3
As unhas de Hermione estavam em frangalhos.
O dia seguinte a noite mais alucinante de sua vida parecia um borrão confuso e ansioso. Entre enviar seus pertences para seu novo lar temporário, que também era seu novo emprego, e lidar com o clã Weasley, ela realmente não teve tempo para se preparar mental e emocionalmente para vê-lo de novo. Hermione não se esforçou para esconder a traição de Ronald, então uma chuva ruiva de desculpas e lamentos caiu sobre ela naquele dia. Ela agradeceu a preocupação e dedicou um bom tempo para acalmar a pobre Molly. Se alguém percebeu o quão pouco chateada ela estava com o término de seu longo noivado com Ron, ninguém comentou.
-Mione, sente aqui, vamos conversar. - Ginevra pediu naquela noite, após o jantar, quando finalmente se viu a sós com os Potter's.
- Eu estou bem aqui, Gin. Eu gosto de lavar a louça do jeito trouxa. - Hermione odiava lavar a louça, na verdade, mas estava impossível sentar sem estremecer então ela precisava de desculpas para ficar em pé - E eu já disse que estou bem. Ron é um idiota e eu odeio o que ele fez comigo, mas eu estou mais chateada com ele por ter estragado nossa amizade do que nosso relacionamento.
E era verdade, Hermione pensou frustrada. Ela se sentia livre como há muito tempo não sentia. Sua vida universitária havia sido tão sobrepujante, dividida entre estudar Transfiguração, pesquisar e praticamente criar o ramo de transfiguração elemental e equilibrar isso com a educação trouxa num curso de química e farmacologia. Ela estava ansiosa para relaxar dando aulas, corrigindo redações fracas e distribuindo detenções. Hermione deu um sorrisinho secreto enquanto pensava que talvez se inspirasse na forma de Snape de ensinar, já que ela mesma não era muito conhecida por sua paciência com imbecis.
Severus... Apenas pensar nele a fazia sentir um gelo no estômago. Como seriam as coisas entre eles? Será possível que ele a reconheceria? Ele era inteligente e observador, havia sido um maldito agente duplo afinal... Oh, céus... O que ele faria quando descobrisse? O que ela faria?
Eu perguntaria se ele gostaria de me foder novamente, ela pensou, suspirando.
Gin e Harry mudaram as conversas, decidindo-se por temas banais e fofocas que Hermione não sabia devido a sua longa estadia fora. Ela gostou da mudança no clima entre eles e realmente se divertiu enquanto os três tomavam uma garrafa de vinho. Até que começou a ficar tarde e Hermione decidiu se retirar para o quarto de hóspedes, agradecendo mais uma vez a hospitalidade dos amigos. Uma vez sozinha, ela se despiu e deitou-se, completamente nua, sob os cobertores. Não adiantava fingir que não havia passado o dia ansiando por aquele momento. Hermione já estava molhada quando começou a se tocar, pensando nas mãos de Severus Snape enquanto o fazia. Não demorou e o orgasmo veio, mas foi suave demais, silencioso demais... Ela certamente não ficou satisfeita.
Na manhã seguinte ela se obrigou a não pensar nele. Hermione seria estritamente madura sobre isso. Eles tiveram uma noite de sexo ardente, delicioso, incrível e inesquecível... mas era só isso. Jean Smith não existia. Mas Hermione Jean Granger sim, e hoje era seu primeiro dia em seu primeiro emprego no cargo de Professora de Transfiguração na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e ela seria profissional e totalmente focada nisso.
E ela foi. Suas vestes de ensino eram longas e discretas, cobrindo elegantemente todo seu corpo com um tecido fino em corte romântico. Originalmente ele era num tom vermelho bem escuro, mas ela o enfeitiçou e mudou a cor para uma tonalidade de rosa suave. Hermione ignorou a vozinha que sussurrou que não adiantaria se disfarçar em inocência, já que ela e um certo bruxo sabiam muito bem o tipo de mulher depravada que ela era.
- Ele acha que Jean Smith é uma safada pervertida. Não eu.
Hermione fingiu acreditar nisso e aparatou para a estação de Kings Cross após se despedir de Harry e Gina. Ela cumprimentou os alunos, pais e professores. Conversou amenidades, apertou muitas mãos e ganhou vários abraços. A viagem transcorreu sem problemas e antes de estar realmente preparada, ela se viu entrando no Salão Principal e sendo empurrada até a mesa dos professores.
- Venha, Hermione. Estou faminto! - Neville a puxava sorrindo alegremente, completamente alheio ao desconforto crescente dela - Espero que a seleção não dure tanto esse ano, ou irei desmaiar de fome.
Antes que pudesse pensar numa resposta adequada, ela estava em cima do pequeno palco com Minerva vindo em sua direção para cumprimentá-la.
- Hermione, querida! É tão maravilhoso revê-la! - a diretora não fez cerimônias e a puxou para um abraço efusivo.
- Olá, Minerva. É muito bom estar aqui, mais uma vez eu agradeço o convite.
- Oh, eu estava esperando que você finalizasse seus estudos há anos! Só confio em você para assumir esse cargo, Hermione. - ela a puxou, apontando a mesa dos professores que já estava cheia. Hermione deliberadamente evitou olhar para um certo bruxo vestido de preto da cabeça aos pés - Houveram poucas mudanças no corpo docente, querida. Vou te apresentar aos novos professores, venha.
Hermione cumprimentou Madame Pince e Poppy Pomfrey com muito carinho, e conheceu os novos professores de Feitiços, DCAT e Trato das Criaturas Mágicas. Ela estava distraída conversando com Neville e Theodore Nott - que surpreendentemente era o novo professor de Estudos dos Trouxas - quando ele se aproximou dela.
- Boa noite, senhorita Granger. - a cadência melodiosa na voz dele a paralisou imediatamente - Senhores.
Se esforçando muito, muito mesmo, para não ofegar, Hermione se virou lentamente e o encarou com um discreto sorriso educado. Neville e Nott o cumprimentaram com um aceno cortês.
- Boa noite, professor Snape. - ela respondeu suavemente.
Os olhos negros dele estavam atentos sobre ela, analíticos, parecendo procurar algo... Ele está procurando Jean Smith, ela pensou temerosa.
- O discurso de boas-vindas já vai começar. Recomendo que peguem seus lugares.
E com isso, Severus se foi.
*****
Ironicamente, o único lugar vago era ao lado dele, onde a senhorita Granger graciosamente se sentou logo em seguida, tendo sua cadeira puxada por um galante Theodore Nott. O estômago de Severus embrulhou, mas ele manteve sua expressão neutra e desinteressada. Ele estava tão dividido. Uma parte dele, a parte intuitiva e inteligente, lhe dizia que ela era Jean Smith. A altura parecia adequada, assim como - aparentemente - as curvas de seu corpo. Não que ele tenha observado Hermione Granger quando ela adentrou o salão, a imagem da pureza e inocência naquele vestido cor de rosa romântico. Ele definitivamente não o fez. Assim como não observou suas mãos delicadas e nem procurou hematomas de mordidas em seu pescoço. Ele pensou ter visto a oscilação característica de um feitiço de charme, mas era difícil ter certeza.
A dúvida o estava matando.
Severus queria saber a verdade, mas mais do que tudo ele queria se enterrar dentro daquela bruxa novamente. Se a senhorita Granger fosse Jean Smith, será que o aceitaria pelo menos mais uma vez? Ou ele havia sido um escape para ela, uma aventura suja que ela fingiria que jamais aconteceu? Severus precisaria de provas, e mais do que isso, de uma brecha para abordá-la. Ele a observaria de perto, com certeza. O ano letivo estava apenas começando e ele era um homem paciente.
*****
- Senhor Hamilton! O movimento da varinha está errado. - Hermione estava se esforçando para não gritar com o garoto - Um giro horário e dois anti-horários. Assim.
Ela demonstrou o movimento correto bem lentamente, enquanto murmurava o feitiço, transfigurando a taça de prata em um rato. Rapidamente ela desfez a magia e pediu que o garoto tentasse novamente. Ele errou, conseguindo apenas uma taça peluda e com um rabo agitado.
- Certo, acho que é o suficiente por hoje. Vocês estão liberados.
Os alunos saíram apressados e extremamente contentes por terem sido liberados mais cedo. Era a última aula de sexta-feira, e a sala se esvaziou em menos de um minuto. Hermione respirou fundo tentando se acalmar e soltou o ar lentamente. Ela estava muito irritada. Foi uma surpresa real o quanto aquelas crianças eram enlouquecedoras e inconsequentes. As vezes ela fantasiava que transfigurava os mais problemáticos num furão albino, como o falso Moody fez com Draco Malfoy tantos anos atrás.
O mais recente boato que surgira era que a professora Granger era quase tão malvada quanto o morcegão das masmorras. Hermione riu alto quando ouviu isso.
Entretanto, verdade seja dita: os pestinhas não eram os únicos culpados de seu mau humor. A maioria de seu estresse acumulado, na verdade, era causado por um certo bruxo alto, de cabelos negros e voz decadente. Severus invadia seus sonhos noite após noite, insistentemente lhe recusando o merecido descanso. Já tinha virado sua rotina noturna: Hermione acordava molhada e ofegante, geralmente entre três e quatro da manhã. Então ela se masturbava pensando nele, em suas mãos, boca, pau e voz... e ela gozava todas as manhãs, mas nada como o prazer alucinante que ele lhe dera naquela noite tão distante. Nas horas seguintes até se levantar para o dia de trabalho, ela ficava na cama, pensando nele e nas interações que eventualmente eles tinham vez ou outra.
Certa vez, Severus ficou até mais tarde após uma reunião semanal dos professores. Neville propôs um jogo de xadrez bruxo, mas Hermione recusou, pois simplesmente não gostava. A competitividade de Ron a fez pegar raiva do jogo. Severus então propôs que jogassem um jogo de cartas, o que foi rapidamente aceito. De alguma maneira, ela acabou sendo pareada em dupla com ele, e a troca de olhares entre eles pelas horas que se passaram arruinou sua calcinha. Aqueles olhos negros... eram tão quentes. Enlouquecedores. Hermione sentia que poderia mergulhar neles. Ela se sentia exposta, como se ele soubesse seus segredos mais sombrios e gostasse deles.
Em outra noite, num sábado, algumas semanas atrás, os professores fizeram uma pequena reunião em comemoração ao aniversário dela. Cervejas amanteigadas e firewisky foram distribuídos sem restrições, junto de petiscos e um bolo de chocolate delicioso. Durante toda a noite ela o sentiu por perto, aproximando-se lentamente. Em determinado momento, quando Nott saiu de perto dela para buscar outra bebida, Severus se aproximou.
- Feliz aniversário, senhorita Granger. - ele a parabenizou.
- Obrigada, senhor.
- Eu vi as notícias recentes. Lamento pelo... término do seu noivado.
Hermione tinha certeza que ele estava investigando, colhendo informações, tentando resolver o mistério que era Jean Smith. Ele estaria desesperado e tão necessitado por ela, quanto ela estava por ele? Hermione não respondeu, apenas acenou e sorriu, ocupando-se com um gole de sua cerveja. Severus a observou mais um pouco, parecendo satisfeito em encontrar uma peça perdida de algum quebra-cabeças. Hermione precisou se conter para não pular nele quando o maldito homem sorriu para ela, como se dissesse que não lamentava porra nenhuma. Bastardo delicioso.
Mas o pior foi o primeiro fim de semana em Hogsmead. Ambos foram escalados para acompanhar os alunos e foi tão... Maravilhoso. Foi a primeira vez que Severus tratou Hermione como sua igual. Eles conversaram assuntos acadêmicos interessantes, e foi absolutamente fantástico debater com alguém que não apenas se interessava por tais temas, mas que tinha uma mente e raciocínio que se equiparavam aos dela. Depois conversaram sobre o trabalho e ele lhe deu algumas dicas de ensino, que ela aceitou e agradeceu prontamente. Severus perguntou sobre suas pesquisas, sua tese de mestrado e seus estudos trouxas. Ele também lhe contou sobre os testes que estava fazendo, criando uma nova poção específica para cicatrizes de lobisomens, tentando ajudar os muitos sobreviventes mutilados por Fenrir Grayback. E então, quando estavam retornando ao castelo, eles passaram ao lado de um arbusto de flores.
- Gostaria de poder lhe oferecer um presente mais apropriado por uma tarde tão agradável, mas isso é tudo o que tenho agora, senhorita Granger.
Hermione apenas ficou em silêncio, não confiando na própria voz para falar alguma coisa. Ela parou seus passos e olhou para ele, chocada demais, o coração acelerado quase saindo pela garganta. Severus estava sério, o que deixou o momento muito mais intenso do que a tarde leve e divertida que passaram juntos. Ele se aproximou e gentilmente afastou uma mecha de seus cachos até as orelhas, onde prendeu a flor em seguida.
- Belíssima. - ele sussurrou, a voz rouca, e ela precisou se conter para não esfregar as coxas, subitamente excitada - Eu gosto do seu perfume, senhorita Granger. Me traz boas lembranças.
E então ele se virou e a deixou lá, plantada nos terrenos de Hogwarts, quase surtando. Ele sabia que era ela, não sabia? Ele tinha que saber, tinha que descobrir pois Hermione não teria coragem de contar a ele espontaneamente. E caso ele já tivesse descoberto sua identidade, o que era possível e provável, por que, pelos sete infernos, ele não fez nada? O que ela deveria fazer? Naquele fim de tarde, Hermione finalmente teve uma revelação assombrosa sobre a profundidade de seus sentimentos por Severus.
Ela, muito provavelmente, estava se apaixonando por ele.
- Mas que droga! Maldito, maldito! - ela gritou no meio da sala de aula, insuportavelmente cansada dessa situação enervante.
Hermione estava dormindo mal há meses, oscilando entre tesão e estresse constantes, comendo mal e até se sentindo enjoada quando o via pela manhã, depois dos seus sonhos molhados e masturbações insatisfatórias.
Ela estava se sentindo doente.
******
Descobrir a verdade foi muito mais simples do que Severus havia premeditado. Uma pergunta bem formulada e vóila. Claro que ele esperou quase dois malditos meses para realmente criar coragem e decidir que precisava ter certeza sobre suas teorias.
Primeiramente ele achou justo dar o benefício da dúvida para a senhorita Granger, e se dedicou a se certificar de ter algumas pistas ao longo das semanas, para se embasar firmemente antes de abordá-la com suas suspeitas. A primeira pista que o deixou alerta foi o olhar culpado e a tensão que parecia cair sobre ela sempre que Severus estava por perto. Ele a observava a distância, notando seu riso solto e as conversas fáceis com os colegas e alunos. Mas quando ele chegava perto... Hermione Granger se recolhia, como se não soubesse a maneira correta de se portar perto dele.
A segunda pista foi o perfume dela, inconfundível diante do olfato apurado de Severus.
Na verdade, apenas isso seria o suficiente para que tivesse certeza, mas ele ainda relutava para juntar duas pessoas tão distintas em uma só. Estava sendo absolutamente difícil para ele compreender que Jean Smith, aquela bruxa sensual e uma submissa tão deliciosa, que lhe deu o melhor sexo da sua vida, fosse a senhorita Granger: sua antiga aluna mais irritante e inteligente, a porção feminina do Trio de Ouro, heroina de guerra, defensora dos elfos domésticos e de qualquer criatura injustiçada, bla, bla, bla... Granger estava num pedestal tão elevado na sociedade bruxa que parecia contraproducente compará-la a uma mulher com desejos sexuais tão intensos quanto Jean Smith.
Entretanto, foi precisamente ao chegar nessa conclusão que ele entendeu as motivações da bruxa para ocultar sua verdadeira identidade. Hermione Granger era tudo o que seus inúmeros títulos atribuídos a ela diziam, claro, mas também era muito mais do que isso. Ela era uma jovem mulher com desejos carnais latentes, e curiosa como era, queria explorá-los. Porém a sociedade parecia tratá-la apenas como uma encarnação da perfeição, um tipo de anjo assexual.
Severus sabia, intimamente, que não era o caso.
De qualquer forma, ele ainda precisava de mais informações para que não lhe restasse nenhuma dúvida sequer. Ele decidiu buscar ativamente mais uma pista após o sábado que passaram juntos no primeiro fim de semana de visitas em Hogsmead. Ele havia se divertido tanto, como há décadas não fazia. Hermione Granger era uma bruxa realmente excepcional, divertida e inteligente, sensual e inocente, tudo na medida perfeita. Sua garota perfeita, a mente dele sussurrou constantemente naquela tarde. E quando ele flertou com ela ao lhe dar aquela simples flor do campo, e ela o encarou com aqueles olhos castanhos arregalados, aquela expressão tão lindamente ansiosa em antecipação, ele soube.
Severus, obviamente, fugiu em disparada. Ele precisava de um plano para abordá-la, palavras específicas escolhidas a dedo e com propósito. Ele não se permitiria fazer o papel de um tolo apaixonado declarando-se no calor do momento e... Ele parou, chocado com o rumo de seus pensamentos. Não seria verdade, seria? Ele realmente estava...?
Oh, doce Morgana...
Severus sempre foi muito honesto consigo mesmo, já que seu antigo trabalho de espião o obrigava a mentir para praticamente todo mundo. Então enquanto se dirigia para as masmorras após deixar a senhorita Granger nos terrenos, ele se permitiu analisar minuciosamente seus interesses e sentimentos pela jovem. Ele realmente apreciava a companhia dela. Mesmo interagindo pouco com Hermione, ele se divertia com seus comentários espirituosos, quase tão sarcásticos quanto os dele. Ela era inteligente e jamais seria desinteressante. E era bonita como uma ninfa da floresta. Sedutora como sereia... E Severus realmente era um tolo apaixonado.
Que reviravolta.
Mas algo, escondido bem lá no fundo, ainda temia que ele estivesse equivocado em suas conjecturas, pois ele temia estar entendendo tudo errado. Ele não queria apenas Jean Smith e nem Hermione Granger. Ele queria ambas, fundidas em uma só pessoa, no par perfeito criado para ele. Ele guardou seus receios para analisar tudo mais um pouco.
Naquela mesma noite, Minerva o convidou para uma partida de xadrez bruxo acompanhada de um licor de cerejas de uma safra excelente que o irmão dela produzia nas fazendas da família. Entre conversas de diversos temas, ele finalmente viu uma abertura perfeita para uma pergunta certeira.
- Engraçado você dizer isso, Minerva, pois eu percebi que realmente não sei qual o nome do meio da senhorita Granger.
- É Jean, o nome da mãe dela. - a diretora respondeu distraidamente, enquanto analisava seu jogo completamente alheia a descarga elétrica que paralisava Severus naquele momento - Hermione Jean Granger. Xeque mate.
*****
F
azia pouco mais do que dois meses que o ano letivo havia iniciado. Hermione não se sentia tão fisicamente exausta assim desde os meses finais da guerra. Naquela manhã ela se levantou e vomitou violentamente a pouca água que bebeu logo ao acordar. Talvez ela visitasse Madame Pomfrey após o café da manhã. Era final de novembro e o frio já dominava as paredes geladas do castelo, época perfeita para gripes e outros vírus sazonais. Hermione se aprontou com um vestido de lã verde escuro, junto de meias e sapatos de salto confortáveis. Sem ânimo para lidar com seus cachos impossíveis, ela apenas lançou um feitiço de hidratação sobre os fios que abaixaram levemente o volume, caindo até pouco abaixo dos ombros.
Ela compareceu ao café da manhã com toda a força de vontade e alegria de um prisioneiro encaminhado para o banho de sol após um período na solitária. O barulho do salão a estava irritando, e ela não queria conversar com ninguém. Tudo o que Hermione queria era um momento sozinha, com uma xícara de chá e um livro de ficção. Eu também aceitaria a companhia de um certo bruxo em meu refúgio de paz, pensou tristemente.
Ela deveria desistir dele. Hermione não teria a coragem de se aproximar e desconfiava que Severus também não. Além do mais...
- Está tudo bem, professora Granger? - a voz melodiosa do dono de seus pensamentos soou em seu ouvido, bem próximo, causando-lhe arrepios.
Hermione levantou o rosto para observá-lo e o encontrou totalmente focado nela, a expressão genuinamente preocupada.
- Estou bem, senhor. - ela tentou sorrir - Apenas um pouco indisposta.
Severus considerou suas palavras por mais alguns momentos, observando seu prato ainda intocado.
- A senhorita está pálida e já faz dias que não come uma refeição decente. Tem certeza de que é só isso? Se me permitir, posso acompanhá-la até Madame Pomfrey para alguns exames.
A inquietação dele era visível e Hermione achou muito fofo. Ela sentiu uma vontade absurda de abraçá-lo e afundar o rosto no pescoço dele, inspirando o perfume masculino amadeirado que ele usava. Ela estava se sentindo solitária, ansiando por companhia. Pela companhia dele.
- Eu agradeço a preocupação, professor, mas eu tenho aula em alguns minutos. - Hermione afastou o prato e se levantou com pressa de sair de perto daquele homem antes que fizesse uma besteira como pegar na mão dele ou pular em seu colo - Tenha um bom dia.
Severus respondeu num murmúrio rouco, mas soou tão distante que ela quase não o ouviu. Sua visão ficou turva e escureceu e Hermione sentiu o corpo oscilando para o lado. Alguém pareceu chamar seu nome, mas os sons estavam estranhos. Ela se sentiu submersa numa água escura e pesada, uma sensação de letargia semelhante a de quando ficou presa no fundo do Lago Negro no quarto ano.
Hermione desmaiou.
*****
Severus a pegou imediatamente.
Um alvoroço se deu início na mesa dos professores, acompanhado de sussurros se espalhando por todo o Salão Principal. Ele apenas ignorou todo mundo, concentrando-se na tarefa de amparar Hermione e levá-la para a enfermaria. Enquanto caminhava rapidamente até lá, ele não pôde deixar de prestar demasiada atenção na sensação do corpo dela junto ao dele. A jovem bruxa parecia um pouco mais magra do que sua memória daquela noite, mas todas as curvas se encaixavam perfeitamente. O coração, estômago e pau de Severus deram um nó ao mesmo tempo. Franzindo a testa ele se esforçou para ignorar a animação do seu amigo de baixo, pois ele não poderia se divertir com uma bruxa desacordada e nitidamente adoecida.
Logo a súbita excitação foi esquecida, sendo substituída por grande preocupação. O que havia de errado com ela? Quando chegou no início do ano letivo, cerca de dois meses e meio atrás, Hermione parecia em sua plena saúde. Ele observou sua animação constante se deteriorar gradualmente conforme os dias passavam, mas ele apenas presumiu que fosse devido ao estresse das aulas e travessuras dos pestinhas. Severus se lembrava bem da tortura que foi seu primeiro ano como professor. Ele deveria ter intervido antes, conversado com ela, se aproximado mais... Seu instinto masculino de proteção lhe dizia que ele deveria ter evitado isso. Ele deveria saber melhor, deveria ter cuidado de sua bruxa...
Ele piscou com força, controlando sua mente. Pensamentos perigosos precisando urgentemente serem contidos. Severus fortaleceu seus escudos de oclumência e chegou a enfermaria, gritando por Poppy enquanto depositava a jovem desfalecida no primeiro leito vazio que encontrou.
- Oh, Hermione! O que aconteceu, Severus? - a medibruxa perguntou, preocupada, correndo até eles.
- Ela desmaiou. - ele disse simplesmente, fechando as cortinas ao redor do leito para terem privacidade - Notei que a senhorita Granger perdeu o apetite há algumas semanas. Ela perdeu peso e aparentemente não tem dormido bem. É só o que sei.
Ele fez o melhor possível para soar desinteressado e entediado, sem mostrar a verdade de seus sentimentos aflitos e extremamente preocupados com ela.
- Está bem, Severus. Obrigada por trazê-la para mim, eu assumo daqui.
Ele sabia que era uma dispensa, mas não conseguiu se mexer. Poppy acenou a varinha, magicamente mudando as vestes elegantes de Hermione para a camisola fina de hospital. Ele observou avidamente o corpo dela por apenas um momento, antes de desviar o olhar visivelmente abalado. Era sua bruxa, sua...
Ele precisava sair dali antes que fizesse alguma besteira.
Severus acenou uma despedida silenciosa para a medibruxa, deu as costas e saiu rigidamente em passos firmes e ligeiros, seguindo para sua primeira aula do dia plenamente ciente de que sua mente permaneceria na ala hospitalar até que visse Hermione novamente.
Até que visse sua bruxa.
*****
- Renervate!
Hermione despertou ao comando de uma voz feminina suave. Ela navegou para a consciência com algum esforço, realmente apreciando a calmaria em que estava repousando. Pensamentos começaram a surgir junto de um clarão quando abriu os olhos. Ela havia estado naquele lugar vezes demais e o reconheceu imediatamente. Então tudo voltou num segundo quando se lembrou de que estava tomando café da manhã e, agora, estava acordando na ala hospitalar.
- Eu desmaiei? - ela sussurrou, mortificada - Que vergonhoso.
- Ora, querida, não há motivos para ter vergonha sobre isso. - Poppy a tranquilizou, lhe entregando um copo com água - Severus me disse que a senhorita não tem comido nem dormido bem. Você deveria ter vindo até mim antes de ficar tão fraca desse jeito.
A menção a ele a despertou completamente.
- Severus... O professor Snape me trouxe aqui?
- Sim, sim. Ele foi muito gentil. Agora, vamos para alguns exames, o que acha?
Hermione se sentou na cama com algum esforço, sentindo-se realmente fraca e trêmula. Ela notou que estava usando a camisola hospitalar tão familiar de seus tempos de estudante.
- Certo.
- Por favor, me diga seus sintomas, querida. - Poppy pediu, a varinha em mãos e seu prontuário médico flutuando ao lado da cabeça da mulher, com uma pena de repetição rápida a postos para anotar tudo.
- Oh, bem... Não é nada demais, eu só... Tenho estado indisposta, só isso.
- Me esclareça o que seria 'indisposta' para você, Hermione querida.
- Hum. Eu tenho dormido mal a noite, o que me causa um sono tremendo durante o dia, claro. E... Bem, tenho oscilado entre falta de apetite e uma fome de hipogrifo. E o estresse, sim... Muito estresse. Presumo que pela falta de sono adequado. E, bem, hoje eu vomitei logo depois de acordar. E... - ela notou a medibruxa a encarando com um olhar admirado, os olhos brilhando parecendo saber um segredo que Hermione estava sendo estúpida demais para perceber - O que foi? Por que está me olhando assim?
- Oh, perdão, perdão. - Poppy piscou algumas vezes e mudou sua expressão para algo mais profissional, mas ainda havia um sorrisinho oculto nos lábios finos da mulher - Hermione, querida... O que você me relatou parece... Bem, eu presumiria que você saberia o que está acontecendo.
- O quê? - ela soou confusa e alarmada até para os próprios ouvidos - Por que eu saberia se eu não sou medibruxa? Eu sei alguns feitiços de diagnóstico, claro, mas é complicado lançar em mim mesma e eu não pensei que...
- Tudo bem, querida, tudo bem. Se acalme, por favor. Só mais uma pergunta, sim? - Hermione acenou, mordendo o lábio para ficar em silêncio - Qual a data da sua última menstruação?
Hermione tomou fôlego para responder prontamente, mas quando abriu a boca para falar nada saiu. Ela não tinha essa informação. Ignorando os sinais de alarme que soavam do fundo de seu cérebro, ela se concentrou a pensar sobre isso. Ela não se lembrava de ter passado pela sua lua mensal desde que chegara a Hogwarts. Oh, céus... Ela se lembrou agora. A mudança de volta para Londres foi extremamente cansativa e estressante, pois ela estava menstruada e com cólicas enquanto organizava suas coisas para se mudar.
E isso aconteceu há cerca de dois meses e meio.
- Não. Isso não pode ser. Não. - ela acenou uma negativa efusiva, os cachos batendo em seu rosto - Simplesmente... Não.
- Não? - Poppy parecia dividida entre divertida e com pena dela - Eu soube do fim do seu noivado há alguns meses, mas suponho que houve alguma... Hã, despedida?
Hermione levantou as mãos para cobrir o rosto, mortalmente envergonhada. Como ela pôde ser tão estúpida e descuidada?
- Entendo. - a medibruxa murmurou, fazendo-a espiar entre os dedos, ainda se escondendo, para ver que Poppy realmente entendia. A medibruxa parecia desconcertada em pensar em Hermione com outro homem que não fosse seu noivo - Podemos?
Hermione tirou as mãos do rosto e respirou fundo, acalmando-se. Reunindo todo seu estoque de coragem grifinória, ela acenou afirmativamente para a medibruxa que apontava a varinha para sua barriga.
- Hommenum revelio!
Uma luz prateada saiu da varinha de Poppy diretamente para o ventre de Hermione. Ela sentiu um vento gelado percorrendo suas entranhas, que depois se aqueceu, e a luz retornou para fora agora dourada e brilhante como um farol.
- Parabéns, senhorita Granger. A senhorita está grávida.
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