17_ Novidades

Laura

Alcateia Lerak,
America do Norte

As copas das árvores balançavam de um lado para o outro dançando ao som da ventania que passava pelo local. As cortinas azul escuro de um pano leve e transparente da grande janela da varanda, roçaram em meu corpo, acariciando minha pele nua.

Observei o Sol escondido entre as nuvens densas daquela manhã nebulosa se escondendo cada vez mais. O clima ia se esfriando a cada instante, deixando todos avisados da forte chuva que não tardaria em vir.

O tic tac do relógio de cabeceira me fez soltar um longo suspiro deixando transparecer meu tédio naquele momento que não tardou em sumir quando avistei de longe o pequeno grupo de sentinelas surgindo dentre as árvores que cercava a praça central.

Observei eles caminharem até um dos vários bancos espalhados pelo local onde um homem moreno bem posturado estava sentado. Ele não possuía cabelos na cabeça, era careca, mas isso não lhe tirava a beleza, muito pelo contrário, sua nudez deixava esse pequeno detalhe ser irrelevante.

Seu corpo era musculoso e grande, tanto que tomava todo o espaço do acento em que estava e meu pai, que estava de pé a sua frente com as mãos para trás e postura ereta, parecia pequeno comparado a ele. A postura relaxada de nosso visitante perante o loiro tenso à sua frente e seus subordinados a sua volta, deixava claro que não era um simples mensageiro que veio buscar notícias como a corte havia dito a alguns dias.

Não podia os escutar daqui, mas sabia do que falavam porque reconhecia o grupo que saiu à procura de Thomas a semanas atrás. Meu pai só havia permitido o retorno deles com a presença do procurado. Aquilo provava que...

- Eles o encontraram. - sussurrei.

Me virei correndo em direção a porta e a abrir com pressa seguindo pelo corredor largo e bem arejado. Desci as escadas sem me importar com o barulho que meus pés faziam nos degraus de madeira por conta de minha pressa.

Mamãe surgiu da passagem que levava a cozinha me olhando com um misto de curiosidade e surpresa pois não saia a dias, mas não parei pra lhe dar explicação. Atravessei a sala e saí saltando os poucos degraus que levavam ao caminho de pedregulhos.

Não diminui o ritmo, mesmo sentindo o incômodo de correr descalça pelas pedras pequenas e pontiagudas que cercavam a casa de meu pai. Passei pelos enormes portões ignorando os dois sentinelas que me olhavam surpresos e apreensivos e segui em direção a praça não muito longe. Eles deveriam me impedir, mas não sabiam como.

Assim que passei pelo grande chafariz no centro do lugar, tive total atenção do grupo de pessoas. Parei assim que meu pai se virou me avistando. Seu olhar repreensivo e o rosto sério me fez dar um passo mínimo para trás, lembrando que não estava autorizada a sair de casa enquanto a nossa visita não partisse.

Ninguém naquela região estava autorizado!

Não tinha parado para pensar nisso, agora já era tarde. Mesmo estando com a consciência pesada por o contrariar, não recuei. Sabia que ele estava com problema naquele momento por conta da rebeldia de Thomas, eu o desobedecer nesse momento só o deixaria mais estressado, mas precisava de notícias.

Engoli em seco sentindo os olhares sobre mim e acabei desviando a atenção de meu pai para o homem sentado atrás dele. Os olhos verdes claros me encaravam seriamente, em contradição com o seu rosto divertido.

- Para a sua filha ter vindo até aqui, suponho que eles tenham algo importante para falar. - sua voz grave era baixa e calma. - Connor, não se acanhe com a minha presença, o que tenho eu haver com os seus assuntos.

Tenho certeza que não fui a única a sentir a ironia em suas palavras, pois percebi de canto de olho a breve agitação dos demais presentes.

Thomas não está entre eles!
Será que de fato o encontraram?
Onde ele pode está?

Voltei meus olhos para o estranho o observando com mais atenção. Seus traços faciais eram marcantes, tinha uma cicatriz discreta no maxilar de um arranhão. Os cílios e as sobrancelhas eram fartos com grossos fios pretos. Seu cheiro tinha um leve toque afrodisíaco. Não era preciso ver o seu fio pra saber que já era enlaçado a alguma mulher.

- Não estou acanhado. - meu pai se pronunciou voltando sua atenção para ele e me tirando dos meus devaneios. - Não é um assunto relevante, posso tratar dele em outro momento.

O moreno soltou uma risadinha baixa e preguiçosa, antes que voltasse a falar sua atenção foi tomada por alguém que surgiu. Me virei olhando o Derek com mudas de roupas nos braços estendidos. O ômega tinha a atenção no pano em suas mãos, parecia que a cor das vestes era mais interessante que as pessoas à sua frente.

Papai caminhou até ele, pegando uma das peças e se voltou até o moreno lhe estendendo a roupa com certa calma. Ele parecia estar sendo cauteloso com os seus movimentos. Parecia temer uma reação repentina do nosso visitante.

- Se vista antes que os akanos cheguem, como você bem sabe, eles não têm os mesmos costumes que nós, podem se sentir desconfortáveis se os receber como está.

O homem soltou uma gargalhada baixa e se levantou ficando novamente sério. Olhou para a roupa brevemente antes de encarar meu pai cruzando os braços. Percebi que o mesmo era mais alto que todos nós. Não tinha dúvidas que ele era de Sterk.

Será que era da corte!?

- Acha mesmo que me importo com isso?

- Sei que não, mas estão trazendo crianças, a maioria delas foram criadas pelos humanos, algumas são fêmeas...- meu pai encostou a roupa em seu peito o fazendo segurar a peça. -... não é conveniente recebê-las nú, pode acabar as assustando, ainda não temos total conhecimento do que são capazes de fazer, é bom se prevenir, não acha?

Ele segurou a peça encarando meu pai com certo divertimento no olhar, mas deu um leve aceno em concordância.

- Acho desnecessário, mas se insiste. - começou a se vestir. - O farei para não o constranger na frente dos seus, os híbridos terão que se acostumar com os nossos costumes mais cedo ou mais tarde.

- É bom ir com calma e cautela, eles...

- Não tenho porque me preocupar com isso, Connor, eles não têm lugar e nem mesmo posição entre os nossos, sequer deveriam existir, por mim, estariam mortos, mas como vocês decidiram deixá-los viver, devo ser tolerante a presença deles e só, não me faça ter que vê-los como um incomodo.- falou distraído enquanto vestia peça por peça sem pressa.

Fiquei perplexa com suas palavras, por mais que fossem híbridos, tinha nosso sangue, mereciam nossa consideração. Eram seres vivos, como todos ali, não tinham culpa do erro que os pais cometeram. Além do mais, eram crianças que estavam sendo arrancadas de seus lares à força.

Matar essas crianças para ele, não seria nada demais, parece até que para ele não passaria de uma curta tarefa.

- Se você pensa assim, não quero nem imaginar o que essas crianças vão passar nas mãos do povo de Sterk. - falei deixando bem claro meu desgosto em meu tom de voz.- Vocês como nossos originais deveriam ter a mente mais aberta, mas pelo que vejo ainda não deixaram de ser um povo ignorante com os mesmos costumes arcaicos.

Todos presentes me olharam surpresos, principalmente o homem a quem desferi aquelas palavras. Ele direcionou o olhar para papai arqueando uma sobrancelha. Papai estava pálido e quieto demais.

Será que estou falando muito?
Será que esse cara é só um simples integrante da corte mesmo!

- Você tem uma cria muito ousada...- me encarou sério.- Para sua informação, essas crianças são fruto de um crime cometido contra a supremacia, eu como um be...- parou repentinamente e estalou a língua, suspirou negando. - Não sei porque estou perdendo o meu tempo discutindo com você. - encarou meu pai. - Eu não vim aqui pra isso, eduque melhor a sua filha, ela pode acabar se prejudicando se continuar falando o que quer na hora que quer. - olhou para papai em provocação, observei o mesmo abaixando levemente a cabeça.

- Peço desculpas pelo inconveniente. - papai falou me deixando ainda mais indignada com aquela situação.

Eu abri a boca para revidar, mas uma ventania repentina me calou. Meus cabelos chicotearam meu rosto cobrindo minha visão brevemente. Assim que o vento cessou e meu cabelo voltou ao lugar puder ver o portal aberto.

Pelo tamanho e coloração amarela da magia que o formava, não era a bruxa que costumava andar com Thom. Era outro, bem mais forte e experiente que ela. Como previsto, o dono do portal surgiu do mesmo. Era um loiro com traços asiáticos aparentemente jovem, era uma característica de todo iluminado, já que seu ancestral era originalmente da Ásia.

Depois dele, surgiu dois bruxos puxando uma pequena fila de crianças e adolescentes acorrentados pelos braços e pés. A maioria estavam em uma situação decadente, pareciam mendigos, as vestimentas rasgadas, sujos de terra e sangue com arranhões espalhados pelo corpo, dentre eles uma me chamou a atenção.

Ela parecia menos saudável em comparação aos outros, estava magra demais, os cabelos castanhos e cacheados estavam com um aspecto seco e queimado, seus lábios estavam rachados e sua pele descabelando nos braços e mãos. Tremia da cabeça aos pés, não sabia dizer se era de frio ou medo. A gargantilha feita de cristal de akan em seu pescoço brilhava em tons amarelo e laranja me deixando encabulada.

- Um selo físico? - me aproximei dela.

Estendi a mão para tocar o objeto, mas fui impedida por uma mão pálida e quente. Olhei para o iluminado que segurou meu pulso e me encarava negando devagar.

- Não toque, pode se queimar. - franzi a testa com suas palavras. - É um selo de contenção de magia...- ele apontou com a cabeça na direção da garota.- Ela é metade bruxa e como pode ver, consegue manipular a magia da terra, é perigosa...- me puxou me fazendo dar dois passos para longe. - mantenha distância por enquanto.- olhei para a garota surpresa.

Uma híbrida de lobo e bruxo capaz de manipular a magia terrena!

Isso quer dizer que essas crianças nasceram isentas do castigo de Selene!

Eu não fui a única que ficou surpresa com suas palavras, ouvi burburinhos dos presentes e uma risadinha divertida do nosso visitante. Olhei para ele observando seus passos sem pressa seguindo em direção a jovem híbrida.

- Interessante isso.- ele chegou perto dela e tocou seu queixo com delicadeza fazendo a mesma o encarar. - Você deve ter noção de quem somos, não é mesmo? - ela não moveu um músculo sequer, permaneceu calada o observando sem expressão alguma.- Me diga, já passou pela metamorfose?

Depois de alguns segundos do mais completo silêncio, senti uma leve pressão com a dominância que começou a pairar no ar, ele estava a testando, mas tenho certeza que não estava dando o máximo ali. Três garotos na fila caíram no chão gritando de dor enquanto se encolhiam.

Olhei para papai e o mesmo negou em um claro sinal para me ficar quieta. Voltei meus olhos para o moreno e soltei o ar que nem percebi que prendia quando o mesmo se conteve repentinamente e a dominância sumiu. Os garotos no chão já tinham desmaiado de dor com a transformação forçada. Senti pena deles, não tinham conhecimento de nada, portanto, não sabiam como resistir.

Eram muito frágeis!

- Parece que não...- o moreno sussurrou me chamando a atenção, ele virou o rosto dela de um lado para o outro a avaliando.- Aliás, o que aconteceu com ela para estar nesse estado?

Olhou para o iluminado que ainda permanecia ao meu lado quieto observando tudo em silêncio.

- Ela surgiu do nada pegando fogo em uma alcatéia do Sul, alguma coisa deve ter acontecido com ela porque a mesma estava com a magia em seu interior contaminada, a sorte dela é que eu estava lá em uma visita na hora e fiz a purificação às pressas porque o fogo a estava consumindo, se eu não estivesse lá, ela teria morrido. - ele deu de ombro como se o assunto já fosse corriqueiro.

Olhei para a garota com uma bata fina hospitalar, antes branca, agora toda suja de terra e lama, parecia até que eles tinham feito uma trilha antes de parar aqui.

- Então ela manipula a magia através dos elementos da natureza. - sussurrei impressionada com tal descoberta.- Magia elementar, nunca pensei que fosse ver em vida... - olhei para o iluminado. - Quantos elementos ela pode manipular?

- Eu acredito que só fogo, pelo que eu saiba, os antigos não podiam manipular todos, cada família manipulava um, ou dois por sorte se juntasse as famílias. - falou pensativo olhando para híbrida.

- Ela não é de casta nobre. - olhei para o homem em frente a ela, ele a soltou se aproximando de meu pai. - Se fosse, eles não teriam a mandado para cá, os bruxos de casta nobre podiam manipular a magia terrena como os iluminado manipulam a magia celestial, mas ela pode ser útil pra nós no futuro, vou deixá-la aqui por enquanto, cuide dela. - tocou o ombro dele que concordou o encarando.

- Mas não seria mais adequado levá-la para Sterk? Aqui os akanos podem ter acesso a ela, se acaso decidam a terem de volta.

- Não vão, estão ocupados demais para se lembrarem dela. - soltou um suspiro pensativo. - Você deve está a par das últimas notícias. - papai franziu a testa em confusão.

- Últimas notícias? - o moreno arqueou uma sobrancelha em questionamento e papai coçou a testa. - Eu estava ocupado com assuntos internos, não tive tempo de olhar o noticiário de vocês.

- De acordo com minha fonte, os dois caçulas do rei Kray morreram em uma missão no sul... - levei a mão a boca com aquela notícia. - Estavam acompanhando o primogênito, que aliás, foi o único que voltou com vida.

- Eles são bruxos de casta nobre, sei que os bruxos da nobreza são conhecidos por serem poderosos telepatas, como eles morreram? - papai deixou o questionamento no ar.

- Eu ainda não sei como e quem os matou, mas não tardará para mim descobrir. - falou pensativo. - Talvez possa ter sido o próprio irmão.- papai concordou em silêncio. - Esses são os únicos híbridos existentes do Sul? - olhou para o iluminado que parecia perdido nos próprios pensamentos.

Tenho certeza que esse aí sabe de alguma coisa!

Ele despertou olhando para o moreno negando.

- Não, tem mais dois, um estava transformado e escapou de nós e o outro está gravemente ferido, como foi machucado em solo contaminado, os ferimentos não estão se curando rápido como deveria, estamos mantendo ele entubado em uma base, mas não sabemos se vai sobreviver.

- Mate ele.- fez um gesto de descaso.- Não tem porque ficar gastando os recursos de vocês com ele, é um desperdício, deixe-o morrer.

Olhei para ele um pouco indignada com suas palavras. Ele falou com tanta naturalidade em matar que parece que é corriqueiro pra ele tomar esse tipo de decisão.

- Ok. - olhei para o iluminado surpresa.

É sério isso!

Olhei para papai e segui olhando os outros presentes. Ninguém parecia se prontificar a favor da vida de um inocente. Todos estavam indiferentes a decisão daquele psicopata. O olhei erguendo o queixo.

- Não! - falei chamando a atenção de todos, ouvi o suspiro de papai de longe. Encarei o moreno indignada. - Não vou deixar que façam uma barbaridade dessa.

- Você ainda está aqui? - olhou para meu pai repreensivo. - Não vou ser mais tolerante com ela, Connor.

Papai se apressou em se aproximar de mim e se meter entre nós de forma protetora.

- Não se incomode com as palavras dela...

- Ela está interferindo em minhas decisões e não estou gostando de suas palavras afrontosas. - sua voz dura me fez olhar preocupada para papai.

- Ela não teve essa intenção, por favor, releve, deixe o híbrido aos meus cuidados, assim não terá possíveis cobrança no futuro, vou me responsabilizar por tudo em relação a ele.

- A criatura está entre a vida e a morte, não ouviu? Quer mesmo se dar ao trabalho de trazê-lo para cá e gastar os seus recursos com ele só para fazer os caprichos da sua filha! - fechei a mão em punho.

- Sim, se eu conseguir o salvar, pode ser útil para mim em alguma coisa...- foi interrompido por uma risada rouca e baixa.

- De que utilidade seria esse híbrido? Ao menos que você queira substituir o seu serviçal. - apontou para o ômega quieto de cabeça baixa.

- Quem sabe, minha casa é grande demais para Derek cuidar sozinho.

O moreno fez um gesto de descaso com a mão negando com a cabeça.

- Que seja, você é que sabe.- se dirigiu ao iluminado.- Nos leve logo para casa, tenho mais o que fazer.

Ele concordou brevemente e o portal que permanecia o tempo todo aberto se fechou abrindo segundos depois para outro local. A vila de arquitetura antiga do outro lado mostrava um grande movimento de pessoas em uma espécie de feira. O moreno passou pela passagem e os bruxos com os cativos o seguiu. O iluminado caminhou até eles e parou olhando para papai.

- Vou deixar uma passagem para a base no sul aberta por meia hora para que você busque o híbrido, se apresse.

- E o fugitivo? - papai perguntou e o iluminado fez uma breve careta escondendo os lábios.

- Não precisa se preocupar. - sorriu cordialmente. - Logo, logo o encontrarão e entrarão em contato com vocês. - papai concordou.

- Eu tenho ótimos rastreadores a disposição, se tiverem algum pertence pessoal dele, meus homens podem encontrá-lo facilmente.

- Não será necessário, mas obrigada, nós temos tudo sob controle.- arqueei minha sobrancelha.

É impressão minha, ou eles não querem nossa ajuda!

Nos deu as costas entrando no portal que se fechou e abriu mostrando o corredor iluminado e totalmente branco do outro lado. Pousei o indicador no queixo observando o lugar deserto.

Pelo visto, não!

Tinha alguma coisa acontecendo, primeiro se ofereceram para capturar os híbridos do sul. Dois akanos nobres morreram justamente em uma missão no sul. Será que a morte deles está relacionada à caça aos híbridos?

Será que um híbrido matou esses bruxos!

Papai se virou me despertando dos meus pensamentos.

- Vou buscar o garoto, enquanto isso...- apontou para a menina que nem tinha notado que ficou pra trás. - Leve ela para o centro hospitalar e a deixe sob os cuidados do curandeiro chefe. - concordei e ele apontou para o pequeno grupo de sentinelas. - Vocês, me esperem em casa. - eles concordaram se afastando e ele se virou para atravessar o portal.

- Pai. - ele se virou me encarando. - Eles o encontraram? - ele suspirou se virando.

- Vamos conversar sobre isso quando eu voltar.

Observei ele sumir por entre os corredores do outro lado da passagem me deixando para atrás sem a resposta que tanto queria.
Olhei para o grupo de sentinelas que se afastavam sem pressa em direção ao casarão.

Afinal, eles o encontraram ou não!
Será que pergunto dele logo?

A resposta seria óbvia se todos tivessem ali, mas faltava dois dele, talvez estivessem com Thom em algum lugar esperando ordens do meu pai.

Suspirei me virando e me deparei com pares de olhos bicolores me encarando. Um olho estava amarelo na forma lupina e outro castanho esverdeado. Engoli em seco tentando entender como ela conseguiu tal feito.

Será que está passando pela metamorfose agora?

Passei as mãos no short jeans limpando o suor da mesma. Procurei manter a calma com um sorriso gentil, dei alguns passos cautelosos em sua direção. Ela piscou várias vezes, parecendo sair de um transe e seus olhos voltaram ao normal. Engoli em seco e forcei meus lábios a sorrirem.

- Meu nome é Laura, aqui você não será uma prisioneira, será bem tratada. - sorri de forma amigável para ela, que surpreendente retribuiu minimamente. - Como se chama?

Demorou alguns segundos para ela responder, sua voz saiu baixa e rouca, era quase inaudível, mas pude ouvir com clareza.

- Mayra.

.....

Observei Sophia, minha melhor amiga, que recentemente virou curandeira chefe do principal centro hospitalar de lerak, enfaixando a barriga da garota que olhava tudo a sua volta com curiosidade e estranhesa.

Estava com várias feridas de queimaduras espalhadas pelo corpo, mas não demonstrava dor alguma, talvez não seja capaz de sentir. Eu não sabia dizer, meus conhecimentos sobre híbridos eram escassos, mas pretendo procurar estudar mais sobre eles agora que voltaram a nascer.

- E Thomas? - olhei para a curandeira distraída no seu trabalho. - Conseguiram encontrar ele? - suspirei.

Ela terminou o curativo me encarando e começou a tirar as luvas descartáveis esperando minha resposta.

- Não sei. - ela franziu a testa.

- Mas o pessoal que foi atrás dele, não voltou agora? - arqueei uma sobrancelha.

- Como sabe disso? - ela deu de ombros voltando sua atenção para a paciente que estava nos observando em silêncio.

- As notícias se espalham mais rápido do que você imagina.

Pegou uma pinça grande e tirou um pedaço de algodão numa bandeja ao lado mergulhando em um líquido esverdeado de uma tigela, aproximou o rosto ao ouvido dela limpando o sangue que manchava o mesmo.

- Sei bem, mas não sei se o encontraram ou não, ele não estava com eles. - falei desanimada.

- Não sei o que passa na cabeça do seu companheiro quando dar essas escadas. - negou. - Não o entendo, na verdade, nenhum outro cara que é enlaçado é aventureiro como ele, todos são apegados a família, mas parece que ele simplesmente não tem apego nenhum a vocês, vive como um homem livre.

- Isso não é verdade, ele gosta muito da filha. - ela me olhou brevemente com desdém.

- Não sou cega, Lê, aliás, ninguém é cego aqui, todos vêem a indiferença dele com vocês, só não comentam sobre por causa do tio Connor, mas está óbvio que ele não se importa nem mesmo com a própria filha.

Se voltou para a garota pedindo o seu braço e passando o remédio nos ferimentos leves com delicadeza tirando seu sangue. Suspirei.

- Ele se importa sim, pelo menos com Stella, mas é do jeito dele. - ela suspirou.

- Lê, a vida dele está ligada a sua, ele tem plena noção disso, mesmo assim , vai pra fora sozinho e sem autorização do tio, nem sequer pensa na hipótese de Stella virar órfã devido a irresponsabilidade dele.

- Credo, Sophia!

- Só estou sendo realista, amiga. - suspirei concordando derrotada.

- Você tem razão, mas deve ter um bom motivo pra ele ter saído assim, ele sabe o que está acontecendo lá fora.

- Nenhum motivo é bom o suficiente pra ele por acima da própria família, amiga. - ela me encarou negando.

Desviei os olhos para a janela ao lado com o som repentino da chuva que passou a caí do lado de fora. Deixei que o sons das grossas gotas que espancava o vidro da janela desse um fim naquele assunto.

- Acho melhor eu voltar pra casa, quero está lá quando papai retornar.

- Tudo bem. - a encarei. - Qualquer coisa, eu estarei por aqui. - concordei desviando minha atenção para a garota.

- Não tente fugir, sabe que as coisas estão complicadas pra você lá fora. - ela olhou para o piso entre nós concordando devagar.

Dei as costas às duas saindo da sala indo a procura de notícias sobre Thomas. Passei pelos corredores mais movimentados do que o normal e desci as escadas observando a recepção. Assim que pus os pés no térreo, senti uma pontada forte no peito e um leve puxão no meu pulso. Olhei para frente arregalando os olhos.

Thomas morrendo!
.
.
.
.
.

Antes que averiguasse o que se passava comigo, senti minha vista escurecendo e o coração freando suas dolorosas batidas. Dei um passo na escuridão estendendo a mão em um silencioso pedido de ajuda até que perdi os sentidos apagando.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top