Capitulo Dois

Arthur Kaymin:

Me virei ao ouvir passos apressados e vi um garotinho de, no máximo, seis anos de idade, vestindo roupas de realeza. Era o mesmo pequeno que, nas últimas duas semanas, vinha correndo até mim com seus ursinhos demônios, puxando minha mão para brincar nos corredores do castelo. Ele atravessou o salão sem hesitar, desviando dos guardas, e parou à minha frente, erguendo os bracinhos como se pudesse me proteger de qualquer ameaça.

O salão mergulhou em um silêncio perplexo. Todos observavam, tentando entender o que acabara de acontecer. O garotinho, que uma vez me disse se chamar Silas, manteve sua posição firme, encarando o Lorde Thales sem desviar o olhar.

— Não vai fazer nada com o meu amigo! — sua voz, pequena mas determinada, ecoou pelo grande salão.

Uma onda de ternura me atingiu com força. Ver aquela criaturinha me defendendo com tanta bravura fez meu coração apertar de um jeito estranho. Não pude evitar recordar minha infância solitária em um orfanato, onde passava os dias desejando desesperadamente ter alguém ao meu lado. Silas, com sua coragem inocente, lembrava muito de mim quando criança, ansiando por um laço verdadeiro.

O Lorde Thales, que até segundos atrás irradiava uma fúria contida, relaxou ligeiramente.

— Silas — sua voz saiu mais branda, quase curiosa. — O que pensa que está fazendo aqui?

Silas olhou para o lorde, mas permaneceu firme, sem recuar um único passo. A cena era quase cômica: um garotinho tão pequeno encarando um Lorde Demônio imponente, como se realmente pudesse me salvar caso as coisas desandassem.

— Ajudar meu amigo, papai. — Silas declarou com a inocência sincera que só as crianças possuem.

Papai?

Engoli em seco, meus olhos indo de Silas para Thales tão rápido que minha cabeça girou.

Espere aí. O QUÊ?!

Silas era filho do Lorde Thales? Mas... como? Na história original, nunca houve uma descrição clara do filho do Lorde. Apenas se falava de sua dor, de sua perda, mas nenhuma palavra sobre a existência de uma criança viva. Isso bagunçava completamente tudo que eu sabia.

Minha mente entrou em um turbilhão de pensamentos, tentando processar a revelação. Silas era tão humano em sua aparência, com seus cabelos ruivos brilhando sob a luz do castelo e sua aura inocente, contrastando completamente com a presença esmagadora de Thales. O Lorde, por sua vez, parecia tenso, sua expressão se dividindo entre autoridade e algo que eu não conseguia identificar.

Por um momento, o silêncio se prolongou no salão. Então, o Lorde Thales respirou fundo e, num gesto completamente inesperado, se ajoelhou diante do filho e o envolveu em um abraço.

O choque foi palpável. Os murmúrios começaram a se espalhar pelo salão, ecos de descrença enchendo o espaço. Eu apenas fiquei ali, boquiaberto, observando a cena diante de mim.

— Você fez muito bem, Silas, em defender seu amigo. Perdoe-me por minha reação anterior. — A voz de Thales soou diferente, quase... gentil?

Eu pisquei várias vezes, me perguntando se tinha sido transportado para um universo alternativo.

Silas sorriu, seu rosto iluminando-se de felicidade.

— Você não vai machucar o tio Arthur, né, papai? — O garotinho piscou para o pai, puxando a manga de sua túnica com dedos minúsculos.

O Lorde olhou para mim e sua expressão se fechou em uma carranca mal-humorada. Mas o olhar insistente do filho fez algo nele vacilar.

— Sim, eu prometo que não vou machucar o tio Arthur. — Thales murmurou entre dentes, claramente contrariado.

Foi nesse momento que nossos olhares se encontraram. E eu, sem qualquer freio verbal, deixei escapar:

— Lorde Thales, eu te amo ainda mais depois de ver essa cena. — Minha voz saiu carregada de emoção. — Principalmente agora, sabendo que você é um pai tão amoroso.

Silas olhou para mim, depois para o pai, com a cabeça levemente inclinada em confusão. Mas algo brilhou em seus olhos no segundo seguinte, como se tivesse entendido algo importante.

Thales, por outro lado, congelou.

— O que diabos você está falando?! — Ele praticamente pulou para longe do filho e se ergueu de forma abrupta, sua postura rígida e visivelmente desconcertada.

— Eu já disse, eu simplesmente amo você, só isso. — Repeti, porque, bem, por que não jogar mais lenha na fogueira?

— Hah! Você está abusando da sorte, humano! — Thales rosnou, virando-se de forma abrupta para me ignorar, mas... oh, o que temos aqui?

Uma leve vermelhidão no pescoço dele.

A visão era tão rara, tão absurda, que meu cérebro se desligou momentaneamente e minhas palavras escaparam sem que eu pudesse detê-las:

— É tão lindo.

Assim que me ouvi, me amaldiçoei mentalmente.

Thales parou no meio do movimento e, por um breve instante, parecia tentar decidir se deveria me desintegrar ali mesmo ou fingir que não ouviu nada.

Ah, eu definitivamente ia morrer nesse castelo. Mas pelo menos morreria feliz.

— O que... O que...?! — O lorde gaguejou, seu tom uma mistura de incredulidade e frustração. Seu rosto, geralmente tão frio e imponente, estava ruborizado. — Você está... Você está insinuando que está jogando para esse time?

— Ah, bem, isso realmente não importa. Quer dizer, é irrelevante para a questão principal... que é... — Respirei fundo e soltei de uma vez. — Lorde Thales, você é simplesmente fofo para mim.

O salão mergulhou em um silêncio absoluto. Novamente.

— Ei?! — Thales avançou na minha direção, sua expressão uma mistura de choque e fúria. Para mim, era a reação perfeita. Como poderia ser tão adorável enquanto tentava parecer ameaçador? Seu rosto estava ainda mais vermelho, e eu mal conseguia segurar um sorriso satisfeito.

— Lorde Thales, mais uma vez, estou apenas expressando sinceramente o que está no meu coração — falei, mantendo minha expressão o mais pura possível.

Antes que Thales pudesse rosnar algo em resposta, senti um puxão e vi Silas saltando ao lado do pai, enlaçando-o pela cintura com seus bracinhos.

— Papai, você poderia tratar o Arthur como uma visita, em meu nome? — Silas pediu, seus olhos brilhando de expectativa e inocência.

A sala inteira prendeu a respiração. Thales olhou para o filho e então para mim, e eu quase pude ver as engrenagens girando em sua cabeça. Meu coração bateu acelerado enquanto eu aguardava sua resposta.

— Eu... Vou ver o que posso fazer. — A resposta foi hesitante, e Silas se afastou, claramente magoado.

Isso não era bom. Precisava agir antes que uma fissura surgisse entre os dois.

Me aproximei cautelosamente, meus olhos nos de Thales.

— Lorde Thales, você me odeia, certo? — Perguntei, tentando parecer genuinamente curioso.

— Claro! Olhe só o caos que você causou no meu castelo com sua mera presença! — Ele respondeu, a irritação evidente em cada palavra.

— Bom, então me permita consertar isso. Posso ajudar como professor do Silas. Além disso, para aqueles que não desejam minha presença, poderia pelo menos me permitir ficar como um visitante pacífico? — Propus, vendo o olhar incrédulo que ele lançou em minha direção.

— Não force as coisas ainda mais para o seu lado, humano, ainda mais usando meu filho como desculpa. — Seu tom era cortante, e eu sabia que estava andando sobre gelo fino.

— Não estou usando ninguém, apenas propondo algo vantajoso para ambos. Considere-me também um aliado político para qualquer necessidade futura. Além disso, estou disposto a ensinar Silas sobre o mundo exterior, algo que ele claramente deseja aprender. — Senti a confusão na expressão de Thales. Mas então, algo em seu olhar mudou para puro choque, e a intensidade do seu olhar sobre mim fez minha garganta secar.

Talvez eu tenha falado demais.

— Por favor, continue me provocando se desejar. Eu adoro isso. — As palavras escaparam antes que eu pudesse detê-las.

— O quê?! — Thales recuou, suas bochechas adquirindo um tom escarlate, seu olhar oscilando entre raiva e perplexidade. O salão inteiro prendeu a respiração, e então um silêncio quase mortal se instaurou. Finalmente, após alguns longos segundos, ele bufou.

— Está bem, pode ficar. Mas sob minhas condições. — Ele declarou com relutância.

Senti um sorriso se formando involuntariamente em meus lábios. Ah, essa era uma vitória deliciosa.

— Agora, vamos começar essa vida de visitante superdivertida, Lorde Thales! — Anunciei animadamente, observando-o se afastar como se eu fosse uma praga. — E agradeço por me permitir ensinar Silas sobre o mundo exterior e tudo que ele quiser saber.

Silas, radiante, pulou de alegria antes de abraçar o pai com força e deixar um beijo estalado em sua bochecha.

— Obrigado, papai! — Ele exclamou com um sorriso enorme.

Thales suspirou pesadamente, mas sua expressão suavizou.

— De nada... Tudo por você, meu amado filho. — Sua voz saiu mais baixa, quase carinhosa.

Silas então correu até mim, pegando minha mão com entusiasmo.

— Iremos nos divertir muito juntos, Lorde Thales! — Declarei, sem perder a chance de provocá-lo.

Thales me lançou um olhar gélido, mas o efeito foi arruinado quando ele congelou ao encontrar meus olhos. Sua expressão ficou ainda mais furiosa.

— O que faz você pensar que terei algo a ver com você?! Ensine o meu filho o que ele quiser saber, mas qualquer deslize e você será jogado nas masmorras. Ou pior. — Ele disse, sua frustração evidente.

Vi sua orelha ficando vermelha enquanto se afastava. Simplesmente adorável.

Silas me puxou pela mão, já ansioso para descobrir o que aprenderíamos juntos. E assim, com um sorriso satisfeito nos lábios, dei adeus à minha antiga vida de trabalho excessivo e me vi imerso em um novo futuro.

Um futuro onde poderia passar meus dias ao lado do Lorde Thales, o mimando tanto quanto eu desejasse, moldando o futuro dele, de Silas e de seu povo.

E, sinceramente? Eu não poderia estar mais feliz com isso.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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