Punição
No dia seguinte Iúna foi convocada pelos irmãos para um encontro no coração da mata.
De primeiro pensou em recusar, mas o otimismo da jovem lhe dizia que talvez eles quisessem se desculpar e cumprir suas promessas. Tinha realizado as tarefas impostas a ela com maestria e merecia respeito.
Seus ferimentos não haviam fechado por completo, mas o unguento que seu pai fizera ajudou bastante. A índia seguiu para o local do encontro, esperando que finalmente pudesse ter sua bravura reconhecida.
Ao adentrar a clareira onde os três homens se encontravam ficou claro para ela que aquilo não aconteceria.
Seus irmãos a aguardavam no centro, os rostos tensos e raivosos. Ivair segurava seu arco feito da galhada do veado-branco. Araí empunhava seu tacape feito dos ossos e presas do queixada-cinzento. E Ururaí vestia seu manto feito da pele da onça-negra. A hostilidade deles parecia pairar no ar.
− O que está acontecendo aqui? – perguntou Iúna.
O irmão mais velho deu um passo à frente e sua voz era fria e cortante como o vento.
− Você já nos humilhou o suficiente, irmã. Esperávamos que os senhores da floresta cuidassem de você, mas você é mais forte do que imaginávamos. Agora... Só podemos lavar nossa honra com sangue e depois rezar aos deuses que o pecado que será cometido aqui possua perdão diante das circunstâncias existentes entre nós.
Iúna não tinha resposta para aquilo. Ela já não provara seu valor para seus irmãos? Não deveria haver paz entre eles? O que mais queriam?
− O ódio que têm por mim é tão grande assim? – finalmente perguntou.
− Sim – Ivair respondeu e os outros acenaram afirmando.
A desolação transpareceu no rosto da jovem índia. Foi preciso muita força para conter as lágrimas. Enquanto isso Ivair colocava uma flecha no arco, Araí levantava o tacape e Ururaí estralava o punho enquanto avançavam em sua direção.
* * *
Quando Ibura ficou sabendo do encontro dos irmãos, temeu pelo pior. Reuniu os guerreiros mais fortes e seguiu para o coração da floresta. Mas ao chegar, o que viu paralisou seu coração com angustia profunda.
Iúna punha-se de pé no centro da clareira sobre os corpos ensanguentados de seus três irmãos. As armas quebradas e o manto rasgado encontravam-se espalhados ao seu redor. A jovem índia olhava para o céu enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. De suas mãos, escorriam gotas rubras.
Nenhum homem se aproximou, pois o terror assolava a todos. Perguntavam-se como apenas uma mulher poderia matar três dos mais fortes guerreiros da tribo armados com os espíritos dos senhores da floresta.
Ibura sabia.
Pois não havia sido Ivair a perfurar o coração de Suasu'tinga com uma flecha, nem Araí a esmagar o crânio de Tai Wa'su com um tacape, ou Ururaí a estrangular Ya'war-e'te com as mãos nuas.
Foi Iúna, a mais forte e brava guerreira já existente.
Porém, força e bravura de nada adiantavam perante a ira dos deuses. O sangue de um familiar fora derramado por outro e, por isso, uma punição divina cairia sobre toda a tribo se a fúria dos deuses não fosse apaziguada.
Ibura sabia o que devia fazer, mas lhe doía apenas pensar nisso. Encarou Iúna e os olhos da índia o fitaram de volta. Estavam distantes como se ela estivesse em transe. Por mais forte que fosse, matar os três irmãos havia colocado um peso grande demais sobre os ombros da pobre índia.
O pajé se aproximou sozinho. Abraçou a filha e lhe pediu perdão.
Iúna não entendeu ou não ouviu as palavras do pai, mas logo sentiu uma forte pancada em sua nuca, que lhe arrastou para a escuridão.
* * *
Acordou horas depois, durante a noite, sem poder se mover. Olhou ao redor e, auxiliada pela luz da lua, viu que seus braços e pernas haviam sido amarrados fortemente.
O som da correnteza lhe dizia que encontrava-se à beira de um grande rio.
Seu pai e outros homens estavam ao seu lado. O pajé olhava para a água e cantava fervorosamente uma reza. As palavras antigas pediam perdão pelo que se passou e também pelo que viria a seguir. Ao terminar, ajoelhou-se perante Iúna, dizendo:
− Minha filha, espero que possa perdoar nossas ações.
− Pai! – gritou a índia. – O que vai fazer?
− Você matou três membros de nossa família, minha filha. Seus próprios irmãos. Farei o que for preciso para aplacar a fúria dos deuses.
− Mas se eu não o fizesse, eles me matariam! – ela apelou em prantos.
− E então os três se encontrariam ajoelhados e amarrados diante deste rio negro, fadados ao mesmo destino que o seu. Os pecados precisariam ser expiados de uma maneira ou de outra.
E ao dizer isso fez sinal para dois dos guerreiros, que se aproximaram com cautela e agarraram Iúna. Caminharam até a margem e atiraram a índia nas águas geladas e profundas do rio.
Iúna afundou imediatamente. Tentou gritar, mas conseguiu apenas engolir água. Tentou nadar, mas seus membros estavam bem amarrados e a corda, agora molhada, parecia lhe apertar ainda mais.
Com esforço conseguiu boiar à superfície para respirar uma vez antes de afundar novamente. E depois uma segunda vez. Mas não houve terceira.
Exausta e completamente atada, Iúna afundou.
Não demorou muito até a água invadir seus pulmões e seu corpo começar a se contorcer em desespero. Ela lutou como pôde, mas no final foi arrastada para a escuridão novamente.
* * *
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