Capitulo Um

Arthur Kaymin:

Sinto os olhares pesados recaírem sobre mim a cada passo em direção ao trono do Lorde dos Demônios. O salão, imenso e sombrio, parece vibrar com a presença dele. Meus músculos estão tensos, meu coração martela dentro do peito como se tentasse escapar. O ar é denso, impregnado com uma energia que faz minha pele formigar.

E então, nossos olhares se cruzam.

Seus olhos, incandescentes como brasas vivas, perfuram-me até a alma. Um arrepio percorre minha espinha, um misto de medo e fascínio. Sei perfeitamente quem ele é. O grande vilão deste mundo. O tirano temido por todos. O monstro da história. E o personagem pelo qual sempre fui absolutamente obcecado.

Minhas mãos tremem, mas um sorriso involuntário se forma nos meus lábios. Meu peito se enche de uma adrenalina quase viciante. É como se estivesse prestes a conhecer um ídolo, só que um ídolo que poderia me partir ao meio com um simples estalar de dedos. Ah, detalhes.

A lembrança de como cheguei aqui ainda é vívida na minha mente.

Acordei neste mundo há exatamente duas semanas, confuso e atordoado, sentado em uma biblioteca gigantesca digna de um castelo medieval. Era um cenário saído direto dos meus livros favoritos, com estantes imensas e um aroma familiar de papel envelhecido. Por um breve momento, me senti em casa. Mas então, ao virar o rosto, vi uma cena peculiar: uma garota de cachos dourados caída no chão ao lado de um jovem rapaz, rodeados por livros espalhados.

Foi nesse instante que percebi algo estranho.

Eu não os reconhecia. Nenhuma das pessoas presentes me parecia familiar.

Tentei recompor minha mente. Antes de tudo isso, eu era apenas alguém comum, fazendo hora extra no trabalho, voltando para casa exausto e me jogando no sofá com um livro nas mãos. A leitura era minha maior paixão, meu refúgio. Sempre adorei histórias, especialmente romances de fantasia, aqueles onde os autores sabiam criar emoções tão reais que pareciam saltar das páginas.

E então, percebi quem era a garota caída no chão. A heroína desta história.

E o rapaz? Meu meio-irmão. O segundo protagonista masculino. Aquele que, na trama original, fazia tudo por essa garota apenas para, no final, ser completamente esquecido. Ah, sim, eu lembrava dele. Ele era o príncipe renegado, sempre mantido à margem, alvo de rumores e desprezo dentro do palácio. Cresci ao lado dele — ou, pelo menos, as memórias desse corpo me diziam que sim.

Mas, sinceramente? Eu não estava nem aí para os protagonistas.

O que realmente me importava era o Lorde Demônio. O verdadeiro astro desta história. O vilão que não merecia esse título. Ele não era cruel sem motivo. Tornou-se um monstro aos olhos dos humanos porque eles invadiram seu reino, destruíram suas terras, mataram seu povo... e seu filho. Ele queimava de ódio, e eu entendia cada gota desse sentimento.

Foi por isso que, assim que me situei, tomei uma decisão.

Saí do castelo. Peguei algumas roupas e parti sem olhar para trás. Ninguém pareceu se importar. Minha presença era insignificante demais para que alguém notasse minha ausência.

Graças ao meu conhecimento da história — e à minha obsessão por reler cada detalhe pelo menos duzentas vezes — encontrar a entrada secreta do castelo do Lorde Demônio foi um passeio no parque. Os protagonistas a descobriam por acaso na trama original. Eu? Eu fui direto para lá, de propósito.

E, bem... não posso dizer que minha recepção foi calorosa.

Aparentemente, bater na porta e exigir uma audiência com o grande Lorde Thales não foi a melhor abordagem. Quem diria? Fui prontamente capturado e atirado em uma cela que, para minha surpresa, era até bem confortável. Quer dizer, eu esperava masmorras fétidas e correntes enferrujadas, mas, em vez disso, me deram um quarto espaçoso. Claro, disseram que era uma prisão, mas honestamente? Já dormi em lugares piores.

A comida? Ah, a comida. Digna de um banquete real. Se isso era um castigo, eu definitivamente podia viver com ele.

E o melhor de tudo? Os pequenos demônios que cuidavam do lugar. Criaturinhas peludas, com asas de morcego e olhos grandes e brilhantes, pareciam saídas de um sonho. Alguns pareciam mesclar a aparência de felinos com dragões em miniatura. Fiquei dias conversando e brincando com eles, tentando ignorar o fato de que ainda não tinham me permitido sequer ver Thales de longe.

Mas agora, finalmente, depois de muita insistência — e algumas tentativas questionáveis de escapar só para provar um ponto — estou aqui. Diante dele.

O vilão. O personagem que eu tanto admirei. A lenda viva.

E ele me encara como se eu fosse um inseto curioso que ele ainda não decidiu se deve esmagar ou observar um pouco mais. Meu coração acelera. Engulo em seco.

O que eu faço agora?

Após algum tempo, o Lorde anunciou que finalmente poderia ter uma audiência comigo. Meu coração parecia uma fera enjaulada, lutando contra as costelas a cada passo que eu dava. Precisei reunir toda minha força de vontade para manter a compostura.

— Pensar que nunca haveria um humano tolo o suficiente para vir até o meu castelo dessa maneira seria idiotice da minha parte — disse o Lorde Thales, sua voz carregada de ironia e desprezo. Seu olhar queimava como fogo líquido ao pousar sobre mim. — Mas então me diga, por que um humano ousaria se aventurar até aqui sem intenção de lutar ou de sucumbir ao terror diante de nossa presença?

O salão ficou em silêncio absoluto, exceto pelo leve sussurrar dos soldados e servos ao redor. Cada fibra do meu ser gritava para que eu me acalmasse. Eu não podia fraquejar. Não agora.

— Ah — minha voz finalmente encontrou um caminho para sair da minha garganta. — Mestre Thales, perdoe-me pela hesitação... Estou apenas atordoado com sua beleza.

Um burburinho tomou conta da sala. Senti olhares desconfiados perfurando minhas costas. Mas eu me mantive firme. Afinal, eu estava sendo sincero.

— Seu povo é tão magnífico quanto aquele que os governa — acrescentei, mantendo meu tom de voz calmo e firme, mesmo enquanto sentia a tensão no ar se intensificar.

O Lorde estreitou os olhos e seu rosto se contorceu em algo que beirava a irritação.

— Cale-se! Quem você pensa que é para vir até meu castelo e profanar palavras tão absurdas? — sua voz cortante ecoou pelo salão como um trovão. Mas para mim, aquilo apenas confirmou o que eu já sabia: ele era exatamente como eu o imaginava. Arrogante, desconfiado, ferido pelo mundo... e simplesmente fascinante.

— Mil perdões, mas não menti em momento algum. Não tive a intenção de ofendê-lo, apenas disse o que penso — retruquei, encarando-o de frente. — Porém, se o Lorde considerar minhas palavras uma afronta, retiro o que disse. No entanto, estou aqui porque tenho um pedido a fazer.

— Diga logo o que quer! — Thales rosnou, impaciente.

Eu precisei respirar fundo. Quantas vezes sonhei em estar frente a frente com ele? Agora, não era um sonho. Era real. Eu estava ali, conversando com Thales, não apenas na minha imaginação.

— Lorde Thales — comecei, tentando acalmar meu coração frenético.

— O que é agora?! — Ele revirou os olhos, exasperado.

E então, sem hesitar, eu disse:

— Eu gosto de você.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que eu poderia jurar que o próprio tempo havia parado. Thales piscou algumas vezes, como se suas engrenagens mentais estivessem emperrando.

— Hã? — Ele inclinou ligeiramente a cabeça, confuso.

Respirei fundo. Já tinha ido longe demais para recuar agora.

— Lorde Thales, eu te amo — repeti, firme e claro.

— O que... O QUÊ?! — Ele arregalou os olhos, e pude ver um rubor súbito e inesperado colorindo suas bochechas.

Foi adorável. Incrivelmente adorável.

Ali estava ele. O grande vilão, o tirano temido, o monstro lendário... e sua expressão era a de alguém completamente perdido. Meu coração transbordou de felicidade.

Desde que li essa história, nunca consegui odiá-lo. Seu orgulho, sua fúria, sua dor... tudo nele era tão genuíno que fazia meu peito apertar. Enquanto a história pintava os protagonistas como perfeitos e imaculados, Thales sempre me pareceu o único verdadeiramente humano.

— Do que diabos você está falando, Príncipe Arthur Kaymin?! — ele rugiu, tentando recuperar sua compostura.

Sorri. Ele sabia meu nome. Isso já era um progresso.

— Eu amo você, por tudo o que você é. Durante o tempo que passei neste castelo, ouvi histórias do seu povo. Cada um deles fala de seus feitos com respeito, admiração e carinho. Como eu poderia não me apaixonar ainda mais?

— Tsc! — Thales bufou, cruzando os braços. — Você é um humano tolo. Tentar me bajular não te levará a lugar algum.

— Não estou tentando bajulá-lo. Apenas estou sendo honesto sobre meus sentimentos — afirmei, convicto. — Você pode não me aceitar, mas isso não mudará o que sinto.

Um silêncio avassalador caiu sobre o salão. Todos os olhos estavam fixos no Lorde, aguardando sua resposta. Sua expressão oscilava entre raiva e algo que não consegui decifrar.

Então, de repente, ele se levantou do trono. A sala inteira estremeceu com a força de sua presença, uma aura avassaladora tomando conta do ambiente. Seus olhos ardiam com um brilho feroz, e, por um momento, meu instinto me implorou para fugir. Mas eu fiquei firme.

— Guardas! Levem esse humano para as masmorras! Talvez algumas horas trancado o façam recuperar o juízo! — Thales ordenou, sua voz trovejante.

Senti os guardas se aproximando, prontos para me agarrar. Ainda assim, um sorriso brincava nos meus lábios. Ah, ele realmente não sabia lidar com isso, não é?

Então, de repente, as portas se abriram com um estrondo.

— Parem. — Uma voz firme ressoou pelo salão.

O murmúrio de surpresa se espalhou entre os presentes. Todos viraram a cabeça para ver quem ousava interromper a cena.

Eu também olhei. E o que vi fez meu coração saltar uma batida.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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