𝚊 𝚙𝚛𝚊𝚒𝚊
𝟸𝟺 𝚍𝚎 𝚓𝚞𝚕𝚑𝚘 𝚍𝚎 𝟸0𝟷𝟼
𝙷𝚘𝚛𝚊 𝟷𝟺 𝚍𝚊 𝚟𝚒𝚊𝚐𝚎𝚖
𝚂𝙰𝙼𝙰𝙽𝚃𝙷𝙰 𝙷𝙰𝚁𝚅𝙸𝙲𝙺
A nossa segunda parada é na pequena cidadezinha de St. Robert, Missouri — o estado vizinho ao nosso destino final em Oaklahoma.
O meu mapa mostra que não estamos próximos de nenhum outro lugar muito especial. O recepcionista da pousada explicou que a cidade é minúscula mesmo, com cerca de cinco mil habitantes no total. Foi de caso pensado que Colin escolheu justo ela para alugarmos um quartinho onde podemos descansar, tomar banhos demorados e trocar de roupa.
Ninguém aqui se importa em pedir nossos documentos ou checar nossas idades. Se temos o dinheiro na mão, estamos livres de qualquer desconfiança. Até mesmo Miado passou conosco numa boa.
Para o almoço, nós forramos a pança num quiosque de frutos do mar na beira da praia. Pelos preços ultra acessíveis no cardápio, confesso que fiquei com medo de contrair uma infecção alimentar, mas meus camarões ao alho e óleo estavam ótimos. E é claro que Mandy ainda nos convenceu a dar um tempinho para a digestão na bendita praia, mesmo que nenhum de nós tenha trazido roupas de banho.
O vendedor de picolé me olha estranho, provavelmente devido ao sutiã que cobre meus peitos no lugar de um biquíni. Segundo Amanda, a única diferença entre os dois é como a sociedade lida com eles — e nós não queríamos pegar sol de blusa para ganhar marquinha de mangas.
Esboço um sorriso um tanto sem-graça. Na água, minha melhor amiga corre confiante com Miado sob a vigilância do irmão, que está sentado na areia com uma bermuda e o peitoral a mostra.
— É cinco pratas — o vendedor diz. — Mas faço por quatro pra você.
Eu prefiro nem saber o porquê de sua generosidade.
— Ah, obrigada. — Entrego as notas de dólar em sua mão, em troca das embalagens geladas de picolé. — Pode me dizer o horário, por favor?
Ele tira do bolso um celular quase tão capenga quanto o meu.
— Onze e quarenta e dois.
— Ah, tá. — Nós combinamos de retomar a viagem ao meio-dia, para não nos desviarmos muito do cronograma original e ainda chegar em Woodland antes da madrugada. — Obrigada. — Sorrio.
Eu poderia checar as horas no meu próprio celular capenga, mas tive que desligá-lo por forças maiores que atendem pelos nomes de Dona Tara, Gothel e mamãe.
Ela deduziu rapidamente a minha cumplicidade com os gêmeos na fuga, e começou a bombardear o telefone de Colin ainda no Chevrolet a caminho pra cá. O garoto bloqueou o número da mulher por volta da ducentésima mensagem de texto e da quadragésima ligação, mas eu ainda tive que checar o meu celular quando o recarreguei na pousada — o aparelho quase pifou com a quantidade insana de tentativas de contato desde as oito horas da manhã.
Eram perceptíveis as ventas de mamãe cuspindo fogo a cada torpedo desesperado e, por vezes, furioso. Eu não li todos eles porque o telefone travou horrores, mas vi que, em linhas gerais, Gothel só insistia que eu atendesse suas chamadas, desse sinal de vida ou pelo amor de Deus compreendesse o tamanho do erro que estou cometendo. Acho que ela até falou algo sobre delegacia só pra me assustar.
Não vou negar que funcionou.
— Ele fez alguma gracinha? — Colin pergunta, sério, assim que sento ao seu lado na toalha.
— Quem? O vendedor? Não — eu digo, incerta se o desconto se configura como uma gracinha. — Agora tome aqui. É um picolé de coco multitarefas.
Ele relaxa um pouco a carranca de melhor amigo superprotetor, e vira o rosto para me olhar.
— Multitarefas, é?
— É. Pode aliviar o calor, servir de sobremesa e ainda melhorar o machucado. — Eu ponho o embrulho em cima do roxo na testa de Colin, ao que ele ri e balança a cabeça.
O garoto aceita o doce, tirando-o da pele. Seus ombros se encolhem, e Amanda grita ao longe com as patas de Miado espirrando areia para todos os lados.
— Me desculpa pelo o que aconteceu no carro — Colin murmura.
Eu abano uma mão, fingindo não estar terrivelmente assombrada pelos berros de Dean sobre desejar que os filhos nunca tivessem nascido.
— Tá tudo bem, Cole. — Mordo a ponta do picolé de manga com cuidado, para não ativar a sensibilidade dos dentes. — Você estava com raiva. E por uma boa razão.
— Não. Nada é razão o suficiente para atirar o celular da minha irmã pela janela. — Colin respira fundo, o maxilar apertado e os olhos presos na imensidão do mar. — Não quero ter as mesmas reações violentas que cresci vendo nos meus pais. Não quero que você passe a mão na minha cabeça e não quero terminar como eles.
Mordisco a bochecha, trazendo as pernas de encontro à barriga.
É desafiador como temos que lutar diariamente para não internalizar em nós os defeitos das pessoas que nos criam, e sim aprender com eles para não repeti-los. Em minhas brigas com Gothel ao longo dos anos, ela sempre disse que quando eu tivesse filhos iria entender — e até valorizar — sua mania de controle obsessivo sobre mim; o que, honestamente, é um dos meus maiores medos (depois de insetos e desenhos infantis de trás pra frente, é claro). O que eu de fato entendo é o horror no semblante de Colin diante da mera possibilidade de estar reproduzindo um pouquinho dos pais em si mesmo.
Acho que, no final das contas, é um mal inevitável, mas não incurável.
— Sabe, tem uma cota de coisas impossíveis no mundo. — Eu lambo o picolé, que já derrete em meus dedos debaixo do sol impiedoso. — Você não pode contar todos os grãos de areia que existem, por exemplo. Nem tomar o mar de canudinho.
— Ou de qualquer outra forma...
— Exato. Mas o que é realmente impossível, até se algum maluco contar os grãos de areia ou colocar o mar na barriga, é você terminar como os seus pais. — Empurro o ombro de Colin com o meu, nossas peles ligeiramente queimadas ardem com o toque. — Não vai acontecer, Cole. Você é muito melhor do que eles só por se preocupar em não ser como eles. Já é um bom meio caminho andado.
Ele ergue o canto dos lábios carnudos, melecados de branco.
— E o que eu preciso para completar o que falta do meio caminho?
— Eu sei lá. — Rio. — Quem sabe uma emancipação não ajude?
Gentilmente, com um sorrisinho agradecido, Colin junta nossas mãos por cima da toalha e eu tombo minha cabeça em seu ombro. Ficamos curtindo o picolé e a companhia, observando Mandy chutar a água com o pé para o cachorro bobão que tenta prová-la com a boca aberta. As ondas educadas quebram nos joelhos da garota e o vento assobia uma melodia pacífica no ar.
É uma pena que vamos ter que abandonar o paraíso tão cedo.
— Você tem mesmo prova dos abusos que aconteceram? — Rompo o silêncio, após desocupar a boca do picolé.
— Lógico. Está tudo em uma gaveta falsa no meu quarto — Colin revela, distraído pela paisagem. — Se um dia me encontrassem morto numa vala, não queria que restassem dúvidas sobre os assassinos.
— Credo, Colin. Que horror — repreendo, com um calafrio.
O garoto sacode os ombros.
— Pelo menos, se meus pais assinarem mesmo a emancipação, já não corro mais tanto risco.
— Se? — eu indago. — Você ainda tá duvidando?
Colin gira o rosto, se limpando do coco com as costas do braço.
— Você não? — Ele engelha a testa. — O imbecil do Dean não tem compromisso nem com os filhos, Sam, que dirá com algo dito de cabeça quente no telefone.
Eu meneio com a cabeça, admitindo que ele tem um ponto.
— Mas eu nunca vi o seu pai tão irritado, nem no dia em que ele te pegou com o saquinho de maconha. — Entorto o rosto numa careta.
Meu melhor amigo retrai os ombros tensos, dividindo o efeito da memória. Quando eu lembro dos gritos indignados de Dean acusando o garoto de ser um drogado, o receio de Colin de ser assassinado pelos pais não me parece mais tão absurdo.
— Não quero criar esperanças à toa — ele confessa, a voz estrangulada.
— Esperança é o que nos impede de desistir, Cole. Ter um pouquinho é sempre bom. — Eu disparo um peteleco na bochecha dele. — E eu acho que você acertou o ponto fraco dos seus pais. Eles tratam esse Chevrolet como se fosse um...
— Tudo menos um filho. — Meu amigo dá risada.
Eu coro, com um risinho sem-graça pela gafe.
— Você vai ver. Quando voltarmos pra casa só na terça, Dean vai ficar ainda mais puto e definitivamente assina a sua emancipação. Podíamos até arranhar a lataria do carro só por garantia.
Colin me encara com uma pontada de orgulho nas linhas de seu sorriso.
— Um dia fora da torre e a Rapunzel já está toda diabólica... — Ele faz cócegas em minha orelha, e eu pulo em meio à gargalhadas e um tapa em sua mão. — Se o carro for mesmo o ponto fraco, eu queria ter descoberto antes de tatuar aquela maldita pimenta na virilha.
— Ei, você nunca me mostrou essa!
— Eu estou tentando, Sam, acredite.
Tasco outra palmada em sua pele vermelha. Colin, com a atitude cafajeste detestável, me engancha pelo pescoço e estala um beijo escandaloso em minha bochecha.
— Você não vale o que o gato enterra. — Simulo um suspiro ao me desvencilhar dele. — Mas acho que conseguiu o que queria, Cole. Acho que está por sua conta, como sempre quis.
Colin respira fundo, e desliza o braço pela minha coxa para entrelaçar nossos dedos.
— Mesmo se estiver enganada, Sam, eu agradeço o apoio. Ainda vou ser livre que nem você, só que um pouquinho melhor.
Livre que nem eu. A sonoridade das palavras é agradável aos meus ouvidos. É graças a elas que eu sei que, mesmo que os pais de Colin voltem atrás e continuem implicando com a emancipação, meu melhor amigo nunca mais vai se permitir ser o prisioneiro deles. Não depois de experimentar o alívio impregnado em nós agora, soprado pelo vento como uma promessa inquebrável.
Colin não vai realmente desistir. E eu espero que consiga fazer o mesmo.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top