Capítulo 2 - O Horóscopo
Eu não aguentava mais ficar dentro da sala de aula, assistindo o professor de física contar todos os detalhes sobre a sua vida aplicando a física em todas as coisas que ele fazia. Dan, que estava anotando todas as informações importantes da aula em seu caderno, parecia bem mais acordado do que eu, já que ele quer ser físico e se sente totalmente motivado pelo nosso professor, o Sr. Clark.
Acho que eu era a única que não via sentido em querer colocar a física em todas as minhas ações.
Quando o intervalo finalmente chegou, eu praticamente saltei da minha carteira, e bocejei tanto que até o Dan percebeu que eu estivera viajando a maior parte do tempo. Eu queria mesmo era ir para o meu treino para praticar a nova animação que a Kaitlin estava montando. Apesar de ser um saco ter que aturá-la, eu gostava tanto de ser líder de torcida que às vezes nem me importava de ter que respirar o mesmo ar que aquela vadia.
— Dou um chocolate por seus pensamentos. — disse Dan, colocando o indicador na minha testa e fazendo a minha pele formigar. Esbocei um sorriso bobo, retirando o seu dedo da minha testa antes que meu corpo se desfizesse em cinzas pelo chão.
— Meus pensamentos não valem tantos carboidratos, pode acreditar. — Dei uma risada sem humor, pegando meu caderno e estojo e saindo da sala de aula caminhando ao lado do meu melhor amigo.
Algumas pessoas que passavam acenaram para nós, e por um momento, um sorriso triunfante tomou o meu rosto. Eu sabia que a maioria das pessoas gostaria de estar no meu lugar, e eu me sentia totalmente satisfeita ao constatar que nem a metade conseguiria alcançar o mesmo status que o meu.
Dan cumprimentou de volta algumas pessoas, entre elas algumas meninas, que ficaram em êxtase pela pequena atenção que receberam do meu melhor amigo. Claro que aquilo me deixou mais enciumada do que eu podia admitir.
— Você precisa se focar nas aulas se quiser que os seus pais parem de pegar no seu pé. Sabe disso, não sabe? — questionou ele, entrando junto comigo no refeitório.
Soltei um suspiro resignado quando lembrei que os meus pais estavam infernizando a minha vida depois das notas baixas que eu tirei no ano passado. Eles vivem dizendo que me deixaram "solta" demais, e que agora as coisas iriam "apertar" pro meu lado.
— Eu odeio física, Dan. Parece que nas aulas do Sr. Clark alguém pendura dois pesos em minhas pálpebras que me deixam completamente incapacitada de ficar de olhos abertos. — eu disse, choramingando de tristeza.
Matemática, química e física sempre foram as matérias que mais infernizaram a minha vida. Eu sou muito boa em língua inglesa, mas fazer cálculos e gravar fórmulas nunca foi muito a minha praia.
Dan deu uma pequena risada com a minha analogia.
— A física não é tão chata quanto parece, Lola. — disse ele, pegando duas bandejas vermelhas e entregando uma delas para mim. Entramos na fila para pegarmos a nossa comida e o cheiro gostoso que adentrou as minhas narinas fez meu estômago roncar.
— Diz o cara que quer ser o segundo Albert Einstein da vida. — debochei da cara dele, pegando hambúrguer, batatas-fritas e um copinho de plástico com ketchup, além de uma lata de coca-cola na máquina de refrigerantes.
A comida da escola não era muito saudável, e eu não ligava tanto para a minha alimentação como costumava parecer. Dan também colocou a mesma coisa que eu em sua bandeja, acrescentando alguns sachês de maionese.
— O cara é um mito. — respondeu Dan, defendendo seu ídolo.
— Contanto que você não fique com a aparência igual a dele daqui há uns anos...
— Por que? A minha aparência não te agrada? — Dan se virou de frente para mim e me lançou um olhar sedutor que eu tenho certeza de que não foi proposital. Ele vivia fazendo esses tipos de brincadeira comigo, e a cada vez que ele fingia que estava flertando, meu coração acelerava mais.
Meu rosto começou a queimar de vergonha, e eu fiquei completamente constrangida.
Dan era a única pessoa que tinha esse tipo de poder sobre mim, e também era a única pessoa que parecia não se dar conta disso.
— Não foi isso o que eu quis dizer. — respondi, encarando a bandeja que eu carregava.
— Olha a Wanessa ali. — Dan acenou para Wanessa, que estava sozinha encarando sua bandeja de comida. Acho que ela ainda estava triste por causa do que ocorreu mais cedo com o Jonathan.
Assim como a minha história com o Dan, a de Wanessa e Jonathan também era bem antiga. Tudo começou numa festa de fraternidade no ano passado, onde Jonathan nos levou de penetras. Eu não queria ir, e nem Dan, mas Wanessa insistiu a tarde inteira para que nós fôssemos. Ela já estava dando em cima dele há algum tempo, e parecia que agora Jonathan começava a apresentar sinais de que a queria também.
Os dois ficaram naquela noite, e no dia seguinte, Jonathan já estava se agarrando com outra garota. Wanessa ficou arrasada. Desde então, minha amiga tenta esquecê-lo, mas ela diz que é impossível. Os dois já ficaram outras vezes depois daquele dia, mas agora, Wanessa está tentando se afastar dele.
Eu e Dan sentamos na frente dela, que estava com um olhar triste e vazio.
— Hey, o que aconteceu com você? — Dan perguntou, levantando o queixo de Wanessa para que ela pudesse olhar para ele.
— O Jonathan aconteceu. — Wanessa disse, com lágrimas nos olhos. Eu odiava ver a minha amiga daquele jeito, principalmente quando a causa disso tudo era Jonathan McLean.
Metido a galã, popular e uma das estrelas do time de futebol americano, Jonathan faz muitas garotas suspirarem. Além de bonito, é um dos caras mais galinhas que eu já conheci. Ele é até legalzinho, mas não pode ver um rabo de saia.
Por isso eu admiro tanto o Dan. Além de ser um perfeito cavaleiro, ele não se entrega a romances rasos e é um cara de relacionamentos sérios. Até hoje, o Dan só teve uma namorada, a Jennifer-cara-de-sonsa. Eu a odiava com todas as forças, mas se Dan estava feliz, eu tinha que estar também, não é mesmo? No fim das contas, a garota o traiu com um universitário metido a besta e quem teve que juntar os caquinhos do coração do meu melhor amigo? Isso mesmo, eu!
— Wanessa, você sabe muito bem como o Jonathan é e fica alimentando esperanças de ter algo sério com ele. — disse Dan, transbordando sinceridade. Contive a vontade de revirar os olhos e fiquei comendo o meu lanche enquanto observava o desenrolar da conversa.
— Eu não alimento nada! — ela exclamou, olhando-o de forma indignada.
— Alimenta sim. —disse Dan, fazendo uma pausa para dar uma mordida no seu hambúrguer. — Eu vi você escrevendo o nome dele umas cem vezes naquele seu caderno rosa.
Comecei a rir, pois eu sabia que não iria demorar até que os dois começassem a discutir.
— Isso é invasão de privacidade, sabia?
— Deixou de ser invasão de privacidade quando você derrubou seu caderno no chão e ele caiu aberto justamente na folha onde estava o nome do Jonathan.
Enquanto eu observava a discussão dos dois, vi que Kaitlin vinha em nossa direção acompanhada de Olivia Wilde e Alisha White, suas seguidoras mais leais.
A pose das três transbordava segurança. Elas agiam como se não precisassem de ninguém para absolutamente nada, e a escola inteira sabia disso.
Apesar de odiá-la, tenho que admitir que Kaitlin é uma garota bonita. Seu cabelo loiro chega até a cintura, e seus olhos são bem azuis. A maior parte dos garotos baba pela sua beleza, e há rumores de que os mais pervertidos imprimem fotos dela de biquíni do Instagram — eca! — para se aliviarem no banheiro.
Ela parou bem na minha frente, com um olhar falso e sonso que não me intimidou. Suas seguidoras, tão corajosas quando estavam na companhia de Kaitlin, nos olhavam com um olhar tão afiado quanto uma lâmina. Wanessa revirou os olhos assim que as viu.
— Olá, meninas. — Kaitlin disse, virando-se para Dan e dando um sorriso repleto de malícia. Vadia. — Oi Dan. — Acrescentou, dando uma jogada de cabelo bem insinuante. Assim como Wanessa e eu, Kaitlin e suas seguidoras também usavam os uniformes vermelhos das líderes de torcida. —Não se esqueçam do treino hoje depois da aula. Nesse final de semana os Red Horse irão jogar, e nós temos que estar bem treinadas para que tudo corra bem. Lola, não se esqueça de ajeitar a sua perna na hora daquele giro. Você continua torta. E Wanessa, se eu fosse você, não comeria tanto. Se continuar assim, você não caberá no vestido do baile de inverno. Nos vemos depois!
Kaitlin deu um aceno de falsa empolgação que me fez vontade de esmagar o cérebro dela contra a parede. Assim que ela saiu desfilando aquela bunda cheia de celulite junto com as suas seguidoras, Wanessa mandou o dedo do meio para elas.
Dan deu uma risada espalhafatosa para Wanessa. Eu até teria rido também se na minha cabeça planos malignos não estivessem se formando. Eu tenho que acabar com o reinado de Kaitlin antes que ela saia do colégio, e sei que essa não será uma tarefa fácil de se executar.
O treino das líderes de torcida estava quase no final, e eu já tinha perdido as contas de quantas vezes respondi a Kaitlin hoje. As outras cheerleaders estavam esperando que nós duas rolássemos pelo gramado, mas nada daquilo aconteceu.
A última parte do treino consistia em fazermos uma pirâmide. Claro que nós estávamos fazendo certo, mas Kaitlin havia cismado com Wanessa e com Lia, uma outra cheerleader mais "cheinha" de que elas estavam pesadas demais. Eu ainda não sabia como ela poderia afirmar isso, já que nem era ela que estava segurando as duas, mas eu decidi que iria ficar quieta pelo resto do treino se eu quisesse ter pelo menos um pouco de paz.
Depois da quinta tentativa, Kaitlin se deu por satisfeita com o resultado da pirâmide e nos dispensou.
— Por hoje é só, galera! Até amanhã. — disse Kailtin, pegando uma garrafa de água de dentro de sua mochila.
A encarei de forma furtiva e caminhei junto de Wanessa para o vestiário.
— Eu odeio essa garota. — esbravejou Wanessa, cerrando os punhos. — Se ela fizer mais alguma piadinha sobre mim eu juro que corto a língua dela fora.
— A Kaitlin ainda vai ter o que merece, amiga. — eu disse, ajeitando os meus cabelos no espelho e maquinando um plano para sabotar a Kaitlin na festa de boas-vindas que aconteceria após o jogo de sexta. —Vai por mim.
— Ah não! — exclamou Wanessa, dando um sorriso repleto de ansiedade. — O que você está tramando?
— Ainda não tenho nenhum plano formado em minha mente, mas sinto que a Kaitlin está aprontando alguma. Escreve o que estou te falando, Nessy. Essa garota ainda vai ter o que merece.
Desde que eu entrei no time das líderes de torcida que a Kaitlin não mede esforços para acabar com a minha reputação. Ela se sente ameaçada pela minha pessoa, e só a hipótese de que eu me torne a sua sucessora como capitã no time das líderes de torcida faz com que ela queira acabar comigo sempre que tem a oportunidade. E, apesar dela ser tão manipuladora quanto eu, Kaitlin ainda não conseguiu me derrubar.
— Ai, droga! — Wanessa berrou, enxugando o rosto recém-molhado em sua toalha, jogando-a desesperadamente dentro da bolsa. — Me esqueci completamente de que eu tenho que estar em casa em menos de 20 minutos.
— Qual é a ocasião?
— Meus pais vão dar um jantar para uns acionistas tarados. — Wanessa jogou a bolsa por cima dos ombros, revirando os olhos. Eu dei uma risada. Só eu sabia o quanto a Wanessa odiava esses jantares.
— Boa sorte para você.
— Obrigada, eu vou precisar.
Acompanhei os passos apressados de Wanessa pelo campus do colégio, procurando pelo Dan. De vez em quando ele ficava depois da hora dentro do laboratório fazendo algumas pesquisas chatas relacionadas à física, e qualquer pretexto que pudesse me fazer passar mais algum tempo com ele me faria muito feliz, principalmente se ele me desse uma carona para casa.
— O Dan não está aqui, Lola. — disse Wanessa, enquanto nos dirigíamos até o seu carro.
Eu esperava que ela me desse uma carona, pois meu pai e o Dan tem se revezado na tarefa de me trazer até a escola e isso estava começando a ficar bem irritante. Sem contar que meu aniversário será daqui há 3 meses e meus pais ainda estão relutantes em me comprar um carro. A única alternativa de fazê-los mudar de ideia era usar meu grande poder de persuasão e ter um bom desempenho na escola. A primeira tática seria fácil de executar, mas a segunda... Bom, eu tinha certeza de que essa me daria um pouco mais de trabalho.
— Como você sabe? — perguntei, tentando entender como Wanessa poderia afirmar aquilo com tanta certeza.
— Ele já adiantou a pesquisa dele para poder ficar cuidando do pai junto com a avó.
Suspirei, pensando no quanto o Dan deveria estar preocupado.
Seu pai descobriu há pouco tempo que possui uma doença degenerativa chamada Esclerose Múltipla. O estágio ainda não é avançado, mas Dan e Beth, sua avó, tem se mostrado preocupados desde a descoberta da doença. A mãe de Dan o abandonou quando ele ainda era um bebê, deixando apenas um bilhete endereçado ao Sr. Lightwood que dizia "Sinto muito".
Beth e seu pai são as únicas pessoas da família presentes no cotidiano de Dan, e eu sentia o medo que ele tinha em perdê-los.
— Entendi.
— Para quem tem um grande amor como melhor amigo você anda meio desinformada. — zombou Wanessa, abrindo a porta do seu carro. Eu revirei os olhos, tentando fingir que estava brava com ela, mas minhas tentativas falharam quando eu deixei escapar um sorrisinho.
— Cale a boca!
— Como eu sou muito boazinha, te darei uma carona.
— Obrigada?!
Entrei no carro e fechei a porta de forma cuidadosa. Wanessa manobrou pelo estacionamento do colégio e logo estávamos do lado de fora. Abaixei o vidro da janela para poder sentir o vento no meu rosto e Wanessa ligou o rádio. Tocava uma música romântica.
— Lola, tem algo que eu quero te dizer há muito tempo, mas eu tenho evitado isso por medo de como você irá reagir.
Eu gelei, e não era por causa do vento gelado que atingia o meu rosto constantemente. Eram poucas as vezes que eu já tinha visto a Wanessa séria daquele jeito, e eu sabia que quando ela ficava assim, era porque ela estava planejando me dar algum sermão.
— Prossiga.
— O que eu quero dizer, é que ficar suspirando o tempo todo não vai fazer o Dan se apaixonar por você. Tá na cara que enquanto você não fizer nada o Dan vai continuar te vendo como uma irmã mais nova.
A olhei de maneira afetada, tentando entender porque nós estávamos tendo aquela conversa. Wanessa sabia que eu tinha medo de perder a amizade do Dan, e eu sentia que era isso o que aconteceria caso eu me declarasse para ele.
— Você sabe muito bem que eu tenho os meus motivos para não fazer nada a respeito do que eu sinto...
— Tudo bem, eu entendo que você tenha medo de destruir a amizade de vocês, mas eu não disse que você deve se declarar para ele logo de cara. — disse Wanessa, fazendo a curva e entrando na rua da minha casa. Aquela conversa logo acabaria.
— Então o que você quer que eu faça?
— Você precisa fazer o Dan te notar de forma sutil. Eu sei que às vezes você o encara enquanto faz as coreografias das Cheerleaders, mas isso não tem adiantado. — Wanessa deu um sorriso para mim, e era um sorriso que dizia claramente que ela sabia do que estava falando.
— Como você pode ter tanta certeza disso? — Franzi o cenho, tentando entender como a Wanessa podia estar tão confiante em um assunto desses.
Apesar de ser a melhor amiga do Dan, eu ainda não conseguia entende-lo perfeitamente. Muitos dos seus pensamentos ainda eram uma incógnita para mim. Mesmo eu fazendo parecer que conheço meu melhor amigo com a palma da mão, ainda haviam partes dele que eu não conhecia.
— Eu tenho certeza de que ele sente algo por você. — Wanessa deu um sorriso confiante para mim. Dei graças a Deus por não estar dirigindo naquele momento, porque eu tenho certeza de que teria perdido o controle da direção com o guincho que eu dei no assento do carro.
— Ficou maluca? O Dan não gosta de mim dessa maneira.
— Ele gosta sim. Só não sabe disso ainda.
Olhei para a minha melhor amiga de forma boquiaberta. Fiquei tanto tempo tentando digerir a maluquice que ela havia me dito que nem me dei conta de que ela já havia parado o carro em frente ao condomínio que eu morava.
— O que você bebeu? Porque não é possível que você esteja falando uma asneira dessas para mim sóbria! — chiei, colocando a mão na maçaneta da porta do carro, com a mochila em outra mão.
Wanessa revirou os olhos, mas a expressão em seu rosto era tão calma que me deu ainda mais raiva.
— Eu estou falando a verdade. Você precisa fazer algo a respeito disso. Eu sinto que o tempo está passando! Eu li o seu horóscopo hoje, e ele diz que sua vida amorosa passará por uma transição desafiadora. "Lute pelo seu amor, ou alguém irá tirá-lo de você". Era o que dizia a revista.
Rolei os olhos para o que Wanessa tinha dito, mas confesso que meu corpo estremeceu e meu coração acelerou um pouco.
— Eu vou nessa. — eu disse, tentando parecer mais brava do que eu realmente estava enquanto abria a porta do carro e colocava uma perna para fora.
— Pense no que eu te disse, Lola. O tempo está passando, e parece não estar a seu favor.
Eu moro em um condomínio luxuoso situado em Palm Springs. Minha mãe é redatora chefe da Vanity Fair e meu pai é um famoso chef de cozinha. Ele é dono de um restaurante requintado no centro de Palm Springs e tem muito prestígio em tudo o que faz.
Minha casa é uma das últimas do condomínio, e possui todo o conforto que o dinheiro dos meus pais puderam comprar. O condomínio é grande, e possui um portão de ferro branco na entrada. Há câmeras de vigilância instaladas na entrada, e um jardim bonito e bem cuidado na lateral.
Os nossos vizinhos são tão silenciosos quanto nós, já que meus pais estão fora de casa a maior parte do tempo trabalhando. Eu só vejo o meu pai pela manhã e a minha mãe, à noite.
Tinha uma empregada que cuidava dos afazeres da casa e da comida, mas quando eu cheguei, ela havia saído para ir ao mercado.
Joguei a minha mochila em qualquer canto, esquentei o almoço no microondas e comi pensando em tudo o que Wanessa havia me dito.
Quando terminei de almoçar, eu ainda não fazia ideia do que acreditar. Afinal, eu vivi a maior parte da minha vida pensando que estava fadada a sofrer por amor e agora, Wanessa tinha me dito que eu precisava agir rápido, pois o Dan gostava de mim, mas ainda não sabia disso.
O medo que eu sentia de estragar tudo era grande, mas a empolgação de poder mostrar a ele que eu sou a garota certa só fazia com que meu coração acelerasse, encorajando-me a sair da minha redoma de medo.
Tomei um longo banho e tentei me concentrar no dever de casa, mas só consegui fazer o de literatura. Eu estava quase cochilando na cama quando ouvi a campainha tocar.
Desci as escadas resmungando, pois só podia ser a Mila que tinha esquecido a chave e estava no interfone pedindo para que eu liberasse sua passagem. Porém, levei um susto quando ouvi a voz de Dan no interfone.
Meu coração acelerou, em parte porque eu não esperava que ele fosse aparecer com o seu pai doente em casa, e também porque eu me lembrei do que Wanessa havia me dito:
"Lute pelo seu amor, ou alguém irá tirá-lo de você".
Liberei a entrada de Dan e aproveitei os minutos que ele caminharia até a minha casa para parecer mais apresentável. Atirei o suéter que eu vestia para um canto qualquer do meu quarto, e vesti uma camisetinha rosa de alça e um short jeans. Soltei meus cabelos, bagunçando-os um pouco, torcendo para que tivesse um efeito sou-sexy-naturalmente.
Assim que a campainha tocou, respirei fundo e dei um sorriso confiante para meu reflexo no espelho antes de ir atender a porta.
Corri até o andar de baixo e quase tropecei na mesinha de centro. Respirei fundo, tentando controlar a agitação do meu peito e abri a porta, percebendo que meu melhor amigo parecia um pouco mais animado, apesar das olheiras que havia embaixo dos seus olhos. Ele sorriu de forma amável e se curvou para me abraçar. Fechei os olhos, tentando aproveitar ao máximo aquela sensação gostosa que me invadia sempre que meu corpo encostava o dele.
— A que devo a honra dessa visita? — perguntei, puxando-o para dentro de casa de forma empolgada.
— Meu pai está se sentindo bem melhor e me despachou para cá. Disse que está enjoado de ver a minha cara o tempo todo.
Eu e Dan demos uma risada. Nos sentamos frente a frente no sofá branco que ficava localizado bem no centro da sala.
— O Sr. Lightwood é uma figura mesmo. — eu disse, ainda em meio a risadas. — Mas como você está?
— Estou bastante preocupado, para falar a verdade. — disse Dan, tirando o gorro da cabeça e bagunçando os cabelos de forma frustrada. — Tenho um monte de deveres de casa para fazer e não consigo me concentrar em absolutamente nada.
Segurei as mãos de Dan entre as minhas e o olhei com toda a confiança que eu tinha. Ele me olhava fixamente, e só de olhar para seu rosto eu já tinha vontade de beijá-lo.
— Vai dar tudo certo, Dan. Fique tranquilo. Seu pai vai sair dessa e você ainda será um grande gênio da física, pode apostar. E seu pai estará do seu lado te apoiando quando isso tudo acontecer.
Dan esboçou um sorriso que fez meu coração se aquecer e apertou minhas mãos entre as dele, aproximando-se de mim.
Meu coração acelerou e meus olhos automaticamente miraram a sua boca.
— Não sei o que eu faria sem você. Eu te amo, Lola.
Eu sabia que o Dan não me amava do mesmo jeito que o amava, mas uma parte de mim ficava feliz pelo simples fato de saber que de um jeito ou de outro, eu tinha o amor do meu melhor amigo.
— Eu também te amo, Dan.
E então, eu senti que as coisas a nossa volta mudaram de uma hora para a outra. Nossos sorrisos foram morrendo lentamente, e nossos olhares ficaram diferentes. Dan passou a encarar a minha boca com um olhar que eu nunca havia visto e eu segurei a sua nuca de forma receosa.
Meu coração acelerou mais ainda, enquanto todo o meu corpo tremia com a expectativa.
Nossos rostos estavam tão perto que eu podia ver as cores do olho dele. Porém, a porta se abriu, e uma Mila afobada entrou, derrubando todas as sacolas que ela trazia no chão, e estragando totalmente o clima.
Eu e Dan nos afastamos um do outro, assustados.
— Desculpe a demora, Lola. — disse Mila, pegando as sacolas do chão. Dan se levantou para ajuda-la. — Tive que dar uma passada no banco antes de ir ao mercado. A fila estava enorme.
— Você podia ter demorado o dia inteiro, que eu não ia ligar. — sussurrei, me sentindo frustrada demais para levantar do sofá naquele momento.
Eu estava prestes a beijar o amor de toda a minha existência pela primeira vez e fui brutalmente interrompida!
— O que? — ela perguntou, chamando a atenção de Dan. Fiquei com medo de ter falado alto demais.
— Nada não. — dei um sorriso amarelo para ela e tentei controlar a minha respiração, que ainda estava desregulada pelo que quase tinha acontecido.
— Vocês querem que eu faça um lanche?
— Claro.
Dan me olhou de forma envergonhada. Suas bochechas estavam rosadas, o que me fez ter vontade de apertá-las. Ele deu um meio sorriso, e andou ao meu lado até a cozinha, onde Mila cantarolava enquanto guardava as compras que tinha feito em seus devidos lugares.
Eu e Dan nos entreolhamos, e eu fiquei aliviada quando ele piscou para mim, o que era um sinal claro de que a nossa amizade não havia sido abalada por conta desse momento.
Automaticamente, eu esbocei um sorriso afinal, eu tinha me dado conta de que Wanessa realmente estava certa.
Eu tenho que lutar pelo amor do Dan. Eu não posso deixar que uma previsão idiota do horóscopo mude o meu destino.
Não mesmo.
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