Floco de Neve
Velho conforto, cheiro de mofo e cachorro, a definição para sua casa. Escrivaninha bagunçada, papéis amassados por todos os lados e o cobertor desfalecido pelo chão servindo de cama para Roli.
Tem os papéis em mãos, rabiscos feitos no leito de um velho hospital. Sentado, observa a janela embaçada pelo frio do inverno, prédios escondidos sob a camada de névoa no céu.
Estação vazia, gelada, sem vida. Parte morta do ano, sem flores para ele admirar.
Roli late, corre pelo quarto apertado e pula na cama a fim de brincar. É ignorado.
Frio de inverno, sem flores, sem luz.
Perdida a gota congelada caí para o fim.
Igual a todas, mas diferente de outras,
ela caí.
Sobre a janela se prende, e o vidro quente,
lhe mostra o fim.
Floco de neve, sem vida,
em água se transformou.
Pessoas no inverno, frias, da cinza vieram,
para cinza algum voltou…
Barulho na porta, estranho som que nunca se reproduz. Um intruso apareceu. A caneta, nova, rola pelo papel ao ser largada e caí para o chão. Alguém na porta o observa, não gosta do que vê.
Ele é patético, está quase esquelético, e sem inspiração.
— Deixaram você voltar pra casa? — É familiar a voz, mas difere do rosto que ele está habituado a ver. São os cabelos, não estão no mesmo tom de sempre, hoje, são vermelhos. — Ah, esqueça. O que está escrevendo?
Sem convite se aproxima, toma uma velha banqueta e se senta ao lado dele. Seu cheiro abafa o mofo do quarto, sempre anda tão perfumada.
— Estou escrevendo nada. Nada pode ser feito sem inspiração.
Seus olhos correm o papel que ela tomou para si. Menina atrevida, lê em voz alta, para todos ouvirem. Ela não sabe ler, está fora do ritmo que ele imaginou para aqueles versos. Eles soam incoerentes sem o ritmo.
— Está ótimo!
— Não, você não sabe de nada. Está um lixo.
Não foram mentiras. É um ótimo lixo afinal.
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