CAPÍTULO XVIII - A OUSADIA DE GUILHERME
Chego em casa triste, pelo que está acontecendo na escola. Helena está chorando e Heitor tentando consolar.
- O que aconteceu? - pergunto.
Helena chora mais alto e sai correndo para o quarto, não antes de bater e trancar a porta.
- Mamãe expulsou o pai dela de casa - fala Heitor.
Não consigo esconder minha alegria, sei que minha irmãzinha está sofrendo, mas essa é a melhor notícia que eu poderia receber na minha vida, finalmente me livrei daquele pesadelo. Vou para o quarto radiante e passo a tarde estudando, pois amanhã é a prova de seleção para montar a equipe que vai representar a escola na competição de conhecimento.
No dia seguinte, acordo com uma mensagem do Lucas:
"É hoje o grande dia. Preparado?"
"Vamo com tudo!" – respondi.
Quando chego à escola é a mesma coisa: eles me olham e riem, Joseph e Lucas me esperam na porta da escola e vamos juntos até o ginásio. No caminho encontramos Élio saindo da sala do diretor com seu pai. Eles se despedem e Élio vem ao nosso encontro. Vamos juntos para a aula de Educação Física.
- Tudo bem com vocês? – Joseph parecia preocupado.
Élio ri alto e faz que sim com a cabeça.
- Na medida do possível... – respondo ainda admirado com a reação do Élio.
O novo professor de Educação Física chama-se Aloysius. Ele cumprimenta Lucas e pergunta se está tudo bem comigo e Élio. Respondo que sim e peço para não participar da aula de hoje. Preciso revisar a prova que acontecerá após a aula. Ele concorda e deseja boa sorte. Lucas, claro, vem comigo!
Estamos estudando na arquibancada enquanto a aula acontece no ginásio e, de repente, Élio dá um murro em um colega. Não entendo o que aconteceu. Só vejo os meninos separando a briga e o professor mandando-o para o vestiário. Ele sai bastante chateado e fico na dúvida se vou atrás dele, mas decido ficar e continuar os estudos.
A aula termina e Joseph vem até nós.
- Esquentado esse seu namorado hein? – brinca enquanto pega uma garrafa d'água.
- O que aconteceu? – pergunto curioso.
- Não sei. Quando vi ele já estava brigando.
- Ah. Não vai mesmo fazer a prova? – tento mudar de assunto.
- Não é do meu interesse no momento, tenho outros planos que não incluem estudar em uma escola de playboyzinhos mimados - fala Joseph enquanto tira a camiseta. - Você vai ajudar com aquele projeto da escolinha?
- Sim. Falei com Heitor e ele vai entrar em contato com algumas pessoas da comunidade.
- Bom dia, meninos! - fala o professor se aproximando - desculpe mas... eu ouvi projeto, escolinha e comunidade?
Joseph conta para ele sobre seu projeto e ele gosta muito da ideia e se prontifica a ajudar. Dava para ver a cara de felicidade do Joseph.
- Vocês vão fazer a prova de seleção? - Aloysius aponta para Lucas e eu.
- Sim, vamos. - respondi.
- Boa sorte! O CEU é uma excelente escola. Bom! Tenho que ir, e você - ele aponta para mim. – seja forte, tente manter a cabeça fria. A sua e a do seu amigo, e se precisarem, sabem onde me encontrar.
- Gostei desse professor - fala Joseph olhando o professor Aloysius se afastar.
Recebo uma mensagem no celular:
"Boa sorte, relaxe, vai dar tudo certo." Heitor.
Encontramos Roberta e Guilherme na porta da sala para a prova e entramos juntos. Duas horas depois de certezas, "quase certeza", dúvidas e "eu não sei mais o que estou fazendo" sou o segundo do grupo a sair e vejo Élio, Joseph e Roberta no refeitório. Vou até eles.
- Tudo bem com você? – pergunto ao me aproximar do Élio.
- Tudo ótimo. E com você?
- Tudo bem. Vou esperar o Lucas no corredor de sempre - eu falo já me afastando.
- Hoje não. Você vai ficar aqui com seus amigos - Roberta fala, pega minha mão e me traz de volta até a mesa, ao lado do Élio.
De todos os dias que ela poderia ter feito isso, hoje é o menos indicado. Todos ali nos olham, apontam e riem, me sinto um animal em um circo, Joseph vê Lucas passando e vai buscá-lo, não sem alguma resistência antes de vir. Eu o entendo também quero estar em qualquer outro lugar do planeta, menos ali.
Vejo Guilherme andando em nossa direção, como ele consegue!? Todos apontam para ele e riem. Então ele coloca a mão na cintura e passa a não mais andar, e sim desfilar, enquanto eu sou um animal acuado pelos olhos dos outros, ele é um pavão que quanto mais olham mais ele se exibe, e mais bonito fica. Percebo em sua mão um microfone sem fio, que não tinha visto antes. Ele chega em nossa mesa e não senta, mas sobe sobre ela com a ajuda dos meninos, tira a farda e mostra uma camiseta branca com apenas uma palavra com letras garrafais: GAY. Ele começa a falar:
- Eu estou aqui para dizer que eu sou gay, não que vocês já não saibam, mas pra mostrar que tenho orgulho que ser assim, por que é quem eu sou. E eu não vou fingir ser alguém apenas para agradar outras pessoas que não tem a coragem que eu tenho de ser verdadeiro e vivem a sua mentira. E se você considerar isso um defeito, apontem agora uma pessoa que não tenha defeitos, mostre-me agora alguém que seja perfeito. Não! Vocês não vão encontrar. Por que no fundo vocês sabem que são mais errados do que eu e apenas escondem os erros de vocês. Eu posso até ter alguns erros, mas ser gay não é um deles, é a minha essência e eu garanto a vocês que eu sou mais feliz do que a pessoa que criou esse perfil "fake" pra falar mal dos meus amigos. Não é erro, não é defeito, não é imperfeição, é quem a gente é, e nós somos felizes assim. E quem não concorda com isso. Apenas aceite.
Roberta levanta, tira a farda e mostra sua blusa escrita "GORDA". Joseph está com a palavra "BURRO". Olho pra o Lucas que balança a cabeça negativamente. Não resisto e vou abraçá-lo, ouço alguém aplaudindo. É o Professor Aloysius, logo alguns professores e alguns alunos se juntam a ele. Pouco tempo depois, a maioria está aplaudindo. Uma menina do terceiro ano me abraça e depois mais um, e são vários. Vejo as pessoas cumprimentando e parabenizando a todos. É surreal.
Estávamos ansiosos pelo resultado de quem ia compor a equipe para a competição de conhecimentos, mas hoje temos que nos concentrar em outro torneio, o de games, do qual Lucas vai participar.
- Posso te pedir uma coisa? – fala ele na despedida.
- Claro Lucas! Pede aí.
- Você pode ir ao torneio comigo?
- Eu não perderia por nada. - respondo sorrindo.
- E você... - ele hesita um pouco – pode dormir lá em casa hoje. É que o torneio vai terminar tarde, e meu pai tá viajando. Eu não queria ir pra casa só.
- Não vou poder, Lucas - falo triste - Heitor vai dormir fora, não quero deixar minha mãe sozinha, mas por que não dorme lá em casa? Seu pai tá viajando mesmo, e a mãe não vai se incomodar.
- Tem certeza que não tem problema? Não quero incomodar - pergunta ele receoso.
- Claro que não! - respondo animado – você nunca incomoda e vai ser fantástico.
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