Capítulo XXXV
- Não é desse mundo? – inquiriu meneando a cabeça.
Isabella recuou, meio temerosa, meio arrependida, focando-se nos olhos de Alexandre; não pareciam assustados, nem cépticos, tampouco resignados, apenas curiosos. Curiosidade era bom. Melhor do que os anteriores. Contudo ainda não era o que a jovem desejava. Ela queria aceitação.
Isabella confirmou com cabeça tentando se lembrar de respirar em intervalos regulares de tempo.
- O que quer dizer com isso? – questionou sem entender muito bem. – Como uma extraterrestre?
Ela fez que não. – Mais como uma extradimensional.
Alexandre cruzou os braços e recostou a cabeça no vidro. Estava aguardando uma explicação.
- Eu também vivia na Terra antes de vir para cá, mas era uma Terra completamente distinta dessa na qual vivemos. Roupas, cultura política, música e pessoas, era tudo muito diferente. Então só posso supor que essa é uma dimensão paralela a minha.
Durante toda a sua fala, Isabella entrelaçou seus dedos e então soltou-os, esfregou as mãos nervosamente e voltou a entrelaçá-las. Dava para ver sua inquietude.
- E como veio parar aqui? – Era incrível como Alexandre podia fazer aquele tipo de pergunta com tamanha naturalidade, como se simplesmente acreditasse nela incondicionalmente.
- Eu também não tenho certeza. Um dia eu simplesmente saí pela porta da minha casa e me vi nos jardins do palácio de Licrya.
- Ah, então foi assim que você conseguiu entrar clandestinamente no castelo e se tornar uma empregada mesmo que não tivesse sido chamada para isso.
- Isso, exatam... espera, como você sabe disso?
Alexandre estreitou os olhos. – Antes de te pedir em casamento eu pesquisei sobre você. Não ficaria noivo de uma completa desconhecida. Foi aí que descobri sobre isso; no dia de sua chegada, todos estavam muito ocupados com as organizações para o baile, então ninguém prestou muita atenção se você era ou não a empregada contratada, só queriam receber toda ajuda possível. Estavam desesperados. Entretanto, Nália, a garota que deveria estar no seu lugar apareceu e Madame Luza descobriu que não era suposto que você estivesse naquela posição. Você ia ser expulsa do palácio, contudo Luza intercedeu por você e implorou para o chefe da logística, Crazil, deixar você ficar. Ele acabou cedendo sobre a pressão da governanta e permitiu que você continuasse como empregada. Todos ficaram curiosos com como você havia conseguido invadir um palácio tão fortemente guardado quanto Licrya, contudo decidiram não te questionar profundamente sobre isso desde que nem você mesma parecia saber.
Isabella ficou vermelha. Então de fato, todos já tinham conhecimento disso. Pensou que tinha feito um bom trabalho escondendo que não era realmente uma empregada, mas na verdade, eram seus colegas os que tinham feito o brilhante trabalho de fingir que não sabiam de nada.
- Você.... acredita... acredita no que eu disse? Sobre eu ser de outro mundo? – inquiriu sentindo-se estranha sobre o quão compreensivo Alexandre vinha sendo.
Ele deu de ombros. – Sim.
- Como pode acreditar tão facilmente em um absurdo como esse? – exigiu. Um leve azedume se apoderara de seu nariz.
- Porque era uma de minhas suspeitas em relação a você.
Isabella piscou. – Já suspeitava que eu não fosse desse mundo?
O Imperador olhou-a de maneira obliqua – Foi uma das minhas suposições, mas não acreditava de verdade nisso. Achei que fosse uma ideia bastante tola, porém era tudo que eu tinha. Quem diria que eu estava certo.
- Como chegou a essa conclusão?
- Não foi uma coisa repentina. Ao longo dos meses você foi cometendo alguns pequenos deslizes que acabaram me levando a deduzir isso. Todos que te conheceram sempre diziam a mesmo coisa 'ela não parece ter senso comum. Parece que cresceu em uma caverna.' E era verdade, você era uma pessoa alienada demais. Mas pensei que isso se devia ao fato de você ter crescido como uma mercadora viajante – como você mesma disse –, mas a correlação não fazia o menor sentido. Mercadores viajantes precisam saber profundamente sobre o mundo. Antes de ser ensinada por Rowa você não tinha ideia da história e geografia do planeta em geral, não conhecia o nome da maioria dos países, nem sabia os tipos de produtos que podiam ou não ser comercializados em diferentes territórios. Além do mais, disse para mim que nunca viu neve em sua vida, como uma mercadora viajante pode nunca ter visto neve? isso não era normal. Não havia a menor possibilidade de você ser a filha de mercadores. O mais estranho sobre você é que todos os seus conhecimentos pareciam estar datados de alguns meses até aquele ponto. Todas as suas verdades fora tiradas dos jornais das últimas semanas, como se você tivesse acabado de nascer naquele mundo.
"Claro que isso não foi suficiente para que eu pudesse fazer uma ligação. O segundo deslize que você cometeu não foi realmente um deslize, mas sua aparência. Devido aos seus traços, acreditei que fosse uma descendente de Izlandeses, entretanto você não possuía a característica marca no braço, então descartei essa possibilidade. Mas então, de que lugar você poderia ser? Em qual outro país existiam pessoas de cabelos loiros? Nenhum que eu soubesse. Por isso eu decidi fazer um teste de DNA com você. Peguei alguns fios de seu cabelo e levei para Abedel investigar, mas ele nunca havia visto nada como a sua etnia. Parecia até que você era uma espécie diferente de humana. Foi aí que eu comecei a suspeitar que você não fosse desse mundo".
Do seu ponto de vista de Isabella, tudo que havia contado era perfeitamente lógico e plausível. Entretanto, agora percebia que esse não era o caso e que sua história estava repleta de furos.
- Por que nunca me perguntou sobre isso? Por que nunca me questionou sobre essas coisas? – inquiriu.
Sentia-se extremamente estupida.
- Eu já disse. Eu queria que você me contasse quando achasse que estava pronta. Eu jamais te forçaria se a situação não exigisse isso.
De repente Isabella começou a se tornar extremamente inquieta. Olhou para seus próprios pés e apertou seus joelhos. Ainda não tinha feito a pergunta mais importante. – E o que acha de mim agora?
Alexandre inclinou a cabeça, curioso. – Como assim?
- Acha que sou uma fraude agora? Me acha anormal por não ser desse mundo? Está decepcionado? Me odeia por ter mentido por tanto tempo?
O Imperador suspirou, então moveu-se da janela de onde estava e foi se sentar ao lado da jovem. Era surpreendente o quão facialmente ele podia se mover em um lugar tão apertado. Alexandre envolveu o ombros de Isabella e aproximou-a de si. Ela conseguia sentir a energia que emanava de seu corpo e ouvir seu coração disparado.
- Você é tão... Eu não te acho uma fraude, tampouco anormal. Não estou decepcionado com você e não conseguiria te odiar mesmo que quisesse.
A jovem abraçou Alexandre e recostou a cabeça em seu peito. Sentia-se calma e leve como uma pena. Deveria ter contado a verdade a muito tempo. Por que estava com tanto medo? Alexandre nunca viraria suas costas para ela.
- Desculpa por ter mentido para você – balbuciou, aconchegando-se em seus braços.
- Tudo bem – respondeu repousando os lábios no topo da cabeça de Isabella.
O resfolegar na raiz de sua crina era tão calma e cálida que a embalava em uma revoada de tranquilidade. Poderia facilmente derreter toda a neve do reino de gelo, afogando-os em água cristalina das cordilheiras purpúreas. Podia destruir qualquer penumbra e qualquer pesadelo, e transformar os passos em sua varanda em pó de fada. Esse era o poder de seu amado.
- Mas ainda assim... – foi murmurando a jovem antes que pudesses ser arrastada para o reino do sonhos – ... o que os obskurs poderiam querer comigo? É verdade que sou de outro mundo, mas ainda não tenho nada para dar a eles.
- Eu também não sei, mas eu vou descobrir. Farei qualquer coisa para te manter a salvo.
***
Levou quase quatro dias de viajem do reino de cristal até a capital de Licrya. Com Âmbar a viajem demorara apenas algumas poucas horas, e isso porque ele se fez propositalmente mais lento para que Isabella não caísse.
A ala sul estava bem melhor do que a jovem se recordava; não havia mais sangue ou corpos de monstros no chão e a destruição em seu quarto havia desaparecido como mágica. Ainda assim, algumas paredes pelos corredores se encontravam destruídas e a maioria dos sulcos causados por suas balas não foram concertados já que uma pequena porção de magia explosiva permanecia no local.
As coisas não voltariam ao normal, não tão cedo. Todavia Isabella se esforçava para que todos os acontecimentos recentes parecessem banais diante dos nobres e cidadãos que murmuravam assustados pelo império. Continuou frequentado festas durante seus dias livres em busca de apoio, e se empenhava em sorrir e explicar com calma tudo que acontecera quando lhe perguntavam alguma coisa. Como se não tivesse sido nada demais. Ninguém nunca realmente olhava em seus olhos, fitavam todos os seus ferimentos como quem pensava que ela não podia reparar, se demorando no corte costurado no braço direito que se curava sem a ajuda de magia. Sua Alteza fingia não se importar e sorria, sorria e sorria, até que suas bochechas ficassem dormentes.
Infelizmente, depois da tentativa de sequestro, Isabella nunca mais fora capaz de dormir uma noite tranquila. Tinha pesadelos frequentes e acordava no meio da madrugada com a certeza de que havia uma silhueta disforme no balcão. Sua respiração se tornava pesada e o som de vidro se estilhaçando explodia em seus tímpanos.
- Não há ninguém – murmurava Alexandre tentando tranquilizá-la.
Ele a puxava para perto de si e as sombras simplesmente se tornavam um vapor alvo e frio, se misturando na noite.
Não há ninguém, repetia para si mesma até cair no sono.
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