7. Vizinha inesperada
Sherlock e John correram em disparada para a Livraria Cultura. Eram quase duas da tarde e o moreno estava quase derretendo em meio ao calor.
– Como você pode estar andando tão bem neste calor? – Sherlock desabotoava alguns dos botões de sua camiseta na esperança de uma brisa.
– Anos de prática meu amigo.
– Isso não faz sentido.
John ri ao ver o estado do amigo, que mais parecia ter acabado de sair de uma piscina e esquecido de se secar.
Entraram na livraria e instantaneamente pode se notar a expressão de alívio no rosto de Sherlock, devido a mudança climática proporcionada pelo ar condicionado.
Enquanto John bebia um pouco de água que comprara a caminho da livraria e o detetive finalmente voltava ao seu estado natural, Mariane assim que avistou os dois, largou os livros que estavam sendo codificados e desceu correndo as escadas de madeira lustrosa para ir de encontro aos rapazes.
– Vocês voltaram, graças a Deus! – estava quase sem fôlego e com uma certa aflição no tom de sua voz.
– Por que? Estava preocupada caso eu desistisse da ideia do cachorro quente? – John falou com um ar de gozação rindo para Mari, que lhe olhava com uma cara que dizia, "Não é uma boa hora para fazer piadas".
Sherlock nem se quer esperou Mariane dizer o que lhe afligia, subiu imediatamente para a salinha onde a moça trabalhava no último andar.
– Sherlock! – John gritou sem entender a pressa do detetive.
– O que há com ele? – Mari pergunta também sem entender.
– Venha. – o loiro puxou Mari em direção a sua sala. – Acho que ele já achou as informações que precisa.
Os dois subiram o mais rápido que puderam as enormes escadas da livraria, dispensando alguns olhares espantados ao redor do ambiente.
– ACHEI! – Sherlock gritou assim que John e Mari entraram na sala.
– O que? – Pergunta John.
– Nosso morador de rua.
– Como? – John faz uma pausa e completa a frase assim que percebe as próximas palavras que o amigo irá dizer. – Por favor, não diga a frase "É óbvio".
O moreno fez uma careta, como se tudo aquilo fosse mesmo óbvio demais e se perguntando como eles não conseguiam ver as pistas com clareza assim como ele.
– Foi fácil. – Sherlock olhou para Mari.
John continuou encarando com uma careta emburrada.
– Mariane não parava de olhar para porta da entrada, que tem como saída a avenida. Logicamente que apenas nós entraríamos por ali, pelo sentido do nosso caminho. – Se aproxima ainda mais da garota, que o fitava seriamente sem muita surpresa e continua.
– Conseguiu nos ver de longe. Só uma pessoa que está ansiosa pela chegada de alguém avista a outra sem ao menos ter entrado no local. O modo que derrubou os livros, os passos, modo que desceu as escadas, respiração, batimento cardíaco. TUDO. – Se aproxima ainda mais, quase a ponto de seus narizes se encostarem. – Indica que algo muito errado ocorreu na noite passada.
Mari permanece firme em sua postura, representava a imagem fiel de um verdadeiro soldado britânico. Enquanto John, por mais que já tivesse se acostumado com as incríveis deduções do amigo, permanecia parado sem entender como ele poderia ser real e dono de uma mente brilhante.
– E só uma coisa muito fútil, poderia preocupar uma empresária que está sempre focada no trabalho e no bom funcionamento da empresa. – O detetive caminha até o computador.
– O que? – John pergunta.
– Ora John, por favor. – Vira o computador para o lado dos dois. – O roubo de 3 exemplares originais de livros muito famosos da literatura.
– Mas por que original? Sendo que tem várias outras cópias. – John volta a indagar.
– Para se aparecer e mostrar sua esperteza. E veja! É o mesmo homem que me encarava na noite passada.
– O morador de rua que andava coberto com um cobertor vermelho?
– Esse mesmo.
– Mas esse é o mesmo homem que vinha pedir água em toda publicação de livro. – Mari reconhece o rosto do homem após ficar alguns segundos sem entender do que falavam.
– Isso explica muita coisa. – Sherlock abre um sorriso, como uma criança que acaba de ganhar doces.
– Quais eram os temas dos livros dos 3 jovens assassinados? – Pergunta para Mari.
– O primeiro se tratava de um jovem que traiu sua namorada, esta passou a vida escrevendo cartas de amor e tristeza. O outro era de um menino que tinha o objetivo de voltar para sua terra natal. E o terceiro... – Fez uma pausa para tentar lembrar do último tema. – Era sobre uma estudante que queria justiça, tanto pelo país corrupto quanto pelas pessoas a sua volta que faziam com que ela vivesse em uma bolha, seguindo regras e sendo subordinada. – Passa a mão pelos cabelos castanhos. – Não me lembro muito bem, mas era algo parecido.
– Esses jovens de hoje tem uma imaginação. Não é mesmo? – John se impressiona com os temas.
– Entediante. Gente que não tem o que fazer.
John olha com raiva para o amigo.
– Sem referência aos presentes é claro. – Sherlock anda em direção a uma gaveta semiaberta. – Seu blog é ótimo.
– Como sabe? Nem ao menos leu.
– Não preciso ler. Vindo de você, sei que está ótimo.
John permanece com uma cara de paisagem, tentando absorver o suposto elogio do amigo.
– O que esta procurando? – Mariane pergunta preocupada para Sherlock.
– Os documentos com as datas e nomes dos livros que foram publicados aqui. – Olha para Mari. – Se vai me perguntar como sei que estão aqui, é simples. Basta olhar como o resto dos documentos estão organizados na sala e chegará a conclusão que é aqui onde se guardam os documentos dos livros publicados. E você já mexeu aqui hoje, mostrando que também está preocupada com os acontecimentos. Parabéns – sorri com ironia para a moça – Você é muito prestativa.
Sherlock retira da gaveta uma pasta amarela. Coloca sobre a mesa e folheia algumas folhas até retirar uma e ler em voz alta.
– Nome. Diana Collen. Livro. Cartas de Amor. Editora. Cultura. – Olha para Mari. – Qual foi o primeiro livro roubado?
– O exemplar original de Dom Casmurro.
– Este aqui. Se não me engano. – Pega o livro nas mãos de John e mostra para a mulher.
– Vocês conseguiram pegar do ladrão?
– No caso... foi ele quem nos entregou o Livro.
– Como assim?
– Sherlock resolveu aproveitar a noite em São Paulo e... – John foi interrompido pelo detetive.
– Não é uma história com a qual precise se preocupar.
O detetive coloca o livro sobre a mesa e anda em direção a pequena janela que dava em direção a parte de trás da avenida, mostrando uma rua calma com alguns prédios residenciais.
– O mais Interessante é que ele nos deixou pistas.
– Que tipo de pistas?
– Referente a obra de Machado de Assis, que agora também faz relação com o livro da primeira escritora que foi morta.
– Que tipo de referências?
– Traição. – leva as duas mãos próximas ao rosto cruzando os dedos. – Mas por quê? Quem o traiu? E porque essa mensagem foi direcionada para John?
– Como assim? Para John? – Mari olha assustada pra o velho amigo.
– Antes de sairmos de casa. – começa John. – Deixaram uma mensagem no meu Blog, de um usuário chamado Machado de Assis, dizendo que Capitu havia me traído.
Mariane não entendeu absolutamente nada do que aquilo tudo significava.
– Meu caro amigo. – coloca a mão no ombro de John. – Seu blog está se tornando muito famoso, tome cuidado.
– Falando nisso. – Lembra o loiro. – Eu estava querendo transformar meus relatos de guerra durante a ditadura em um livro. Já tenho tudo pronto, só estava atrás de alguém que me patrocinasse.
– Que ótima ideia John. – Mari pula de alegria e abraça o amigo. – Creio que nossa agenda está livre para o resto do mês. – Abre um sorriso. – Isso significa que podemos começar a tratar disso amanhã. O que acha?
– Excelente. Seria ótimo.
– Vamos preparar um mega evento. Com toda a segurança possível é lógico.
– FIQUEM QUIETOS! ESTOU TENTANDO PENSAR! – Sherlock grita irritado.
– Pelo menos poderia ficar feliz pelo seu amigo que acaba de realizar um sonho. – Mariane diz em um tom firme. – E deixar de ser tão ignorante.
Aquelas palavras, diferente das que saiam da boca de John ou da de Molly, não faziam efeito e Sherlock nem se importara com a repreensão realizada pela moça.
– Tanto faz. – volta a olhar pensativo para a Janela. – Em que lugar ela morava?
– Em um desses apartamentos da frente. Não sei qual. Mas não é muito longe. – Mari disse indo até sua mesa checar a agenda.
– Você já tem todo o arquivo pronto? – Mari pergunta para John.
– Sim. Só preciso que alguém o revise.
– Sem problemas. Conheço alguns amigos que podem fazer isso. – Entrega um pedaço de papel para ele. – Envie seu texto para esse site. Amanhã mesmo eles enviarão uma mensagem informando se o material é bom ou não, se for rápido e enviar antes das 17:00h, podem dar a resposta ainda hoje. Caso for aprovado, basta vir me procurar e já marcarmos a data de lançamento.
– Nossa. Tão rápido? Nem parece que fiquei anos procurando uma editora que aceitasse meu trabalho.
– Tudo isso é pela nossa velha amizade.
Durante a conversa dos dois, Sherlock havia se fechado em si, tentando achar respostas para tudo aquilo, até que sua concentração foi quebrada por uma brisa que trazia um perfume adocicado, que não era nem um pouco estranho para ele.
Assim que saiu do transe, seus olhos azuis fixaram-se na linda imagem de mulher que entrara na portaria de um prédio de classe média alta.
– Molly? – Um grito saiu, sem que quisesse dizer aquela palavra. Seus batimentos começaram a oscilar e não conseguia mais controlar a respiração.
– Disse algo Sherlock? – John olhou preocupado para o amigo.
Sherlock não respondeu, apenas observava a moça entrando com algumas sacolas de supermercado na residência.
Estava pasmo. Nunca imaginara que Molly morava ali. Tão perto da matriz onde movimentava todos os casos. Algo mais forte estava o obrigando a ir atrás dela. Lógico que com Molly morando bem ali, poderia ser fundamental na resolução dos casos, ainda mais por ter sido ela, naquela noite, quase levada pelo homem misterioso. Mas algo a mais o impulsionava, não entendia, uma atração, vontade de estar perto, perguntar se estava bem ou algo parecido.
– Sherlock? – Perguntou Mari dessa vez ao ver que o moreno não respondia e continuava vidrado na rua.
O detetive simplesmente ignorou os chamados, pegou a folha da publicação do livro de Diana, que estava perto de uma mesinha ao seu lado e saiu rumo a portaria do apartamento de Molly.
– Aonde vai? Você está bem? – John acompanhava com o olhar os movimentos do moreno, que já se encontrava perto da saída da sala.
– Não me espere para o jantar. Tenho um compromisso.
E como um flash se retirou do ambiente.
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