CAPITULO X - PÁLIO
Estou me vestindo quando Heitor chega do trabalho.
- Vai sair maninho? - pergunta ele estranhando.
- Sim. Vou estudar na casa do Élio.
- Se quiser posso pedir a moto do Seu Geraldo e te levo.
- Não precisa, ele vem me pegar.
- Tudo bem. Mas leve meu celular. Qualquer coisa ligue pra mãe.
- Tá certo!
Guardo o celular na mochila e vou para a sala. Heitor vai para o banho. Olho para o relógio na parede, são 5:40 horas. Pouco tempo depois, vejo Heitor passar de toalha para o quarto. Faltam 10 minutos para as 6 horas, mas Élio sempre atrasa na escola. Duvido que seja pontual hoje.
Às 6 horas em ponto, ouço o barulho da moto e a buzina. Vou ao quarto, pego a mochila e saio.
- Pontual! Que milagre! - falo tentando sorrir.
- Boa noite pra você também, menino-lobo - ele responde sorrindo - Digamos que eu não tive motivos pra atrasar.
Ele me entrega o capacete de passageiro e enquanto eu tento colocar, ele fala:
- Tem uma coisa que você deve saber.
Ainda tentando afivelar o capacete, olho pra ele curioso.
- Sobre minha família - ele continua. - Eles são um pouco estranhos. E você não deve acreditar em tudo o que eles disserem. Eles gostam de me zuar.
- Tudo bem. - digo tentando prender a fivela do capacete.
- Vem cá - ele chama e se aproxima para afivelar o capacete.
Por um instante, nossos rostos ficam próximos. Seu cheiro penetra no meu nariz e me entorpece, me imagino em seus braços flutuando em uma realidade que só existe nós dois.
- Pronto! Está seguro agora – Ele fala enquanto se afasta, me tirando do transe.
Já estou pronto para subir na garupa da moto quando ouço um grito vindo de dentro da casa.
- Esperem - ouço a voz do Heitor.
Ele vem em nossa direção.
- Você esqueceu o celular no quarto. - ele fala sorrindo.
- Não esqueci não. - respondo abrindo a mochila. - ele está bem aqui...
Não encontro o celular, posso jurar que tinha guardado ele na mochila.
- Vá lá pegar! - Heitor fala e me olha com um sorriso.
Entro e vou para o quarto. O celular está em cima da cama dele, não lembro de ter colocado lá. Heitor deveria ter levado pra mim, me pouparia esse tempo. Guardo o celular na mochila e volto. Élio está com cara de assustado e Heitor está com um leve sorriso. Subo na moto e vamos embora.
A casa de Élio parece uma mansão. Entramos pelo portão que dá acesso à garagem, onde tem um belo carro. Passamos por um jardim e chegamos à casa amarela, alta e cheia de janelas. Por dentro é enorme, só aquela sala cabe minha casa inteira. Há uma garota sentada no sofá branco, assistindo à TV que parece um telão de cinema. Quando me vê, ela pausa o vídeo e vem em minha direção.
Alta, cabelos pretos na altura dos seios, um corpo escultural, ela se aproxima e fala:
- Amigo novo? Nunca lhe vi por aqui!
- A-acho que sim, eu sou Páris – falo gaguejando e pegando na mão que ela estendeu.
- Ah! então você é o famoso Páris. - fala ela sorrindo - muito prazer, eu sou a Aline, irmã do Élio.
- Vamos, Páris - chama Élio - temos muito o que estudar – ele segura minha mão e puxa, aceno com a mão para Aline e dou um sorriso sem graça.
O quarto de Élio é incrível, as paredes negras com cartazes de bandas e instrumentos musicais, uma cama de solteiro no meio com lençóis azuis. Em um canto, uma bateria e instrumentos de cordas; do lado contrário, um computador e uma mesa com livros. Sob a mesa um porta-retrato com uma foto nossa. Lembro que a tiramos no dia do trabalho de Biologia. Mostro a foto para ele.
- Ah! Gosto muito dessa foto - ele fala tirando a jaqueta - tiramos no dia do trabalho de Biologia. Foi a primeira nota dez que tirei desde... Sei lá, desde muito tempo.
Sento na mesa e pego meu caderno na mochila.
- Pelas minhas contas - eu falo enquanto olho minhas anotações - Você tem que fazer tarefa de Matemática, Biologia, História e Inglês.
- Já fiz o de Matemática, Inglês e História - ele fala sentando na cama - falta só metade do de Biologia.
- Falta pouco, eu poderia ter lhe ajudado depois da aula, na escola.
- Precisava que você viesse aqui, tenho algo importante para lhe mostrar.
- O que é? - Pergunto já cheio de curiosidade.
- Calma, curioso, primeiro vamos terminar a tarefa.
Ele puxa uma cadeira e senta ao meu lado, mesmo havendo espaço na mesa. Ele senta tão próximo que nossos joelhos se tocam. Nesse instante, sinto uma corrente de energia, um calor, um formigamento quando nossas pernas se tocam.
Começo a ajudá-lo com a tarefa. Apesar dele saber quase todas as questões, começo a me sentir inútil. De repente sem tirar os olhos do caderno, ele pergunta:
- Você namora?
Fico surpreso com a pergunta tão repentina.
- Não - respondo rápido.
- Por quê? - ele continua respondendo a tarefa sem olhar para mim.
- Ainda não encontrei a pessoa certa.
Ele ri e depois fala:
- Você é romântico!
- Algum problema nisso? - pergunto
- Nenhum. É até fofo.
Nesse momento a porta do quarto se abre, aparece uma senhora na porta, vestida elegantemente, cabelo ruivo, bem penteado, aparentando ter uns 45 anos. Ela olha pra mim e sorri, como se me conhecesse.
- Então você é o famoso Páris? - ela vem em minha direção com a mão estendida - que bom que veio. Vai passar a noite aqui? Élio, você preparou o quarto de hóspede?
- Não precisa, mãe - responde Élio sem parar a tarefa - vou deixá-lo em casa.
Afirmo que sim com a cabeça.
- Que pena, pelo menos nos acompanha no jantar? - Ela insiste.
Olho para o Élio sem jeito, pedindo ajuda.
- Não vai dá, mãe, temos muita tarefa para fazer. - ele responde parando de escrever e finalmente olhando para ela.
- É uma pena - ela fala - vou mandar trazer um lanche para vocês. A propósito, eu sou Isabel, a mãe do Élio. E venha sempre que quiser, será sempre muito bem-vindo!
Ela sai e fecha a porta, percebo que é a segunda vez que me chamam de "famoso Páris", olho para o Élio sem entender e finalmente pergunto:
- Por que todos nessa casa estão me tratando como se me conhecessem?
- Não sei! - ele fala enquanto sorri, depois volta a responder a tarefa.
- E você? - tento continuar o assunto - tem namorada?
- Não - ele responde - nem namorada nem namorado.
Antes de eu pensar em fazer uma nova pergunta, ele põe a mão acima do meu joelho e olha nos meus olhos.
- Estou com uma dúvida na última questão - ele fala.
Ajudo-o com sua dúvida e terminamos a tarefa. Ele para e começa a me encarar, como gosta de fazer. Fico constrangido e dou um sorriso, ele sorri de volta e coloca a mão na minha coxa.
Duas batidas na porta e Dona Isabel entra novamente. Dessa vez, acompanhada de Aline, elas trazem pizza, refrigerante, copos e sachês de ketchup e maionese.
- Meninos, vamos dar uma pausa nos estudos. Hora de lanchar. Eu pedi pizza. Você gosta de pizza, Páris? - ela pergunta.
- Sim. - eu respondo sem graça.
Elas colocam tudo na mesa.
- Comportem-se – ela fala ao sair e Aline pisca um olho em direção ao Élio.
Élio levanta e vai pegar um violão.
- Me diz uma coisa - ele pergunta ainda do outro lado do quarto - lobos comem pizza?
- Eu não sou um lobo, Élio, nem moro numa caverna. Você sabe disso!
- Eu sei - diz ele se aproximando e rindo – mas viver sem tecnologia nos dias atuais é como morar numa caverna. Pode se servir, não está esperando autorização, está?
Eu estava sim. Mas achei melhor não mencionar isso. Enquanto eu me servia, ele afinava o violão, quando terminou ficou me vendo comer daquele jeito de sempre.
- Trouxe você aqui - ele começa - por que compus uma música e queria muito que você ouvisse. Quero que você me dê sua opinião sincera, se ela vale a pena ou não.
- Mas por que eu? - eu pergunto - Não entendo nada de música.
- Por que você é a pessoa certa! – Ele fala de um jeito misterioso. E começa a cantar...
"Quando eu te encontrei
Foi como um amanhecer
Tua luz sorriu pra mim
Inundou todo o meu ser
Anulou a gravidade
O meu centro foi você
Você ilumina a melhor parte de mim
E agora eu só consigo ser assim
Como um lobo que uiva ao luar
Eu grito que só quero te amar
Você mexeu no meu mundo
Fez o impossível acontecer
Deixei de ser o alpha
Para melhor me conhecer
E cheguei a conclusão
Que eu só quero amar você
Por quê
Você ilumina a melhor parte de mim
E agora eu só consigo ser assim
Como um lobo que uiva ao luar
Eu grito que só quero te amar
Eu uivo
Eu grito
Te amar"
Quando termina ele fica olhando fixamente para mim, e eu não sei o que dizer. Aquela música é simplesmente fantástica, mas mais do que isso, é exatamente o que eu quero falar pra ele, foi como se ele traduzisse os meus pensamentos em forma de uma canção.
- É... linda! - gaguejei procurando as palavras.
- Gostou mesmo? - ele me olha apreensivo.
- É fantástica! - eu falo convicto – Maravilhosa! Você é um gênio da música.
- Só coloquei na letra o que estou sentindo.
Ficamos nos olhando. Eu não sabia o que fazer, só queria correr, abraçá-lo e beijar, mas não sei o que ele está pensando, tenho medo da reação dele. E preciso decidir como ficarão as coisas em casa.
- Acho que já está tarde - eu falo - vamos?
- Sim. Vou só pegar a jaqueta.
Saímos e na sala encontramos Dona Isabel e Aline assistindo TV, então fui me despedir e agradecer. A mãe de Élio parece muito simpática e insiste para eu voltar mais vezes. A irmã dele parece ser bem brincalhona e disse que queria me conhecer melhor. Depois dos cumprimentos, fui para Élio que esperava na porta. Quando me aproximo, Aline chama:
- Páris! Gostou da música que o Élio fez pra você?
Não tenho tempo de responder por quê Élio me pega pela mão e sai puxando até a garagem. Paramos em frente a moto e não falamos uma palavra. Há um clima estranho entre nós. Ele mesmo coloca e afivela meu capacete, olhando nos meus olhos e demorando mais tempo do que na primeira vez. Aqueles olhos castanhos me convidam a beijá-lo. Subimos na moto e vamos para casa.
Agora, com menos vergonha, eu o abraço, como se minha vida dependesse disso, como se não quisesse largar nunca mais. Percebo que ele diminui a velocidade. Essa é a viagem mais lenta que já fiz com ele, mas não reclamo. Se ela demorasse a vida toda eu não reclamaria.
Chegamos em casa a rua está deserta. Acho que demorei mais do que esperava. Desço da moto e tiro o capacete, ele desce e se apoia nela.
- Bom, é isso - eu digo tentando estender o tempo com ele. - Obrigado por tudo! Foi maravilhoso.
- Não foi tão bom assim. - Ele fala me encarando.
- Talvez pra você. Pra mim foi incrível - eu digo segurando as alças da mochila.
- Pra ser incrível pra mim, falta só uma coisa.
- O quê? - pergunto curioso.
Ele nada fala, apenas se aproxima vagarosamente, coloca a mão na minha nuca e eu vejo seus lábios cada vez mais próximos dos meus, fecho os olhos e sinto seu beijo. E a rua desaparece, a felicidade toma conta de mim. De repente nada mais importa, somente ele e eu.
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