Iara
Yacy, a deusa-lua que estava sempre observando a terra do alto do céu, sensibilizou-se por Iúna. Ela havia acompanhado os feitos da índia desde o primeiro dia e, por mais que soubesse que seu pai tomara a atitude correta aos olhos dos deuses, ainda teve pena da jovem e por isso resolveu interceder.
Iúna foi arrastada no fundo pela correnteza até onde o rio de águas negras se encontrava com um rio de águas barrentas. Ali seu corpo boiou e as amarras que o prendia se soltaram, corroídas por pequenos peixes ordenados por Yacy.
A deusa então iluminou a índia com sua luz pálida e onde esta tocava, uma transformação ocorria.
Para que a jovem nunca mais sofresse com o destino cruel do afogamento, Yacy transformou seu corpo da cintura para baixo em uma cauda com barbatanas que podiam enfrentar as mais fortes correntezas.
E para lhe proteger de qualquer homem que lhe tentasse fazer mal como no passado, Yacy lhe concedeu as dádivas da lua.
O rosto de Iúna foi moldado em algo mais do que belo e as curvas de seu corpo foram acentuadas de uma forma que somente as mãos de uma deusa podia fazer.
A luz alva da deusa tocou seus olhos escuros e os tingiu com o mesmo prata pálido do astro, repleto de um brilho hipnotizante.
E para que não houvesse mais esperança àquele que a encontrasse, Yacy lhe deu um pedaço da própria voz. Desse modo, qualquer homem que a ouvisse ficaria perdido de amor e luxúria. E também, vulnerável.
Por último, para finalizar o milagre do renascimento, Yacy lhe deu um novo nome.
* * *
− E assim se deu o nascimento de Iara, a Mãe das Águas.
Teçá parou de falar e massageou os ombros tensos. Sua boca estava seca e por um segundo sentiu vontade de ir até o rio, mas lembrou-se da história que acabara de contar e por isso continuou sentado.
Ubiraci o encarava com olhos grandes e redondos, cheios de atenção. Quando percebeu que a pausa já demorava tempo demais, perguntou com entusiasmo:
− E então? O que mais, Teçá? Por Tupã, não me deixe esperando!
− Ora, é só isso – o índio mais velho respondeu com um sorriso.
− O quê? Não pode ser! O que aconteceu depois?
− Depois, as primeiras mortes começaram a ocorrer – o homem falou e a tensão retornou aos seus ombros e à sua voz. – Os primeiros foram pescadores e homens que gostavam de nadar no rio. Eram encontrados boiando nas margens ou simplesmente desapareciam, arrastados pelas águas. Depois foi a vez de um dos guerreiros que atirou Iúna no rio. E depois o outro. Um a um os homens da tribo pereciam. Até que um sobreviveu.
Ao ouvir isso Ubiraci aproximou-se para ouvir com mais atenção e Teçá baixou a voz para um mero sussurro.
− O homem que retornou estava louco. A razão lhe havia deixado por completo e a única coisa restante foram murmúrios sobre um ser estranho. Ele balbuciava histórias sobre uma mulher-peixe belíssima de olhos verdes brilhantes e voz doce. Disse que a viu apenas por um instante e ouviu sua voz por menos tempo ainda. E mesmo assim ela foi sua perdição. Ele não demorou muito a falecer, levado pela loucura.
"No final, apenas Ibura restou. Ele entendeu a verdade sobre a mulher-peixe e aceitou sua sina. Ordenou que as mulheres da tribo se espalhassem, que achassem novas terras e que formassem novos povos, pois a primeira tribo já não mais existiria".
"As mulheres contaram que Ibura buscou a mulher-peixe por conta própria. Dizem que o pajé entrou no rio com calma e aceitou o abraço de Iara, não com luxúria, mas com amor paterno, antes de ser levado para o fundo do rio".
Teçá encarou os olhos arregalados de Ubiraci e para finalizar a história acrescentou:
− E é por isso que se deve ter cuidado ao se aproximar de um curso d'água em uma noite de lua, pois Iara está sempre à espreita. Sua sede de vingança ainda não foi aplacada e nunca será, até que o último homem descendente de sua tribo, nascido das mulheres que se espalharam pelo mundo, descanse no fundo do rio.
Fim
* * *
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