𝚊 𝚎𝚜𝚌𝚘𝚕𝚑𝚊
𝟸𝟻 𝚍𝚎 𝚓𝚞𝚕𝚑𝚘 𝚍𝚎 𝟸0𝟷𝟼
𝟸𝟷 𝚑𝚘𝚛𝚊𝚜 𝚎𝚖 𝚆𝚘𝚘𝚍𝚕𝚊𝚗𝚍
𝙲𝙾𝙻𝙸𝙽 𝚂𝙷𝙸𝙴𝙻𝙳𝚂
Woodland não chega a ser nem um ovo; está mais para uma ervilha.
Ao sair com Miado para uma rápida corridinha pelo quarteirão, eu pensei que precisaria memorizar pontos de referência para não me perder do hotel, mas é tipo girar em círculos que sempre terminam no mesmo lugar — e a sensação de não gostar da cidade se intensifica a cada volta.
Talvez eu esteja apenas muito mal-humorado desde que pisamos na agência do pai da Samantha, mas venho realmente considerando voltar mais cedo pra casa. O tanque está abastecido, o teste tosco de Amanda finalizado e minha emancipação querida provavelmente assinada.
São seis e meia da noite de uma segunda-feira. Não sei e nem quero saber como meus pais foram ao trabalho hoje.
Eu quero voltar para minha cidade de tamanho normal e habitantes indiferentes, onde um simples turista não é encarado na rua como se fosse uma aberração. Quero, principalmente, tirar Samantha do alcance dos estragos que John Barker exerce sobre sua inteligência.
Ela está se encegueirando pela vontade de ter um pai. Não acho que entenda como é melhor não ter um em certas circunstâncias — por exemplo, quando o maldito pai em questão age feito um predador de merda.
Oferecer um teste fotográfico gratuito para uma adolescente aleatória na internet foi muita generosidade de John, mas só porque ele nunca planejou levar Amanda a sério como modelo. Ele sabia que ela não poderia assinar os papéis obrigatórios e foi sorte sua que nós também não podíamos. O que ele não sabia é que minha irmã traria mais gente consigo. Aposto que queria que ela tivesse viajado sozinha, vulnerável aos seus feitiços.
Imbecil, imbecil, imbecil.
Estou até surpreso por ele não ter ido atrás de Samantha. Ainda tenho chance de enfiar algum senso naquela cabeça de vento e convencer a garota a ir embora sem falar nada; John não merece saber que é seu pai.
Eu viro na esquina do hotel com o cachorro alguns passos adiante na guia, e meus olhos imediatamente percebem Amanda inquieta na porta. Ela olha de um lado a outro da calçada, batendo um pé no chão e com os braços cruzados. Sua boca faz bolas de chiclete sem parar.
Se bem conheço a minha irmã gêmea, algo está terrivelmente errado.
— Mandy? — Eu falo mais alto.
Amanda vira o rosto a jato pra mim, e aparenta relaxar um pouco.
— A Samantha vai sair para um jantar com o pai dela — ela dispara, afobada.
Eu pisco, parando com Miado para processar a informação.
— É o quê?
— Ela não falou nada porque você estava implicando, mas eu a vi se arrumando no quarto e ela me contou. Também pediu pra guardar segredo.
— De quem foi a ideia? — eu rosno, irritado.
Amanda se encolhe e comprime os lábios.
— Do John.
— Filho da puta.
Bem que estranhei o silêncio avoado de Samantha na volta pro hotel, apesar de eu também não ter falado muito ao dirigir — Amanda foi a única a tagarelar incansavelmente. Eu devia ter imaginado a cilada que minha melhor amiga se meteu. Devia ter seguido meus instintos e ligado para a polícia assim que a garota e o pai começaram a compartilhar sorrisinhos pelo estúdio.
Samantha podia enxergar o gesto como algo paternal e carinhoso. John, no entanto, enxergava como um aval para o ataque.
Eu varo pelas portas da recepção como um trovão ágil e barulhento. Miado é praticamente arrastado pela coleira por todo o saguão até a escadaria apertada. Amanda implora por calma atrás de mim e se desculpa com os funcionários preocupados.
— Colin, não me faça arrepender de ter te contado — ela alerta.
Eu congelo em um dos degraus e enterro meus olhos na garota. Um movimento mais brusco e rolaríamos os três pela escada.
— Eu avisei pra você, Amanda. Eu avisei que isso não cheirava bem.
— Mas você é desconfiado de tudo! — ela choraminga, espalmando os braços. — Ainda nem sei se não estamos exagerando.
— Exagerando? Exagerando?! Puta que pariu, esse cara deixou você burra também.
Amanda me olha com reprovação.
— Eu não sou burra, nem a Samantha. Se tratá-la com grosseria, não vai conseguir nada que quer.
Eu respiro fundo, na intenção de absorver seu conselho.
Mandy está certa. Nada funciona na base da grosseria. Minha cabeça quente é o meu maior obstáculo para vencer uma discussão importante com argumentos razoáveis.
Eu volto a subir em um ritmo menos acelerado, ensaiando como vou falar com Samantha. Não vai ser uma tarefa fácil. Tudo isso só começou por causa da determinação dela em descobrir a verdadeira identidade do pai biológico e, não satisfeita, conhecê-lo. Foi somente na noite passada, insone a madruga toda, que eu passei a compreender um pouco da superproteção de Tara com a filha.
Samantha é ingênua. É claro que ser isolada do mundo como uma bonequinha de porcelana a vida inteira certamente não ajudou, mas a garota deveria ao menos me dar ouvidos.
Eu cresci com dois seres humanos horríveis como meus pais. Sou desconfiado de tudo porque sei pressentir podridão de longe.
Afundo os tênis no carpete vagabundo que reveste o corredor de quartos do segundo andar. Minha irmã estaqueia ao meu lado e cruza os braços de novo, mirando a porta de número 210. Mandy estava bem relutante em acreditar nas minhas suspeitas sobre John, mas, agora, não há mais sentido em não admitir que eu tenho razão.
— Seja civilizado, okay? — Amanda diz. — Sam ainda está meio chateada com você pelo teste.
Mordisco a bochecha.
— Certo. E você espere aqui. Ela vai saber que eu sei se entrarmos juntos.
— Tudo bem. — Amanda se recosta na quina da parede. — Ela é toda sua, Flynn Ryder. Juízo.
Enrosco os punhos na coleira de Miado e dou tapinhas em sua pelagem marrom, o preparando para a guerra.
Caminho até a porta em passos tranquilos e calculados. Não vou perder as estribeiras. Vou conversar com maturidade, sem sequer aumentar o tom de voz. Eu não sou os meus pais e nem preciso ser.
Dobro a maçaneta e empurro a porta devagar, ao que as dobradiças rangem desafinadamente. A movimentação atarantada de Sam pelo quarto produz o vômito em meu esôfago. É ridículo que ela não perceba o perigo em potencial que seu pai representa. O cara estava com a porra de uma filmadora em um parque lotado de crianças há menos de vinte e quatro horas atrás. Eu devia ter chamado a polícia ali mesmo.
Da cama que divide com Amanda, Samantha ergue os olhos pra mim e seu cachorro.
O cômodo é suspenso por uma quietude esquisita. A garota avalia meu dorso suado e exposto, se demorando na definição do abdome. Sua sutileza é comovente.
— Cadê a Amanda? — Eu olho em volta com o melhor das minhas habilidades de atuação.
Sam retoma o foco para o meu rosto, desgostosa por eu tê-la interrompido.
— Disse que foi pegar comida. — Ela se abaixa, amarrando a fivela de uma sandália no tornozelo. — Como foi a corrida?
— Boa, boa. Muito boa. — Eu coço o queixo, e liberto Miado para se deitar em seu cantinho predileto perto de nossas bagagens. — Vai sair pra algum lugar?
Pelo canto do olho, a garota me analisa detidamente.
— Sim. Vou jantar.
— Hm. Legal. Me dê cinco minutos para botar uma blusa e chame a Amanda de v...
— Colin, não. — Samantha se levanta da cama. Ela está tão bonita que meu sangue borbulha com a imagem de John achando que a arrumação de Sam corresponda a qualquer tipo de interesse doentio que ele tenha por ela. — O jantar é com o meu pai. E você tá com sorte de que eu te falei, então nem inventa de reclamar. Eu já estou atrasada. Onde é que larguei a minha bolsa...?
Assisto, boquiaberto, Samantha remexer na mala.
Não vale a pena continuar fingindo. Ela parece apressada.
— Sam — murmuro. Minha melhor amiga grunhe uma resposta e segue fuxicando os pertences. — Olha pra mim.
Samantha hesita. Suas mãos nervosas param antes que ela endireite a postura.
Ciente do que estou prestes a dizer, a garota atende ao meu pedido com uma expressão antecipada de impaciência.
— O que é, Colin?
Arrisco uma aproximação mínima, só para encurralá-la contra a parede e me certificar de que tenho sua atenção integral. Pela nossa diferença de altura, Samantha iça a vista para estabelecer um contato visual.
— Não vá para esse jantar — eu digo, sério. — Por favor.
Ela trinca o maxilar.
— Só por que você não foi com a cara de alguém que nem conhece?
— Porque eu tenho razão de não ir com a cara dele, Samantha. — Abaixo ainda mais o volume do sussurro, para prevenir que me exalte. — O cara te convidou pra jantar, pelo amor de Deus.
— E daí? — Samantha hasteia uma sobrancelha, me desafiando a ser claro.
Eu cerro os punhos, meus dedos escorregam no suor da palma da mão.
— Não vai me dizer que não acha isso nem um pouquinho estranho — suplico.
Os olhos negros de Samantha se reviram. Ela abaixa de volta para a mala, agarra a minúscula bolsa que talvez nem caiba seu celular, e pendura a alça no ombro. Reparo que no pescoço dela falta o colar que eu e Mandy lhe demos de aniversário, o mesmo que a garota não havia tirado nem para o banho até hoje. É um detalhezinho microscópico, mas que aflora o incômodo em meu peito.
No atual cenário, é como se Samantha estivesse escolhendo ao seu pai e não a mim.
— Não é estranho. — Ela sai de perto com um esbarrão proposital em meu braço. — É um pai convidando a filha pra jantar.
— Não... — eu persisto, meio confuso se ela está zoando com a minha cara ou não. — É um marmanjo de trinta e tantos anos rondando uma garota de dezesseis.
Pela primeira vez, eu falo em voz alta o que penso há meses, desde que a oportunidade imperdível de John surgiu nas mensagens privadas de Amanda.
O sentimento é libertador, mas minha melhor amiga não aprecia a franqueza. Novamente, eu tenho a visão só de suas costas, dos músculos endurecidos sob as omoplatas a mostra. Samantha veste um vestido florido de verão que pelo menos amadurece sua aparência. Quem sabe, se ela parecer mais velha do que agrada ao seu pai, ele não desista de olhá-la como eu acho que olha.
— O que você está insinuando, Colin? — Sam demanda.
— O que parece que eu estou insinuando? Você tem alguma noção do que é o mundo real?
Ela roda sobre os calcanhares, e nos encaramos de frente. Somos dois adversários se enfrentando pelo grande prêmio — o bom-senso —, mas ninguém vai realmente ganhar.
— No mundo real eu acredito nas pessoas, Colin. É minha melhor qualidade. — A voz de Samantha treme com as palavras, assim como suas mãos gesticulando. — Se o seu pai diz que vai assinar a sua emancipação, eu acredito nele. Se o meu pai diz que quer me levar para um jantar de aniversário, eu acredito nele também. Meus pêsames se você não consegue fazer o mesmo.
Por pouco não solto uma gargalhada incrédula. Babaca cretino.
— Você não pode confiar tanto nas bestas do apocalipse, Sam. Confie em mim quando digo que não é seguro jantar com um desconhecido só porque ele é seu pai.
Samantha sacode a cabeça numa negativa. Acreditar o meu ovo.
— Como ele vai saber que é o meu pai se eu não for? Você espera que eu mande um e-mail?
— Talvez ele não precise saber, Sam. — Deslizo as mãos timidamente para os bolsos da bermuda. — Talvez sua mãe tenha tido um bom motivo para manter o mistério durante todo esse tempo.
Samantha estica os lábios num sorriso bambo de decepção. Seus olhos estão empoçados.
— Ah, entendi. Você está do lado dela agora.
— Não é nada sobre lados, Samantha... — Eu massageio minha têmpora latejando.
— Tudo bem, Colin, como quiser. Eu disse que estou atrasada. — Ela enfia alguns objetos na bolsa, incluindo seu telefone. Tara cansou de bombardeá-lo com mensagens e ligações por volta das três da manhã. Samantha jura que a mãe apenas se conformou em aguardar pelo nosso retorno, mas eu aposto minhas fichas que a mulher tem outra carta na manga. — Falo com você na volta.
Eu bloqueio seu acesso à porta com meu corpo, forçando a garota a estacar para não trombar comigo.
O semblante dela não é nada feliz, o nariz vermelho denuncia o choro reprimido. Samantha detesta intrigas e eu detesto vê-la chorar. É a combinação perfeita para não brigarmos nunca, mas um de nós tem que abdicar da paz quando o outro está sendo um tonto.
— Se você for, vou com você. Não vai sozinha de jeito nenhum.
— Eu não estarei sozinha, Colin. É a porra de um jantar. Em um restaurante com pessoas.
Ainda é duro dar o braço a torcer, mas sua declaração me tranquiliza um pouco.
— E pra chegar lá? Ele vem te pegar?
— Não. Eu vou andando. Não é muito longe.
Aparentemente, nada é muito longe em uma cidade com dois metros quadrados.
— Vai andando sozinha — reforço.
— Com Deus. — Samantha aponta para o teto.
— Você é ateia.
— Não nas segundas-feiras.
Eu assobio um comando para Miado, que obedientemente levanta a cabeça e atiça as orelhas. Dou tapinhas em meu joelho e ele trota até mim, a língua pra fora na expectativa de um petisco.
— Miado vai te acompanhar — decreto.
Definitivamente não é o ideal, mas confio mais em um bicho agora do que em Samantha. Ela não está em seu completo equilíbrio lógico, pois desaprendeu a distinguir os sentimentos do raciocínio. Gosto de pensar que Miado pelo menos voltaria correndo para o hotel ao menor sinal de bizarrice enviado por John. Se tivéssemos o levado ao teste de Amanda, ele teria corrido nos primeiros segundos.
— Você já frequentou algum restaurante? — Sam guincha, indignada. — Eles geralmente não aceitam animais... — Ela olha para o cão. — Vivos.
Oh. É uma lástima.
— Ou é Miado ou é nada. Não vai sair daqui sem ninguém.
Samantha empina o queixo.
— Ah, não? E como você vai me impedir?
— Estou impedindo agora mesmo. — Eu estico um braço para apoiar a outra mão na parede.
Sam sopra um risinho de desdém.
— Um chute nas bolas e seu impedimento vai pro saco, colega. Literalmente.
— Você não faria isso com nossos futuros filhos, querida.
De olhos cerrados atrás das espessas camadas de cílios, Samantha balança a cabeça, desacreditada da minha audácia.
Ela agarra o cachorro pela coleira, e meu estômago despenca em sincronia com o queixo. Continuo não querendo que Samantha vá, feito um garotinho mimado a ponto de espernear no chão, mas meu estoque de argumentos razoáveis acabou. Tudo o que sair da minha boca a partir daqui será apenas particularmente ofensivo e grosseiro. Um pastor-alemão de anjo da guarda é o máximo que vou conseguir.
— Se for o que preciso pra você sair da frente, eu levo Miado — Samantha diz. — Vai ser bom pra descobrir se meu pai gosta de cachorros.
Ela não vai mudar de ideia. Mais do que aflito, eu me sinto desprezado. Como se minha preocupação muito bem-fundamentada não valesse de nada.
A garota se curva para passar por debaixo do meu braço e finalmente atingir a porta. Com o ruído da tranca destravando pela dobra da maçaneta, não me contenho:
— Sam...
— Chega, Colin. Eu já cedi mais do que devia com você e não vou permitir que me controle a seu bel prazer. — Eu ouço apenas a voz firme e embargada pronunciar o discurso que atravessa minhas carnes igual um tiro. De costas para ela, é bom que Sam não me vê despedaçar. — Estou fugindo justamente do controle. E se não puder respeitar as minhas escolhas, não sei pra quê ainda somos amigos.
Eu fungo, e olho para meus sapatos.
— Você parece me escutar, mas não está escutando. E eu não suporto não ser escutado, Sam. — Encaro a ponta oposta do quarto, vazia. — Sofri com essa merda a minha vida toda.
Ela não diz uma sílaba.
As dobradiças da porta rangem outra vez e o vento fraco do corredor invade o interior do quarto. Eu retraio os ombros até o lóbulo das orelhas. Batalha perdida.
Conforme Samantha se afasta, seus solados estalam no piso, harmonizados com o tintilar dos metais que decoram a guia do cachorro. Eu deixo a porta bater sem qualquer cortesia atrás de mim, pressionando os dentes com tanta força que eles já poderiam ter se esfarelado na língua. Vou até minha mala, vasculho os compartimentos separados, e saco meu maço de cigarro.
Minha irmã entra quando retiro um.
— Tenho a impressão de que alguém falhou na missão — ela comenta, sarcástica.
— É, falhei. — Eu encaixo o cigarro entre os lábios e me sento na beira da janela para espiar. — Mas mandei um bom agente infiltrado. Se Sam for mesmo uma princesa da Disney, vai que o cachorro não fala com ela melhor do que eu.
Amanda se senta também, nossos joelhos triscando, e estende a mão por um cigarro em troca da chama do isqueiro que ela sempre tem.
— O que você disse pra ela?
Eu dou de ombros, e acendo a pontinha do cigarro.
— Nada relevante o suficiente, pelo visto — respondo, meio amargurado.
Notando o meu aborrecimento, Amanda inspira uma tragada e me cutuca com o pé.
— Ora, pare. Aposto que você não usou a estratégia dos beijinhos. Muah, muah, muah, muah. — Ela brinca com a onomatopeia irritante, pontilhando minha cara de beijos com a ponta dos dedos.
— Dá isso aqui. — Eu tomo o cigarro da boca dela. — Crianças não fumam.
Amanda gargalha e pega de volta.
Baforando a fumaça cancerígena noite adentro, nós observamos Samantha e Miado despontarem sob a marquise do hotel. Minha melhor amiga parece feliz, empolgada, jovial, totalmente diferente do que ainda agora, quando estava comigo. Os cabelos lisos e compridos esvoaçam de leve no quadril. A saia do vestido é um jardim de flores livres para a brisa.
Samantha vira para a direita e vai embora. Vai, vai, vai, até que desapareça de vista.
Amanda suspira, e toca em meu ombro.
— Ela vai ficar bem, Cole. Sam pode ser meio lerdinha às vezes, mas não é nenhuma anta. Se estiver ameaçada, vai arranjar como se safar.
Eu puxo mais da nicotina para os meus pulmões.
— Eu não quero que ela se sinta ameaçada. É o pai dela, porra.
— Há. Você por acaso conheceu o nosso? — Amanda olha para a paisagem que se perde além da janela, distraída por uma nova tragada.
Emito um resmungo e apago o cigarro no parapeito, criando uma pequena mancha com as cinzas.
— Não está ajudando, Mandy.
— Já falei que ela vai ficar bem.
O tempo passa com minha irmã e eu entretidos por umas cartas de baralho que achamos em uma gaveta. Eu perco quase todas as partidas porque minha mente se recusa a cooperar, presa em aonde quer que Samantha esteja com o verme que é o seu pai. Eu quero ir atrás dela, espionar seu jantar com John para ter certeza de que tudo correrá bem, mas sei que é errado e ela nunca me perdoaria.
Não consigo evitar a necessidade de protegê-la. Não é uma tentativa de controle, e sim minha forma questionável de demonstrar amor.
Amor é o inverso do que eu sempre tive em casa. Meus pais não ligariam se eu e Amanda caíssemos mortos na terra, mas eu não sobreviveria se qualquer mal acontecesse com ela ou Samantha.
No fim, as duas são tudo o que eu tenho. Eu não devia ter deixado uma delas partir. Devia ter sido mais incisivo, amarrado Samantha no lustre se fosse preciso.
Já escutei tantas histórias sobre garotas sequestradas, estupradas, mortas. Se John já convida menores de idade para encontros, não deve faltar muito para machucá-las quando conveniente.
Porra.
Tendo minha irmã cochilando em meu ombro e a televisão ligada, eu pego o telefone para checar o horário. Oito e quarenta e sete.
Já foi o bastante para um jantar e uma sobremesa. Samantha já tinha que ter reaparecido. Internamente, debato se devo primeiro ligar pra ela ou, até que enfim, pra polícia.
Antes que me decida, quem recebe uma ligação sou eu. É de um número que não está registrado na minha agenda, responsável por implantar os piores calafrios na minha espinha. Talvez seja John me avisando que a raptou e exigindo milhares de dólares para o resgate. Talvez seja Sam emprestando o celular de alguém para pedir socorro. Eu também não sei quando fiquei exageradamente paranoico.
Inspiro um vestígio de valentia para dentro. Minhas mãos tremem ao aceitar a chamada e grudar o ouvido no celular.
— Alô? — falo, baixinho, num fiapo medroso de voz.
— Colin? — O retorno é vocalizado numa entonação similarmente amedrontada.
Arregalo os olhos e me sobressalto na cama, ao que Amanda despenca do meu ombro para o colchão — e não acorda.
— Tara? — ecoo, perplexo.
— Colin — a mãe de Sam repete. — Cadê a minha filha?
Agora, sim, minha melhor amiga acertou.
Eu estou completamente do lado de sua mãe.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top