Prólogo.
" Há milhões de anos atrás, alcateias de lobos metamorfos eram invadidas por diferentes seres levados pelo ódio, ganância e inveja.
Massacrando famílias inteiras, destruindo as terras férteis, levando pouco a pouco uma raça populosa a beira da extinção.
Selene vendo que sua criação acabaria deixando de existir, sacrificou o bolo mais forte da raça. Usando seu sangue para criar barreiras de proteção nas alcateias, nenhum ser que não fosse lobo entraria. Mas isso não impediu que a raça continuasse a diminuir em população.
Um lobo só podia procriar com uma loba ligada pelo mesmo fio da vida. Os chamados companheiros de alma!
Com as grandes perdas os fios sofreram um desequilíbrio natural. Lobos nasciam sem um companheiro...e morriam sem descentes.
Para trazer de volta o equilíbrio, a Deusa criou o fio da fertilidade, agraciando esses lobos para que dessem continuidade a sua descendência. O laço os dava a capacidade de gerar com qualquer fêmea, e ao tomarem conhecimento disso, muitos foram além das barreiras. E através do fio os primeiros híbridos da história surgiram.
Lobos metamorfos híbridos de humanos, de bruxos e até mesmo de vampiros nasceram desse laço. E surpreendendo a todos. Muitos deles eram destinados a lobos puro.
Essa mistura de raça deu início a grandes mudanças aquela espécie. A miscigenação os transformou, e aos poucos foram perdendo sua essência natural.
Os seres de alma benéfica, considerados os de maior virtude pelas divindades, se transformaram nos mais cruéis.
Quanto mais o tempo passava, mais se multiplicavam. As alcateias cresceram tanto, que as barreiras já não podiam abrigar a todos.
Os alfas não possuíam controle sobre os híbridos e isso gerou discórdia entre as castas e disputa pelo poder. Até o ponto em que todos os alfas se reuniram para fazer a desmembração nas alcateias.
Mas o que eles não sabiam, era que uma decisão em conjunto afetaria as barreiras mágicas, nunca antes tocadas.
A separação do bando aconteceu, e o campo mágico os expeliu, causando acidentes que para muitos foram fatais. Aquela decisão causou um grande impacto dentro e fora das barreiras.
Os lobos nas alcateias passaram a temer o campo de força. E os desgarrados passaram a invadir territórios de diferentes seres.
Anos de sofrimento assolaram a terra. Os híbridos passaram a ser os seres mais odiados daqueles tempos. O fato de terem poder e força superior aos demais, os davam total liberdade as suas atitudes cruéis e opressoras.
Quando não estavam na forma de grandes bestas, possuíam o controle da magia do bruxos, a sagacidade do humanos, ou a velocidade e força dos vampiros. Ninguém os poderia deter, além dos seus semelhantes, os lobos puros, mas os que estavam nas alcateias, não ousaram sair delas.
A imparcialidade deles com as atitudes de seus iguais no mundo a fora, fora considerada repugnante aos olhos de Selene, que não fez absolutamente nada para impedir o ser maligno que levantou-se da terra para os assolar.
Áurea surgiu do fruto das suas maldades. Por onde passava deixava corpos. Sua existência tinha um único propósito. Aniquilar os híbridos metamorfos!
Foram anos de luta e perseguição. De caçadores viraram caça. Ela vagou pelos quatro quantos do mundo dizimando-os da terra. Até o ponto de extingui-los, mas aquele ser não parou por aí...
Ter o conhecimento da existência do laço da fertilidade a estimulou a aterrorizar as alcateias. Mesmo sem pisar nos territórios, causou a destruição de uma e quase extinção de outra. Lobo nenhum possuía poder para detê-la.
E pela primeira vez em séculos, eles clamaram a Selene por um líder supremo.
Sabiam que somente um lobo com tal poder seria capaz de parar aquele sofrimento.
Foram dias de clamor, jejum e oferendas oferecidos a Deusa.
Mas não tiveram resposta. Nenhum sinal dela foi visto, ouvido ou sequer sentido. Pela primeira vez aquela divindade os deu as costas.
E mais desgraças caíram sobre eles!
Áurea não se cansava de os perseguir e não parecia disposta a parar com os atos cruéis. A única deusa que eles tinham os abandonou. E o medo de Áurea os fez tomar atitudes desesperadoras.
Os lobos não eram os únicos a sofrer com o ser maligno. A magia que Áurea usava era maligna e estava se espalhando por toda parte matando muitos bruxos que não tinham imunidade a ela.
Uma praga que assolava os seres sobrenaturais!
E as circunstâncias levaram aqueles povos inimigos a unirem força contra o inimigo em comum. Fizeram um tratado de paz e um pacto de sangue.
Para os lobos, o principal motivo para tal sofrimento, era o fio da fertilidade. Áurea estava os aterrorizando por causa dele. No entanto, para os bruxos o fio mágico era a solução para resolver todos os problemas.
Magia negra podia ser purificada com magia celestial. Um poder que somente divindades possuem, mas que muitos lobos a tinham na palma da mão.
Para purificarem as terras contaminadas e deterem Áurea, era preciso fazer um grande sacrifício.
E em uma noite de lua cheia todos os lobos metamorfos que possuíam o fio da fertilidade foram oferecidos em oferenda. A magia celestial do fio mágico foi transferida para um bruxo que a usou para derrotar Áurea e purificar as terras.
Mas mexer com a magia de um Deus trouxe consequências gravíssimas. A Deusa irou-se com a ousadia deles em mexerem com algo divino. Naquele dia, os bruxos perderam o controle da magia e os lobos a consciência do seu lado animal.
E o pedido que ela os concederia em pouco tempo, só seria atendido quando fosse esquecido."
Tirei os olhos daquele rascunho em minhas mãos os direcionando para meu irmão. Tiago era o menino prodígio, enquanto eu, estava mais para a perdição da nossa família.
- Isso daqui está confuso.- falei entediado.
Joguei o lixo que ele quer chamar de trabalho nos seus peito o vendo se atrapalhar para não deixá-lo cair no chão. Olhei para sua cama bem arrumada e me joguei nela enfiando um travesseiro embaixo da minha cabeça enquanto o observava ajeitar a folhas amassadas.
- Fiz várias pesquisas para fazer esse resumo de toda história da nossa raça.- ele pousou o papel na mesa e me encarou com sua costumeira calma.- O que está te deixando confuso?
- Primeiro, você está distorcendo os fatos.- falei gesticulando com a mão.- Segundo, você está manchando a imagem de nossa deusa, mais do que ela já está manchada, não foi ela que lançou a maldição em nós, foi Áurea e terceiro.- o olhei com um sorriso apoiando minha cabeça na mão.- Esse papo de que o supremo foi morto em sacrifício é um absurdo, ele morreu porque era um grande inútil, isso sim!
- Mas isso é o que os livros antigos relatam, Thomas.- ele suspirou ignorando minha provocação.
Chato, como sempre!
- É claro que eles relatam isso, não querem manchar a imagem de "grande líder supremo" que aquele zero a esquerda tinha, cai entre nós, Selene fez um favor de apagar a existência dele na terra.- suspirei olhando para o teto e sussurrando.- Não faz falta alguma.
- É claro que não faz, nascemos na sua ausência, porque sentiríamos falta de algo que nunca tivemos.- meneei a cabeça.
- Exatamente!
- Mas, Thom, ele faz muita falta, se estivesse aqui, teríamos respostas para muitas perguntas e talvez nossos antepassados não teriam sofrido tanto.- revirei os olhos.
- Não delira, Tiago, ele não fez nada para impedir os massacres antes das barreiras serem erguidas, não há um relato nas historia sobre o mesmo ter saído daquela maldita ilha pra ajudar alguém aqui fora, acha mesmo que Selene o sacrificaria naquela época se ele fosse ativo no seu papel como líder universal!- neguei suspirando. Não consigo entender a ignorância desse povo.- A lua sabe o que faz, meu irmão, somos meros mortais fazendo uma rápida passagem nessa terra, é muita arrogância querer julgar as atitudes de um ser imortal como ela!
- Mas a culpa é dela por criar um fio em nós sabemos das nossas fraquezas.- o encarei sem acreditar nas suas palavras.
Que merda é essa que ele está dizendo!
- Tiago, você está se ouvindo?- ele me encarou tranquilo e eu soltei o ar frustrado esfregando o rosto. As vezes parece que eu nasci primeiro.- Você está culpando a deusa pelo fato dos antigos não segurarem o pau dentro das calças!- ele fez uma careta com minhas palavras.
- Mas acho que eles não usavam calças na época.- revirei os olhos com sua lerdeza e ele soltou uma risadinha.- Eu entendi o que quis dizer.
- Ah, bom! Então entende que Selene nos deu o fio da fertilidade para procriarmos entre os nossos e não com estranhos lá fora?- o olhei em expectativa.- Se pra começo de conversa, eles não tivessem botado os pés fora das alcateias, isso tudo não teria acontecido.- gesticulei em volta.
- É, parando para pensar, tua linha de raciocínio tem lógica.- sorri de lado.
- É claro que tem!
- Mas, mesmo que eles tenham errado, você sabe que a lua ainda pode conceder esse pedido, não sabe? - dei ombros pouco me importando.- Não foi na geração de nossos avós, nem na de nossos pais, mas pode ser na nossa, nosso povo pediu isso e talvez ela não tenha mandado por conta das atitudes desonrosas deles, mas somos uma nova geração totalmente isentas de culpa, ela vai conceder aquele pedido em algum momento, só temo a reação de todos.
Me sentei o encarando com atenção. Ele tinha os olhos no seu caderno enquanto fazia rabiscos distraído. Ele estava certo, não tínhamos culpa dos erros deles, já tinha se passado quase mil anos desde aqueles fatídicos fatos, Selene pode mandar um supremo a qualquer momento.
Mas porque temer a reação de todos?
- Você fala como se soubesse de algo.- sussurrei o fazendo me encarar.- O que você está me escondendo?
- Como assim?- me levantei caminhando até ele e pousando minha mão em seu ombro o virando de frente para mim. O fitei com os olhos semicerrados.
- Tiago, nós dividimos o ventre de nossa mãe, estamos juntos desde antes mesmo de nos tornamos gente.- neguei devagar piscando lentamente.- Não tente me enganar, irmãozinho, não vai rolar!
Ele suspirou voltando os olhos para o caderno e o soltei me escorando na mesa e cruzando os braços.
- Não estou te enganando.
- Para de enrolar, conta logo!- ele respirou fundo e parou de rabiscar.
- Quando encontrei a minha Maya, um oráculo me contactou.- franzi minhas sobrancelhas com suas palavras.
Oráculo eram mortais que podiam se comunicar com os celestiais. Todas as espécies tinham um Oráculo, a nossa era uma loba que nascia ligada ao supremo. Como ela era mensageira de Selene, nossos antepassados a chamavam de Luna. As Lunas pararam de nascer com o sacrifício da deusa, desde então, não temos contato com ela.
Talvez ela não tenha respondido naquela época porque não tinha um oraculo para transmitir sua mensagem, mas parece que os antigos não pensaram nessa óbvia possibilidade. Suspirei olhando para meu irmão.
Parece que continuam NÃO pensando!
Só temos contato com duas espécies lá fora, os bruxos que tem total acesso as alcateias por termos um pacto de sangue de eras e os humanos que não são muito relevantes já que não possuem mais conhecimento sobre nossa existência, apesar de fazemos transações comerciais conosco a décadas.
- Mas não temos um Oráculo, Tiago, onde encontrou um? Não me diga que foi Kaleu porque eu nunca vou acreditar que você trocou palavras com o bruxo supremo.- neguei rindo chamando sua atenção.- Esse cara nunca pôs os pés para fora de Akan, ninguém além dos bruxos que entra e sai daquele lugar, sabem como ele é, e outra...- peguei um lápis o girando entre os dedos.- Os humanos não tem um oráculo.
- Não foi um humano e nem o bruxo supremo.- parei meus movimentos o encarando interessado.
- Então quem foi?- ele desviou os olhos do meu quieto.
- Uma loba.
- Puta que pariu, Tiago, é sério isso!- joguei o lápis na mesa e me afastei da mesa pronto para sair do quarto, mas fui impedido por sua mão que segurou meu antebraço. O olhei negando.- Não vou caí no conto de uma golpista, não sou idiota.
- Deixa eu terminar de falar, depois você julga se ela está certa ou errada.- suspirei concordando.
- Tá!
- O nome dela é Tabira, veio da alcateia suprema ao meu encontro e apesar de nunca ter me visto na vida, soube me achar, ela me chamou pelo nome, Thomas, tem ideia disso!
O observei bater a caneta freneticamente no caderno claramente nervoso, mas as feições neutras aparentando calma. Ele não mentia, mas era difícil de acreditar em suas palavras.
- Talvez alguém tenha falado para ela o seu nome.- ele negou.
- Ela disse que me viu em sonhos, viu o meu encontro com Maya e outra coisa.
Sonhos?... Então ela não é uma Luna e sim uma maluca supersticiosa!
- E o que ela te disse para te deixar tão nervoso assim.- ele me encarou com intensidade me deixando um pouco desconfortável.
- Não foi o que ela disse, foi o que ela viu.- o olhei em expectativa.
- E o que ela viu?...
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- Ela me viu em pé coberto de sangue da cabeça aos pés e milhares de pessoas se curvando diante de mim.- senti um arrepio esquisito na espinha e olhei cabreiro para meu gêmeo sem noção que tinha os olhos azuis cheios de admiração e o sorriso ladino. Um completo maluco! - Thomas, nosso supremo está vindo aí!
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