3.Welcome To Sampa
Um vento forte levantou parte do enorme sobretudo, assim que se aproximou da porta de saída.
– Nossa que frio. – disse Tom, que se
tremia todo atrás de Sherlock.
– Não se preocupe, logo irá para casa quentinha de sua namorada. – retrucou o detetive, enquanto esperava os outros passageiros descerem.
– Como sabe que tenho uma namorada e que vou pra casa dela?– olhava espantado para Sherlock. – Que eu me lembre não comentei nada sobre isso.
– Não precisa comentar, basta olhar para a aliança na mão direita. – apontou para o dedo com o anel. – Pelo visto é um namoro recente, alguns meses, 4 no máximo. – continua observando a aliança. – A aliança ainda está nova, o que mostra que compraram recentemente em uma liquidação, pois o material é de segunda. E o fato de não falar dela é porque não sabe muito sobre ela, mas quer tentar manter um namoro normal e por isso vai para casa dela após uma breve viagem, pra parecer que se importa com ela.
– Você não pode falar isso. – Tom retrucou – Eu gosto muito dela.
– Se realmente gostasse, pelo menos teria alguma foto dela em seu celular ou mandaria uma mensagem informando que chegou. – Sherlock pega o celular do seu bolso e começa a checar as mensagens. – Durante toda a viagem você falou apenas de si mesmo, dos seus sonhos, vontades e aventuras, mas em nenhum dos comentários citou o nome de uma mulher á não ser o de sua mãe, vi as fotos da sua galeria enquanto você mexia no celular, repleta de fotos suas e de sua família, mas nenhuma com você e alguma mulher, que obviamente deveria ser sua namorada.
Tom não conseguia entender como o cérebro de Sherlock funcionava tão rápido, o moreno havia dito aquilo em menos de um minuto sem ao menos gaguejar. Olhava pasmo para ele. "Como ele conseguiu decifrar tudo isso?", "Em nenhum momento vi ele olhando para meu celular.", "Como acertou os meses de namoro?", "Como sabe que eu vou para casa da minha namorada?". Eram as perguntas que Tom fazia internamente.
– Senhores, queiram descer e liberar a passagem da porta, para que os outros passageiros possam desembarcar. – Um homem de cabelos loiros se aproximava dos dois.
– Ah, sim claro. Já estamos indo. – Sherlock se virou em direção a escada e desceu rapidamente os degraus.
Um enorme temporal caia por São Paulo, Sherlock já havia visto vários temporais é óbvio, mas nunca um igual aquele. Ventava muito, a chuva era de granizo e grande parte da metrópole estava alagada, provocando uma enorme lotação no interior do aeroporto.
– Você tem casa por aqui? – Tom perguntou após pegar suas malas.
– Sim, a casa de uma velha amiga. – Disse o moreno, que também havia pegado a mala.
Tom percebeu o tamanho da mala de Sherlock, que era razoavelmente pequena, e quis tentar usar seus dons de detetive amador para impressionar, ou ao menos, tentar impressionar o detetive.
– Pelo tamanho de sua Mala. – começou Tom. – Acho que pretende passar uma semana em São Paulo, e sua velha amiga deve ser uma bela amiga. Em garanhão? – deu uma leve batida no ombro esquerdo de Sherlock.
– Interessante. – Respondeu o moreno, olhando para o rosto de Tom, fingindo uma cara de assustado.
– Mesmo? – Animou-se o garoto.
– Mesmo. Acabou de comprovar que nunca trabalharia ao meu lado. – O moreno disse pegando a mala e indo em direção a saída do desembarque.
– Por que? Sou esperto demais para você? – Tom seguia o detetive.
– Não. – Sherlock parou no meio do corredor. – E sim porque seu cérebro é tão pequeno, que deve ser muito tranquilo aí dentro da sua cabeça e eu posso acabar ficando com inveja da sua brilhante mentalidade e me tornar um idiota. – Deu meia volta e saiu pela porta automática.
– Tom! Aqui! – uma mulher gritava na saída do desembarque segurando um casaco e um guarda-chuva.
A figura da mulher pulando e gritando o nome do companheiro de viagem com tanto afinco, chamou a atenção de Sherlock, que começava a analisar a mulher.
Ela não era a mulher mais linda que já vira, mas possuía seu charme, uma estatura consideravelmente média, magra, um cabelo liso castanho escuro, preso para trás como um rabo de cavalo. Usava um casaco com vários tons de vermelho, uma causa jeans e uma bota preta.
Sherlock não sabia o motivo, mas aquela mulher o intrigava e chamava sua atenção de tal forma, que não conseguia tirar os olhos dela. Até um Tom muito louco, sair correndo com as malas e o empurrar, desviando sua atenção para se segurar no banco atrás dele impedindo sua queda.
Após alguns segundos para recuperar o equilíbrio, ficou observando a cena do lindo casal, que mais parecia ter um namoro forçado. Os dois se abraçavam, mas não havia nenhum contato extraconjugal como beijos ou carícias, apenas um breve abraço apertado, ou pelo menos aparentava ser apertado.
Sherlock se conteve mas viu-se obrigado a ir até onde estava o casal.
– Olá Tom. – Disse o moreno se aproximando do casal, que apenas conversavam.
– Ah, Sr.Holmes. Essa é minha namorada, Molly Hooper. – disse Tom, olhando orgulhoso para o rosto da moça.
Imediatamente Molly encarou o rosto de Sherlock, ficou impressionada com o quanto ele parecia com seu namorado, praticamente uma versão melhorada de Tom, milhões de vezes melhor. Ao contrário dele, o moreno possuía uma certa elegância, era mais alto, encorpado, cabelos negros repleto de cachinhos, que lhe cobriam parte da testa e uma coisa que era impossível não deixar de notar, os olhos azuis, que hora aparentavam trazer um tom esverdeado.
– Tom falou muito de você. – O cacheado olhou para Tom e rapidamente soltou um leve sorriso para Molly.
– Nossa que legal, ele nunca fala de mim para ninguém. – Molly soltou uma leve gargalhada. – Trabalho no laboratório do Hospital Albert Einstein. Ajudo na parte da necropsia e identificação dos cadáveres. – Estendeu a mão para cumprimenta-lo.
Imediatamente Sherlock correspondeu ao cumprimento, resultando em um longo aperto de mão. Não fazia ideia de como aquilo poderia estar acontecendo, era mais forte que ele, sentia a necessidade de apertar aquela mão e acariciar aqueles dedinhos pequenos.
Molly sentia o coração acelerar, sua respiração quase era nula, nunca havia sentido algo daquele jeito. Os dois se entreolharam espantados e confusos com o mix de sensações que dominavam a alma de ambos.
– Ham, ham! – Tom interrompeu o clima entre os dois, ao perceber que aquilo já era estranho demais.
A interrupção foi o suficiente para Molly e Sherlock soltarem as mãos e voltarem para o mundo real, haviam se esquecido completamente da existência do namorado da garota.
– Está tudo bem? – continuou Tom, ao perceber que a namorada estava meio desnorteada.
– Sim, está. Acho que minha pressão caiu um pouco. – Permanecia olhando para o chão, não conseguia olhar novamente nos olhos do moreno.
– Acho melhor pegarem um Táxi. – sugeriu Sherlock, preocupado com o estado da moça. – Você trabalha muito, se importa com o trabalho. Da pra ver pelo fato de suas olheiras, a maneira simples como se veste. Você é uma médica cientista, trabalha em um dos hospitais mais renomados de São Paulo, não ganha pouco, mas por estar tão absorvida no trabalho, não tem tempo para se arrumar. – Olha para o bolso do casaco dela. – vá descansar, ainda tem que trabalhar hoje.
Molly, ao contrário de se espantar com as deduções mais do que certas do detetive, estava impressionada, o que aumentava cada vez mais sua nova atração pelo rapaz. Mesmo com vergonha e atrapalhada em pensamentos, tomou coragem para fazer uma pergunta.
– Como sabe que vou trabalhar ainda? – A pergunta quase foi barrada por um enorme nó na garganta.
– Está com sua carteira de identificação no bolso. Está com um leve perfume adocicado, cabelos lavados com shampoo que possui um leve aroma de chocolate, mostrando que não esta com marcas de suor pelo corpo, está com sua bolsa, que pelo volume e tamanho, está preparada para mais uma jornada de trabalho e como já passam das 18:00, seu turno só pode ser o noturno.
Molly não falava nada, apenas soltava um sorriso tímido na direção de suas botas.
– Ok. – interrompeu Tom. – Isso é incrível, você acerta tudo sempre. Gostaria muito de trabalhar com o senhor.
– Pena que isso não será possível. – Sherlock respondeu arrumando seu casaco. – Bem, tenho que ir, meu táxi já está chegando.
O moreno segue pela multidão, mas se vira para gritar um recado para a moça.
– Molly! – as batidas em seu coração oscilaran assim que repetiu o nome da mulher. – Em breve farei uma visita ao seu trabalho, posso encontrar muitas respostas lá. – E assim como o vento, sumiu entre o enxame de pessoas que andavam desesperadamente pelo grande salão do aeroporto.
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– Posso me sentar aqui senhor? – o mesmo homem de cabelos loiros, que havia pedido licença para Sherlock no avião, se aproximava do banco onde se encontrava o moreno.
– Sim. – Respondeu Sherlock, que apenas se afastou um pouco, liberando espaço para o homem sentar. Estava vidrado no telefone.
– Ei! – O moço se espantou ao ver Sherlock. – O senhor novamente. – deu uma risada.
– Nós já nos conhecemos? Não me lembro de você. – O moreno fazia uma careta para tentar lembrar do moço. – Ah, sim. Do avião não é?
– Sim. Lembrou-se do meu rosto não foi? – O homem se animou.
– Não. Na verdade nem olhei para seu rosto, lembrei de sua voz. – reparou no jornal que o moço carregava junto consigo. – Em que lugar procura o apartamento?
– Como sabe que... – O moço começou a formular a pergunta, mas foi interrompido pelos argumentos do moreno.
– Por favor não se assuste com minhas deduções e a pergunta que lhe farei agora. Acabei de ter um vôo frustrante com um cara muito idiota.
– Como assim, deduções? – ainda estava sem entender.
– Estados Unidos ou Brasil?
– O que?
– Apenas responda. Estados Unidos ou Brasil?
– Brasil. – O moço de cabelos dourados não conseguia entender a pergunta. – Por acaso você sabe... – mais uma vez não pode completar a pergunta, logo foi interrompido pelo moreno.
– Sei que trabalhou no exército militar brasileiro durante a ditadura, era um fuzileiro, notei por causa do modo como posiciona a mão direita, só quem trabalhou muito com armas posiciona a mão desse jeito. – O detetive olha para frente, como se estivesse capitando mais informações em sua mente. – Mas não ficou muito tempo nas forças militares, o trabalho exige uma extrema força mental e psicológica, coisa que você não é muito privilegiado, devido ao modo que você fala, é gentil e educado, características não muito comuns nos soldados militares. Creio que abandonou o exército e deve ter ficado cuidado dos feridos e exilados. – se volta para o homem, que o olha impressionado.
– Incrível. – surpreendeu-se o homem. – Você descobriu tudo isso apenas me observando?
– É óbvio, é a coisa mais simples do mundo.
– Me chamo John Watson, prazer em conhecê-lo senhor... – ofereceu a mão para cumprimenta-lo, mas não foi correspondido, pois o detetive voltara sua atenção para o celular.
– Sherlock Holmes. – Respondeu o moreno.
John voltou a abaixar a mão, vendo que seu cumprimento não iria ser válido.
– Qual o valor do apartamento que esta procurando? – perguntou Sherlock. – Sei de um lugar onde podemos dividir o aluguel, é confortável, seguro e a dona me conhece.
– Como sabe que... – John ameaçou fazer uma pergunta. – Ah, deixa pra lá.
– Você é Paulista, da pra ver pela suas roupas e a própria fala, estava procurando emprego no Rio Grande do Sul, mas como não achou, resolveu voltar para seu estado, como ficou muito tempo longe de casa, não fala muito com sua família, muito menos com seu irmão, que te deu o celular que está em seu bolso com o nome dele escrito na parte traseira, creio que ele seja um alcoólatra, ele tem boas condições, pois esse celular é de última geração, mas você se recusa a pedir ajuda para ele. – Deduziu o detetive.
– Poxa vida, você é incrível. – John não conseguia acreditar na genialidade do novo amigo. – O que você faz da vida?
– Sou um Detetive Consultor, o único no mundo.
– Detetive Consultor. – O loiro começa a pensar na palavra. – Já li essa palavra antes, em um artigo.
– A Ciência da Dedução. – Responde Sherlock.
– Como sabe? já leu esse artigo também?
– Não. Fui eu que escrevi.
– Você? – O homem de cabelos cor de ouro estava cada vez mais impressionado com o moreno. – Esse artigo é maravilhoso, um dos melhores que já li. Você é incrível, é a pessoa mais inteligente que já conheci.
– Não preciso de elogios, são desnecessários e me fazem perder tempo.
Sherlock olha rapidamente para o relógio da tela inicial do celular.
– O táxi está chegando, venha comigo. – levanta e vai em direção ao ponto de táxi.
– Como sabe que vou com você? – John questiona, pegando suas malas.
– Bem, você está desesperado para achar um lugar para morar, assim que te convidei mudou seu tom de voz e a expressão de preocupação em seu rosto desapareceu, me cercou de elogios e assim que levantei já foi pegando suas malas. Precisa de mais alguma informação? – saca o olhar para John.
– Não. – O loiro levanta e segue o detetive.
Em alguns minutos já estavam acomodados no banco traseiro do carro.
– Qual o endereço senhor? – O taxista perguntou.
– Residência West Minster da Avenida Paulista. – se volta para John – Não me lembro o nome do Bloco, mas sei que o número do apartamento é 221B. – vira o rosto para a janela a sua esquerda e ri – Esse número me persegue.
– Por que? – questiona John, que já se sentia mais à vontade para fazer perguntas.
– Moro na Rua Baker, cujo número também é 221B, costumo chama-la de "Baker Street", a rua recebeu esse nome devido a uma rua famosa em Londres, como meus pais e toda minha família é de origem britânica, costumam falar a versão inglesa da rua e meu pai sempre contava histórias sobre acontecimentos naquele lugar e o nome pegou, "221B da Baker Street".
– Incrível. – Disse John mais uma vez impressionado.
– É só isso que sabe dizer? – diz Sherlock.
Um breve silêncio se fez no interior do carro.
– E esse trânsito? Nunca vi tantos carros indo para o mesmo lugar. – Sherlock observava a pouca movimentação dos carros em meio a chuva constante que caia sobre o vidro escuro do carro.
– Ora estamos em São Paulo, se não houver trânsito em dias chuvosos não é Sampa. – riu John, que já se familiarizava com o novo amigo.
– Mas isso é fora do normal.
– E quem disse que precisa ser normal? – continuava John. – Bem, acho que é hora de dizer, Bem Vindo a Sampa senhor Holmes.
– Apenas Sherlock por favor. – retrucou o moreno.
– Então...Welcome To Sampa Sherlock. – John brincou, pois agora sabia, por mais que não conhecesse bem aquele homem misterioso e genial, que estava nascendo uma grande amizade, não sabia o porque, mas se via na necessidade de proteger aquele novo amigo.
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