Coisas que ninguém sabe 💜 Capítulo 6
Após meu surto interno de raiva, me acalmei para não passar vergonha e organizei minhas coisas. Não estava com paciência para ver ou falar com ninguém, a última coisa que queria era deixar Bruno voltar para minha vida e bagunçar tudo que levei meses para reconstruir sozinha.
Fiz tudo que podia para ocupar aquela manhã: arrumei o quarto, estudei, assisti aos meus dramas preferidos e conversei por horas com Bo-mi. Mesmo assim, minha mente permanecia inquieta.
Horas depois levantei da cama, saí do quarto lentamente e levei o cartão comigo. Meu vestido folgado balançava com o vento, e o casaco que usava por cima me protegia do frio dos ar-condicionado espalhados por toda a casa. Entrei no elevador e desci um andar, rumo à cozinha. Estava em busca de fogo e risadas.
Ao entrar na cozinha, fui recebida por um silêncio tranquilo e o aroma delicioso de algo sendo cozido. Dois dos membros mais velhos estavam lá, despreocupados, com roupas simples, cozinhando juntos. Músicas aleatórias tocavam em um volume ambiente, dando um ar relaxado ao espaço.
Apenas Suga e Jin estavam na cozinha.
— Boa tarde... Onde eu acho fogo? — perguntei, me aproximando do fogão. Eles me encararam quando bufei ao perceber que o fogão não tinha chamas. — Pode me passar um pedaço de cenoura? — Encarei Suga, esperando sua reação.
Suga continuava cortando as cenouras com cuidado enquanto assistia a uma receita no celular. Ele me entregou uma tira, e eu aceitei, mastigando devagar.
— Boa tarde, Laura. Está tudo bem? — Suga perguntou com um tom gentil, colocando a faca de lado. Jin, parado com o pano ainda no ombro, me analisava com uma expressão curiosa. — Estava chorando? É por causa da cicatriz?
Aproximei-me devagar e me sentei em um dos bancos altos próximos à ilha da cozinha. Encostei a mão no queixo, fechei os olhos por alguns instantes e deixei escapar um sorriso sutil.
— Está tudo bem, e não é a cicatriz. Minha barriga está melhorando, aos poucos.
Jin se aproximou, me analisando.
— Está com fome ou só desanimada? E por que precisa de fogo? — Ele perguntou enquanto me observava. — Você fuma? Não temos fogo por aqui, é tudo elétrico.
Balancei a cabeça negativamente, soltando uma risada breve.
A música solo de Jin, "Moon", começou a tocar ao fundo, logo não resisti e comecei a cantarolar pois era uma das minhas favoritas. Jin imediatamente apontou para mim com um sorriso largo e orgulhoso, claramente satisfeito ao me ver cantar.
— Não fumo, e nem fome. — Sorri, agora balançando a cabeça no ritmo da melodia. — Só preciso queimar um papel. Jogar fora não resolve... Estou com raiva, e isso parece ser a única forma de me acalmar.
Suga arqueou uma sobrancelha enquanto Jin cruzava os braços, ambos parecendo intrigados com minha explicação.
— Queimar papel para aliviar a raiva? Isso é novo, vou aderir! — Suga comentou, cortando mais uma cenoura. — O que tem nesse papel?
— Nada de importante. — Respondi rapidamente, desviando o olhar. — Só algo que preciso deixar para trás.
Os mostrei a o cartão postal e eles se curvaram para ler.
— Austrália, lugar lindo. Pode ler para nós, ou é uma carta de amor secreta? — Jin perguntou com um sorriso divertido, e eu consenti, ainda segurando o papel. — Português é legal, será que eu poderia aprender?
— Comece pelo inglês, já que você enrola até estudar isso. — Suga respondeu, revirando os olhos, enquanto continuava a mexer na panela.
Soltei uma risada baixa com o comentário.
— Ele é tão simpático, não acha, Laura? — Jin brincou, bagunçando os cabelos de Suga, que apenas bufou em resposta.
Ambos ajustaram o fogo sob as panelas e vieram mais perto, se posicionando ao meu lado, curiosos para ouvir.
— Posso ler. Mas aviso desde já, é uma carta de merda. — Falei, soltando a frase rápido demais. Assim que percebi, tapei a boca com as mãos. — Desculpa, saiu sem querer.
Suga soltou uma gargalhada discreta, enquanto Jin arregalava os olhos, claramente surpreso.
— Tudo bem, eu xingo muito quando estou com raiva, até sem estar com raiva também .— Suga comentou, sem se importar.
Eles pareciam genuinamente interessados, e o clima estava leve, quase descontraído. Respirei fundo, decidindo que talvez compartilhar a leitura não fosse tão ruim.
— Tudo bem... mas não fiquem tocados pelo drama, hein? — pedi, ajeitando o cartão em minhas mãos.
Expliquei rapidamente a história por trás da carta, deixando escapar alguns detalhes entre suspiros e risadas nervosas. Era bom desabafar, ainda mais sabendo que eles estavam ali apenas para ouvir, sem julgamentos. Não deram muitas opiniões, mas apoiaram a ideia de queimar o cartão, o que já era o suficiente para me sentir validada.
Perguntei casualmente sobre os outros membros e soube que estavam na sala de jogos, o lugar mais movimentado e barulhento da casa. Lá havia de tudo: máquinas de fliperama, brinquedos variados, esportes como ping-pong, basquete, boxe, tapetes de ioga e até máquinas de comida.
— Não se preocupe. Você vai conseguir ser tudo o que quiser, sem essa pessoa. Além disso, já não está tão sozinha na Coreia, certo? — Jin disse com um tom calmo, mas cheio de firmeza, como quem sabia exatamente o que falar. — Pessoas às vezes decepcionam, não importa o país. O que você não pode fazer é guardar mágoas. Quem sabe a vida não está reservando algo melhor?
Ele parecia falar com propriedade, e suas palavras soaram como um conselho de um irmão mais velho. Assenti, refletindo. Ele tinha razão, segurar ressentimentos só pesava mais em mim.
— Todos nós já tivemos nossos corações partidos e passa. Quer ver algo igualmente forte ao fogo? — Suga perguntou de repente, cortando o silêncio que se formara.
Arqueei as sobrancelhas, intrigada com a mudança de assunto.
— Sim, me mostre. — Falei curiosa, enquanto Jin se afastou de nós.
— Façam isso e irei ligar para os meninos, pois a comida está quase pronta. Laura, estamos com visitas, como te falei. São amigos nossos, e famosos também. Eles já sabem de tudo, então fique à vontade. — Jin falou, já em ligação, e eu arregalei os olhos.
— Famosos? Eles podem me ver? — perguntei, boquiaberta. — Não falou sobre serem famosos!
Jin deu de ombros, sem se importar.
— Sim, são amigos antigos e totalmente confiáveis — Suga falou, tocando minha cabeça enquanto se distanciava.
Com o passar dos dias, percebia que Suga não era tão fechado assim. Era um homem maduro, reservado e gentil. Com sua calça preta e sua blusa branca simples, ele tirou os cabelos do rosto e seguiu em minha direção com um recipiente. Ele sentou-se ao meu lado e pediu o cartão.
— Quer que eu leia de novo? — perguntei, arregalando os olhos, e ele negou com um gesto de cabeça.
Ao meu lado, ele me mandava prestar atenção em seus gestos, enquanto Jin observava também.
— Esqueça essas palavras e olhe isso... — Ele arrastou o recipiente para minha frente e, quando entreguei o cartão, mergulhou-o na água, me fazendo observar.
Encarei o papel dentro da água, as letras pretas ficavam cada vez mais borradas e logo já não poderiam ser lidas. Ele parecia orgulhoso por seu feito e continuava a observar o papel se desfazendo lentamente.
Suga tocou no papel, e ele terminou de se desintegrar na água extremamente gelada.
— Uau... acabou. — sussurrei.
— Obrigada. — Sorri, e ele tocou minha cabeça.
— Nossa, ele está sendo carinhoso com alguém. Isso não é estranho? — Taehyung sorriu para Jin enquanto se aproximava. — Boa tarde, deveriam ter ido jogar também.
Levantei do banco e o cumprimentei. Ele, sempre muito simpático, estava engraçado com seus óculos de grau. Os outros membros começaram a entrar na cozinha com muito barulho e já estava me acostumando com tudo aquilo, mas definitivamente não estava preparada para ver, na minha frente, algumas das pessoas mais bonitas da Coreia. Quase todo o elenco de um dos dramas mais aclamados e outro idol lindíssimo... Pisquei lentamente, enquanto todos pararam ao me ver.
— Laura, sabe quem são eles? — Namjoon começou a apresentar os convidados, e eu apenas consenti. — Park Hyung Sik, Park Seo Joon, Choi Min Ho, Jackson Wang...
Cumprimentei a todos, e eles foram muito simpáticos. Encarei aqueles homens altos e bem vestidos, havia me apaixonado quatro vezes em questão de minutos.
— A famosa menina do vidro... — Choi Min Ho me encarou enquanto olhava para Taehyung, e eu sorri sem graça. — Tudo bem?
Eram altos, bonitos, falavam muito e eram claramente amigos há muitos anos. Todos por ali pareciam conhecê-los bem.
— Olá, tudo bem, sim. Me chamo Laura. Caí de paraquedas aqui após uma chuva, ganhei um quarto e espero que possamos nos dar bem. — Me curvei, e todos sorriram, se curvando de volta. — Assisti um pouco de Hwarang, ótimo drama com um elenco muito lindo. Ouço GOT7 e SHINee também. — Confessei, e eles se entreolharam.
— Assistiu um pouco? Gostei do seu cabelo cacheado. É do Brasil, não é mesmo? — Min Ho perguntou , e eu degluti seco. — Ainda está assistindo o drama?
— Cuidado, ela é bem sincera. — Jungkook avisou, e todos sorriram, temendo o pior. — Ela disse que não somos tão fofos como os mascotes.
Sorri, ajeitando meu vestido enquanto buscava uma forma de explicar para os atores que discordei completamente do roteirista. Todas as minhas opiniões ficavam para mim mesma, e eu sabia que não podia criticar assim, na cara dura.
— Então, sou do Brasil sim e... — Suspirei. — Qual sua idade? — Perguntei, mudando de assunto rapidamente, o que o fez soltar uma risada.
— Ela mudou de assunto descaradamente. — Jackson apontou, e eu consenti, um tanto sem graça. — Uau... — Acrescentou ele, enquanto permanecia parada à frente deles, tentando disfarçar meu nervosismo.
Suspirei e tomei coragem de explicar.
— Ok, comecei a assistir, sou viciada em dramas. Mas discordei do roteirista, ou seja lá quem escreveu. Quando soube que a moça que teve a sorte de contracenar com mil homens bonitos não iria ficar com o rei, me irritei e parei. — Falei, apontando para Park Hyung Sik, que coçou os olhos enquanto sorria.
— Obrigado... — Hyung Sik respondeu, se gabando, e seus amigos reviraram os olhos.
Sim, eu recebi spoiler da Bo-mi e quase chorei de raiva.
— Não achou que contracenamos bem? Desafio você a continuar... — Seo Joon apontou para mim, e eu morri por dentro, tanto pela vergonha quanto por ele ser tão lindo.
Os membros do BTS riam da minha falta de jeito, e eu acabava rindo também, de puro desespero.
— Vocês dois foram ótimos, mas a química foi com o rei desde o início, ou com o ator... não sei. — Falei, enquanto Jungkook o cutucava, destacando minha sinceridade. — Mas sei cantar toda a trilha sonora, que é muito boa.
— Também achei as músicas ótimas. — Min Ho concordou, estendendo a mão para que eu batesse. Fiz isso, o que pareceu deixá-lo contente. — Cante uma música... — Ele pediu, mas eu neguei imediatamente.
Neguei até onde pude, mas acabei cantando uma parte da música que eu mais gostava.
— Não sou boa em cantar, mas essa é a música mais linda do drama.
— Essa é o tema da protagonista com o rei. — Hyung Sik comentou, se gabando mais uma vez.
Tapei os olhos, morrendo de vergonha das risadas, e me desculpei.
— Não foi por mal, não estou preferindo ele! — Falei, apontando para Park Hyung Sik, que fingiu sentir vergonha. — Sério. — Acrescentei, abismada, enquanto todos riam da minha expressão de espanto.
Era tão bonito que talvez eu devesse preferir ele mesmo.
— A gente sabe. — Taehyung puxou um dos meus cachos, e sorri para ele. — Você fica fofa indignada. — Ele sussurrou apenas para eu ouvir, e corei.
Conversamos bastante sobre a trama no geral, e percebi que muitas pessoas pensavam como eu. Eles eram simpáticos e adoravam rir uns dos outros. Os membros do BTS organizavam tudo juntos, em uma sincronia impressionante, enquanto os demais já se serviam de cervejas ao som de músicas de cantores antigos.
Peguei meu celular quando percebi que quase todos estavam distraídos e tentei sair de perto o mais discretamente possível. Contudo, senti alguém segurar um dos meus cachos.
— Não vai fugir... — me virei, e Taehyung continuava segurando meu cabelo. Prendi a respiração por alguns segundos, tentando relaxar os ombros, embora estivesse sendo encarada. — Não tenha vergonha, eles gostaram de você.
Ele soltou meu cacho, e eu sorri sem graça. Felizmente, ninguém parecia estar olhando para nós, o que me trouxe certo alívio. Cada um estava ocupado com algo: Jungkook tentava abraçar Suga, que se negava, enquanto os outros riam ou conversavam.
— Sou a única mulher aqui... — murmurei, cruzando os braços de forma desconfortável. — Vou comer e depois subo, pode ser? — Ele sorriu e concordou, fazendo-me relaxar um pouco.
— Não tem problema ser a única mulher aqui. — Taehyung sussurrou.
Seguimos até a mesa, e Jin nos observava de longe. Eu tentava agir da maneira mais natural possível no meio de tantas pessoas que antes só via na televisão, não era nada fácil. De repente, uma música da mixtape do J-Hope, com participação de uma cantora latina, começou a tocar.
Empolgada, comecei a cantar a parte em espanhol.
— Olha só ela cantando, essa música é realmente ótima. — J-Hope exclamou, dançando na sala e acompanhando sua própria parte da canção. — Foi muito divertido gravá-la, sempre me deixa animado. — Ele continuou dançando
Era impossível não se contagiar com sua energia. Eu queria ter um J-Hope na minha vida para sempre.
— A menina que salvou nosso irmão fala quantos idiomas? — Hyung Sik perguntou, me lançando seu melhor sorriso. — Por que escolheu a Coreia?
A atriz Go Ara beijou dois dos homens mais lindos da Coreia, a vida dela está feita para sempre.
— Português, obviamente, inglês, um pouco de espanhol e coreano. — Respondi enquanto ajudava Jin com as tigelas de arroz. — E canto em chinês, mesmo sem saber nada. Não sei por que a Coreia, apenas a amo.
Jackson Wang falou algo em chinês, e meus olhos se arregalaram.
— Concordo. — Respondi em coreano, apontando para ele, o que o fez gargalhar. — Mas não entendi nada.
Todos riram, afirmando que eu jamais poderia concordar com algo que não entendia. Porém, quem se importa quando eu estava focada na beleza dele?
— Ela é o Jackson versão mulher, só falta a fluência em chinês. — Jimin comentou com um sorriso, fazendo o idol concordar enquanto soltava algumas palavras em espanhol. — Olha só ele, vai intimidar a menina? — Jimin bateu palmas, rindo alto.
Jackson se aproximou, bloqueando meu caminho até a mesa, e só me deixaria passar se eu o respondesse em espanhol. Como alguém pode nascer uma única vez e ser tão bonito assim? Balancei a cabeça, tentando expulsar pensamentos pecaminosos, enquanto ele cruzava os braços com um sorriso desafiador.
— O que mais gosta de fazer? — Ele perguntou em espanhol, com os outros apenas observando a cena. — Sabe mesmo falar espanhol?
— Acredite em mim, querido. — Toquei levemente seu ombro com a ponta do dedo, e ele abriu a boca fingindo estar pasmo. — Gosto de ouvir música, cozinhar, trabalhar, dançar, beber, estudar, ler... e beijar homens bonitos por aí. — Expliquei, com uma plateia formada ao nosso redor. Ele arregalou os olhos novamente, surpreso com minha sinceridade.
Gargalhei, e ele pareceu achar tudo divertido.
— Ela fala espanhol, confirmado. — Disse Jackson, afastando-se de mim, enquanto Taehyung batia palmas. — Sobre a sinceridade também. — Ele lançou um olhar para os outros, e Jungkook assentiu em concordância.
— Vamos comer ou falar? Mais tarde tem karaokê e cerveja! — Seo Joon anunciou, sendo seguido por gritos de animação de todos. — Ah, esqueci de trazer o bolo, ficou em cima da minha mesa. — Deu de ombros, enquanto os outros o repreendiam em tom de brincadeira.
— Então, já desistiram do pingue-pongue? Arr! Ganhei, então! — Namjoon entrou na sala ajeitando o cabelo. — Jin e Suga, o cheiro está por toda a casa. — Ele levantou o polegar para Jin, que respondeu com um aceno satisfeito.
Todos nós nos sentamos em uma mesa enorme, repleta de comidas e petiscos. J-Hope assava barriga de porco com maestria, e eu lamentava por não poder comer. Ao meu lado estavam Taehyung e Jackson, o mais falante do grupo. Todos começaram a beber e comer com muita euforia. Jin explicou que não se viam com frequência, por isso cada encontro era sempre uma festa.
Entre as risadas e histórias, percebi que, apesar de famosos, eles eram como amigos comuns: brincavam, tiravam sarro uns dos outros e tiravam fotos engraçadas. Ouvi várias histórias divertidas que me fizeram rir até doer a barriga. Sabia que guardaria tudo isso na memória para sempre. Sorri, e nesse momento Suga me cutucou, passando mais arroz.
— Obrigada. — Peguei o arroz e comi com um pedaço de carne de boi. — Bebam soju por mim. — Falei, fingindo choro.
Namjoon encheu dois copinhos e os levantou.
— Quem vai tomar um por si e outro por ela, que não pode beber? — Ele perguntou, olhando ao redor.
Taehyung levantou as mãos sem hesitar.
— Tudo seu. — Disse Namjoon, entregando os copos.
Arregalei os olhos enquanto Taehyung, com os cabelos bagunçados, virou os dois copinhos um de cada vez, fazendo uma careta ao engolir. Taehyung sorriu para mim, e mostrei meu polegar em aprovação.
Conforme todos bebiam, o ambiente ficava ainda mais descontraído e engraçado, com o álcool começando a fazer efeito.
— Eu quero beber ao máximo depois de um trabalho árduo! Uau, como eu amo atuar. Cerveja, por favor! — Seo Joon exclamou, levantando seu copo. — Um brinde à vida do nosso irmão e à sua salvadora. Vamos!
Levantamos nossos copos, e eu com água, participei do brinde.
— Um brinde à música também! — Jackson sugeriu, animando todos à mesa. — O que seríamos sem a música?
— Nada. — Respondeu Suga, após tomar sua cerveja.
— Nada mesmo. Para mim, é impossível viver em um mundo sem música. — Acrescentei, sentindo o peso da sinceridade em minha voz. — Se pudessem realmente entender como a música e a atuação ajudam as pessoas... especialmente quando estamos tristes.
— Isso, ajudam a nós mesmos também. — Disse Hyung Sik, sorrindo em seguida.
Todos concordaram e começaram a compartilhar histórias sobre quem eram antes de entrarem para o mundo da música. Suga, com seu jeito calmo, passou longos minutos falando sobre as dificuldades que enfrentou para conquistar seu espaço. Cada um falava de suas experiências e das lutas que travaram até hoje, destacando como as empresas exigem tanto deles para entregar o melhor ao público.
Eu os ouvia atentamente, absorvendo cada palavra. Era fascinante ver como aqueles artistas, tão inalcançáveis para muitos, enfrentaram desafios tão humanos e reais.
A tarde avançava com os ponteiros do relógio, mas decidi não subir. Acabei me sentindo à vontade no meio de pessoas tão extraordinárias e, ao mesmo tempo, tão humanas. Sorri muito, guardando cada momento como um tesouro.
💜
A tarde passou voando após o almoço. A bebida não deixou que fizessem muito além de cantar até o último volume de suas gargantas e jogar. Jogamos Uno, e ganhei duas vezes — talvez por ser a única sem álcool no sangue, trocando as cores estrategicamente. Isso nos arrancou muitas risadas.
Os idols e atores que não moravam ali foram embora juntos quando seus gerentes chegaram, com expressões não muito felizes. Pelo menos, foi o que percebi por uma brecha na porta. A sala e a cozinha ficaram completamente bagunçadas, e resolvi tentar organizar o que podia, evitando me abaixar devido às recomendações médicas.
Os membros estavam em seus quartos; a maioria havia bebido além da conta. J-Hope, que havia rido muito, ficou calado de repente e foi dormir, o que nos arrancou mais gargalhadas. Suga também foi deitar, mas não sem antes rebolar em cima da mesa de centro — culpa do álcool, claro. Namjoon, sempre o responsável, levou os outros, um pouco menos bêbados, para dormir também.
Desci no elevador com meus remédios em mãos, voltando à cozinha. Despejei água em um copo do mascote de Jungkook e tomei meus remédios de uma vez só. Já passava das onze, e aproveitei para fazer uma longa ligação com meus pais, garantindo que estava tudo bem.
— Não precisa arrumar. — Uma voz inesperada me assustou, e arregalei os olhos ao me virar. — Sério.
Taehyung apareceu de supetão, seu pijama o deixava com uma aparência ainda mais normal, e a faixa no cabelo me fez rir baixinho. Ele não estava no quarto como os outros e também não parecia bêbado.
— Estou ajudando. Não tenho o que fazer, bateu o tédio.— Voltei a me concentrar na pia, mas senti ele se aproximar. — Se quiser ajudar, pode ir secando. — Estendi um pano na direção dele, que aceitou e colocou seu celular na ilha.
Acabei de pedir para um idol milionário enxugar a louça? Que merda.
— Quero, fazemos muita bagunça, eu sei. — Ele respondeu em um tom quase sussurrado, apontando para a pia. — Tenho dó das pessoas que sempre arrumam tudo, mas não fazemos por querer.
Sorri, já lavando as coisas.
— Imagino que ganhem bem para isso, mas olha só quantos chinelos tem espalhados pela sala. — Dei de ombros, arrancando uma risada discreta dele. — Sei que não fazem de propósito, homens são assim mesmo.
Ele concordou com um leve aceno e continuou me ajudando. Percebemos que não sabíamos direito onde guardar as coisas, então decidimos deixar essa parte para alguém que conhecesse melhor a casa.
— Não está com frio? — Ele perguntou, me observando enquanto secava um prato.
Neguei.
— Melhor se agasalhar. Olha minhas mãos, o frio daqui é agressivo. — Ele estendeu uma das mãos para mostrar o tom excessivamente pálido causado pelo clima.
— Não se preocupe, às vezes acho que sou um urso. Dizem que eles têm dificuldade para sentir frio. — Falei, entregando mais alguns copos para ele secar.
Ele deu de ombros, sem afirmar ou negar nada, e começou a cantar uma de suas músicas, Winter Bear. O som de sua voz preenchendo o ambiente me fez sorrir instantaneamente.
— É melhor ouvi-la ao vivo do que pelos fones. Pode cantar mais? — Sorri, animada, enquanto ele rodopiava pela cozinha, cantando o refrão. — Show de graça, que legal. — Completei, rindo.
Quanto mais eu tentava expulsar os pensamentos sobre aquele menino da minha cabeça, mais eles insistiam em ficar. Observá-lo balançar os ombros de forma descontraída enquanto secava um copo de vidro era algo tão simples, mas ao mesmo tempo parecia... perfeito. Ele parecia completamente à vontade, mesmo com uma estranha ali, uma estranha que, de alguma forma, sentia que o conhecia bem demais.
— Laura, no que está pensando? — Sua voz me tirou dos devaneios enquanto ele puxava um dos meus cachos com delicadeza. — Quer vir? — Ele sorriu e jogou o pano em mim.
Sem esperar pela minha resposta, ele começou a apagar as luzes dos ambientes enquanto seguia para as escadas. O rapaz ligou a lanterna do celular, criando um rastro de luz, e eu o segui devagar, no escuro.
— Estava pensando nessa música. Quem escreveu? — Perguntei. — Ah, e pode apontar sua lanterna na minha direção? Não estou enxergando nada.
Parei no meio do escuro, hesitante. Ele voltou rapidamente até mim, pegando minha mão com firmeza. Engoli em seco, sentindo um calor subir pelo braço quando ele me puxou lentamente para o lado dele.
A luz da lanterna iluminava os degraus à nossa frente, e descemos a longa escadaria com cuidado, ele parecia saber que eu precisava de um ritmo mais lento, e respeitou isso.
— Estamos descendo no escuro porque, às vezes, muitas pessoas se sentem no direito de observar cada um dos nossos passos. Quando quero privacidade, apenas ando no escuro. Aprenda essa lição! — Ele avisou, apertando minha mão suavemente ao longo do trajeto. — E eu escrevi aquela música.
Seguimos em direção aos fundos da imensa casa. Eu já havia visto a piscina durante o dia, mas à noite, com as luzes refletindo na água, o ambiente parecia mágico, quase irreal. Paramos à beira da piscina, e ele respirou fundo, deixando o ar frio da noite tocar seu rosto.
Não resisti e tirei outra foto, desta vez das luzes da cidade ao fundo, espelhadas na superfície calma da água. Ele se aproximou, curioso, olhando para a foto na tela do meu celular.
— Você já não tem uma foto assim? — Ele sussurrou, com um sorriso brincando nos lábios.
— São momentos diferentes, únicos. Não ache estranho... eu amo fotografar. — Respondi, sorrindo de volta.
— Eu também. — Ele inclinou a cabeça levemente, como se considerasse algo. — Quero que você conheça meu cachorro algum dia. —Fiquei surpresa com o convite e consenti com um aceno — Quando chegou, todos os nossos animais de estimação já estavam longe. Eles quase sempre ficam com nossas famílias.
Eu sabia sobre os cachorros por Bo-mi. Eram adoráveis, e não pude deixar de me animar com a ideia de vê-los.
— Eles vão voltar em breve. — Sorri, tentando confortá-lo, mas então hesitei, sentindo um peso em meu peito. — Ah, tem algo que eu omiti mais cedo.
Tapei os olhos com a mão, como se quisesse esconder a vergonha que sentia, e percebi que ele me observava, intrigado.
— O que foi? — Ele perguntou, a expressão agora séria, mas sem perder o tom acolhedor.
Como eu poderia dizer algo assim? Confessar que parei de assistir Hwarang por causa dele parecia tão bobo agora, mas a necessidade de falar era mais forte.
— Eu... não parei de assistir o drama só por causa do casal errado. — Falei finalmente, desviando o olhar para as águas da piscina. — Quando o seu personagem morreu, foi horrível. Não era para ele ter morrido. Foi sem sentido, sabe? — Fiz um gesto frustrado com as mãos, como se quisesse afastar a lembrança. — Eu fiquei tão brava que não consegui continuar.
O silêncio entre nós foi preenchido pelo som da água se mexendo levemente por causa do vento. Ele deu um sorriso discreto, quase tímido, como se não soubesse como responder.
— Você levou isso a sério, Laura?
Kim Taehyung tapou a boca ao sorrir alto e balançou a cabeça em negação. O mesmo me encarou após alguns minutos de risada e apenas o olhava sem entender.
— Foi ruim me ver morrer? Por isso me salvou de verdade? — Ele me encarou sem piscar, os olhos sérios. — O que você fez por mim, Laura? Poderia ter morrido. — Sua voz rouca me fez suspirar.
Senti meu coração disparar descontroladamente. Meus lábios secaram, e minhas pernas começaram a tremer.
— Ver você morrer no drama foi ruim, seu personagem era incrível. — Minha voz saiu baixa, enquanto encarava o chão. — Mas na porta da empresa, não sei por que fiz aquilo. Só segui meu coração, sem pensar, sem saber quem poderia ser atingido...
Antes que eu pudesse terminar, senti seus braços longos me envolvendo e fechei os olhos. Minhas mãos permaneceram estáticas, sem saber onde se apoiar. E se alguém visse? Mas naquele momento, a preocupação parecia irrelevante. Encostei minha cabeça em seu ombro, e um pensamento fugaz passou por mim: são as batidas do coração dele ou as minhas que estão tão altas?
Aos poucos, nos soltamos. Nossos rostos ficaram próximos por alguns segundos que pareceram uma eternidade, e fui encarada de uma forma tão profunda, que prendi o ar nos pulmões. Ele desviou o olhar para o chão e deu um sorriso, descontraído, como se nada tivesse acontecido.
Será que ele percebeu o quanto meu coração estava disparado?
Toquei meu peito e respirei fundo, tentando me acalmar. Mas era inútil. Cada célula do meu corpo tremia, como se gritasse em alerta.
Calma, Laura. Isso é só porque ele é um idol famoso. É só isso...
— Desculpa, só nunca sei como agradecer por aquilo... — Ele ficou sem jeito após o abraço.
— Tudo bem... — Sem jeito também, encarei a piscina, buscando uma distração.
— Sabia que já pulei em alto-mar? — Ele mudou de assunto e, sem saber o que esperar, neguei com a cabeça. — Foi com aqueles meninos de mais cedo, deu medo.
— Eu já mergulhei. — Falei, tentando me alinhar ao clima. — Já que nunca vou contar nada a ninguém, me conta algo que ninguém saiba?
Ele me olhou de uma forma curiosa, mas eu dei de ombros, sorrindo, como se fosse um segredo compartilhado entre nós dois.
— Ok, podemos fazer isso. — Ele andou em direção ao banco onde nos encontramos naquela outra noite, e me acompanhou. Sentamos, como da primeira vez, olhando as luzes da cidade que cintilavam à nossa frente, tudo parecia mais tranquilo agora. — Eu falo com os cachorros de uma forma estranha, me empolgo, e às vezes passo vergonha... E, quando estou muito cansado, durmo de olhos abertos. — Ele revelou, quase como se estivesse compartilhando um pequeno segredo.
Arregalei os olhos, surpresa com sua sinceridade.
— Eu sou viciada em café. — Falei, sem hesitar.— Tomo todo dia, e se não tomo, fico de mau humor.
— Odeio café, acho que isso as pessoas já sabem. — Ele me encarou, sorrindo, e eu o olhei boquiaberta. — Prefiro suco.
— Você é louco, Taehyung. — Falei, balançando a cabeça em descrença. — Café é tão bom! E eu não sabia...
E na verdade, eu não sabia mesmo. Ele me surpreendia a cada palavra, como um quebra-cabeça de curiosidades.
— Você é estranha, Laura. — Ele sussurrou, batendo seu ombro no meu — Suco de pera é muito bom, o de maçã é ótimo.
— Hugh, tudo isso é bom. — Respondi, me divertindo com a ideia de conhecer mais sobre ele, e ele parecia contente por minha afirmação.
— Como não é Army, posso contar coisas que não sabe. — Ele gesticulou de maneira divertida. — Não gosto de sapatos fechados, acordar cedo e ler.
Soltei uma risada, sem conseguir conter a surpresa.
— Quem gosta de acordar cedo? — Sorri, bufando em concordância com o que ele disse, como se fosse uma verdade universal.
Nosso papo foi seguindo nessa leveza, como se estivéssemos descobrindo pequenos detalhes do outro, e ainda assim, tudo parecia natural e divertido.
Sorrimos para o nada, encarando a cidade como se fossemos os filósofos mais profundos do universo, mas, no fundo, sabíamos que estávamos só matando o tempo e pensando em coisas aleatórias. Era engraçado como, entre risos e olhares vagos para a cidade, parecia que o tempo tinha se esticado. Como se o momento fosse uma bolha que só existia ali, mas que, ao mesmo tempo, poderia estourar a qualquer instante.
Ficávamos conversando sobre coisas simples, sem nada muito profundo, e me dava conta de que ele parecia ter uma vida repleta de histórias com seus irmãos de grupo e com seu cachorro – o que, para ele, era basicamente o básico. Eu, por outro lado, me perguntava como minha vida tinha mudado tão drasticamente em tão pouco tempo. De repente, me peguei pensando, como é que eu me apeguei a esse pessoal em tão pouco tempo? E por que eu tava tão tranquila com isso? Como se fosse totalmente normal confiar em alguém com quem só tinha passado umas poucas semanas?
A sensação era tipo: por que eu tô me sentindo tão bem ao lado dele? Tipo, a gente não se conhece nem o suficiente pra dar aquele toque "amigo de infância", mas, ao mesmo tempo, eu me sentia bem demais. E isso, confesso, estava me deixando meio perdida.
💜
Ai ai, sinto uma paixão no ar.
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