Capítulo Sete

Arthur Kaymin:

Na manhã seguinte, despertei lentamente, sentindo o calor suave dos primeiros raios de sol filtrando-se pelas cortinas finas do meu quarto. Por um momento, permaneci sentado na cama, piscando algumas vezes enquanto o mundo ao meu redor se ajustava ao despertar. O colchão afundava levemente sob meu peso, e um silêncio acolhedor pairava no ar, interrompido apenas pelo som distante do vento sussurrando contra as janelas.

Levei um tempo para me espreguiçar, sentindo o corpo ainda um pouco pesado do dia anterior. Enquanto me levantava, olhei ao redor, reconhecendo o espaço que, apesar de ainda não ser meu lar, já me trazia certa familiaridade. Minhas malas ainda estavam ali, intocadas, e agradeci mentalmente pelo fato de terem permitido que eu ficasse com elas. Ao menos haviam visto que eu não carregava nada perigoso, apenas roupas e pertences pessoais que me ligavam ao que eu deixara para trás.

Me vesti com calma, o tecido das roupas acariciando minha pele de maneira reconfortante. A tranquilidade do lugar me fez perceber que devia estar muito cedo, pois nem mesmo Silas havia acordado ainda. Caminhei pelo quarto, depois para fora, onde o corredor estava mergulhado em um silêncio quase sagrado. O chão de madeira sob meus pés rangia de leve a cada passo, ecoando pelo espaço vazio.

Quando alcancei uma das amplas janelas, parei para observar o cenário do lado de fora. Meu olhar se perdeu na vastidão da paisagem, onde a luz dourada da aurora começava a tingir o céu com tons de laranja e rosa, misturando-se suavemente ao azul profundo da noite que se dissipava. A brisa fresca da manhã trouxe um arrepio leve à minha pele, carregando o cheiro da terra úmida e das folhas orvalhadas.

— Aqui é tão lindo... — murmurei, minha voz mal passando de um sussurro, como se não quisesse perturbar a serenidade do momento.

Foi então que meus olhos captaram um movimento no horizonte. Um enorme pássaro alçou voo com suas asas majestosas se abrindo contra o céu, e atrás dele, seus filhotes o seguiam desajeitadamente, suas pequenas silhuetas contrastando com a imensidão celestial. Meus lábios se curvaram em um sorriso discreto enquanto eu observava aquela dança natural da vida, o nascer do sol pintando suas penas com reflexos dourados.

Fiquei ali por mais alguns instantes, absorvendo cada detalhe, sentindo-me parte daquele momento efêmero e belo. Em algum lugar dentro de mim, uma sensação morna de paz se instalou. Um novo dia começava, e eu não sabia exatamente o que ele me reservava, mas por ora, estava satisfeito apenas em estar ali, testemunhando a beleza silenciosa do mundo desperto ao meu redor.

Desde o momento em que me lembrei de que tudo isso fazia parte de uma história, não pude evitar me admirar com a forma como o autor falhou em capturar, a cada instante, a grandiosidade dessas paisagens. Cada detalhe, cada vislumbre do horizonte, cada sombra desenhada pela luz do sol nascente... Tudo era de uma beleza esmagadora, algo que, sem dúvida, arrancaria suspiros de qualquer um que tivesse olhos para ver. E, no entanto, ele se limitou a mostrar apenas a perspectiva do Lorde Thales, ignorando por completo o impacto que a destruição deste mundo deveria ter causado nos outros. Como teria sido para aqueles que perderam tudo? Como foi o momento exato em que as terras ruíram, em que os céus se tingiram de cinza e os gritos de desespero preencheram o ar?

Ele criou um vilão brilhante, mas negligenciou o peso da ruína, a dor da perda que poderia ter dado ainda mais profundidade à narrativa.

— Isso teria ajudado muito a me fazer agir... — murmurei para mim mesmo, passando os dedos distraidamente pelo pescoço.

Sem saber exatamente como esse mundo foi consumido pelo caos, como eu poderia identificar os sinais antes que fosse tarde demais? A força rugia dentro do meu peito, uma presença quase palpável que exigia que eu fizesse algo.

— Desta vez será dife...

— Saia da frente, humano! O que está fazendo aí parado como um idiota?

O impacto foi brusco. Meu corpo foi empurrado de lado sem qualquer delicadeza, me fazendo cambalear. Pisquei algumas vezes, sentindo o frio da indiferença no tom da pessoa que me afastou.

— Fique longe até que a limpeza termine. Você só está atrapalhando.

Recuperei o equilíbrio e encarei quem havia me empurrado: um empregado, trajando vestes impecáveis, que me olhou de cima a baixo com evidente desdém. Ele carregava um espanador, que sacudiu algumas vezes antes de, sem qualquer cerimônia, dar uma batida em mim, como se estivesse tirando poeira de um móvel velho. Começou a resmungar, sua voz impregnada de irritação.

— Você realmente não tem medo de um bastardo sem espinha dorsal... — ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim.

O tom das palavras dele me fez arquear uma sobrancelha. Ah, então era assim que as coisas funcionavam aqui? Um lugar onde aqueles que deveriam manter a ordem e a disciplina se escondiam atrás de máscaras de indiferença, onde a governanta fingia não ver e os criados se permitiam agir como bem entendessem, contanto que não fossem repreendidos.

Era lamentável.

E, no entanto, a postura dele me dizia algo mais. Ele não me via como alguém digno de respeito. Afinal, por que deveria? Eu era um forasteiro, um convidado do Lorde Thales, mas, neste castelo, isso pouco significava. Para eles, eu não passava de mais um intruso em um lugar onde as regras não favoreciam os fracos.

Senti a irritação borbulhar dentro de mim, mas mantive minha expressão neutra. Meus olhos, no entanto, ficaram frios enquanto analisava o homem diante de mim.

— O que é isso? O que você faria se me olhasse assim? — ele perguntou, a voz carregada de desafio.

Eu nem sequer havia aberto a boca, mas o olhar que lancei foi o suficiente para fazer sua expressão endurecer. Ele hesitou. E então, sem que eu dissesse uma palavra sequer, seu rosto empalideceu ligeiramente, como se percebesse algo que até então havia ignorado. Seus dedos se crisparam ao redor do espanador, e por um momento, tive a impressão de que ele queria recuar.

— Nada — respondi, com calma absoluta. — Vou apenas sair do caminho para que possa continuar sua "limpeza" em paz.

— Ah...

A tensão em seu rosto se dissipou por um instante. Ele pareceu relaxar, mas, em segundos, o alívio se transformou em raiva.

— Ei! O que você estava tentando insinuar?! Saia da minha frente agora!

Soltei um breve suspiro e me virei, deixando-o para trás. Não valia a pena discutir. Ele era apenas mais um reflexo da podridão enraizada nesse castelo. Mas aquilo não significava que eu havia esquecido.

Não.

Se havia algo que eu aprendera até agora, era que ninguém, nem mesmo um criado insignificante, deveria ser subestimado.

Aqui está a cena reescrita com mais fluidez, emoção e detalhes ricos:

Sentei-me perto da janela do corredor, observando o mundo do lado de fora enquanto o tempo escorria lentamente entre meus dedos. A brisa matinal soprava através das frestas, trazendo um frescor agradável, e os primeiros raios do sol tingiam o céu com tons suaves de dourado e azul. Esse corredor era um lugar de passagem constante, onde criados iam e vinham, cumprindo suas tarefas diárias. Mais cedo ou mais tarde, alguém certamente apareceria.

E não demorou muito.

Menos de dez minutos depois, ouvi passos ecoando pelo corredor e, ao erguer o olhar, vi Layla surgindo ao final do corredor. Seu andar era decidido, mas sua expressão carregava algo além do habitual. Irritação, talvez?

— Oh, jovem mestre? — Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços ao me ver ali, aparentemente perdido em pensamentos. — Por que está aqui parado com essa expressão?

Seu tom era uma mistura de curiosidade e leve preocupação.

Pela forma como ela me olhava, percebi que provavelmente tinha vindo para me dizer algo.

— Estou bem — respondi com um leve dar de ombros. — Apenas acordei cedo e resolvi observar o movimento.

Por um instante, deixei meu olhar deslizar para as roupas dela. Era uma vestimenta de empregada, um uniforme que claramente não combinava com ela. Assim que percebeu minha observação, sua expressão se fechou, os lábios se contraindo em um claro sinal de descontentamento.

— Aquele maldito mordomo-chefe e a bruxa-chefe deste castelo disseram que o lorde ordenou que eu vestisse isso — Layla resmungou, puxando a saia do vestido com visível desgosto. — Nem consigo me mover direito nessas roupas!

Sua frustração era evidente, quase palpável. Eu já havia visto Layla enfrentar inimigos poderosos sem pestanejar, mas agora, presa em um traje que limitava seus movimentos e provavelmente ferira seu orgulho, ela parecia à beira de explodir.

Antes que eu pudesse dizer algo, o som de passos ritmados chamou nossa atenção. Martha surgiu ao nosso lado, passando apressada, como se nem tivéssemos importância. Ela caminhou até a porta do quarto de Silas e bateu, mas a única resposta foi o silêncio.

Então, sem hesitar, abriu a porta e entrou.

No entanto, Silas ignorou completamente sua presença. Poucos segundos depois, a pequena figura do garoto surgiu no corredor, caminhando diretamente em minha direção. Seu pijama estava ligeiramente amarrotado, e o cabelo bagunçado fazia com que parecesse ainda mais adorável. Seus olhos, ainda pesados de sono, se iluminaram assim que me viu.

— Bom dia, tio Arthur! — Silas disse, sorrindo ao me abraçar.

Senti seu calor contra mim e automaticamente retribuí o gesto, deslizando uma mão por seus cabelos macios. Seu afeto inocente dissipava qualquer tensão que eu pudesse estar sentindo naquele momento.

Aquele castelo podia ser frio, cheio de regras absurdas e pessoas com intenções questionáveis, mas naquele instante, com Silas me abraçando, havia algo genuíno e puro. Algo que, sem dúvida, valia a pena proteger.

— Bom dia — respondi, soltando um pequeno sorriso ao afagar os cabelos bagunçados de Silas. — Mas que tal ir fazer sua higiene? Martha está esperando por você junto com os outros empregados. 

A expressão do garoto imediatamente caiu, seus olhos antes brilhantes assumindo um ar melancólico.

— Pode ir — acrescentei com um tom mais suave. — Eu ficarei aqui esperando. Depois, teremos sua aula. 

Silas hesitou por um instante, como se quisesse prolongar aquele momento comigo, mas acabou assentindo com um leve aceno de cabeça. Seus pequenos pés arrastaram-se pelo corredor de volta ao quarto, e logo Martha e os outros empregados seguiram atrás, lançando-me olhares rápidos antes de desaparecerem para dentro. 

Assim que a porta se fechou, um silêncio confortável se instalou, até que Layla soltou um comentário casual: 

— Devo dizer, o menino está bastante apegado a você. 

Virei-me para encará-la e encontrei seu olhar perspicaz, como se esperasse uma explicação para isso. 

— Passei muito tempo conversando com ele enquanto ele ia até a masmorra para me ver — comentei sem dar muita importância. 

Layla franziu a testa, e, em um instante, suas facas surgiram em suas mãos, afiadas e reluzentes. 

— Layla... — murmurei, já sentindo a confusão que estava prestes a começar. — Aonde está indo? 

— Vou matar quem ousou colocar o senhor em uma masmorra — ela declarou, os olhos brilhando com uma fúria assassina. 

Agir rápido era essencial. Antes que pudesse dar o primeiro passo, estendi o braço e segurei-a pelo pulso, impedindo seu avanço. 

— Não precisa fazer algo tão extremo — tentei acalmá-la, coçando a nuca de leve. — Para falar a verdade... eu meio que invadi este lugar. 

Layla congelou. Seus olhos se estreitaram, e por um breve segundo, pareceu que estava tentando processar minhas palavras. Então, como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo, sua expressão se transformou em puro espanto. 

— Senhor... — Ela inclinou a cabeça, me analisando com suspeita. — Por acaso você é masoquista? 

Pisquei. 

— Não. 

O silêncio que se seguiu foi carregado. Layla ainda me encarava, como se procurasse alguma resposta oculta no meu rosto, mas eu apenas suspirei. 

— Você realmente tem um jeito peculiar de se preocupar comigo — comentei. 

Ela cruzou os braços, ainda desconfiada. 

— Apenas acho que ninguém em sã consciência deveria aceitar tão bem o fato de ter sido jogado em uma masmorra. 

Não pude evitar um pequeno sorriso. 

— Digamos que já passei por situações piores. 

Layla ainda não parecia convencida, mas ao menos não estava mais tentando assassinar ninguém. Por ora, isso já era uma vitória.

— Senhor, você realmente não para de me surpreender desde que nos conhecemos. 

O tom de Layla carregava um misto de exasperação e admiração, o que me fez franzir ligeiramente a testa. 

— Como assim? — perguntei, confuso. 

Ela cruzou os braços, soltando um suspiro pesado. 

— Você age como se nada importasse. Como se tudo o que fizessem contra você fosse apenas um detalhe insignificante. 

Houve um breve silêncio enquanto suas palavras ecoavam dentro de mim. 

A verdade é que... ela não estava errada. 

O Arthur original, aquele que deveria ser eu, sempre teve medo de seus "familiares", mas ainda assim escapava escondido do castelo sempre que podia. Ele se esgueirava pelas sombras, procurando refúgio nos pequenos prazeres que encontrava lá fora — livros, poções, refeições exóticas... qualquer coisa que despertasse sua curiosidade. Mas essa busca por algo além de sua realidade muitas vezes o colocava em risco. 

E quem sempre o impedia de se meter em encrenca? Layla. 

Ela não era apenas uma excelente empregada — era melhor do que qualquer cavaleiro que já haviam designado para proteger Arthur. O próprio cavaleiro pessoal que deveria garantir sua segurança mal parecia cumprir seu papel. 

— Falando nisso... o que aconteceu com Jacob? — perguntei, repentinamente curioso. 

Layla bufou, e um brilho irritado passou por seus olhos. 

— Ele está treinando com os outros cavaleiros. E devo dizer que nem sequer percebeu que você não foi visto pelo castelo nas últimas semanas. 

Ela cruzou os braços com força, claramente frustrada. 

— Ele é um idiota. 

Não pude evitar um pequeno sorriso ao ver sua indignação tão genuína. 

— Na verdade, ele estava apenas treinando o tempo todo. E como nunca me via sair do quarto, deve ter presumido que eu estivesse por lá. Acho que nem passou pela cabeça dele que eu pudesse ter fugido. 

Layla soltou um suspiro longo, balançando a cabeça. 

— Isso só prova meu ponto. Ele não serve para esse trabalho. Se dependesse dele, você poderia ter sido sequestrado antes e só perceberiam semanas depois. 

— Bom, pelo menos não precisei me preocupar em ser seguido. 

Ela me lançou um olhar afiado, como se estivesse lutando contra a vontade de me dar um sermão. 

— Senhor... às vezes eu me pergunto como exatamente você sobrevive. 

Soltei uma risada leve, me encostando à parede. 

— Com uma empregada tão dedicada quanto você, acho que não há como dar errado. 

Layla revirou os olhos, mas o leve curvar de seus lábios denunciava que minha resposta não a desagradou completamente.

— Mas me prometa que não vai mais se arriscar desse jeito — Layla disse, sua voz assumindo um tom quase maternal. Seus olhos carregavam uma preocupação genuína enquanto me analisava, como se tentasse gravar minha expressão. — Quero dizer... já basta ter se metido no castelo de um lorde demônio. Não precisamos de outro. 

Ela cruzou os braços, a testa ligeiramente franzida, como uma mãe repreendendo uma criança teimosa. 

Dei um leve sorriso antes de responder, sem pensar muito nas palavras que escapavam dos meus lábios: 

— Não se preocupe, Layla. Apenas o Lorde Thales me interessa romanticamente. 

O silêncio que se seguiu foi quase cômico. 

Layla piscou algumas vezes, como se estivesse tentando processar o que acabara de ouvir. Seus lábios se entreabriram, prestes a dizer algo, mas, por algum motivo, as palavras se perderam antes mesmo de serem ditas. 

Ela ficou quieta. 

— O que foi? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Você ia dizer alguma coisa. 

Layla desviou o olhar por um momento, como se lutasse para encontrar a melhor resposta. Então, por fim, soltou um suspiro leve e sorriu, um daqueles sorrisos que aquecem o coração. 

— Eu... eu nunca vi o senhor tão cheio de vida antes — disse ela, sua voz carregada de algo próximo à nostalgia. — Fico feliz que isso tenha acontecido. 

Seus olhos tinham um brilho raro, como se enxergasse algo em mim que nem eu mesmo havia notado. 

Fiquei em silêncio por um instante, sentindo o peso de suas palavras. Talvez ela estivesse certa. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente estivesse vivendo... e não apenas existindo.

*************************

Meia hora depois, Silas se juntou a nós, caminhando com passinhos determinados, como se estivesse ansioso pelo que viria a seguir. Seguimos juntos até a sala de estudos, e, claro, Martha veio logo atrás, mantendo sua postura rígida e observadora. 

Como um passe de mágica, Leopoldo já estava lá, parado em silêncio absoluto, quase como uma sombra. Ele não parecia ter intenção de falar, mas sua presença por si só carregava um certo peso. 

Layla, por outro lado, os olhava com uma expressão carregada de suspeita, como se estivesse avaliando se valia a pena atacá-los naquele exato instante. Seus olhos afiados se moviam de um para o outro, e tive quase certeza de que ela já estava mentalmente calculando a melhor forma de derrubá-los, caso fosse necessário. 

Foi Silas quem quebrou o silêncio com sua voz animada: 

— Tio Arthur, o que vamos aprender hoje? 

Sorri de leve e coloquei um livro grosso à sua frente, que havia pegado na biblioteca do castelo na noite anterior. A capa era de couro escuro, e as páginas, antigas, exalavam aquele cheiro característico de história preservada. 

— A história da Rainha demônio e de sua família — respondi calmamente. 

Os olhos de Silas brilharam de curiosidade, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, continuei: 

— Sabe me dizer por que é importante aprender isso? 

Ele franziu a testa por um instante, como se estivesse buscando a resposta certa. Mas então, com a confiança infantil de quem sabe mais do que deixam transparecer, ele declarou: 

— Porque o papai é um dos seguidores dela. 

O impacto de suas palavras foi imediato. 

Martha e Leopoldo engasgaram ao mesmo tempo, como se tivessem acabado de engolir uma pedra. A surpresa estampada em seus rostos era quase cômica. 

Layla, por outro lado, apenas sorriu. 

Eu sabia que, apesar da idade, Silas compreendia muito mais do que tentavam esconder dele. Mesmo com todos os esforços para protegê-lo do mundo exterior e mascarar a realidade ao seu redor, ele ouvia. Ele observava. 

E mais do que isso: ele sabia exatamente onde procurar respostas.

Ele já havia me contado, sem hesitação, onde ficavam seus esconderijos secretos para espionar as reuniões de Lorde Thales. A forma como falava deixava claro que era algo natural para ele. Ninguém lhe contava a verdade, então ele mesmo ia atrás dela. 

— Me diga o que sabe — incentivei, cruzando os braços e esperando sua resposta. 

Silas estufou o peito, orgulhoso por poder demonstrar o que sabia. 

— A Rainha Quill subiu ao trono quando ainda era jovem. Dizem que ela é filha do demônio mais antigo do mundo, aquele que faleceu quando a Era dos Deuses sucumbiu. 

Havia um brilho ingênuo de empolgação em seu olhar, como se estivesse contando a história de uma lenda heróica, e não de uma figura que, para muitos, era temida e reverenciada com igual intensidade. 

Enquanto ele falava, olhei rapidamente para Martha e Leopoldo. Eles ainda pareciam atordoados, como se não soubessem se deviam intervir ou fingir que não ouviram nada. 

Layla apenas observava, seu sorriso se ampliando levemente. 

Afinal, a inocência de uma criança não era algo tão frágil quanto imaginavam. E, pelo visto, Silas já estava muito além de ser apenas um menino protegido do mundo.

Inclinei-me levemente para frente, observando Silas com atenção. Ele parecia tão animado para compartilhar seu conhecimento que suas pequenas mãos se moviam inquietas sobre a mesa, os olhos brilhando como se estivesse narrando uma grande aventura. 

— Pode me dizer o que ela fez depois de assumir a coroa? — perguntei, incentivando-o a continuar. 

Silas endireitou a postura e começou a contar nos dedos, como se organizasse os fatos em sua mente antes de falar. 

— Ela unificou os acordos entre as raças da melhor maneira possível — declarou, a voz carregada de orgulho. 

Martha e Leopoldo trocaram um olhar discreto, mas permaneceram em silêncio. 

— Primeiro, ela fez uma aliança com os clãs de bruxas, que é de onde vem a vovó Martha — Silas continuou, apontando para a governanta. 

Martha, que normalmente mantinha uma expressão neutra, piscou algumas vezes, surpresa por ser mencionada diretamente. 

— Depois, ela negociou com os feéricos... e então com os ferais, que é a espécie do vovô Leopoldo! 

O mais velho, que até então permanecia impassível, arqueou uma sobrancelha ao ouvir seu nome ser citado, mas nada disse. Apenas cruzou os braços e observou Silas atentamente. 

— Depois disso, ela viajou para se reunir com os gigantes, que eram muito difíceis de convencer — prosseguiu Silas, agora gesticulando com mais entusiasmo. — E, ao mesmo tempo, começou a criar alianças com os vampiros e os outros monstros. 

Ele fez uma pausa dramática, seus olhos fixos nos meus, como se estivesse se preparando para revelar o grande clímax da história. 

— E então — ele continuou, abaixando um pouco a voz, como se compartilhasse um segredo —, ela conseguiu o impossível: negociar com os humanos. 

Suas mãos se fecharam sobre a mesa, e um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto. 

Martha e Leopoldo pareciam prestes a intervir, talvez para acalmar o entusiasmo de Silas ou corrigir algo, mas Layla, encostada na parede com os braços cruzados, apenas observava tudo com um olhar divertido. 

Eu sorri, apoiando um cotovelo na mesa e descansando o queixo sobre a mão. 

— Parece que você entende bem a importância dessas alianças, Silas — elogiei. 

O garotinho assentiu rapidamente. 

— Papai sempre diz que o mundo é feito de pactos — disse ele. — Quem não entende isso, perde antes mesmo de tentar jogar. 

Leopoldo soltou um breve suspiro, e Martha desviou o olhar, como se aquela conversa estivesse indo longe demais. 

Layla apenas riu baixo. 

Silas, no entanto, não parecia notar a tensão ao seu redor. Ele apenas continuava empolgado, esperando para ver se eu pediria que ele continuasse sua explicação. 

E, francamente, eu queria ouvir mais.

Apoiei os cotovelos sobre a mesa e inclinei levemente o corpo para frente, observando Silas com atenção. Ele parecia animado, seus pequenos dedos tamborilando sobre o livro à sua frente, como se estivesse ansioso para mostrar o que sabia. 

— Silas, me conta — perguntei com um tom incentivador. — O que a Rainha fez em relação aos acordos de território? 

O garotinho franziu a testa por um instante, refletindo, mas logo seus olhos brilharam com reconhecimento. 

— Só podemos agir e atacar se o outro lado atacar primeiro ou questionar nosso caráter! — ele declarou com convicção, batendo palmas como se comemorasse ter lembrado da resposta exata. 

Não pude evitar um sorriso ao ver seu entusiasmo. 

— Ótimo — elogiei. — Agora, me diga... o que você já ouviu sobre a família da rainha? 

Apontei para o livro aberto à sua frente, indicando que poderia usá-lo como referência se precisasse. Mas, como esperado, Silas não precisou nem ao menos baixar os olhos para ler. 

— Ela não deseja ter filhos e nunca se casou — disse ele, sem hesitar. — Acabou vivendo em seu castelo, cercado pelas muralhas do território central da Terra dos Demônios. 

As palavras fluíam de sua boca com confiança, como se fossem verdades absolutas e incontestáveis. 

— Mas — ele continuou, erguendo um dedo no ar como se prestes a revelar um detalhe importante — Uma vez por mês, a rainha escolhe onde realizará a reunião com seus cinco generais. 

Martha e Leopoldo mantinham-se atentos, mas não ousavam interromper. 

— E depois? — incentivei. 

— Depois da reunião, ela se encontra com os Lordes Demônio em cada um de seus territórios e, em seguida, parte para visitar as outras raças — explicou Silas, quase com orgulho infantil. 

Havia algo fascinante na maneira como ele narrava aquilo, como se estivesse contando uma lenda que ouvira repetidas vezes, mas que ainda o encantava. 

Layla, que até então observava em silêncio, soltou um pequeno riso pelo canto da boca, como se estivesse se divertindo ao ver um garotinho tão pequeno falando de política e acordos como se fosse algo natural. 

Martha e Leopoldo, por outro lado, pareciam cada vez mais tensos. 

Não os culpo. 

Silas pode ser apenas uma criança, mas não era tolo. Ele compreendia mais do que muitos imaginavam — e, talvez, até mais do que deveria para sua idade.

Estava prestes a falar quando, de repente, o som de batidas firmes ecoou pela porta. Antes que alguém tivesse tempo de reagir, ela se abriu, e alguns empregados entraram com passos calculados, a formalidade estampada em suas posturas rígidas. 

Uma das mulheres à frente inclinou-se levemente antes de falar: 

— O Lorde Thales deseja falar com o senhor Arthur. 

No mesmo instante, o ambiente congelou. 

Todos os olhares se voltaram para mim, como se aquela simples declaração tivesse alterado completamente a atmosfera da sala. 

— A reunião desta vez será realizada aqui no castelo — acrescentou ela. 

Foi o suficiente para que Martha soltasse um pequeno ruído estrangulado, como se estivesse engasgando no próprio desespero. 

— O quê?! — Sua voz saiu quase num sussurro horrorizado. 

Ao seu lado, Leopoldo, que normalmente exalava uma presença impassível, também não conseguiu disfarçar o impacto da notícia. Ele imediatamente se voltou para Martha, tentando acalmá-la, mas era evidente que ele mesmo estava quase tão desesperado quanto ela. 

O contraste entre a dignidade que ambos tentavam manter e o caos interno que estavam vivenciando era quase cômico. 

Suspirei, passando uma mão pelos cabelos de maneira despreocupada. 

— Calma, não é para tanto — falei, tentando dissipar um pouco da tensão no ar. 

Não parecia funcionar. 

— Vamos logo — acrescentei, já me levantando. Antes de sair, lancei um olhar para Layla. — Você pode continuar ensinando no meu lugar, certo? 

Ela sorriu de canto, relaxada como sempre. 

— Claro — respondeu, sem hesitação. 

Me virei para Silas, que observava tudo com sua curiosidade habitual, e depois apontei casualmente para os dois adultos desesperados ao lado dele. 

— E, já que está aqui, Layla... cuide desses dois também. 

Apontei para Martha e Leopoldo, que estavam prestes a entrar em pânico. 

Layla lançou-lhes um olhar avaliativo, depois deu de ombros. 

— Posso tentar, mas acho que nem eu faço milagres. 

Silas soltou uma risadinha. 

Já eu, apenas balancei a cabeça, deixando que eles lidassem com a situação enquanto saía para encontrar Lorde Thales.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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