Capítulo 0

Londres, Outono de 2024

A noite envolvia a cidade em uma escuridão
sufocante, cortada apenas pelas luzes amarelas dos postes. A chuva caía incessante, criando pequenos rios pelas calçadas. Olivia Bennett estava no carro, parada em frente ao que parecia ser uma cena de crime comum, mas a inquietação em seu peito dizia o contrário. Com 32 anos
e uma carreira sólida como detetive, ela já havia visto de tudo, mas algo naquela noite parecia diferente, como se estivesse à beira de descobrir algo que mudaria tudo.

Ela saiu do carro, ajustando o casaco para se proteger do frio. O vento cortante fazia seus cabelos se rebelarem, mas ela não se importou. Suas botas fizeram um som suave contra o asfalto molhado enquanto ela se aproximava da fita de isolamento que cercava o prédio decadente. Um policial acenou para ela, levantando a fita para que ela passasse. Os olhos do homem refletiam o cansaço, mas também algo mais, uma ponta de medo que ele tentava esconder.

Dentro do prédio, o ambiente era ainda mais
opressor. O cheiro de umidade e mofo impregnava o ar, misturando-se ao aroma metálico do sangue. As paredes estavam cobertas de pichações, as janelas sujas de poeira e o chão repleto de destroços. A cena de crime era uma
visão perturbadora. Um corpo estava caído no centro da sala, cercado por estilhaços de vidro. Ao redor do cadáver, pedaços de um grande espelho quebrado refletiam fragmentos distorcidos do que restava da vida daquela pessoa.

Olivia respirou fundo, forçando-se a manter a calma.Seus olhos percorreram cada detalhe com precisão, absorvendo as evidências como uma esponja. Ela já havia investigado muitos homicídios, mas havia algo peculiar nessa cena.

As feridas na vítima não eram apenas físicas, havia algo de profundamente simbólico no modo como o corpo estava posicionado, quase como se estivesse participando de um ritual.

— Detetive Bennett — a voz familiar de Marcus
Hale, seu parceiro de longa data, a fez desviar o olhar do corpo.

Ele se aproximou com passos decididos,
segurando um bloco de notas. Marcus era um homem de 35 anos, cínico e endurecido pelos anos na polícia, mas profundamente leal. Eles formavam uma dupla eficiente, complementando as habilidades um do outro desde da época da faculdade. Mas naquela noite, até mesmo Marcus parecia incomodado com o que via.

— O que temos aqui? — perguntou ela, mais para se focar no trabalho do que por curiosidade.

— Homem, cerca de 40 anos. Nenhum documento encontrado até agora. As feridas foram causadas por um objeto cortante, provavelmente a própria faca encontrada
ao lado do corpo — respondeu Marcus, apontando para a arma caída ao lado da vítima. — Mas o que me intriga é isso aqui — ele indicou os pedaços do espelho quebrado.

Olivia se ajoelhou ao lado do corpo, observando os cacos. Cada pedaço parecia refletir algo diferente, como se houvesse algo mais do que apenas vidro quebrado. Ela pegou um dos fragmentos maiores, cuidadosamente, e
observou seu próprio reflexo distorcido nele. Por um breve segundo, teve a sensação de que não era apenas seu rosto que via, mas algo... ou alguém... observando de volta.

Um calafrio percorreu sua espinha, e ela soltou o
caco, que caiu com um som seco. Disfarçando a
inquietação, voltou a olhar para Marcus.

— O espelho foi quebrado deliberadamente. Não é
comum em cenas de crime. Pode ser uma assinatura, um tipo de mensagem — sugeriu, embora a dúvida em sua voz fosse evidente.
Marcus assentiu, mas Olivia podia ver que ele
também não tinha respostas. A noite parecia mais escura dentro daquele prédio, como se as sombras estivessem se fechando ao redor deles.
Enquanto os peritos fotografavam e coletavam evidências, Olivia não conseguia tirar os olhos do espelho quebrado. Aquele reflexo distorcido ainda assombrava sua mente.

Mais tarde, no silêncio do apartamento, Olivia não conseguia afastar o sentimento de que algo estava errado. Não apenas com o caso, mas com ela mesma. As noites sem dormir, os pesadelos cada vez mais vívidos, e agora...aquela sensação de estar sendo observada. Sentada no sofá, com a luz fraca da sala criando sombras nas paredes, ela não conseguia se livrar da impressão de que o espelho quebrado estava tentando dizer algo. Como se fosse um fragmento de um passado que ela havia esquecido, ou talvez... suprimido.

Mas a resposta estava lá fora, nas ruas escuras e chuvosas de uma cidade que escondia mais segredos do que ela poderia imaginar. Olivia sabia que estava se aproximando de algo grande, algo que iria testar não apenas sua habilidade como detetive, mas também sua sanidade. E no fundo, uma voz sussurrava, avisando-a para ter cuidado com o que estava prestes a descobrir.

Porque algumas verdades são melhor deixadas no
esquecimento.

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