A silhueta no rio


O jovem índio olhou para o céu da beira do rio de águas negras. O tempo estava limpo e as estrelas faiscavam ao redor da lua minguante. O rapaz espreguiçou-se antes de se abaixar e provar da água fresca a seus pés.

Um espirrar d'água no meio do rio chamou sua atenção. O jovem índio olhou na direção do som, esperando vislumbrar um peixe saltando para abocanhar algum inseto que sobrevoava as águas correntes. Ao invés disso, viu dois grandes olhos brilhantes.

A forma escura o fitava enquanto se aproximava mais e mais. Apenas o topo da cabeça e os olhos eram visíveis acima da água, mas isso logo mudou. Ao se aproximar da margem, a figura levantou-se num rompante de água e cabelos.

A jovem índia era pura perfeição. Seu rosto era como se a própria beleza tivesse sido esculpida em madeira vermelha. Os cabelos molhados escorriam pelo corpo pardo, tapando-lhe os seios nus e alcançando sua cintura fina. Seu quadril e suas pernas ficaram escondidos sob as águas escuras e ela não fez menção de que os deixaria visíveis.

O jovem índio ficou em êxtase. Nunca havia visto tal formosura em toda sua vida. As índias mais belas de sua tribo pareceriam desbotar e desvanecer perante a que agora se encontrava em sua frente. Os olhos prateados da mulher continuaram a fitar os seus e ele desconfiou que o que sentia era amor. E então a boca da jovem se abriu levemente.

Dali viria uma canção, disso o índio sabia.

Uma canção que podia redefinir tudo que ele antes conhecia como música. Uma canção que o faria suspirar e que o atrairia para as águas. Uma canção que o faria se jogar sem pensar nos braços daquela mulher que ele agora amava.

Mas canção nenhuma veio.

Fortes mãos agarraram o rosto do rapaz, tapando seus ouvidos e seus olhos como bem podiam. Sua última visão foi o rosto assustado da bela índia e o espirrar d'água produzido pela grande barbatana de sua cauda ao bater na superfície do rio num mergulho desesperado.

O jovem gritou quando foi arrastado para longe do rio. Gritou por não poder mais ver a mulher que amava e principalmente por não poder ouvir sua bela voz.

O índio mais velho o jogou no chão quando achava que havia uma distância suficiente entre eles e o rio.

− O que pensa que está fazendo, Ubiraci? – perguntou ao mais jovem.

− Deixe-me vê-la, Teçá! Eu a amo! – Ubiraci adiantou-se e apenas os braços fortes de Teçá o impediram de voltar ao rio.

− Se voltar lá, você vai morrer, garoto tolo. Por pouco você não ouve a voz dela. Se o tivesse feito, estaria perdido.

− Mas... Teçá, eu a amo. Nunca senti nada igual.

− É claro que não. – O homem agarrou o jovem e começou a arrastá-lo de volta ao acampamento. – Foi a primeira vez que você viu Iara. Tem sorte de não ser a última.


* * *


Teçá arrastou Ubiraci de volta à fogueira e o fez sentar. Depois de um chá forte de ervas calmantes, o jovem desistiu de buscar Iara. Olhou envergonhado para seu mentor e disse:

− Desculpe-me, Teçá. Eu fui tolo.

− Sim, isso você foi – respondeu o outro com um sorriso brincalhão. – Nunca se deve aproximar de um rio durante a noite quando a lua ainda está visível. Se a sede for muito grande, beba da água sem olhar para frente e vá embora o mais rápido possível. Se vir qualquer vulto sobre a água, corra como se um anhangá viesse tomar sua alma.

− Não acho que um anhangá seja tão bonito como ela, Teçá.

− Certamente não, mas é tão perigoso quanto.

O jovem índio remexeu o fogo com um graveto ainda verde.

− Terei mais cuidado de agora em diante – disse.

− Muito bem. – E ao ver o desanimo na expressão de seu discípulo, Teçá acrescentou com certo embaraço: – Não se aflija tanto. Você não foi o primeiro, nem será o último homem a se encantar por Iara. Na verdade, quando era mais novo, também fui caçar com meu mestre e também fui tolo.

− Você também viu Iara? – perguntou Ubiraci surpreso.

− Sim. E foi uma das mais belas visões que meus olhos já tiveram o prazer de encontrar neste mundo. E assim como você, fitei-a, cobiçando seu toque e sua música. E assim como eu fiz hoje, meu mestre me salvou.

Ubiraci não pôde evitar sorrir ao descobrir que não era o único homem a cometer tolices em sua juventude. Nem mesmo Teçá estava imune a isso.

− Depois que ele me arrastou de volta ao acampamento – continuou o mestre –, fez-me sentar e me acalmar e depois contou a história de Iúna, que viria a ser chamada de Iara, e então entendi a razão pela qual ela deve ser temida da mesma maneira que é admirada. − Teçá cruzou as pernas e sentou-se ereto. − E assim como tudo na natureza, devemos completar este ciclo. Ouça agora a história do nascimento da Mãe das Águas.

Ubiraci ajeitou sua própria postura e ficou atento, pois a história do maior caçador de sua tribo não devia ser menosprezada.


* * *

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