- Vocês tomem cuidado - fala ela apreensiva enquanto prepara o café. – Páris, não tome banho em locais fundos, não vá correr com os outros e cuidado com esse gesso.

Devido ter quebrado o braço, devo ficar mais tempo com esse gesso, os médicos ficaram aliviados por não apresentar complicações maiores devido as pancadas na cabeça. Mas estou muito bem agora, com exceção de umas leves dores.

- Vão levando roupa de frio? E de calor? - novamente mamãe - colheres, pratos, escovas de dente, remédio?

- Está tudo nas mochilas, mãe, não precisa se preocupar - Heitor fala e depois dá um beijo em sua bochecha.

- Bom dia! - fala João Pedro entrando - trouxe a moto do velho. Se precisar, eu levo alguém.

- Estava mesmo pensando em pedir a do Seu Geraldo, mas já que vai levar a sua então está tranquilo.

Sr. Hyun traz Lucas, enquanto ele conversa com a mãe sobre a segurança do acampamento Lucas vem falar comigo.

- Você vai acampar durante todo o mês de férias? - eu pergunto ao ver ele se aproximando com uma mochila maior que ele.

- É só o essencial. - ele responde rindo - Fui o primeiro a chegar?

- Sim. Depois do nosso vizinho - respondo mostrando João Pedro.

- Ele vai? - pergunta Lucas franzindo as sobrancelhas.

- Não se preocupe, ele é legal. - respondo.

Ele ri como se não acreditasse, mas não se mostra muito feliz, afinal vai ser um estranho, que ele vai ter que interagir e isso é difícil para ele. Dona Margarida e Seu Alexandre, pais do Joseph, chegam com o filho e já vão conversar com os outros pais que já estavam ali. Parece até reunião de escola. Roberta e Guilherme vieram de Uber e Professor Aloysius chega de carro, um fiat toro vinho. Ele vinha em nossa direção, mas foi surpreendido pelos pais que estão fazendo uma lista interminável de recomendações.

Colocamos nossas mochilas na carroceria do carro e começamos a nos dividir já que só faltava o Élio.

- Quer ir comigo, Páris? – pergunta João Pedro já montado na moto.

- Nem pensar! – grita Heitor antes de mim – ele não vai poder se segurar firme com esse gesso. Ele vai no carro.

- Que pena! – João Pedro fala me encarando e pisca o olho esquerdo.

Até parece que, se eu pudesse ir de moto, eu iria com ele, com certeza ia com Élio.

Depois de algum tempo discutindo, eles chegaram a uma decisão: Guilherme, Roberta, Lucas e eu vamos no carro com o Aloysius. Heitor vai de moto com o João Pedro, e Joseph com o Élio que chega atrasado como sempre e morrendo de sono.

- Atrasado! - eu digo me aproximando.

- Não acordei com o despertador - ele fala me puxando pela cintura e dando um selinho - Minha mãe que me acordou.

- Salvo pela Dona Isabel - digo sorrindo - pensei que ela traria você...

- Bem que ela queria - ele fez cara de emburrado - eu comprei ela com duas ligações por dia.

- Vamos lá, crianças? - fala o professor Aloysius se aproximando. – Heitor, sua mãe quer falar com você antes de ir.

Entro no carro e fico olhando o Joseph subir na moto de Élio. Heitor sobe na garupa da moto do João Pedro e me olha com uma cara estranha. O que será que a mãe falou com ele? O Professor liga o carro e começa a viagem.

Depois de uma hora na rodovia e mais duas horas, aproximadamente, em uma estrada de terra, chegamos a uma clareira na mata. Onde há um terreno pertencente a um amigo da Roberta, que sempre autorizava ela a acampar. Ficamos embaixo de uma árvore enorme. Não se via sinal de população desde a última casa que vimos na estrada, há uns seis quilômetros. Os motoqueiros já estão lá, apesar dos gritos de Heitor, eles vieram tirando racha na estrada. O espaço é grande e verde e finaliza em um rio com águas transparente e muito frias. Do outro lado, algumas pedras enormes fazem a barreira do rio.

- Legal né! - Lucas fala se aproximando comendo um chocolate - Como está o braço?

- Normal – respondo enquanto pego seu chocolate e tiro um pedaço.

- Posso escrever no seu gesso? - ele tira outro chocolate do bolso e começa a comer.

- Claro – devolvo o chocolate e ele não aceita.

Ficamos admirando o local até Heitor dividir as tarefas. São quatro barracas no total: Roberta e Joseph trouxeram barracas que cabem duas pessoas; a do Élio e a do Aloysius cabem quatro. Como somos nove, não há problemas. Heitor monta a barraca da Roberta e cada um monta a sua. Eu e ela vamos esquentar o almoço enquanto João Pedro, Lucas e Guilherme vão pegar madeira para fazer uma fogueira à noite.

De onde estou vejo Élio chateado com sua tarefa, olho para Roberta e ela faz um sinal com a cabeça para eu ir ajudá-lo. Chego ao lado dele exatamente na hora que ele joga a lona no chão irritado e xingando. Coloco a mão no seu ombro e sorrio, ele sorri de volta e sinto ele relaxar. Ele me abraça e eu bagunço seu cabelo.

- Vem, vou ajudar você - digo trazendo de volta ao trabalho.

Com o manual nas mãos e olhando a montagem dos outros, vou dando as instruções e ele consegue montar. Deixo ele finalizando e vou ajudar Roberta.

- Ele está mais calmo? - ela pergunta quando me aproximo.

- Está sim! - respondo.

- Incrível como ele se acalma com a sua presença - ela me olha por cima dos óculos.

- Qualquer um de nós poderia ter feito ele relaxar.

- Ah, garoto! você não faz ideia do controle que tem sobre ele.

Roberta e Élio são melhores amigos. Eles conversam bastante e ela sabe muito sobre ele, sinto que ela também gosta de mim e torce para ficarmos juntos, pois no início ela ajudou de várias maneiras para que a gente se encontrasse e começasse a namorar.

Lucas chega com um feixe de lenha. Seu rosto está vermelho como uma pimenta.

- Acho melhor você usar protetor solar, daqui a pouco tá igual um camarão - diz Roberta já levantando e procurando o seu.

Lucas joga o feixe no local e senta ao meu lado.

- Não é do sol - ele fala baixinho - Não quero mais ir na mata com eles.

Vejo João Pedro e Guilherme saírem da mata e imagino o que aconteceu, mas depois vou tentar fazer o Lucas me contar. João Pedro traz um feixe de lenha e Guilherme, apenas uma tora.

Acampamento montado. Depois do almoço, Joseph nos convida para um futebol. Ele e Aloysius montam os times: Joseph, Heitor e Élio contra Aloysius, João Pedro e Guilherme. Roberta lê um livro deitada na rede. Lucas me convida para sentar na sombra da árvore.

- Quando você faz aniversário? - pergunta ele.

- Já passou. Foi em abril - respondo olhando para o jogo - e você?

Ele olha para o chão e pega um graveto.

- Amanhã! - ele responde riscando o chão.

Nunca me lembrei de perguntar sua data de nascimento. E agora meu melhor amigo vai aniversariar e eu nem tenho um presente. Me sinto péssimo.

Nesse momento João Pedro faz um gol. Para comemorar ele beija na ponta dos dedos e aponta para mim. Eu sorrio de volta.

- Você deveria ter avisado – continuo a conversa com o Lucas - Eu traria um presente. Mas não se preocupe, assim que voltarmos eu lhe dou um.

- Não precisa! Vir para esse acampamento já foi o presente do meu pai. Ele quase não deixava, mas eu queria muito, é a primeira vez que saio com amigos. Vocês são os primeiros amigos que tenho... – ele fala com a cabeça baixa. – Mas...tem uma coisa que eu aceito de presente se você quiser... - ele me olha com os olhos brilhando.

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