19_Um favor.


Helena

Alcateia Suprema, vila Norte
Ilha Sterk, Oceano Leste
15 anos depois

- Douglas.

Olhei para mamãe que entrou na cozinha chamando por papai enquanto mexia na sua bolsa distraída. Papai parou a colher a caminho da boca a encarando com seu chamado. Ela guardou os cadernos olhando-o pensativa. Provavelmente havia esquecido o que ia falar.

Seus cabelos lisos e ruivos, ao qual tanto admirava, estavam presos por um palito de madeira em um coque frouxo no alto da cabeça. Vestia um vestidinho bege estilo bata que ia até o meio de suas finas canelas pálidas. Sua sandália era rasteirinha de um material de couro.

Mamãe tinha um estilo peculiar e único!

Ela é mentora particular dos filhos dos betas. Dava aulas de línguas estrangeiras, além de história Akana. Matérias essas, que nós "relés mortais" não tínhamos acesso na escola. Se quiséssemos aprender, tinha que ir pra fora estudar. Claro que por ser filha de uma professora, tinha meus privilégios, mas ainda assim, era uma opção minha adquirir esse conhecimento, mamãe não obrigava nada.

Mesmo com a aparência desleixada continuava linda, era uma beleza natural que qualquer ômega tinha. Seu cheiro doce era um complemento a mais a sua presença encantadora. Lembro que papai teve receio de deixá-la dar aulas para um bando de adolescentes no auge da puberdade, mas os garotos se mostraram respeitosos. Fora que nosso Beta deu a palavra que nada aconteceria a ela.

De fato não aconteceu, mas se caso acontecesse, meu pai não poderia fazer muito. Os garotos só poderiam ser castigados pelos pais que tem domínio sobre eles, ninguém mais na ilha tinha por conta da dominância. Meu pai, mesmo sendo maior e mais velho, seria facilmente derrotado por um deles. Enfim, não sei porque estou pensando nisso!

- Não se esqueça que as meninas estão indo para um passeio da escola e precisam estar...- ela ergueu os olhos apreensivos para papai. - Ainda está comendo? Elas vão perder o horário!

- Mas já! - ele olhou o relógio de ponteiro na parede e se levantou rápido. - Droga!

- Olha as palavras, as crianças estão ouvindo, querido. - vi de relance Ellen revirando os olhos enquanto levava uma batatinha frita à boca.

Ela tinha o péssimo hábito de comprar sacos e sacos dessas batatas dos comerciantes estrangeiros que traziam produtos de fora da ilha. Algo bem arriscado, não sabemos como essa comida era feita, nem a procedência, mas papai fazia todas as vontades dela. "Tudo pela paz", como ele costuma dizer.

De fato, ela ficava na dela se não mexesse com ela. Minha irmã não tinha um temperamento bom. Era uma pessoa difícil de lidar, eu via a dificuldade de nossos pais em tentar a controlar. Muito diferente de mim e Allan.

- Desculpa, tomarei mais cuidado, amor. - olhou para nós piscando um olho e caminhou até mamãe lhe dando um selinho apressado.

Eu e Ellen nos levantamos no mesmo instante e nos encaramos por breves segundos. A observei se afastar da mesa e caminhar sem pressa até a saída do cômodo indo em direção a sala.

Seus cabelos idênticos aos de mamãe, era um ruivo escuro, quase castanhos, estavam presos em um rabo de cavalo no topo da cabeça, eram medianos. Seus olhos verdes claros, também eram idênticos aos de nossa mãe, para ser mais exata, ela era uma cópia dela só que parda, um pouco bronzeada.

Allan era negro, não tinha um traço sequer de mamãe nele, era idêntico ao nosso pai, se não fossemos trigêmeos, diria que ele não saiu dela. Já eu, era uma mistura dos dois, puxei o cabelo preto e cacheado de nosso pai, acredito que seja cacheado, não dá para saber porque o mesmo é careca, mas o de Allan é crespo, então deve ser. Minha pele era branca como a de mamãe e olhos castanhos como de papai.

Em fim, eu sou comum quanto um humano!

Não tinha uma beleza surreal como de Ellen porque não nasci ômega como ela. Não era tão vaidosa também, gostava de ser discreta tanto na aparência quanto na presença. Isso era algo que fazia desde pequena quando fui taxada de doida porque tinha uma "amiga" imaginária.

Ela não era imaginária, tenho certeza disso, a culpa não é minha se ninguém nessa ilha tivesse os olhos abertos para o plano celestial. Se ela fosse imaginária, não teria sentido as histórias que me contava, tudo que ela falava, batia com nossa história. Às vezes eu acho que ela era uma alma perdida vagando pela terra. Uma pena que se foi...

ou talvez tenha sido meus olhos que se fecharam também!

Mas foi bom assim!
Às vezes ela me dava medo!

Sua aparência não era comum e nem seu vasto conhecimento...

- Helena! - dei um leve pulo despertando.

Sorri sem graça para mamãe que me olhava negando.

- Não sei o que tanto passa nessa cabeça para te tirar constantemente da realidade, não faz nada além de estudar.

- Deixa ela, querida. - papai me defendeu me pegando pelos ombros e me fazendo acompanhá-lo para a saída. - Não se esqueça de trazer Allan de volta, se deixar, ele vai acabar morando na casa de nosso Beta.

- Ok, tchau filha, não se esqueça da sua mochila e cuide da sua irmã. - concordei mesmo avistando minha bolsa no ombro do papai.

- É mais fácil Ellen cuidar de você do que o contrário. - papai sussurrou quando saímos de casa.

A caminhada até a escola foi tranquila, como de costume, Ellen já estava alguns a passos à nossa frente nos ignorando. A nossa vila não era muito grande, tanto que tudo por aqui se fazia a pé, nenhum lugar é longe do outro.

Depois de dez minutos caminhando pelas ruas de terra cercada por casa de madeira e pedra, escondidas por imensas árvores, chegamos no centro da vila onde se erguia vários prédios antigos de tijolos, um deles era a escola. Observei minha irmã de longe se juntando às amigas.

Diferente dos outros ômegas, que nem mesmo a mesma escola que a nossa podia frequentar, Ellen tinha seus privilégios, já que nosso pai era o segundo no comando da vila e tinha parte na corte. E mesmo se não fosse, ainda teria direitos iguais por ser enlaçada ao filho de um dos Beta. O cara não era de nossa vila, era da vila sul, a nossa ficava no norte, mas ainda assim, tinha bagagem por aqui. 

Ellen tinha tudo e mais um pouco, nossos pais nunca precisaram gastar um centavo com ela, a mesma era mimada pela família do companheiro desde sempre. Todos os anos eles vinham fazer uma visita a ela, claro que seu companheiro sempre manteve certa distância, nunca tentou nem mesmo um diálogo. Ele é muito quieto e Ellen é o oposto, desde que teve consciência de quem ele era, passou a o evitar durante as visitas. Não a julgo, ela ainda não passou pela metamorfose.

Na verdade, julgo sim, um pouquinho!
É graças a ele que ela está viva!
Deveria pelo menos... tentar uma amizade!

A história de como eles se enlaçaram é bem emocionante. Quando nossa mãe estava grávida, já em seu último estágio da gravidez, nosso pai a levou para ser examinada na melhor parteira da ilha, lá no sul, mas no meio do caminho apareceu híbridos descontrolados e atacaram eles. O companheiro de Ellen sentiu o cheiro dela e foi ao seu encontro.

O cara tinha dez anos na época, mas meu pai o descreve como se tivesse muito mais porque o mesmo sozinho matou os três híbridos. Se não fosse por ele, não estaríamos vivos para contar a história. Assim que Ellen nasceu, o laço se formou.

A maioria dos companheiros nessa ilha tem a mesma idade ou está na mesma faixa etária, mas os lobos descendentes dos antigos híbridos não nascem ao mesmo tempo que sua alma gêmea nasce, podem nascer antes ou bem depois, como minha minha mãe e irmã, que são mais novas que os parceiros. 

Senti um leve aperto no ombro e olhei para papai que estava me observando divertido me entregando a mochila. 

- Não fique a todo instante distraída assim, está indo pra um lugar desconhecido, seja cautelosa e mais esperta, entendeu? - concordei.

Ele passou a mão no meu cabelo e beijou minha testa me abraçando em seguida. Segundos depois caminhou em direção a minha irmã para se despedir. Fiquei observando o mesmo tentando contato, mas a única coisa que conseguiu foi trocar palavras com ela. Respirei fundo desviando minha atenção dos dois.

Peguei com mais firmeza minha mochila e a levei as costas fazendo uma breve careta com o peso da mesma.

O que diabos mamãe pôs aqui!

Ouvi o som do apito irritante de nosso mentor e caminhei em direção a fila que se formava em frente ao prédio.

...

O nosso meio de transporte foi um pouco inesperado. Na verdade, ninguém estava esperando por aquilo, mas nosso mentor conseguiu um manipulador de portais e em poucos minutos estávamos sendo teletransportadas para a biblioteca central, nossa primeira parada. Depois seria para o castelo e por fim, o templo de Selene. Passaremos a noite no campo gramado ao redor do templo.

O dia inteiro, passamos caminhando e ouvindo nosso mentor falando sobre relatos históricos que não me importei em prestar atenção. Já sabia de tudo

Foi um dia longo e cansativo, mas diferente de mim, minhas colegas não estavam caladas. As reclamações começaram na primeira parada quando subiram mais de cinco andares de escadas na biblioteca.

Logo em seguida paramos para o almoço e partimos para segunda parada, o castelo. O lugar era tão grande que só conseguimos fazer um tour em uma parte dele, logo começou a reclamação novamente e meu mentor desistiu de continuar e decidiu partir para a última parada.

O templo de Selene!

O lugar era afastado de todas as vilas da ilha, e ficava bem no centro da imensa e densa floresta que era perigosa para lobos inexperiente como nós, por isso nos foi orientado a ficar dentro dos limites do campo gramado por volta do templo. Depois de andarmos pelo lugar, nos reunimos em frente a antiga construção e montamos uma pequena fogueira.

O jantar foi providenciado por três sentinelas que vieram para fazer a guarda de minha irmã. Na verdade, vieram quatro, mas um ficou com ela enquanto os outros adentraram a floresta. Em poucos mais de meia hora, a fogueira estava farta de caça e o lugar animado com falatórios e risadas.

- Ainda bem que você está conosco, Ellen. - uma de suas amigas falou animada para ela e abocanhou um pedaço de carne. - Se fôssemos depender do senhor Gil, iríamos morrer de fome durante a noite, aquela merreca de comida não deu nem pro almoço. - falou mastigando.

As outras meninas concordaram enquanto comiam animadas. Nosso grupo só era mulheres, os meninos já tinham feito o mesmo passeio a dois dias, tanto que Allan usou isso como pretexto pra ficar na casa dos amigos até hoje.

Um pedaço de carne surgiu no meu campo de visão. Ergui os olhos para a pessoa que me ofereceu e fiquei um pouco surpresa ao constatar que era minha irmã.

- Pega logo, fica só olhando. - peguei o pedaço levando a boca. - Iria acabar ficando sem comer se eu não viesse te dar

- Valeu.

- Nossa, ela falou! - olhei para a garota a minha frente genuinamente surpresa. - Jurava que você era muda, nunca tinha te visto falando.

- Ela responde a chamada todos os dias, Stefany. - Ellen falou revirando os olhos e voltando a se sentar ao meu lado.

- Serio! - a menina franziu a testa confusa.

- Meninas! - olhamos para seu Gil sacudindo a mão no ar enquanto olhava em volta. - Terminem e vamos começar a montar as barracas.

Nem todas concordaram com ele, mas a maioria se levantou começando a mexer nos seus pertences e começou o vira e mexe de pessoas à minha volta. Permaneci comendo sem muita preocupação. Como eu ia dividir a barraca com minha irmã e os seus guarda que estava montando a barraca, não me preocupei com isso.

Assim que terminei percebi que todas as barracas já estavam erguidas. Alguma menina saíram para correr no campo, minha irmã era uma delas. Avistei de longe a garota correndo animada brincando com as demais.

Já outras já tinham ido dormir, assim como eu, já estavam com as energias esgotadas pelo dia agitado. Entrei na barraca depois de me limpar e me deixei no colchonete dormindo em pouco minutos.

...

Helena!

Helena!

Helena, acorde!

Franzi a testa abrindo os olhos com certa dificuldade por ainda estar com sono. Levantei a cabeça olhando em volta e avistei minha irmã agarrada a um travesseiro enquanto dormia profundamente.

De onde ela tirou esse travesseiro?

O companheiro dela o trouxe a pouco.

- Hum.

Resmunguei em resposta a voz sussurrada e leve que soprou em meu ouvido.

Espera!

Dei um pulo sentando assustada e olhei em volta procurando pela dona da voz, mas nada.

- Quem está aí? - não tive respostas.

Engatinhei até o zíper o abrindo devagarinho e brechando o lado de fora. Por incrível que pareça, não estava com medo e o susto inicial virou curiosidade. Avistei três guarda lá fora conversando baixinho e percebi que um deles era grande demais. Constatei que de fato o companheiro de Ellen veio vê-la. Sorri com aquilo.

Que fofo!

Helena!

Paralisei sentindo minha visão mudando para a lupina sem a minha intervenção. Avistei os vários fios dourados flutuando no ar, a energia espiritual no solo. Varri os olhos pelas barracas e avistei uma garota aparentemente da minha idade, reconheci no mesmo instante minha "amiga imaginária".

Ela voltou!?

Assim! do nada?

Mas lembro perfeitamente dela ser do meu tamanho na época, isso faz cerca de cinco anos atrás. Parece que cresceu, assim como eu, mas permanecia com a mesma aparência, os longos cabelos prateados, os olhos cinzas tão brilhantes quanto a lua no céu e sem pupila e a pele translúcida assim como os fios no ar como uma alma penada. Ela apontou para o templo e passou a olhar para lá.

O que será que ela quer aparecendo assim?

Será se foi porque eu lembrei dela mais cedo?

Saí da barraca fechando o zíper novamente engatinhando por entre as barracas fechadas. Parei por um momento sentindo olhos sobre mim e sabia que o companheiro de Ellen e seus subordinados já haviam me visto. Voltei a percorrer meu caminho em direção ao templo não me importando com eles, já que eles pareciam não me questionar o que fazia.

Eles não estavam aqui por mim mesmo!
Que seja!

Assim que alcancei a escadaria me levantei caminhando para o interior do templo à procura da minha amiga que estava à muito sumida. Minha visão me permitia enxergar em meio a escuridão que consumia o imenso salão, olhei para o teto observando a pequena bola no teto me dando a visão da meia lua.

Helena!

Olhei para frente deparando com a garota me encarando totalmente inexpressiva. Não havia emoção em seu rosto, mas acredito que fantasmas não sintam emoções como nós mortais sentimos. Ela estava sobre o pequeno altar feito para deusa da lua. A encarei.

Selene!

- Oi. - acenei para ela e sorri. - A quanto tempo, em!

Pouco tempo!

Sua boca não se movia, sua voz que mais parecia várias vozes sussurrando, só ressoava na minha cabeça dando um eco. Algo bem estranho, não me lembrava de ser tão esquisito. Cinco anos para ela é pouco tempo, mas para mim foi bastante tempo.

Preciso que me faça um favor, Helena!

Favor?

Tá, ela era a única que brincava comigo na infância, até mesmo minha irmã tinha medo de mim na época, não custava nada fazer um favorzinho. Só espero que seja algo que estivesse ao meu alcance.

- Claro, o que seria?

Ela ergueu o queixo juntando as mão em frente ao corpo me olhando com certa seriedade nas feições deixando claro que o que falaria era algo serio.

Recentemente uma família da américa do norte se alojou na vila central, estão acompanhados com um hibrido de humano, esse hibrido não pode por os pés na biblioteca central!

Engoli em seco com suas palavras. Não era uma tarefa difícil, tirando o fato de que eu tinha um medo inexplicável dos mestiços e sempre que via um, corria a mil léguas. Mesmo eu obviamente sendo um ser mais forte que eles, meu cérebro não entendia isso. Soltei uma risadinha nervosa.

- E como eu manteria um pessoa que sequer vi antes na minha vida longe do edifício mais visitado de toda ilha? - sua única reação foi piscar os olhos vagarosamente aparentando não estar preocupada com isso. - E outra, como vou saber de qual família estar falando? Muitas famílias vem do norte visitar a biblioteca!

Você saberá assim que por seus olhos nele!

- Por que o quer longe da biblioteca?

Ela piscou erguendo sua cabeça com calma olhando para cima. Não parecia olhar para algo em específico, seus olhos estavam vagos.

Naquela rocha, está preso o mais forte do povo do sol, o híbrido é descendente desse povo, suas almas estão destinadas, se ele a encontrar, ela despertará!

Concordei umedecendo os lábios e franzindo a testa confusa com suas palavras enigmáticas. Desisti de tentar entender o que ela quis dizer, mas claramente parecia que a situação estava fora do meu alcance. 

- Mas se eles estão destinado a se encontrarem, então não adianta eu intervir...- neguei gesticulando.- Um hora ou outra ele vai entrar lá. - ela me encarou estranhamente serena, o que era meio contraditório a minha agitação interna.

Você só precisa encontra-lo antes que ele chegue a biblioteca!

Eu pisquei e ela sumiu, com ela a luz que iluminava à minha volta. Meus olhos tinham voltado ao normal, dei um passo na escuridão e acabei tropeçando no que parecia ser uma espécie de pedestal. Esperei a queda, mas senti mãos agarrando o capuz do meu sobretudo e impedindo a queda.

Fui puxada até me firmar novamente em meus pés. Me virei deparando com olhos de lobo caramelizados e avermelhados, era uma mistura das duas cores. Franzi a testa achando diferente e bonito. Nunca tinha visto os olhos lupinos de alguém da casta suprema.

Olhando assim mais de perto, vejo que minha irmã tem sorte!

Teles é bonito demais!

- O que veio fazer aqui sozinha? - ele olhou em volta e voltou a me encarar. - Está falando sozinha.

- Estava....- pensei numa desculpa que o convencesse que não sou uma louca. - fazendo uma oração? - ele arqueou uma sobrancelha.

Droga!

- Isso é uma pergunta ou afirmação? - pisquei decidindo em qual resposta daria que fosse mais convincente para meu corpo não deletar minha mentirinha.

- Afirmação. - ele semicerrou os olhos brevemente.

- Não é confiável que ande por aqui sozinha, pode ser perigoso. - arqueei uma sobrancelha.

- O que seria mais perigoso do que eu?

Ele aproximou o rosto dele me fazendo dar uma leve curvada com o tronco procurando distância. Senti sua mão no meu queixo onde o agarrou com firmeza.

Qual o problema desse cara!

Pisquei algumas vezes confusa e antes que tentasse me soltar ele virou meu rosto. Avistei as grossas rachaduras pelas imensas e redondas colunas subindo para o teto até a pequena abertura circular. Pisquei surpresa e o mesmo me soltou se afastando.

- Ser uma loba não te livraria de uma morte por esmagamento, senhorita Helena.

Realmente, não aguentaria o peso dessa construção!

Bufei irritada por ele estar certo e chateada por ter sido trazida pela alma ambulante para uma área de risco. Se bem que meu mentor nos fez entrar aqui mais cedo e ninguém reparou nisso.

- Se não quiser ficar e pagar para ver, aconselho a me acompanhar até a saída.

- Fala como se o templo fosse desabar agora. - não se deu ao trabalho de me dirigir o olhar.

- Pelo estado, pode cair a qualquer momento, vamos! - ordenou autoritário.



...





Senti um tremor na terra abaixo de mim e abri os olhos assustada me sentando. Olhei para Ellen enrolada na sua coberta alheia ao terremoto, constatei incrédula que ela permanecia dormindo. Agarrei seu ombro a sacudindo com pressa e a mesma despertou se sentando meio confusa e atordoada.

- Helena, o que está acontecendo? - olhou de um lado para o outro.

Os tremores foram aos poucos parando e me apressei em abrir a barraca averiguando do lado de fora. Todos haviam despertado e estavam fora de suas barracas olhando na direção do tempo. Segui os olhares assustados e surpresos para a construção totalmente destruída e fiquei perplexa. 

O templo de Selene desabou!

Ellen surgiu na abertura me empurrando afoita e soltou o ar surpresa ao avistar os destroços do que um dia foi um imenso templo.  

- Caramba! 

Olhei em volta a procura de seu companheiro, mas o mesmo já não estava mais lá. Aquilo me deixou reflexiva com o tipo de pessoa que a minha irmã estava enlaçada. Olhei para seus sentinelas fazendo patrulha como se nada estivesse acontecido.

Ele sempre estava por perto e ao mesmo tempo longe de nossas vistas. Procurava sempre saber os passos de minha irmã, era observador demais e muito cauteloso com a mesma, mas estava sempre manipulando ela para não seguir um caminho que a afastasse dele. A desculpa que ele dava a meus pais era que ela é seu ponto fraco.

Eu constatei que ela tem uma falsa liberdade!

Por ele ser filho de um beta e fazer parte da corte, havia muitas pessoas querendo o seu posto na alcateia. Eu tinha plena noção de que ter poder em mão era arriscado, principalmente ele que o tinha desde o nascimento. Com certeza tinha muitas pessoas que ambicionava seu lugar. 

Olhei para Ellen ciente que a mesma sequer sabe que está sendo constantemente observada. Ainda não tinha passado pela metamorfose como eu e Allan, então não tinha noção do efeito do laço de alma. Ainda tinha o fato de que foi enlaçada ainda recém nascida, então nunca vai saber qual a sensação de está livre. 

Olhei para meu pulso de onde meu fio despontava repentinamente preocupada com meu destino incerto, mas logo balancei a cabeça voltando a me lembrar da minha mais nova missão. Ergui meus olhos observando os destroços e o movimento de pessoas a sua volta.

.

.

.

.

Preciso encontrar o híbrido!

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