Suasu'tinga
O primeiro a lhe desafiar foi Ivair. O homem lhe entregou seu próprio arco e sua aljava com flechas e lhe disse:
− Cace Suasu'tinga, o grande veado branco.
Com essas meras palavras, um burburinho surgiu em toda a tribo, pois muitos foram os homens que tentaram a sorte ao caçar o raro cervo e poucos foram os que voltaram com vida.
Pode parecer estranho tanto alvoroço por uma simples caça, mas Suasu'tinga era o animal mais arisco de toda a floresta. Seus ouvidos escutavam cada folha pisoteada. Seus olhos da cor da lua enxergavam os mínimos movimentos em meio à mata. Suas pernas golpeavam o chão com força e o levavam aonde bem desejava. E, caso fugir não desse resultado, suas grandes galhadas podiam atravessar o corpo de qualquer guerreiro.
Caçá-lo significava se embrenhar na mata densa por dias. Vários homens se perderam e nunca mais retornaram, morrendo de fome ou de sede. Aquele que possuía a má sorte de encontrá-lo, ou o perseguia por dias e acabava por desistir, ou era empalado pelos chifres afiados do belo animal albino.
Por isso, caçar Suasu'tinga podia ser considerado uma sentença de morte ou uma receita para o fracasso. E por esse motivo, mesmo Ibura tentou impedir sua filha de prosseguir com aquilo.
− Minha filha preciosa – disse ele. – Você não deve ir à caça de Suasu'tinga. Você já possui o respeito da tribo e falhar só lhe trará vergonha ou morte.
− Não possuo o respeito de todos, meu pai. − a jovem índia respondeu. − O sucesso me trará o reconhecimento de Ivair, meu precioso irmão. E se eu falhar, que assim seja.
O velho índio, ainda relutante e preocupado, aconselhou Iúna:
− Quando achar dificuldades em sua jornada, minha filha querida, peça ajuda à lua, pois ela lhe protegerá.
Iúna concordou e caminhou para a mata, armada com o arco e as flechas de seu irmão.
* * *
Iúna rastreou o animal por cinco dias e cinco noites. Por sorte seus rastros eram fáceis de identificar, pois nenhum cervo era tão grande quanto Suasu'tinga. Entretanto, seu território era muito vasto, abrangendo todo o norte e todo o sul da floresta. Apenas no sexto dia, Iúna o avistou.
Suasu'tinga pastava tranquilamente em uma clareira. Seu tamanho era assustador, quase três vezes o de um cervo comum. Sua pelagem era clara e parecia macia ao toque. As pernas eram compridas e musculosas. E sua galhada era vasta e afiada.
Iúna imediatamente sacou o arco e preparou uma flecha. Mirou onde o coração do animal estaria, inspirou profundamente e, ao expirar, soltou a corda do arco.
A flecha veloz cortou o ar com um assobio, mas antes de atingir o cervo, grandes chifres a acertaram, mudando sua direção. Suasu'tinga se recuperou do golpe que dera e logo pôs-se a correr.
Iúna demorou a reagir, embasbacada com a destreza do animal, mas logo pôs-se a persegui-lo. Correu por três dias e três noites, seguindo o grande veado-branco por léguas incontáveis.
No quarto dia seu estômago reclamava com a fome e a pouca água que bebera não era o suficiente para manter seu corpo hidratado. Percebeu então que fazia como todos os homens que falharam fizeram antes dela.
Iúna tinha de ser mais esperta.
Reservou um dia para conhecer o terreno e, não muito longe dali, achou o que procurava.
Demorou mais um dia para encontrar Suasu'tinga novamente, mas desta vez estava preparada.
Esperou o sol se pôr, para que a escuridão aplacasse a visão de seu alvo. Correr pela mata coberta pelo negror da noite seria suicídio para qualquer um, mas a lua era sua protetora.
Quando era chegada a hora, avançou.
Correu atrás do animal e o direcionou para onde queria. Toda vez que o cervo tentava mudar a direção, uma flecha acertada em uma árvore corrigia seu trajeto.
Um tempo depois, chegaram ao local antes encontrado por Iúna: um grande pântano lamacento. Suasu'tinga tentou correr, mas suas patas atolaram no solo fofo e úmido. Tentou atacar, mas sua galhada se enroscou nos cipós que pendiam das árvores pantanosas.
Iúna pôs-se de frente ao animal e agarrou a última flecha da aljava. Puxou a corda do arco e fez mira no centro do peito do veado-branco.
Soltou a corda e a seta voou certeira.
* * *
Iúna retornou à sua tribo, cansada, faminta e sedenta como todos os que retornaram antes dela, mas suas mãos não estavam vazias.
Trazia nelas um grande arco feito da galhada de Suasu'tinga.
Aproximou-se de Ivair que, como todos, estava boquiaberto. Esticou a mão que segurava o novo arco e disse:
− Eu cumpri sua tarefa, meu irmão, e como prova lhe trago este presente.
Aceitar o arco da irmã era a obrigação de Ivair. Recusar só traria mais vergonha e afetaria sua honra como guerreiro. Por isso o homem agarrou a empunhadura de couro do arco e partiu, sem nada falar.
* * *
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