A confissão
Eric olhava pela janela do ônibus mau-humorado, não havia gostado muito de ter sido acordado aos gritos e arrastado para um passeio na cidade vizinha por Lilian, que ao contrário de Eric, estava imensamente feliz.
A garota olhava as figuras borradas que passavam pela janela com satisfação, havia conseguido entender um pouco sobre a felicidade e como ela era exímia, sabia que aquela era apenas a base e que com passar dos anos ia entender melhor como ela funcionava.
O ônibus finalmente chegou no ponto do centro da cidade e os dois desceram lá. O centro tinha enormes prédios de lojas espalhadas pelas ruas bem asfaltadas, várias pessoas desconhecidas andavam para todos os lados imersos em suas próprias vidas.
- Siga-me! - ordenou Lilian empolgada.
Eric obedeceu-a sonolento e a seguiu até um quiosque de sorvete, onde ela comprou dois milk-shakes de chocolate e deu um ao Eric:
- Beba! - ordenou empolgada.
Eric obedeceu, em circunstâncias normais ele estranharia as ações de Lilian mas estava com muito sono para fazê-lo.
- E então? - perguntou esperando inquieta pela sua resposta.
- É bom - respondeu indiferente.
Lilian começou a rir e rodopiar de alegria.
- Isso! É bom! - disse enquanto tripudiava alegremente. - E isso não te deixa feliz?
- Não necessariamente. - Eric bebericou seu milk-shake vendo a expressão feliz de Lilian se converter em uma careta.
“Que garoto difícil” pensou um tanto chateada. “Devo colocar mais esforço nisso!”
Em seguida, a garota o arrastou para um parquinho velho e o obrigou a usar o balanço.
- Você se sente feliz agora? - perguntou rindo enquanto sentia a leve e fria brisa lhe acariciar.
- Me sinto idiota - replicou parando de balançar bruscamente.
Lilian o arrastou para lugares diferentes o dia inteiro e todo final de passeio acabava com a mesma pergunta “você está feliz agora?” e esta tinha sempre a mesma resposta “não necessariamente”.
Logo anoiteceu, o céu era um breu sem um único pontinho brilhante e a única coisa que iluminava as ruas daquela cidade eram as luzinhas dos postes que teimavam em falhar.
- Hoje foi um dia bom, certo? - perguntou suavemente Lilian. - Você ficou feliz?
- Não, não fiquei - foi dizendo com desdém -, foi muito irritante na verdade.
Lilian parou e o olhou com certa tristeza.
- Como pode dizer que não é feliz? - indagou melancólica. - Você não tem amigos? Não tem uma família que te ama? Então como pode dizer que a felicidade não existe?
O olhar de Eric transformou-se em algo sombrio, o ódio e o desespero exalavam dele, um olhar tão terrível que fez todos os pelos do corpo de Lilian se eriçarem. Ela deu um passo para trás com medo e com uma dor que pulsava em seu peito, não respirava e não emitia barulho. Aquele não era o Eric que ela conhecia.
- Ah… Tão irritante! - suas palavras saíram com um ar de deboche enjoativo. - Se você quer saber, não, eu não tenho amigos, não, o que eu tenho não pode ser chamado de família, e não, eu duvido que eles me amem.
Aquelas palavras trucidaram sua alma, sentia vontade de se debulhar em lágrimas, queria vomitar, queria desaparecer. A dor de Eric era sua dor, o que doía nele também doía nela.
Os dois caminharam silenciosamente até o ônibus, Lilian tentava se recuperar do grande choque que havia sido as palavras dele, e conseguiu fazer-lo. Ela sabia que o dia ainda não havia acabado, e mesmo que perdesse seus braços e pernas mostraria a ele um último lugar que talvez o fizesse feliz.
- Vamos! - ordenou tirando-o do ônibus.
- Esse ainda não é o ponto! - reclamou Eric quando se viu em meio ao nada.
- Olhe! - pediu enquanto apontava para céu coberto de luzes.
Em meio aquele nada era possível ver as estrelas, e Lilian tinha esperança que Eric vesse a felicidade através delas.
- Já chega! - murmurou Eric irritado. - Eu já cansei de você, me seguindo, me arrastando por aí e me espionando! Por que você não me deixa em paz? Por que você teima em se intrometer na minha vida?
Foi a primeira vez que Eric viu Lilian chorar, ele ficou surpreso e não conseguia proferir mais uma palavra sequer diante de tal cena.
- Porque eu te amo! - As palavras esganiçadas que saíram da boca de Lilian nem ela mesma sabia que tinha, provavelmente os guardara e os maquiara para que ela mesma não admitisse tais sentimentos confusos.
Eric abaixou vagarosamente a cabeça e colocou as mãos no bolso, então soltou um suspiro de palavras melodiosas:
- Eu sinto muito… - Lilian sabia que esse sinto muito não era por ele ter gritado, ou ficado estressado com ela e por isso ela correu, porque era um sinto muito, eu não posso te corresponder.
***
Mais um capítulo para vocês minhas raposinhas, espero que tenham gostado.
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