CAPÍTULO XI - O SEGREDO DE PÁRIS

     Acordo sem o barulho do despertador. Estranho um pouco, então lembro que hoje é Domingo de Páscoa.

Já faz alguns dias desde que Élio e eu nos beijamos. Tornaram-se dias maravilhosos. Estamos mais próximos, já consigo conversar com ele normalmente e ele é muito carinhoso, mas não estamos namorando. É melhor ir devagar.

Lembro que tenho que levantar. Olho pra cama do Heitor e está vazia. Ele deve ter acordado antes de mim e está com a mãe. Hoje é o dia de folga dela, e combinamos de aproveitá-lo.

Levanto e vou me arrastando para o banheiro quando vejo um presente em cima da mesa de estudos de Heitor. Me aproximo para ver mais de perto e vejo meu nome no pacote. É um presente para mim! Rasgo desesperadamente o pacote já suspeitando do seu conteúdo e meu coração quase para quando confirmo. É um celular, meu primeiro celular. Ainda com o produto na mão, corro para a cozinha. Heitor está na mesa e minha mãe no fogão preparando o almoço de Páscoa. Dou o abraço mais apertado que consigo nela e a encho de beijos. Ela ri gostosamente.

- Tem que agradecer ao seu irmão também, ele ajudou a pagar. - Ela fala ainda mexendo a panela.

Vou até ele, e dou um abraço apertado.

- Obrigado, maninho - digo enchendo-o de beijos - Você é o melhor irmão do mundo, do mundo não, da galáxia!

Eles riem.

- Seu Geraldo me deu um adiantamento e disse que posso ir pagando aos poucos. - disse Heitor sorridente.

Deixo o presente em cima da mesa e corro para o banheiro.

Escovo os dentes enquanto lembro de Guilherme. Ele foi passear com a família, foram passar a Páscoa com seus avós numa fazenda. Deve estar sendo horrível para ele. Não deixo de soltar um sorriso. Ele está sendo muito legal comigo, me deu conselhos e ajudou a entender melhor esse sentimento por Élio. Adoro sua alegria contagiante e o fato de confiar que tudo vai dar certo.

Volto para a cozinha, encontro Heitor de short jeans, sem camisa, de avental, cortando verduras. Ao me ver chegando, ele fala:

- Vamos lá bonitão, ajudar no almoço de Páscoa?

- Vou sim. - eu respondo. - Só preciso baixar uns aplicativos no meu celular.

Deixo baixando o Whatsapp, Facebook e Messenger. Coloco o celular de volta na mesa e vou ajudar Heitor com o almoço, enquanto isso ficamos conversando; eu, ele e a mãe que da mesa olhava e ria de nossas brincadeiras com Helena, que tinha acabado de acordar. Vilmar havia saído e ainda não voltara.

Mamãe tinha certas tradições em família. Algumas, ela trouxe da sua, outras ela criou para nos unir mais. O almoço de Páscoa é um exemplo disso. Todo ano nos reunimos, rezamos e almoçamos.

Aproveito que o almoço está bem adiantado para verificar o celular. Com o Whatsapp instalado, já posso mandar uma mensagem para Élio e Lucas.

"El, ganhei um celular da minha mãe. Esse é o número. Quando puder mande mensagem, quero conversar com ela sobre a gente hoje, estou nervoso. Páris" - mandei para Élio.

Agora vou mandar para o Lucas. Ele é um ótimo amigo e consegue me tranquilizar com seu jeito brincalhão. Quando soube do meu beijo com o Élio, ficou um dia esquisito, mas depois voltou ao normal.

"Oi gostosão!" - digito e envio para ele.

"Quem é?" - ele responde de volta. Viciado, não larga o celular.

"Um admirador secreto " – resolvo zuá-lo.

Fico esperando-o responder, rindo por dentro. Deve estar louco pensando quem poderia ser. Alguns minutos depois recebo a mensagem:

"Páris. Ñ teve graça👊💥."

Como ele descobriu tão rápido? Ou ele deve estar jogando comigo. Vou continuar o jogo.

"Ñ sei quem é Páris. Aqui é um admirador secreto" - digito e espero a resposta.

"E o q vc tá fazendo na casa dele?🤔 Devo chamar a polícia?"

"Como descobriu que era eu?" – digito chateado.

"Vc tá com o localizador do cel ligado, assim fica fácil, nem suei. Ganhou um cel?"

"Seu hacker. Sim ganhei um cel😍 salve aí meu número"

" Tá salvo, dps me deixe ver o cel, quero ver as configurações dele"

"Ok. Amanhã levo pra a aula"

Eu deveria tê-lo convidado para almoçar aqui em casa, já que a família dele não comemora a Páscoa, mas não sei se minha mãe gostaria e também não sei se ele viria, pois ele é meio calado com desconhecidos.

Ajudo Helena a organizar a mesa e vou para o quarto. Heitor está no banho, ouço Vilmar chegar e sentar no sofá. Deito na cama, pego o celular e vejo uma mensagem:

"Menino, está de celular novo e nem avisa a gente🤨"- Mensagem da Roberta.

" Literalmente acabei de ganhar, como vc já descobriu?"

"Lucas mandou uma mensagem no grupo. Arrasou! agora posso conversar com vc e saber tds os babados!"

"Verdade. vou tomar banho. Tenho almoço em família, depois conversamos."

"Tá certo lindo, boa sorte no almoço."

Gosto muito da Roberta, ainda mais depois que descobri tudo o que ela fez para me aproximar de Élio. Ela gosta muito da gente, e dá ótimos conselhos. Élio também gosta bastante dela e eles conversam sempre.

Tomo banho e vou para o almoço em família da Dona Lúcia. Vilmar está na cabeceira da mesa com mãe e Helena à sua direita; Heitor à sua esquerda e eu sento ao lado de Heitor, do meu lugar posso sentir o cheiro de álcool que emana dele.

A mãe faz uma oração falando que devemos aproveitar a Páscoa para recomeçar nossas vidas e eu só lembro o quanto eu quero um recomeço para a minha. Depois começamos a comer. No meio da refeição, Vilmar pergunta:

- Vai ter um torneio de futebol na quadra com a comunidade, tu vai jogar?

- Pode ser. - responde Heitor.

- E tu, Páris? - Vilmar me pergunta diretamente.

Olho para a mãe, pedindo ajuda.

- Esse é meu domingo de folga. Queria passar o dia com os meus filhos. - minha mãe me salva mais uma vez.

- Tu pode ir assistir - responde Vilmar - São dois homens, tem que fazer coisa de homem e não ficar em casa boiolando.

- Deixa disso, Vilmar - fala a mãe calmamente - eles fazem o que eles quiserem.

- Tu é mão frouxa demais com esses meninos. Depois vai se arrepender! - Vilmar fala em tom de ameaça.

A mãe não responde e leva a conversa para outros assuntos e o fim do almoço corre normalmente.

À tarde, Vilmar e Heitor vão para o futebol; minha mãe o convenceu a não me levar. Helena vai brincar na casa da amiga, então acho a hora perfeita para ter uma conversa com minha mãe.

Ela está no quarto lendo "O Morro dos Ventos Uivantes". Paro na porta. Meu coração parece que vai sair pela boca.

- Mãe, queria conversar com você - falo da porta.

- Oi, meu filho - ela diz fechando e colocando o livro na mesinha. - senta aqui, vamos conversar.

Sento na cama ao seu lado, não sei como iniciar, seguro o choro e a vontade de sair correndo.

- Aconteceu alguma coisa na escola, meu filho? - ela começa.

- Não, mãe! É que essas últimas semanas venho fazendo coisas que você não sabe.

Ela para apreensiva e me olha. Seu olhar penetra no meu e vai até minha alma.

- Não é nada de errado - alerto logo - quer dizer, eu acho que não.

Coço a cabeça sem saber o que falar; minhas mãos estão suadas. Eu estou tremendo.

- Mãe é que...- tento novamente - Eu sou diferente dos outros garotos.

- Como assim diferente?

- Tenho sentimentos estranhos, por meninos, na verdade por um menino em especial, mãe eu acho que...

Paro no meio da frase. Não consigo verbalizar. Minha garganta tranca; meus olhos ardem; minhas mãos tremem.

- Páris, você é gay! - ela fala rapidamente.

Aquilo me pegou de surpresa, não sei o que falar, o que pensar, como agir. Olho para ela sem reação. Ela me abraça tão gostoso e aconchegante.

- Você já sabia? - pergunto assustado.

- Sempre desconfiei - ela fala - o seu jeito de falar, de agir, o jeito como olhava para os meninos, o jeito que olhava para as meninas, sua proximidade com o João Pedro e o quanto ficou triste quando ele partiu, mas teve um dia que eu tive certeza.

Olhei para ela assustado.

- O dia que você beijou aquele colega de sala na frente da nossa casa. - ela conclui.

Fiquei num misto de vergonha e alegria.

- Mas, se você já sabia, por que não falou nada? – pergunto.

- Por que eu não tinha esse direito. É uma coisa sua, eu não podia intervir - ela responde. – Eu sabia que um dia você ia me falar, no seu tempo, sem pressão. Eu conheço você.

Abracei-a novamente, não sabia o que fazer, mas dessa vez de felicidade.

- E não tem problema eu ser... assim? - pergunto.

- Você é meu filho, eu te amo e não importa o que aconteça, não importa o que faça. Se fizer algo errado vai ficar de castigo, mas eu ainda vou te amar. Não importa como seja, com quem namore ou o que vai fazer. Mas eu tenho medo, medo que possa sofrer, medo que possam te machucar, medo pelo que as pessoas más irão fazer com você.

Seus olhos começaram a lacrimejar, nos abraçamos demoradamente.

- Mas tem muita coisa que quero saber - ela disse me soltando - como é esse garoto? Ele é legal? Você gosta dele?

Começamos a conversar sobre isso. Nunca me senti tão feliz. A pessoa que mais importava pra mim no mundo disse que estava tudo bem. Já estava escurecendo quando ouço uma notificação no meu celular. Olho a tela e vejo uma mensagem:

"Lobinho, desculpe a demora, Vi sua mensagem agora, fico feliz que chegou ao mundo moderno, agora posso passar mais tempo com você". - era de Élio.

"Tenho uma coisa para lhe contar" – digito rápido.

"Por quê não vem aqui fora e fala pessoalmente? 😉"

Corro para a porta e quando abro o vejo escorado na moto ainda com o celular na mão. 

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