CAPÍTULO XX - O SONHO DE PÁLIO

Acordo e olho para o teto, então percebo que esse não é o meu quarto. Lá fora está escuro, parece noite. Meu pescoço e um dos braços estão imobilizados. Não consigo mexer, mas estou sentindo-os. Isso é um bom sinal. Viro a cabeça devagar e, com muito esforço, vejo um monitor cardíaco e percebo que estou num hospital. Tento levantar a cabeça e vejo na extremidade da cama uma pequena poltrona branca com alguém dormindo. Parece Élio. Tento chamar seu nome, mas não consigo. Vem um torpor e acabo adormecendo.

Acordo novamente e, dessa vez, a luz do sol entra pela janela e clareia o ambiente. Ouço barulhos de pessoas fora do quarto. Tento levantar a cabeça e olhar para o sofá, mas não vejo ninguém nele. Fico confuso se estava mesmo acordado ou foi apenas um sonho. Uma enfermeira alta, magra, com olhos grandes abre a porta sorridente e fala:

- Finalmente acordou! Já estavam todos preocupados com você. Como se sente?

- Como se tivesse sido atropelado por um trator - respondo.

Ela verifica os aparelhos e vai saindo.

- Moça! - chamo constrangido por não saber o seu nome.

Ela para ainda com a porta aberta e olha.

- Ontem à noite havia alguém dormindo aqui no quarto? - pergunto para tirar a dúvida.

Ela sorri e responde:

- Sim. Na verdade todas as noites. Não conseguimos mantê-lo longe desde que você deu entrada aqui. Ele deve ter ido ao banheiro ou comer alguma coisa, mas deve estar voltando. Vai ficar muito feliz de lhe ver acordado mas garanto que vai ficar triste por não ter presenciado. Você tem ótimos amigos.

Ela dá uma piscadinha e sai fechando a porta atrás de si.

De repente a porta abre devagar e vejo Élio entrar com uma garrafa de água. Ele está mais magro, abatido e seu cabelo parece mais bagunçado que o normal, entra com a cabeça baixa e só então olha e me vê. Assusta-se e derruba a garrafa, então corre para a cama sorrindo. Parece que a enfermeira não contou que eu acordei.

- Lobinho! Você acordou! - ele para na minha frente radiante.

Nunca fiquei tão feliz de ouvir essa palavra. Seu sorriso continua lindo; aquelas sardas que amo e aquele olho que me atrai tanto estava brilhando. Noto que ele não sabe o que fazer. Com a mão que consigo eu toco no seu rosto, ele fecha os olhos e põe sua mão sobre a minha.

- Fiquei tão preocupado - ele fala ainda de olhos fechados - achei que não ia acordar.

- Quanto tempo passei assim? - pergunto. Estou na dúvida entre um ou dois dias.

- Dez dias - ele responde.

Dez dias!? Penso surpreso.

- E quantos desses dias você dormiu na poltrona? - pergunto curioso.

- Todos eles - ele responde coçando a cabeça – no começo foi desconfortável mas agora já acostumei. Você pensava que ia se livrar de mim assim tão fácil?

Ele parece aliviado por me ver bem. Recebo a visita do médico e, em seguida, os enfermeiros tiram os objetos que me prendem os movimentos, já consigo me mover livremente e até sentar na cama. Meu braço esquerdo permanece com gesso. Da poltrona ele acompanha tudo atento.

Após a saída dos médicos, conversamos sobre o que aconteceu nesses dez dias. Percebo que ele está se esforçando para me fazer rir. Ouvimos batidas na porta e entra Lucas. Tive que me segurar para não rir de como engraçado ele estava. Usava tênis, calça, camisa, jaqueta, luvas, máscara na boca, óculos e um gorro na cabeça.

- Vai passar em alguma área contaminada? - Pergunta Élio rindo.

- É que meu pai é meio paranoico com hospital - fala Lucas se livrando da maioria das coisas e colocando na poltrona - Se você precisar ir em casa. Eu vou passar a tarde aqui.

- Estou mesmo precisando de um banho – concorda Élio - E você se cuide, eu volto logo.

Élio pega uma mochila do armário e sai.

- Acho que ele está há dez dias sem tomar banho - comenta Lucas - ele não sai daqui, sempre que eu vinha encontrava ele.

Rimos um pouco do Élio e eu pergunto:

- Como você está?

- Estou bem, acho que estou traumatizado, mas estou bem - ele responde sorrindo.

- O que aconteceu? - pergunto - quer dizer, lembro de como começou, mas teve uma hora que não lembro de mais nada.

- Ele estava te batendo - ele caminha até a janela e continua - tinha dois homens me segurando e por mais que eu tentasse eu não conseguia me soltar. Ele deu uma joelhada em você, que caiu e ficou parado. Entrei em desespero pensando que... - ele para um pouco para enxugar uma lágrima - Mas alguém gritou "Deixe essas crianças em paz". Era um senhor. Ele estava com uns cinco ou seis homens, talvez mais que isso. Mas eram todos altos e fortes. Eles correram para nos proteger. Os caras que me prendiam tiveram que me soltar para se defender. Corri até você e senti um alívio quando percebi que estava respirando.

- Eu vi você. Sua boca mexia, mas eu não conseguia ouvir – falo enquanto ele olhava para mim - O que você disse?

Ele coça atrás da cabeça.

- Eu disse?! - ele olha através da janela - nem lembro mais o que eu disse – ele dá uma pausa com o olhar perdido pela janela - O senhor ligou para um hospital, enquanto os homens do Vilmar fugiam. Esperamos a ambulância e ele exigiu que trouxessem você para cá. Ele pagaria todas as despesas.

- E você? – pergunto - ficou tudo bem?

- Apenas umas marcas nos braços, onde eles me seguravam – ele se aproxima da cama - Me deixaram vir na ambulância com você, e ainda no caminho liguei para seu irmão e avisei para onde estávamos vindo. Fiquei com sua família aqui até recebermos as primeiras notícias e Heitor me levou pra sua casa. A propósito, eu dormir na sua cama.

- Não tem problema, eu já dormi na sua.

Rimos e conversamos sobre outras coisas, por exemplo como o pai dele ficou contente por ele ganhar o torneio, Joseph e Roberta estarem ficando e outras besteiras que conversamos sempre.

Nos dias seguintes todos vêm me visitar. Élio passa o dia, jogamos no tabuleiro, ouvimos músicas, assistimos. Lucas vem toda tarde, conversamos bastante. Ele sempre tinha algo para contar e me animar, além de estudarmos para as provas, que já estão se aproximando. Minha mãe e Heitor também vêm todo dia. Ela denunciou Vilmar na delegacia e ele está preso. O Senhor Geraldo fez questão de pagar as despesas do hospital e se recusa a receber reembolso.

Roberta e Guilherme trazem a notícia que Lucas e eu tínhamos passado na seleção e agora fazemos parte da Equipe CEMA. As batalhas acontecerão após as férias.

O diretor permite que eu faça as provas de fim de período no hospital, então durante a semana de provas um funcionário traz para que eu responda a avaliação.

Alguns dias depois recebo alta e finalmente posso ir para casa. Um amigo do Senhor Geraldo vem me buscar, por que tem o carro mais confortável. O mesmo senhor negro que eu havia visto uma vez no mercadinho. Heitor e Élio também vêm, sinto falta do Lucas, mando mensagem, mas ele não responde. Minha mãe fica arrumando a casa para me receber.

Quando chegamos, Heitor e Élio me ajudam a sair do carro e a chegar até a casa. Quando abro a porta assusto-me com um grito. Eles fizeram uma festa surpresa de boas-vindas, com o tema "Festas Juninas" porque é junho. Estão todos aqui. Roberta, Guilherme, Lucas, Joseph, minha mãe, Helena, Heitor e Élio, que me trouxeram, Sr. Geraldo também está, até o Professor Aloysius. Tinna aparece depois com Analu.

A festa está animada. Briguei com o Lucas por não me avisar, mas o perdoo depois que o Guilherme diz que escondeu o celular dele para não avisar.

Nos divertimos bastante. Élio, Tina e Analu cantam em um karaokê, Guilherme e Roberta dançam. Até Heitor e Professor Aloysius se arriscam na pista de dança improvisada. Minha mãe só ri das brincadeiras. Acho que ela nunca viu a sua casa tão animada e movimentada.

Eu estou rindo do Lucas fazendo a sua dancinha quando Guilherme me chama para conversar. Lucas, é claro, vem junto.

- Joseph, Roberta e eu vamos acampar nas férias, e convidamos os meninos para ir com a gente. Não convidamos você devido ao seu braço. Mas alguns deles só vão se você for...

- Quem? - interrompo ele curioso.

- Seu irmão, o Lucas e o Élio - ele responde fazendo careta para o Lucas.

Olho para o Lucas.

- Que foi? Sem você não tem graça. – ele fala dando de ombros.

- Eu queria saber se você queria ir. Faz um esforço, a gente cuida de você. Por favor - ele fala juntando as mãos no peito.

- Tá. Se a mãe deixar eu vou - respondo –Vai ser legal uma diversão depois de tudo.

- Obrigado! - ele dá pulinhos de alegria, me abraça e dá um beijo na bochecha - Vou avisar os outros.

Guilherme sai, olho novamente para o Lucas.

- Agora eu vou - ele fala levantando as sobrancelhas e sorrindo.

Coloco o braço bom por cima do ombro e o puxo para perto de mim, encostando minha cabeça na dele.

- Desculpe interromper essa "brotheragem", mas Lucas, você pode me emprestar meu namorado por favor? - diz Élio se aproximando.

Lucas dá um sorriso sem graça e volta pra festa.

- Queria ficar a sós com você. - Élio fala no meu ouvido enquanto me abraça.

- Podemos ir para o quarto da mãe. Ninguém vai entrar. E ela só vai lá quando terminar a festa.

Vamos para o quarto tentando não ser vistos. Abro a porta e entramos sem fazer barulho. Vejo Heitor e Guilherme sentados na cama com o rosto bem próximo. Parece que vão se beijar. Me viro para sair em silêncio e não atrapalhar quando ouço:

- CARACA! - Élio parado, com cara de susto olhando para eles.

Eles param imediatamente. Abro a porta e saio puxando Élio para fora. Levo-o para o meu quarto.

- Você viu aquilo? - ele pergunta ainda assustado.

- Sim. Mas você não vai falar nada. - falei em tom de ameaça.

- Claro que não, não sou X9 - ele tira a jaqueta e deita na minha cama.

Fico olhando-o ele deitado, parece um sonho. Ele me chama e deito com cuidado devido ao braço. Coloco a cabeça em seu peito e ele fica mexendo no meu cabelo. Ficamos em silêncio, apenas curtindo a presença do outro. Eu consigo ouvir as batidas do seu coração, acompanhar sua respiração e sinto seu cheiro doce e amadeirado.

Aos poucos sinto seu corpo relaxar e percebo que ele adormeceu. Deve estar cansado depois de tanto tempo cuidando de mim. Ouço um barulho na porta e finjo estar dormindo. Minha mãe entra e olha para nós. Espero ela me acordar, mas isso não acontece, ela pega o lençol, coloca, apaga a luz e sai sem fazer barulho. E ficamos ali, ele sonhando com os anjos e eu sonhando com ele.

NOTA DO AUTOR

Finalizamos a segunda parte e chegamos à metade de nossa história, espero que esteja gostando e continue acompanhando Páris e sua turma.

Lembrando você de colocar a estrelinha em cada capítulo, é muito importante para aumentar a visibilidade do livro e fazê-lo chegar à mais leitores. Pode comentar à vontade, estarei sempre interagindo com vocês, e adoro ler e acompanhar seus comentários.

Muito obrigado por chegar até aqui, e se quiserem continuar a experiência além do livro me visitem no Instagram cearense sonhador.

Vejo você na parte 3, beijos e até lá.

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