10

Piter
Seis meses depois.

Aurora e eu estamos conseguindo fazer o namoro dar certo, mas eu quero mais. Não sei o que fazer, toda vez que toco no assunto ela desvia com uma agilidade surpreendente, mas dessa vez ela não vai me escapar. Volto a realidade com o meu celular tocando.

- Onde você está escondendo essa obra-prima.

- Na minha caixa de boas lembranças.

- Ainda bem que você decidiu mostrar essa belezura para o mundo.

- Espero mesmo que seja um sucesso.

- Claro que vai ser, essa história é perfeita. Ainda tem muito sentimento envolvido, com certeza vai ser outro Best-seller.

- Assim eu espero, agora tenho que voltar para a minha vida na paternidade.

Encerrei a ligação e fui até o quarto que eu transformei no quarto dos meus filhos, entrei no cômodo e os dois estão deitados embaixo do edredom, assistindo a um filme infantil.

- Papai tem um presente para vocês.

Os dois tiraram a concentração da TV e olharam para as minhas mãos  onde estão os embrulhos com os presentes de cada um. Entreguei um para cada um e eles abriram o presente com cuidado para não rasgar o papel de presente.

Eu não sabia muito o que dar para os meus filhos, já que eu mal os conheço e pelo tempo que passamos juntos, eu percebi que a coisa que eles mais gostam são pelúcias, então resolvi dar para eles uma pelúcia que eu não tinha dado ainda.

- Obrigada, papai.

- Obrigado, papai.

- De nada, mas agora preciso da ajuda de vocês para uma coisa.

Meus filhos ficaram atentos a cada palavra que eu falava, seus olhinhos brilham a cada detalhe do meu plano. Assim que acabei de conversar com os pequenos, fui arrumar a bagunça do apartamento, para receber os convidados do aniversário dos gêmeos.

A cada dia que passava, era difícil de fazer Caio e Elisa voltarem para a casa da Aurora e isso já estava afetando os dois pequenos, mesmo eu indo para a casa dela e ficando por lá a noite toda, os pequenos querem voltar para a minha casa e ficarem brincando com as pelúcias e Aurora fica muito triste com isso.

- Papai, papai, o vovô está na portaria, mas não consigo apertar o botão - Caio está ofegante.

Acabei de colocar o vinho no gelo e fui até o painel, olhei pelas câmeras e vi o meu pai, liberei a entrada e voltei para a sala. Coloquei os balões de hélio, em formato de animais, nos cantos da sala e tirei o cisne de cristal de cima da mesa de centro, colocando em cima da mesa.

- Vovô.

Meus filhos gritaram e passaram correndo por mim, indo em direção a porta principal. Meu pai se abaixou, dando um abraço apertado nos pequenos e os entregou uma sacola de papel da minha doceria favorita. Caio e Elisa abraçaram a perna do meu pai e vieram correndo até mim.

- Papai, olha o que o vovô deu para a gente - os gêmeos falaram juntos.

- Que gostoso, agora vão guardar para a mamãe não xingar - os dois saíram correndo para o segundo andar.

- Como você sabe o sabor preferido de chocolate dos meus filhos e eu não sei?

- Vou deixar isso para a Aurora te explicar. E sigilo médico e paciente.

- Deus tem que me dar mais paciência, para entender a minha futura noiva.

- Futura noiva? Está pensando em pedir a Aurora em casamento?

- É o único jeito de fazer aquela mulher se mudar aqui para casa.

- Vocês já conversaram sobre o assunto?

- Odeio essa coisa de pai e filho psicólogo - minha filha abraçou a minha perna direita e meu filho a perna esquerda - Eu sei que ela não quer que eu devolva a vida de luxo que ela tinha com o Leo, mas eu tenho dinheiro e quero dar metade de tudo meu para ela.            

- Papai, onde está a mamãe? - Olhei para os pequenos, grudados nas minhas pernas.

- Vou ligar para ela agora.

Peguei o meu celular no bolso de trás da minha calça e digitei o número de Aurora, a ligação ficou chamando até cair na caixa postal, o aperto no meu peito voltou com força e um nó se formou na minha garganta, me sufocando.

- Crianças, vão buscar as pelúcias novas para o vovô ver.

- Sim, papai - eles subiram correndo para o quarto.

- Está tudo bem, filho?

- Aurora, não deixa de atender as minhas ligações - escutei os meus filhos vindo - Cuida deles para mim, a prima da Aurora deve chegar a qualquer momento.

- Vai lá meu filho.

Saí correndo e fui para o elevador. Eu sabia que os meus filhos iam ficar chateados por eu não me despedir deles ou dar uma explicação por eu precisar sair, mas dessa vez eles terão que me perdoar, a mãe deles não está bem.

Entrei no meu carro e conectei o meu celular ao automóvel, disquei mais uma vez o número de Aurora e começou a chamar até cair na caixa postal. O trabalho da Aurora fica a vinte quilômetros de distância da minha casa. Coloquei a minha secretária na linha.

- Renata, liga para a minha noiva.

- A senhorita Aurora?

- Sim

- Vou a colocar na linha.

A minha chamada com Renata, foi transferida para uma chamada com Aurora, alguém do outro lado da linha atendeu o celular dela, mas não era Aurora.

- Aqui é o Hospital School Memorial Frédéric.

- O que aconteceu com a minha noiva?

- A senhorita Ferreira, se envolveu em um assistente de trânsito. Um caminhão bateu no ônibus que ela estava.

Eu sabia que eu devia ter comprado um carro para ela, mas agora eu preciso me manter calmo para não ir parar no hospital junto com Aurora, nossos filhos precisam de mim.

- Me fala como ela está!

- Ela está instável, a senhorita Ferreira já deu duas paradas cardíacas e está na terceira, pensamos que ela não irá conseguir resistir a uma quarta parada cardíaca.

- Por favor, faça tudo que for preciso para manter a minha noiva viva, não importa a quantidade quanto vai custar.

- Precisamos de um plano de saúde, para colocar na fixa.

- Consultório Mendez, coloquei todas as despesas nesse plano. 

- Eu  não quero dar as más notícias, mas eu o aconselho a vim se despedir dela.

- Não a deixem morrer - lágrimas começaram a brotar nos meus olhos - Como fiador dela quero que todos os procedimentos de ressuscitação sejam feitos até o último instante da vida dela.

Encarei a ligação e a chamada foi direto para a minha secretária que digita rapidamente no computador.

- Já estou providenciando tudo senhor, não se preocupe. Mantenha a calma para não se envolver em um assistente.

- Preciso que me ponha na linha com o meu pai, preciso saber como estão os meus filhos.

- Sim senhor.

A chamada com a minha secretária ficou muda e a ligação foi encaminhada para o meu pai.

- Filho, está tudo bem? Por que não voltou ainda?

- As coisas se complicaram, Aurora está no hospital. Algum caminhoneiro perdeu o freio e bateu no ônibus que Aurora estava.

- Como você está? 

- Estou dirigindo em direção ao hospital escola. Como estão os meus filhos?

- Brincando com os primos, mas estão perguntando por vocês.

- Pai cuida bem dos meus anjinhos, porque agora tenho que ver como está minha alma gêmea.

- Se cuida filho - escutei a voz dos meus filhos - Deixa eu falar com o papai.

Eu não estava em condição de falar com os meus filhos agora, mas se eu não falasse nada, eles ficaram mais tristes e curiosos.

- Papai, por que você não está aqui em casa com a mamãe?

- Caio escuta o papai, eu e a mamãe vamos sair para um jantar romântico para que o nosso plano dê certo, então obedeça o vovô.

- Está bem papai.

- Te amo meu príncipe.

A ligação se encerrou e a voz da minha secretária saiu dos altos falantes do carro.

- Sinto muito por você não estar em casa com os seus filhos e a sua noiva em estado grave no hospital.

- Obrigado, agora pode ir para casa descansar.

- Espero que fique tudo bem.

- Boa noite, Renata.

Tirei o celular do suporte e entrei para dentro do hospital, fui até a enfermeira e perguntei onde está Aurora. Fui para a sala de emergência e vesti o meu jaleco, ser um psicólogo renomado com uma pesquisa pediatra mundialmente reconhecida, tem as suas vantagens em um hospital escola.

- Doutor Mendez, quero ver a paciente Aurora Ferreira - falei para uma enfermeira que está mexendo nos papéis.

- Claro doutor, a sua noiva está no leito dez.

- Muito obrigado.

Corri até o leito dez e Aurora está toda ferida, seu belo rosto está cheio de arranhões superficiais, mas o seu corpo está com feridas profundas e hematomas. Ela não estaria aqui se eu não tivesse pedido ela para vir mais cedo para casa.

- Doutor Mendez, o senhor não deveria estar aqui - a médica entrou junto com algumas enfermeiras.

- Por que ela está tão quieta?

- Está tudo normal.

As máquinas começaram a apitar me fazendo lembrar porque escolhi psicologia e não medicina. Enfermeira e mais médicos entraram correndo, começando as manobras de ressuscitação e fibrilação. Estou totalmente em choque ao ver a mulher da minha vida lutando contra a vida e a morte.

Quinze minutos de ressuscitação e nada dela voltar para mim, para os nossos filhos. Quando a médica disse a frase que sempre me assombrou, meu mundo caiu.

- Hora do óbito, dezessete e cinquenta.

Sai do meu transe quando escutei os meus filhos gritando, os pequenos entraram no leito e foram direto para a cama e deitaram no peito de Aurora e começaram a chorar, caí de joelhos no chão e comecei a chorar.

Meus filhos agora não têm mais a mãe e a viram na pior das hipóteses. Meu pai pôs a mão no meu ombro e apertou, me transmitindo segurança. Esse não era o aniversário que eu queria dar para os meus filhos, mas tudo tem o seu tempo.

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