Capítulo XXXIX
As semanas continuaram se passando e as semanas se transformaram em meses que se transformaram em estações. As vezes em que Isabella era examinada pelos curandeiros e herbalistas aumentou de uma vez por semana, para duas, então três. Arlinda já a examinava três vezes ao dia, mas não havia sequer um sinal de sua doença misteriosa.
Havia poucos pessoas no palácio a quem Alexandre havia revelado o fato da jovem ser de outro mundo. Eleanor, Goliak, Abedel, Hector e os gêmeos. Apenas seus amigos mais próximos. Todos eles, desde o dia que que receberam a notícia, se empenhavam em descobrir como Sua Alteza havia vindo parar naquele mundo, e agora que foi revelado a profecia de sua morte, a conjuntura não poderia ser mais caótica. Mais não importava o quanto perscrutassem pelas estantes de livros na biblioteca, ou nas pilhas de papel do conselho, ou nos objetos místicos na torre, ou pelo mundo afora, nada foi encontrado.
Isabella começou a aceitar que aquele talvez fosse seu destino, mas não conseguia sentir qualquer sinal de mudança ou enfermidade lhe arrebatando, tornando tudo aquilo extremamente surreal.
O único sinal de que alguma coisa não estava certa é que os ataques do monstros pararam por completo em todos as partes do mundo. Nenhum país compreendia o que estava acontecendo, mas nenhum deles se atreveu a pesquisar mais a fundo desde que não queriam atrair a ira das bestas. E o mundo seguia em uma calmaria que anunciava a tempestade.
Entretanto, algumas coisas mudaram nos últimos meses. A primeira foi que o projeto cassação dos nobres foi concluído. Isabella analisou, avaliou e investigou cada casa nobre sem exceções. Muitos nobres reclamaram e grunhiram que aquilo era uma violação de sua privacidade. A jovem respondeu para estes que aqueles que não tivessem qualquer inconformidade ou ilegalidade seriam reembolsados no final. Não houve mais ninguém que se atreveu a manifestar-se, apenas os pobres tolos que de fato deviam para com a lei. Ao final da cassação, vinte e dois nobres foram presos, quarenta e cinco tiveram seus títulos, bens e propriedades tomadas, e setenta e sete receberam multas que variavam entre pequenos valores até valores na casa dos milhões de lenn. Com o dinheiro obtido com a cassação, Isabella foi capaz de reembolsar os nobres que se sentiram difamadas e ainda por cima investiu na construção de mais de uma centena de hospitais por todo o Império.
Após isso, nem um aristocrata se atreveu a olhá-la com desprezo, e os militares e o conselho passaram a demonstrar apoio ao seu reinado.
A relação entre nobres e plebeus sempre seria uma coisa anômala e abnormal. Os nobres desprezariam os plebeus, contudo compreendiam o quão fundamental era existência deles. Os plebeus repudiavam os nobres e ao mesmo tempo os admiravam e demonstravam um anseio por almejar ser como eles. E assim sustentavam suas relações. Quando o projeto cassação dos corruptos foi concluído, a população comum mostrou aprovação pelo desempenho de Isabella, mesmo que antes mostrassem temor devido a influência dos aristocratas. Em contrapartida, os nobres que outrora a desprezaram começaram a demonstrar temor. A jovem sabia que eles nunca a aceitariam como parte da família imperial, então medo era mais do que suficiente.
O segundo acontecimento foi que a boutique que Cecilia abriu fez um grande estardalhaço na alta sociedade, com suas roupas tanto femininas quanto masculinas feitas sob medida para seus clientes, os nobres faziam fila em sua porta e pagavam fortunas para conseguir um horário em sua agenda lotado. Todas as vestimentas projetadas pelas mãos da senhorita Meyer tornaram-se um símbolo de beleza, luxo e ostentação. Nos bailes, pessoas que tivessem tido suas roupas feitas por ela se exibiam entre seus pares, esse é um Madame Meyer, e seus colegas suspirariam de desejo e inveja.
Com Arlinda como sua herbalista, Cecilia como sua designer e Luna como sua guarda pessoal, os aristocratas começaram a perceber que Isabella era uma nova força que já desempenhava um papel de muita influência em Licrya. Não podiam mais subestimá-la. Era incalculável a quantidade de bajuladores que começaram tentar se aproximar dela. Pessoas que sequer lhe poupavam um olhar quando ela passava. Todavia Sua Alteza não mais frequentava tantos bailes quanto antes e já não mais socializa, optando pelo silêncio e deixando que aqueles que quisessem algo de si se aproximassem. Decidindo a partir daquele ponto quem era ou não merecedor de juntar-se ao seu lado.
O terceiro acontecimento fora provavelmente o mais chocante e o mais esperado.
Em uma manhã de domingo, quando ambos tomavam café da manhã juntos – o que não acontecia há muito tempo –, Alexandre anunciou como se não fosse absolutamente nada:
- Acho que podemos nos casar daqui a dois meses.
Isabella quase se engasgou com o bolinho que estava comendo.
- Já?
Ele assentiu. – Creta, Eleanor e Rowa concordam plenamente com isso, ainda mais depois de todos os seus feitos recente. Ninguém se atreveria a dizer que você não tem o que é necessário.
A realidade lhe atingiu com um baque.
- Nossa, isso está acontecendo de verdade – sibilou fitando algo incorpóreo.
- É, está.
- Parecia tão... surreal, e agora simplesmente está acontecendo.
O Imperador apoiou a cabeça na mão. – Para mim também. Nunca achei que isso fosse acontecer comigo.
Isabella entendia o que Alexandre queria dizer. Bastava lembrar de seu passado para saber que ele não era uma pessoa que se casaria um dia. Era tão difícil imaginá-lo feliz ao lado de alguém, alguém que teria uma família. Entretanto, Isabella conseguia se ver ali ao seu lado, segurando sua mão e sorrindo. A imagem se revelava como uma miragem e desaparecia em luminosidade dourada.
- Eu estou nervosa – admitiu.
- Só nervosa?
Ela sorriu. – Estou animada também.
O vermelho sangue dos olhos de Alexandre derreteu, brilhando enquanto o sol incidia neles. Ele mostrou todos os seus dentes, não como um sorriso humano, mas como uma fera incontrolável.
- Eu estou animado para nossa noite de núpcias.
Isabella entrelaçou seus pés com os dele e riu alegremente, embora algo cruel tocasse os confins de sua mente. Um aviso. O que a gatara dissera naquele dia na floresta ainda assombrava suas noites junto aos obskurs. Sua morte estava cada vez mais próxima e não parecia haver nada que pudesse impedi-la. Se eles se casassem de fato, então Alexandre seria um viúvo após alguns meses de conjugo. Não haveria um final doce, nem felizes para sempre. Apenas escuridão lhes aguardavas no fim daquela curva que se revelava para ambos.
***
A cerimonia logo começou a ser organizada. Não era algo que exigia muito tempo ou esforço. Eles apenas precisavam contatar o templo, pedir para alguém fazer suas roupas, mandar convites e preparar a coroa de Isabella, desde que ela se tornaria Imperatriz após os votos de matrimônio.
Não haveria festa, foi a decisão de Alexandre e Sua Alteza. Não queriam nada que fosse incômodo ou espalhafatoso, apenas desejavam amar um outro com o tempo que tinham em suas mãos – que não era muito desde que tinham tantas obrigações imperiais –, não desperdiçariam seu precioso tempo com coisas supérfluas.
Quanto a quem ficaria incumbido de cada trabalho, o Imperador ficou responsável por mandar os convites, a jovem cuidou para que o templo do deus do casamento estivesse reservado no dia em questão e pediu para que Cecília costurasse as roupas de ambos, e a coroa ficou a cargo do Hector.
O palácio prosseguiu relativamente calmo já que não haveria uma comemoração mirabolante, embora a notícia do casamento de Isabella e Alexandre corriam por entre os círculos sociais. Alguns dos rumores foram, inclusive, aumentados a te se tornarem algo cômico. Algumas pessoas diziam que que o casamento seria a maior festa que aquele império já vira, também diziam que a presença de todos o reis de todos os países do mundo foram confirmadas, outros teorizavam que o casamento não aconteceria de verdade e aquilo era tudo uma jogada de marketing – para que, ao certo, ninguém sabia –, ainda havia aqueles que apostaram que a noiva fugiria antes que a cerimônia pudesse ser concluído e deixaria o Imperador no altar a ver navios.
Isabella ria de todas essas histórias e se deliciava quanto mais delas vinham surgindo ou eram aumentadas. Fazia questão de contar todas elas a Alexandre que aparentemente não as achava tão risíveis quanto a jovem.
- Vamos lá, não tem como não rir dessa – apontou após chorar de gargalhar enquanto contava a história sobre como um monstro invadiria o templo, devoraria a cabeça do sacerdote e depois de mastigá-la lentamente, diria em tom presunçoso está sem sal. Para aplacar sua ira, os convidados não teriam escolha senão presenteá-lo com um pote de tempero. Depois de receber o tempero, o monstro bufaria com desdém e esnobaria que pobreza, e enfim, voaria de volta para o lugar de onde viera.
- Tem sim, olha – e apontou para seus lábios –, eu não estou rindo.
Isabella enrugou o nariz. – Sem graça.
A jovem não se importava se ele gostava ou não, adorava ouvir essas histórias de suas colegas e espalhava-as por sua corte inteira como uma forma de se distrair um pouco. Talvez a razão dos boatos ficarem mais absurdos a cada dia passado fosse porque Sua Alteza corroborava com eles. Infelizmente, nem todos os seus companheiros aproveitavam aquilo como ela. Arlinda sempre ficava chocada demais para rir, como se inventar aquele tipo de coisa fosse um absurdo. Cecilia ria, mas de forma culpada. Lyan era como o Imperador e nunca ria. Só Abel e Nisório eram seus companheiros para essas coisas e rolavam de rir pelo chão.
- Algumas pessoas dizem que eu vou me transformar em uma lagarta gigante assim que for coroada e reinarei como um réptil pelo restante de minha vida – dizia, e eles ficavam vermelhos e choravam ao interim que se sufocavam com o som primitivo produzido por sua caixa torácica.
Foi apenas duas semanas antes do casamento que espalhar suas próprias fofocas pelo palácio deixou de ser seu principal passatempo e distração. Naquele dia ela recebeu uma visita inesperada daquela que seria a última peça de seus quebra-cabeças de influência.
Foi Caim que anunciou sua chegada desavisada. Se fosse qualquer outra pessoa, Isabella poderia simplesmente dispensá-la sem remorso e não estaria quebrando qualquer regra de etiqueta, entretanto a princesa Margaret do reino de Mabrel não era alguém que pudesse ser enxotado com tamanha facilidade. Talvez uma princesa de um reino comum não traria uma grave consequência a jovem, no entanto Mabrel era a terceira nação mais influente do mundo, só perdendo para Licrya e Vasberadenheid.
- Que dor de cabeça – disse para si mesma debruçando-se sobre a mesa da sala azul.
Demorou um pouco para as portas se abrirem e para que Margaret entrasse. Ela usava um vestido azul e branco que combina perfeitamente bem com o aposento, como se já soubesse com antecedência onde seria recebida. Se parecia mais com a anfitriã que a própria Isabella.
Sua imagem era assim como a jovem se lembrava quando a comtemplara dançar com o Imperador no baile imperial a mais de um ano atrás; alta, magra, olhos verdes, pele bronzeada e cabelo castanho. Tinha um sorriso que seria perfeito para um comercial de pasta de dente; brancos, alinhados e de formato absolutamente esmero.
Não se curvou ao se deparar com Isabella já que ambas tinham a mesma posição.
Sua Alteza se levantou e cumprimentou-a com um aperto de mão, tentando dar um sorriso que se equiparasse ao de Margaret.
- Pode sentar e ficar à vontade – disse apontando para a cadeira a sua frente na pequena mesa redonda.
- Agradeço muito por sua hospitalidade – replicou abancando-se e servindo-se com uma xicara de chá.
As duas se encararam por um tempo. A jovem de cabelos dourados não sabia por onde começar.
O sorriso não deixava as faces da princesa, entretanto não parecia uma ação forçada, era gentil e caloroso, diferente do de Isabella que, embora deslumbrante, era frio.
- Ao que devo sua visita? – inquiriu indo direto ao ponto.
O sorriso de Margaret quase espaireceu. Ela voltou seu olhar para porta, onde Luna velava com uma roupa confortável e diversas adagas em seu cinto – fazia um bom tempo que Abel ou Caim não mais lhe seguiam para todos os cantos. – Isabella logo entendeu a mensagem. A princesa de Mabrel queria uma conversa privada.
- Não há nada que você possa falar para mim que Luna não possa escutar – avisou categoricamente.
Sua visitante tornou-se levemente rígida e engoliu em seco, mas não fez qualquer objeção.
- Desde já gostaria de parabenizá-la pela sua união com o Imperador. – Ela estava enrolando.
- Obrigado.
- E... o palácio imperial de Licrya parece cada dia mais bonito. – Isabella começou a se perguntar por quanto tempo mais Margaret compraria tempo.
- Não mudou muito na verdade.
A princesa começou a brincar nervosamente com os apetrechos na mesa. Demorou algum tempo até que ela pudesse enfim dizer:
- Eu ouvi dizer que Vossa Alteza tem contratado damas de companhia – comentou como se fosse mais uma de suas falas automáticas, todavia seu olhar contava que aquilo tinha relação com onde quer que ela gostaria de chegar.
- É verdade, mas ainda não encontrei alguém para a quarta posição. Por quê? Tem alguma sugestão?
- Sim. Eu gostaria de me candidatar para essa posição.
Isabella meneou a cabeça com curiosidade. Uma princesa na posição de dama de companhia? Que disparate. Poderia ser algo compreendido se a princesa em questão viesse de um reino falido ou extremamente necessitado, todavia Margaret vinha de um país incrivelmente prospero, além disse era a sexta filha, ninguém exigia nada dela desde que todos os seus irmãos já tinham feito todos os possíveis trabalhos. Ela podia viver em um total conforto pelo resto de sua vida sem sequer mover um musculo. Aquele tipo de proposta não tinha qualquer sentido.
Verdade seja dita, a jovem adoraria ter uma princesa como dama de companhia e Margaret era a escolha perfeita para ser seu braço direito. Entretanto, Isabella não a aceitaria ao seu lado sem ter certeza de suas intenções.
- Por quê?
- Não poderia ser somente porque estou interessada nessa posição?
Sua Alteza sorriu. – Se não for sincera comigo, nunca vai obter essa posição.
Ela suspirou, finalmente desistindo de seu sorriso ao passo que enterrava o rosto nas mãos e murmura algo impossível de ser ouvido.
- O quê? – perguntou aproximando o ouvido da princesa.
- Eu disse que... estou.. por...
- Desculpa, eu ainda não consigo te ouvir.
Margaret ergueu o rosto vermelho e os olhos aguados.
- Eu disse que que estou apaixonada por um dos guardas pessoais de Sua Majestade – replicou impaciente.
O sangue de Isabella começou a ferver. – Um dos gêmeos?
- Sim.
- Qual deles?
Ela travou um pouco, parecia embaraçada. – Eu não sei qual. Eu sei diferenciar os dois pela aparência e sei que os nomes deles são Caim e Abel, mas ninguém da minha corte sabe diferenciá-los, então eu não sei se aquele por quem eu estou apaixonada carrega o nome de Caim ou Abel.
- E como foi que isso aconteceu? – Isabella não conseguia imaginar qualquer encontro com qualquer um dos gêmeos que pudesse acarretar alguém caindo de amores.
- Isso é realmente relevante?
Não era, mas Sua Alteza queria saber de todos os detalhes. Ela fez que sim com a cabeça.
- Foi há muitos anos atrás, quando o Imperador Vermelho tinha acabado de ser coroado. Ele fez uma viajem para Mabrel para tentar reestabelecer um tratado de comércios entre minha nação e Licrya. Eu não estava muito interessada, tinha outras coisas passando por minha cabeça na época. Lembro-me que eu estava começando a ficar deprimida e desenvolvera um complexa de inferioridade devido aos meus irmãos e irmãs. Não que eles fossem maus, eles são ótimos, mas a sombra deles sempre me ofuscou ainda que não fizessem de propósito. Não importava o que eu fizesse, eu sempre seria comparada a eles por meus pais, professores, amigos e colegas, fosse no sucesso ou na falha. Se eu falhasse, é uma pena, sua irmã conseguia fazer com facilidade, seu eu sucedesse, como esperado da irmã da primeira princesa, se eu realizasse uma empreitada que eles nunca fizeram antes, parece que a maçã não caí muito longe da arvore. Ninguém nunca me via, ou enxergava, os méritos nunca eram meus, nunca diziam parabéns, você fez bem, você se esforçou, é uma pena que tenha falhado, mas talvez consiga da próxima. Eu me sentia sufocada.
"Um dia, eu fui me sentar em um banco no meu jardim e comecei a fazer uma coroa de flores, apenas para destruí-la quando alguém parasse e me disse uau, seu irmão também faz coroas lindas, parece que você herdou isso dele. Mas ninguém da minha corte passou pelo jardim aquele dia, ao invés disse foi um dos gêmeos que estavam passando por lá. Ele me cumprimentou conforme manda a etiqueta e eu não dei muita bola para ele, até que ele olhou para coroa de flores e minha mão e abriu a boca para falar. Eu já até conseguia prever o que vinha, mas ele não pronunciou a sentença que eu estava esperando. O guarda disse uau, foi você que fez? É muito bonita, você é realmente talentosa. Ele não me comparou com ninguém, com os meus irmãos ou quem fosse, mesmo sabendo quem eu era e de onde eu vinha. Ele me viu de verdade."
"Eu fiquei estática, paralisada, sem saber o que fazer. Alguém o chamou a distância e o guarda se foi. Então eu me arrependi de não ter dito qualquer coisa para ele, um oi ou um obrigado. Eu deveria ter parecida uma princesa arrogante e mal-educada."
"Fui para o meu quarto naquele dia e chorei profundamente. Não porque eu estava triste, e sim porque eu me sentia liberta das amarras de meu complexo, porque quando alguém me comparasse com os meus irmãos, eu poderia erguer a cabeça e lembrar das palavras daquele guarda para mim. Aquelas palavras tão simples me embalaram como ninguém nunca fora capaz."
"Demorou alguns anos para eu perceber que naquele dia eu e apaixonara por aquele rapaz. A minha ficha só caiu quando meus pais começaram a me apresentar príncipes e nobres de reinos distantes e eu me peguei comparado todos eles ao guarda daquele dia. Tentando encontrar seu rosto na multidão em meus bailes enfadonhos e sem vida."
"Me peguei querendo vir para Licrya e encontrá-lo, mas que razão eu teria para vir para cá? Quase me peguei implorando aos meus pais que enviassem uma carta para o Imperador Vermelho com um pedido oficial de casamento, mas quão desrespeitoso seria isso se eu nem conhecia o seu nome? Além de que eu queria que ele se apaixonasse por mim da mesma maneira que eu me apaixonei por ele, não queria que ele estivesse junto a mim por uma imposição da nossa sociedade."
"Foi aí que eu ouvi sobre o Imperador de Licrya e o baile que ele daria. Decidi vir para cá e tentar encontrar com os gêmeos ou tentar trocar umas palavras com Sua Majestade para buscar seu apoio. Entretanto eu não vi nenhum dos rapazes do salão aquele dia, e quando finalmente juntei minha coragem para pedir que o Imperador dançasse comigo, para tentar conversar com ele, eu fiquei tão assustada que sequer consegui pronunciar uma palavra."
"Desde então, eu venho buscando maneiras de retornar a Licrya, sem ter muito sucesso. Eu compareci ao seu baile de anunciação, porém não encontrei os gêmeos lá. E quando finalmente decidi falar com você, vi a princesa Valéria puxando você para um canto, em seguida, um outro nobre. Depois dele você se sentou e eu perdi completamente minha chance."
"Eu voltei para Mabrel próxima de desistir de qualquer esperança que eu tinha, entretanto eu ouvi algumas pessoas murmurado sobre o grande alarde que você vinha fazendo com suas escolhas para dama de companhia e como você ainda estava indecisa sobre a quarta. Nesse momento eu tive a brilhante ideia de me candidatar para essa posição. Demorou algumas semanas para eu convencer meus pais sobre a minha escolha, mas eu consegui fazê-los ceder e aqui estou eu agora."
Isabella sorriu, sem saber se pensava em Margarete como uma pessoa amável ou ingênua.
- Então, qual é exatamente seu objetivo?
- Bom, eu quero encontrar o guarda que eu conheci aquele dia, conversar e com ele e... e quem sabe... – Ela começou a ficar vermelha.
- E o que você vai fazer se ele não corresponder seus sentimentos?
A princesa de Mabrel piscou um pouco atordoado. Sua reação fez com que Isabella percebesse que a jovem não havia planejado até esse ponto.
- Princesa Margaret, sua proposta é bastante sedutora, mas eu preciso de alguém que irá me servir independente das circunstâncias. Eu não me atreveria a te colocar nesse posto sabendo que você poderia me abandonar a qualquer momento se o seu objetivo não fosse atendido. O que me garante sua lealdade?
- Podemos fazer um contrato...
- Que tipo de contrato?
- Eu te servirei independente das circunstâncias. Não poderei eu mesma me demitir, somente você, caso eu não esteja realizando meu trabalho como se deve – sugeriu piscando seus olhos brilhantes.
- Interessante... mas como uma princesa de um outro reino, eu não posso simplesmente te demitir sem pensar em como as relações de Mabrel e Licrya podem acabar se tornando tensas. Não posso arriscar todo o meu reino por uma dama de companhia que poderá ou não me trazer benefícios.
- Eu posso convencer meus pais a manter uma relação cordial com Licrya – disse começando a se tornar levemente desesperada.
Isabella sorriu, cruzou os braços e se recostou nas costas da cadeira. – Certo, se conseguir convencer seus pais a fazerem um contrato assinado com seus nomes, eu te darei esse posto.
Margaret assentiu vorazmente antes que Sua Alteza mudasse de ideia.
- Mais chá? – ofereceu de bom humor.
A princesa de Mabrel soltou um suspiro desesperançoso.
Mais tarde naquele dia, quando a visitante já havia se retirado do salão e começava a organizar seus pertences para partir, Luna balbuciou com um toque de admiração e reprovação:
- Você é realmente implacável.
Isabella riu. – Eu não acho que eu pedi demais.
- Não, mas usou os sentimentos dela contra ela.
- ... Não é bem assim.
Alguns dias antes de seu casamento com Alexandre, Margaret retornou com o contrato assinado dentro de uma pasta. Obviamente, além de seus pais deixarem claro que a princesa poderia ser tratada como qualquer empregado e que, caso ela fosse demitida, isso não afetaria as relações entre os dois reinos, também deixaram bem explícito que mesmo com Margaret sendo uma dama de companhia de Isabella, não haveria qualquer benefício extra a Licrya. Como esperado dos reis de Mabrel, eles eram espertos.
Isabella só esperava que Margarete não estivesse apaixonada por Caim, porque se fosse assim, ela não teria qualquer chance com ele. Digamos, que a princesa não era exatamente seu tipo.
Foi a alguns meses atrás, antes mesmo da jovem ter sido apresentado oficialmente a nobreza, quando ainda tinha tempo de visitar o campo de treinamento sem precisar treinar também. Não foi de propósito, mas enquanto Sua Alteza estava distraída conversando com Lyan, ela viu Caim arrastar Nisório para detrás das acomodações dos guerreiros. Isabella imediatamente pensou o pior. Imaginou que o gêmeo finalmente tinha perdido a cabeça com as provocações do general de divisão e estava a ponto de matá-lo, então os seguiu silenciosamente pronta para impedir um homicídio. Não foi com uma cena de briga que a jovem se deparou, apesar de que os dois estavam nos pescoços um do outro. Parecia que os dois eram bem mais que amigos de infância e que o fato de Nisório saber que Caim tinha uma marca na bunda se devia a muito mais que uma fofoca de Abel.
Ela soltou um som abafado pela surpresa, mas não deveria tê-lo feito. Deveria ter colocado as mãos na boca e saído de fininho. Isso chamou a atenção deles que a encaram alarmados.
- Eu não vi nada! – disse simplesmente, saindo dali e indo para perto de Lyan.
- O que foi? – perguntou vendo suas faces vermelhas.
Isabella fez que não com a cabeça, indicando que era melhor deixar o assunto para lá.
Mais tarde naquele dia, Caim não lhe disse nada, não tentou se explicar e nem contou qualquer coisa. Um aviso silencioso que aquilo não era da conta de Sua Alteza. A jovem não questionou sua decisão e nem lhe perguntou nada, embora curiosidade corresse em suas veias.
Por isso, Isabella esperava que fosse a Abel que Margaret cortejasse, ou então sua decepção não teria fim.
Bem, independente disso, a partir daquele dia, a sexta princesa de Mabrel se tornou sua dama companhia, o que causou mais uma vez um grande alvoroço em todos os círculos nobres, e até os não nobres, de Licrya, sendo levemente abafado pela notícia de seu casamento que se aproximava.
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