23. Beijo de Despedida

   A pergunta veio como um tiro para Molly, claro que já vinha se preparando para que um dia Sherlock caísse na real e perguntasse algo parecido, mas como o detetive era uma pessoa estranha, jurava que esse momento demoraria a chegar, isso se um dia chegasse.

  Era como se Molly  fosse uma adolescente recém saída do ensino médio, que acabara de conhecer o primeiro amor e não soubesse absolutamente nada que os próximos segundos lhe reservavam. Talvez porque Sherlock fosse a pessoa pela qual ela amou verdadeiramente e da forma mais louca, estranha e inimaginável que uma pessoa normal já fora capaz de se apaixonar.

   – Tudo bem? – Sherlock perguntou, após ver que a garota não tinha reação e apenas o olhava atônita.

  Molly literalmente não respondia a nenhum estimulo, estava paralisada encarando Sherlock, queria falar, mas nem isso era capaz de fazer, sentia um peso dominar sua espinha, podendo jurar que desmaiaria naquele exato momento. "Mas que bela cena vai ser não?" , pensou ela para si.

  –  Desculpe, esqueça isso, finja que nunca aconteceu nada. – O tom de voz do moreno era baixo e carregado.

   –  Não, não. Quero dizer...Sim. – Nem Molly sabia o que estava falando, respirou fundo, tentando recuperar o controle de seu corpo e principalmente sua fala. – Estou bem, não se preocupe. É que... fui pega de surpresa, ainda estou tentando digerir a pergunta.

  Um silêncio se formou entre os dois, apenas o som dos carros e das pessoas conversando ao redor de ambos impedia que aquela tensão se tornasse ainda pior.  Os pensamentos de Molly a matavam naquele momento, começou a lembrar na proposta de emprego que recebera naquela manhã, estava tão empolgada com o encontro que se esqueceu completamente de contar da boa nova para Sherlock.

    Havia sido promovida para o cargo de chefe hospitalar, devido as grandes contribuições das analises que fizera para a ala da necrópsia entre outros estudos que havia feito no laboratório, esse cargo iria possibilitá-la a participar da formação de artigos nacionais e internacionais junto com suas pesquisas, podendo torná-la conhecida mundialmente. Ao mesmo tempo pensava em sua mãe e no quanto ela ficaria orgulhosa, logo esse pensamento foi interrompido por outro, em que lembrava o quanto esperou para achar alguém que ela realmente amasse e no pedido de Sherlock.

   Tudo agora parecia um sonho de princesa, onde Molly se encontrava no altar e o "Sim" lhe levaria para uma vida incerta e confusa ao lado do homem de quem amava e o "Não", lhe traria de volta para sua vida normal, estável, que agora almejava de um ótimo emprego, nunca mais veria Sherlock e era bem provável que teria que ficar fugindo de Tom, pois sabia que ele viria atrás dela ao descobrir que o detetive fora-se.

   Sherlock permanecia encarando a garota, que agora permanecia com o olhar perdido em direção a rua, o moreno sentia que seu coração iria saltar pela boca. Como era esperado, Molly não deu a resposta de imediato, nem se quer deu tempo de alguém pronunciar algo, já que ouviram o primeiro sinal da peça, indicando que faltavam poucos minutos para começar.

   Foram para seus lugares, Sherlock analisava cuidadosamente a estrutura do lugar e se encantava com as tonalidades de dourados, que se misturavam com as luzes dos enormes lustres e o vermelho das poltronas.  Ás vezes passava o olhar por Molly, mas a garota se quer o olhava, permanecia fixa olhando para o palco.

   – Está tudo bem? – Sherlock perguntou apreensivo.

  – Sim. – Molly foi curta e rápida com a resposta, tentando esboçar um sorriso para quebrar a tensão.

  Sherlock se sentia desconfortável com a situação, suas mãos soavam e a presença da garota o deixava ainda mais inquieto. Queria abraçá-la, chorar, implorar por uma resposta e que esta fosse positiva. Por mais que a observasse a procura de algum gesto ou algo que lhe trouxesse uma resposta, não conseguia, era como se sua mente estivesse travada e sabia que isso era culpa do sentimento que o dominava.

   A peça acontecia, o moreno tentava prestar o máximo de atenção na história que era contada, mas logo era puxado de volta para os pensamentos que envolviam Molly. A garota permaneceu todo o tempo fixa na apresentação, nem mesmo Sherlock sabia se ela estava prestando atenção na peça ou se estava submersa em pensamentos assim como ele.

  – Ela parece comigo, tentando cantar uma música aleatória na rádio. – Molly se virou para Sherlock, quando a cena se referia a uma música que a personagem principal estava tentando cantar. Afinal, foi o único comentário que Molly fez durante a apresentação.

    – Creio que não é só você. – Sherlock respondeu, tentando puxar assunto, mas foi em vão, já que nem acabara de terminar de falar e Molly já havia virado o rosto para frente.

   A peça durou cerca de 40 minutos, mas para o detetive, aquilo parecia ter durado uma eternidade, a frieza de Molly era a pior coisa que já poderia ter vivido até agora. Ele permanecia sério e tentou evitar ao máximo olhar para sua companheira.

   Desceram as enormes escadas do teatro em direção a saída, vozes dos outros casais e famílias sobre a peça dominavam o local.

   – Espero que tenha gostado da peça. – desta vez foi Molly que tentou começar o diálogo.

   – Sim, um programa bem interessante. – Sherlock respondeu com o olhar voltado para a rua.

   – Acho que agora quem está me evitando é você. – Molly disse, acompanhando os passos do moreno, que agora descia apressadamente a escada.

   – É impressão sua. – O detetive lançou uma resposta rápida e acenou para que um táxi parasse. – Sinto muito por estar chamando um táxi, mas já passam das 10 horas da noite e acho que não seria muito seguro pegarmos o metrô.

   Molly não respondeu, apenas olhou rápido para Sherlock e tentou sorrir, informando que estava tudo bem.

   Sherlock abriu a porta de traz do táxi que havia acabado de parar, entraram os dois e se acomodaram nos bancos traseiros do veículo. O moreno informou o endereço do apartamento de Molly e em alguns minutos estavam a caminho da Av. Paulista.

    Como já estava virando costume, o silêncio era presente, a não ser pela música que tocava na rádio do taxista, que estava em um volume tão baixo que apenas o ritmo de alguns instrumentos podiam ser ouvidos.

  
     Sherlock olhava fixo para a rua, observando as luzes, as casas e comércios que passavam, por alguns segundos esqueceu da presença da garota, mas essa sensação não durou muito, enquanto Sherlock estava totalmente absorto em pensamentos, sentiu um outro corpo se aproximar.

    Molly havia sido dominada pelo cansaço e como impulso, seu corpo caíra sobre o de Sherlock. Sua cabeça, de início, encostara em seu ombro, ao perceber o peso da cabeça em seu ombro, Sherlock se afastou um pouco, se arrumando para que o corpo de Molly ficasse em uma posição confortável. Logo a cabeça da garota, que antes estava mal apoiada no ombro do detetive, se acomodou no peito do moreno assim como parte de seu corpo. Sherlock apoiou seu braço sobre as costas de Molly, fazendo com que atravessasse todo seu corpo enquanto a outra mão acariciava seus cabelos.

    Apenas a respiração de ambos e o som dos batimentos cardíacos de Sherlock, que eram ouvidos por Molly, eram as únicas coisas que preenchiam aquele momento. Por alguns segundos esqueceram dos problemas e das perguntas pendentes, existiam apenas os dois, como se já se conhecessem a anos e nunca tivessem enfretado momentos difíceis ou de insegurança.

    Após vinte minutos, se encontravam em frente à residência de Molly. Sherlock pagara o motorista e o dispensara.

   – Mas você não vai precisar ir para casa? – Molly perguntou confusa e meio sonolenta. – Hoje não é um bom dia para você dormir aqui.

  – Não se preocupe. – Sherlock disse dando um passo em sua direção. – Andar um pouco vai me fazer bem.

    – Só tente não se drogar ou se meter em confusão. – Molly riu olhando para os olhos azuis do moreno.

  – Não me disse sua resposta. – Sherlock a encarava e cada vez mais se aproximava da garota.

    – Você já deve ter deduzido minha resposta.

   – Qual é o cargo que vai assumir?

   – Chefe Hospitalar. – Disse com um mix de emoções. Estava feliz por ter conseguido chegar nesse patamar, mas isso iria lhe custar uma das piores perdas de sua vida. – Talvez eu consiga progredir com minhas pesquisas e quem sabe publicar algo.

   – Espero ver seus artigos chegando em Londres mocinha. – Sherlock tentou falar de uma forma descontraída.

    Os dois riram e se entreolharam, Sherlock ficou ainda mais perto, a ponto de sentir á respiração da garota. Passou a mão por alguns fios de cabelo que estavam bagunçados e arrumou a rosa que permanecia presa em seu cabelo, em seguida deslizou uma das mãos por seu rosto, como se tentasse gravar para si mesmo cada curva do rosto delicado de Molly. Após alguns segundos, o moreno pousou delicadamente um beijo longo e terno na testa da garota.

    Molly sentia todo seu corpo tremer, instantaneamente enlaçou a cintura de Sherlock em um forte abraço, era como se ela não quisesse que aquele momento nunca acabace ou que nunca tivesse acontecido, como se nunca quisesse ter conhecido o detetive ou ter tido qualquer envolvimento com ele, mas era tarde demais, agora só lhe restavam aqueles momentos finais, aquele beijo, um único abraço e o som de seus corações que batiam de forma frenética e ensurdecedora.

   – Adeus Molly Hooper. – Sherlock disse encostando sua testa na da garota e apoiando as duas mãos trêmulas em suas bochechas. Podia ver as lagrimas escorreram dos olhos de Molly e a dor de nunca mais ver a garota despedaçava seu coração. Mas não podia ficar, ele era Sherlock Holmes, não podia se prender aquela cidade ou aquele amor, precisava ir e continuar sua vida.

    Molly permanecia com os olhos fechados, as lagrimas escorriam cada vez mais, sentiu o corpo de Sherlock se afastar e o vento da noite gélida invadir o espaço, que a alguns minutos atrás era dominado pelo calor de Sherlock. Ao abrir os olhos, a única imagem que viu, foi a silhueta do moreno se afastando cada vez mais até sumir por completo.

    Ainda ficou um tempo parada, olhando para o nada. Entrou na recepção, se o porteiro estava lá, ela não o havia visto, ou melhor, Molly não enxergara mais nada ao seu redor após a despedida de Sherlock. Pegou o elevador, abriu a porta de seu apartamento, jogou as chaves na pequena mesa de vidro, assim como a flor em sua cabeça, que acabou caindo no chão, foi até seu quarto, pegou um roupão qualquer e se dirigiu ao banheiro para tomar o banho mais gelado que podia.

    Tudo isso havia sido feito no mais perfeito silêncio, Molly não conseguia falar uma palavra ou fazer um barulho com a voz, parecia um zumbi perambulando pela casa. Não tinha reação, e se tinha, estava tentando conviver com elas,  apenas estava ligada no automático, as lagrimas haviam cessado, seus olhos mal piscavam. Por algumas horas não conseguia pensar em nada, seus pensamentos haviam se anulado temporariamente, tudo que vivera havia sumido, ela havia sumido, era apenas um corpo aleatório andando de um lado para o outro.

    Passava da uma hora da manhã quando se deitou, demorou para pegar no sono, apenas ouvia o barulho ensurdecedor do silêncio penetrar em seu cérebro e as batidas de seu coração, se virou em direção a janela, que trazia uma leve iluminação da rua, fechou os olhos e a única coisa que lhe ecoava a mente era um nome “SHERLOCK HOLMES”.

   

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