Capitulo Três

Arthur Kaymin:

Silas continuou me puxando pelo corredor com uma empolgação que beirava o contagiante. Seu entusiasmo transbordava de cada gesto, como se a alegria borbulhasse dentro dele, pronto para me ensinar tudo o que sabia. Eu não conseguia evitar o sorriso diante daquela energia vibrante, mas antes de qualquer coisa, precisávamos organizar minhas coisas no quarto que seria meu novo lar—ou melhor, o espaço temporário onde eu estava enfiado por circunstâncias um tanto... peculiares.

Sem hesitar, ele disparou pelo corredor em busca de alguém que pudesse nos ajudar, os passos tão apressados que cheguei a me perguntar se ele tinha molas nos pés. Não demorou muito até que retornasse, e seu sorriso radiante iluminava o ambiente quase como um feitiço de luz. Seus olhos brilhavam de animação quando anunciou com toda a solenidade de um rei diante do povo:

— Eu vou te ajudar a decorar o quarto!

Não era uma oferta. Era um decreto.

O cômodo escolhido ficava próximo ao dele, e, ao perceber esse detalhe, senti um calor inesperado no peito. Provavelmente, queria garantir que eu nunca estivesse longe demais—um pensamento reconfortante, mas que também me alertava para o quanto ele já estava se apegando a mim.

Foi então que senti aquele arrepio incômodo subindo pela espinha. Quando me virei, lá estava um dos olhos flutuantes do Lorde Thales, me encarando de longe. A sensação era uma mistura bizarra de ser observado por uma figura paterna superprotetora e uma entidade cósmica decidindo se eu era digno de continuar respirando.

— Realmente, ele é adorável... quase como um pai coruja. — Murmurei, deixando escapar uma risada nervosa.

O olho, implacável, ficou fixo em mim por mais um momento, como se estivesse me analisando, julgando minha alma, antes de desaparecer silenciosamente no ar.

Ótimo. Perfeito. Muito menos assustador do que parece.

Silas entrou no quarto com um entusiasmo renovado, os olhos faiscando como se estivéssemos prestes a construir um castelo, e não apenas ajeitar um quarto.

— Acho que uma estante ali seria perfeita para os seus livros! — sugeriu, apontando para um canto com tanta convicção que, por um momento, acreditei que a estante já estava lá e só eu não via. — E talvez uma poltrona bem confortável perto da janela, assim você pode ler aproveitando a luz do sol! 

A maneira como ele falava, cada palavra cheia de calor e animação, tornava tudo mais acolhedor do que realmente era. Senti-me sorrindo sem nem perceber, absorvendo aquela energia vibrante. Passei os dedos pelo cabelo dele, bagunçando suavemente os fios macios em um gesto carinhoso.

Foi quando ele parou de repente. Seu rosto ainda carregava aquele brilho esperançoso, mas agora havia algo a mais, algo que me fez prender a respiração. Seus olhos, antes apenas animados, agora transbordavam uma vulnerabilidade inesperada.

— Tio, você não vai embora daqui nunca, vai?

A pergunta me pegou de surpresa. A leveza no ar desapareceu por um instante, substituída por algo mais profundo. Meu coração apertou. Havia medo naquela voz suave, escondido sob uma tentativa de firmeza. Como alguém tão pequeno podia carregar um pedido tão grande?

Respirei fundo e sorri, puxando-o para um abraço apertado antes de encher sua barriguinha de cócegas.

— Vou ficar o tempo que for preciso, Silas. Amo seu pai e, além disso... — apertei-o mais um pouco, ouvindo suas risadas se misturarem ao som da poeira sendo levantada pelo quarto — ... amo muito esse garotinho fofo!

— Eu não sou um garotinho fofo! — protestou ele, entre risos engasgados. — Sou um homem forte, igual ao meu pai!

Observei o brilho determinado nos olhos dele e segurei um riso. Ele queria tanto ser como Thales que chegava a ser comovente.

— Claro que é, Silas. — Concordei, bagunçando mais seus cabelos, ignorando o olhar indignado que ele me lançou. — E um dia, você será tão forte quanto ele.

Por dentro, fiz uma promessa silenciosa. Estaria ali. Acompanharia cada passo. Protegeria aquele pequeno com tudo o que tinha. E, acima de tudo, garantiria que o destino dele e de seu pai não fossem escritos com dor.

A arrumação do quarto começou, mas a poeira nos cantos resolveu se aliar contra nós, e não demorou para Silas acabar mais sujo do que ajudando. Tentava limpar algo e, de alguma forma, ficava mais imundo no processo. Quando a governanta e o mordomo chegaram, o olhar avaliador da bruxa Martha pousou em mim como se eu fosse um inseto inconveniente.

Leopoldo, por outro lado, apenas ergueu uma sobrancelha, como se me julgasse sem precisar dizer uma palavra.

Ambos eram mais do que apenas servos. Haviam criado Thales antes de ele se tornar o temido Lorde Demônio, preenchendo um papel quase familiar em sua vida. Mas havia um detalhe incômodo: ambos pertenciam a espécies que nutriam um profundo desprezo por humanos.

Ah, claro.

Era evidente que já sabiam do incidente na sala do trono.

Fiquei em silêncio enquanto Silas era arrastado para um banho, assistindo à cena com um misto de alívio e diversão. Quando os passos deles desapareceram no corredor, suspirei e voltei a organizar minhas coisas.

Cada objeto que tocava parecia carregar um peso simbólico. Estava ali, naquele espaço que ainda não era meu, tentando torná-lo um lar. Mas a verdade era que, por mais acolhedor que Silas fizesse parecer, algo dentro de mim sabia que os desafios que enfrentaria ali seriam muito mais do que simples móveis fora do lugar.

*********************************************

A porta do quarto se abriu com a imponência de um trovão, e a voz rouca e autoritária de Micaela Hur preencheu o ambiente antes mesmo que eu pudesse reagir. 

— Arthur, ouvi o que você fez. Não me diga que realmente cometeu uma dessas loucuras no meio do salão do trono?

Eu nem tive tempo de abrir a boca antes que ela continuasse, sua voz carregada com uma mistura de incredulidade e censura. 

— Você usou a conversa com o Lorde Thales para chamar a atenção dele, dizendo que estava apaixonado?!

O olhar dourado e afiado dela me atingiu como uma lâmina. O tipo de olhar que poderia perfurar armaduras e, definitivamente, não estava comprando nenhuma desculpa que eu estivesse prestes a inventar. 

Micaela caminhou para dentro do quarto com a graça de alguém que sabe exatamente o impacto que causa. Seu longo cabelo loiro deslizou pelos ombros como um tecido de ouro puro, e cada passo era calculado, firme, deixando claro que eu não sairia ileso dessa conversa. 

Ela se sentou na beira da minha cama, cruzando as pernas com uma elegância quase preguiçosa, mas não se enganem: aquela mulher podia me fuzilar com um olhar e eu sabia disso. 

Respirei fundo. Aquele não era um dos momentos em que eu poderia simplesmente sorrir e escapar. 

— Eu... eu não sei o que dizer, Micaela. — Minha voz saiu meio esganiçada, como um sussurro envergonhado. — Não foi exatamente como você está pensando. 

Ela arqueou uma sobrancelha, um gesto que gritou "Tente de novo, garoto."

— Ah, então me ilumine. Como foi exatamente, Arthur? Estou ouvindo.

Engoli em seco. 

O quarto parecia ainda maior naquele instante, o que era um feito e tanto, considerando que aquele espaço tinha pelo menos duzentos metros quadrados. Diferente dos dormitórios modernos da minha antiga vida universitária, aquele lugar era de uma austeridade quase melancólica. A pedra fria das paredes, o mobiliário pesado e a iluminação bruxuleante das velas criavam uma atmosfera que oscilava entre intimidadora e romântica. 

Talvez fosse esse o problema. Eu estava começando a ver romance até nas paredes. 

Soltei um suspiro longo, sentindo o peso das minhas escolhas me esmagando. 

— Eu só queria ganhar a confiança de Thales. — Minha voz saiu mais firme agora, mas ainda carregada de hesitação. — Achei que, se ele acreditasse que eu estava apaixonado, seria mais fácil fazê-lo se abrir comigo. Não era para ser uma grande cena ou algo do tipo... 

Fiz uma pausa. Não tinha para onde fugir. 

— Mas a verdade é que estou realmente apaixonado por ele.

O silêncio que se seguiu foi tão intenso que eu quase pude ouvir as chamas das velas tremulando ao longe. 

Micaela não disse nada imediatamente. Apenas fechou os olhos por um segundo, como se estivesse pedindo paciência aos deuses. Quando voltou a encarar-me, sua expressão mesclava ceticismo e exasperação. 

— E agora você se enredou em uma teia de mentiras que só vai tornar tudo mais complicado. 

Se ao menos eu pudesse argumentar contra isso. Mas ela estava certa. 

O quarto de repente pareceu menor. 

Meu olhar vagou pelos detalhes simples do ambiente. As sombras dançavam sobre as paredes de pedra, desenhando formas abstratas que pareciam rir da minha situação. 

— Talvez você esteja certa. — Admiti, afundando um pouco mais nos ombros. — Mas eu não tinha outra escolha. Este mundo é um labirinto de descobertas, e cada segundo aqui é ao mesmo tempo maravilhoso e aterrorizante. 

Micaela finalmente suavizou a expressão. Seu tom também mudou quando se inclinou levemente para frente. 

— Arthur... — Ela suspirou, sua voz carregando uma nota de preocupação sincera. — *Eu entendo o quanto tudo isso é difícil para você. Mas precisa ser mais cuidadoso. Estamos jogando um jogo muito perigoso, e um erro pode custar caro... pode ser fatal.

Ao final da frase, seu olhar dourado não carregava mais julgamento, mas algo muito mais precioso: lealdade. 

Eu sabia que ela falava sério. 

Micaela não era só uma aliada, nem apenas uma presença forte na minha vida. Ela era um pilar. Um daqueles raros amigos que enxergam além das nossas palavras e que, mesmo quando nos chamam de idiotas, ainda ficam ao nosso lado. 

Se o Arthur original estivesse aqui, tenho certeza de que ele também se sentiria da mesma forma. Talvez até mais. 

Sorri de leve, deixando escapar um humor cansado. 

— Posso dizer que vou ficar bem melhor tendo você para me ajudar com uma coisa? 

O brilho desconfiado nos olhos dela foi instantâneo. 

— Está ficando abusado, hein? — Ela cruzou os braços. — O que você quer agora?

Me ajeitei na cama, tentando parecer casual. 

— Você pode me ajudar com a decoração usando sua magia? 

Ela riu baixinho, um riso curto e irônico. 

— Ah, claro. Você se mete em problemas gigantescos, e sua prioridade é a decoração. Muito bem, Arthur. Prioridades impecáveis.*

— Ei! Meu bem-estar mental é importante. 

— Seu senso estético questionável também, pelo visto.

Antes que eu pudesse protestar sobre o "questionável", ela ergueu a mão e, num instante, pequenos feixes de luz começaram a serpentear pelo ar. Era como se estrelas em miniatura deslizassem pelo quarto, reorganizando os móveis, suavizando as cores e acrescentando um toque de elegância e aconchego. 

O que antes era apenas um espaço austero agora tinha um brilho dourado discreto nas molduras, cortinas aveludadas e um tapete que me dava vontade de afundar os pés. 

— Uau... — Murmurei, impressionado. 

Micaela sorriu de canto, satisfeita com o resultado. 

— Eu sei. Mas não vá se acostumando com esses favores, viu?

— Nunca! — Joguei as mãos para o alto. — Jamais abusaria da sua generosidade.

Ela arqueou a sobrancelha. 

— Arthur.

— Tá bom. Talvez um pouquinho. 

Ela riu, balançando a cabeça. 

E naquele momento, enquanto ela permanecia ali, implicando comigo do jeito que só verdadeiros amigos fazem, eu percebi algo reconfortante: 

Eu podia enfrentar qualquer coisa. 

O que quer que viesse, o que quer que estivesse à espreita no horizonte, seria menos assustador com Micaela ao meu lado. 

E, talvez, com um quarto bem decorado. 

Mas principalmente com Micaela.

___________________________________

Gostaram?

Até a próxima 😘

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top