Capítulo XXIV

Dutcha, Marsha e Clementina orbitavam em torno de Isabella; Dutcha girava, enrolava, prendia e soltava seu cabelo em movimentos ágeis e firmes. Marsha dava os toques finais em sua maquiagem, principalmente em suas pálpebras, pintando-as de prata. E Clementina buscava as joias que mais combinariam com o vestido, rejeitando veementemente qualquer coisa dourada. Não demorou muito até que elas soltassem Isabella e a conduzissem até o espelho adornado de detalhes amarelos.

Ela contemplou uma jovem excepcionalmente ataviada que oscilava da mesma maneira que si. Possuía olhos profundamente azuis, pestanas rútilas, lábios rubros e sobrancelhas loiras levemente arqueadas. Suas faces redondas eram perfeitamente adornadas por sua crina flavescente, posta no alto de sua cabeça em uma configuração que se assemelhava a uma flor desabrochando. Em suas orelhas jaziam um par de brincos de filigrana e um suas pontas pendia uma joia encarnada como as íris de Alexandre. Um vestido prateado com detalhes vermelhos na barra contornavam sua silhueta coberta por um tecido brilhante e translucido, deixando a mostra seu forro lindamente trabalhado. A vestimenta caia-lhe como uma cachoeira de paládio e movia-se tão sublimemente que parecia ser uma extensão de seu corpo.

Etérea fora a única palavra que Isabella pode encontrar para descrever a garota no espelho.

Ela girou os tornozelos e perguntou – então, como estou? – para as garotas a sua frente.

Todas tinha esse mesmo semblante, como se o ar tivesse sido arrancado dos seus pulmões e agora elas o procuravam sem conseguir respirar.

- Maravilhosa – suspirou Dutcha torcendo o seu avental.

- Maravilhosa é pouco – replicou Clementina em tom de deboche.

- Você está ótima, Vossa Alteza – disse Marsha fria e seriamente.

Isabella riu como o tilintar de um sino e agradeceu, correndo em direção a porta lateral de seu aposento e tocando-a com gentileza.

- Alexandre, eu posso entrar? – pediu colocando a orelha na entrada. Ela ouviu um chiado afirmativo vindo de lá de dentro, colocou a mão sobre a maçaneta e girou-a.

Quando adentrou a alcova, os mordomos já estavam arrumando suas coisas e se retirando. O Imperador encontrava-se parado no meio do quarto ajeitando os botões de sua blusa. Tinha os cabelos negros postos para trás e usava um terno preto com detalhes vermelhos que lhe caia de forma magistral. Estava mais libidinoso do que nunca.

Isabella juntou suas mãos em frente ao nariz emocionada. Ela apressou-se e se colocou ao seu lado, gravando a imagem daquele homem profundamente em suas retinas.

- Você está lindo, Alexandre – elogiou girando ao seu redor.

- Obrigado – respondeu em um suspiro.

O humor do Imperador Vermelho vinha estado sorumbático já havia um tempo, o motivo era simples; ele odiava bailes. Não gostava do barulho, nem do cheiro de perfume forte, nem da concentração de nobres e seus sorrisos de negócios, tampouco apreciava dançar.

- Veja pelo lado bom, Alexandre, dessa vez você só vai precisar dançar comigo – consolou Isabella enquanto tomava chá em seu escritório alguns dias antes.

O homem de olhos carmim inclinou a cabeça e fitou a jovem de maneira melancólico. – Mas não vou poder te beijar como faço quando estamos sozinhos na ala sul. E essa é uma pena pesada demais para suportar.

Isabella não pode evitar sugar o ar exasperada enquanto se lembrava do ocorrido.

- Você também está bonita, Isabella – murmurou Alexandre ao pé do ouvido da garota. Seus rosto corou violentamente.

- Obrigado – balbuciou desajeitada. Ela não ficara assim quando suas amigas a elogiaram.

De repente, Sua Alteza sentiu alguma coisa queimar em sua nuca. Ela olhou para trás se deparando com três pares de olhos piscando abelhudamente pela porta entreaberta de seu quarto. Alexandre acompanhou seu olhar e encarou-as preguiçosamente. As três empregadas saltaram assustados e se retiraram de lá rapidamente. Algo semelhante com me perdoe, Vossa Majestade, pode ser ouvido entre seus arquejos frenéticos antes que o baque da porta se fechando se propagasse pelo ar.

- Você as assustou – acusou Isabella. Não havia muita emoção em sua voz enquanto ela rebobinava a cena em sua mente.

- Eu só olhei para elas...

Um gargalhar repentino irrompeu do peito da garota. Ela sentiu as lágrimas rolarem por sua face enquanto se curvava em uma bola e tremia segurando o estomago.

- Você é uma pessoa fácil de fazer rir, não é? – inquiriu o Imperador com um semblante pétreo.

- Não, eu sou normal. Você que é uma pessoa difícil! – exclamou com a voz esganiçada.

Demorou um pouco para que o ataque de riso da jovem passasse, mas logo que ele passou, Isabella enrolou seu braço com o de Alexandre e perguntou com seus olhos brilhantes:

- Vamos indo? – Ele suspirou, contudo assentiu com a cabeça.

Ambos colocaram seus casacos grossos – o de Isabella branco e felpudo, e o do Imperador negro e liso – e partiram porta a fora em direção ao baile.

Os corredores da ala sul estavam escuros, iluminado por umas poucas lamparinas de cristais violáceos fluorescentes penduradas nas paredes. Conforme eles se afastavam de seus aposentos, mais claros ficavam os passadiços, e mais opulentos também. Os desenhos nas paredes começavam a se tornar mais frequentes, as janelas começavam a se tornar mais escassas. Até que em certo ponto Isabella parou totalmente de se mover.

- O que foi? – indagou Alexandre.

A jovem engoliu em seco; a sua frente estava o limiar imaginário entre a ala sul e a ala central. Nos últimos meses ela nunca se atreveu a dar um passo sequer para fora dessa linha invisível. E agora ela podia, mas se sentia insegura.

O Imperador a encarou indiscretamente.

- Não é nada – respondeu com um sorriso polido.

Isabella deu um passo à frente e continuou sua caminhada com confiança. A partir daquele momento sua vida mudaria para sempre. Como, ela ainda teria de descobrir.

Levou um bocado até que ambos chegassem as portas do salão imperial da ala norte. Alguns empregados se projetaram e se ofereceram para levar os casacos dos dois.

- Vai estar quente lá dentro – assegurou Alexandre quando a jovem olhou com suspeita para a mão estendida do mordomo.

Isabella entendeu e concordou com a cabeça, tirando seu casaco felpudo e entregando para o rapaz que se curvou e desapareceu.

Ela se agarrou nervosamente ao braço do Imperador tentando controlar a própria respiração desuniforme. As enormes portas se abriram produzindo um barulho alto. – Realmente estava quente lá dentro, dava para sentir a massa de calor emanando do salão e os envolvendo como uma bolha. – Uma voz alta soou e se propagou pelo aposento, tornando-se tácito repentinamente:

- Anunciando Sua Majestade Imperial, Alexandre Fairoth Laivannel e Sua Alteza Imperial, Isabella Pereira da Silva.

E como resposta a multidão cumprimentou – que a graça esteja com a Vossa Majestade e com a Vossa Alteza.

A jovem prendeu a respiração e avançou impaciente até o pedestal da escada onde pôde ver uma centena de cabeças coloridas curvadas. Ela sentiu náuseas e cravou suas unhas em Alexandre forçando um sorriso resplandecente. Torcia para que ninguém pudesse ver o quanto se sentia mal. As cabeças se ergueram em uníssono e, diferente dos tantos outros bailes, seus olhos não se focarem no Imperador e sim na Alteza que lhe acompanhava; olhos de fulgor anil, lábios rubros, cabelos dourados e uma aura bruxuleante celestial. Isabella poderia não ter vestido o que queria, todavia causou um efeito ainda maior do que o previsto.

Foi como se uma pressão mastodôntica tivesse sido posta nos nobres do salão. Eles sugaram o ar, quase assobiando, e pararam de se mover por completo. Pupilas dilatadas, feições estáticas e mandíbulas tremulas. Ninguém na multidão se atreveu a produzir um ruído sequer e quebrar o feitiço que aquela garota lhes lançou.

Depois do que pareceram longos minutos de silencio, Isabella alargou seu sorriso e respondeu em um leve tilintar que se arrastou e prendeu-se nas superfícies do salão tal qual um véu cálido:

- É um prazer conhecer a todos, aproveitem a festa – E engoliu o coração na garganta.

Ao seu lado o Imperador franziu os sobrolhos e encarou o magote de maneira afiada. Como se não possuíssem escolha, a multidão voltou a mover-se, comer, beber, dançar e conversar, mas sem nunca tirar os olhos de Sua Alteza.

- Não foi tão difícil assim, certo? – As palavras de Alexandre saíram como leves caricias gentis.

- Do que você está falando? Foi horrível – replicou entredentes.

Assim que chegaram ao início da escadas, um casal de senhores de meia idade aproximaram-se para saudá-los. Pelo seu porte e vestimenta, Isabella assumiu que eles eram o Duque e a Duquesa Merpinilida. – Antes desse baile, Rowa fez com a garota decorasse todos os nomes e imagens de nobres dentro ou fora de Licrya. – A senhora usava um vestido azul que combinava com a sombra de seus olhos caídos, seus cabelos já esbranquiçados foram cortados rente a sua mandíbula, dando-lhe um ar mais jovial. Já o senhor trajava um terno verde e branco onde um broche com brasão de sua casa foi posto, parecia bem para sua idade, embora tivesse começado a ficar calvo.

- É um prazer conhecê-los, Duque, Duquesa – cumprimentou.

Eles sorriram e a cumprimentaram de volta. Estavam curiosos então fizeram algumas perguntas, mas nada muita pessoal. Não pareciam muito assustados com Alexandre, porém raramente olhavam-no nos olhos ou se dirigiam a ele. O Imperador não se incomodou muito com isso, falando apenas quando lhe inferiam a palavra. Será que esse tipo de atitude o machucava? Era a pergunta que girava na cabeça da jovem durante sua conversa.

- Fiquei surpresa quando Kevona falou tão bem de você, ela não gosta de muita gente – disse a Duquesa em algum ponto do diálogo – fiquei curiosa para lhe conhecer depois disso.

A conversa não se demorou muito, havia outros que queriam conversar com o jovem casal. Todos agiram de maneira semelhante. Não perguntavam demais, nem faziam observações pertinentes. Depois de alguns minutos de conversa, eles se retiravam e davam espaço para outras pessoas dialogarem consigo. Isabella imaginava se isso se devia ao fato de Alexandre estar ao seu lado. Ela não conseguia sentir, mas era verdade que o homem de olhos vermelhos possuía uma aura aterradora.

- Acho que já conversei o bastante. Eu geralmente não faço essas coisas. – foi dizendo Sua Majestade após um tempo. – Eu vou para o meu trono. – Mas antes que ele pudesse se retirar a jovem o puxou pelo braço e o encarou significativamente.

- Uma dança – balbuciou sorridente. Ele precisava dançar com ela ao menos uma vez.

O Imperador fitou-a pétreo, seu corpo tornou-se rígido. Estava tentando fugir disso e gostaria que Isabella pudesse ter esquecido. Entretanto ali estava ela, com seus olhos cintilantes e suas bochechas coradas.

- Uma dança! – repetiu as palavras da jovem como um aviso. Seria apenas uma vez e nada mais do que isso.

Não foi apenas uma vez. Dançaram cinco vezes ao todo. A cada a vez que a música parava de tocar, ambos se curvariam um para o outro, então a jovem poria seu dedo indicador em riste e moveria os lábios sem produzir som algum, só mais uma vez, e Alexandre não seria capaz de dizer não. Os violinistas e pianistas logo voltavam a tocar e Isabella o arrastava para centro do salão em um só mais uma vez incomensurável.

Ninguém nunca viu Alexandre tão sociável. Todos miravam o casal com surpresa ao interim que ambos tripudiavam lindamente pelo salão. Nenhum deles poderia dizer decerto se aquilo era bom ou ruim.

Foi só na sexta música que o Imperador finalmente foi capaz de rejeitá-la.

- Eu vou me sentar – avisou e então perguntou antes que ela pudesse enfeitiçá-lo novamente – o que vai fazer?

- Conversar um pouco mais com os nobres, eu suponho – replicou levando a mão ao esterno.

- Faça isso, então. Se alguém ousar te ofender, me avise, e eu farei questão de entregar cabeça do infeliz em uma bandeja para você. – Isabella não sabia ao certo se gostaria de ver isso, contudo não retrucou enquanto via-o se afastar.

Separar-se de Alexandre foi bom em alguns aspectos, deu-lhe a oportunidade de conversar mais livremente com outros nobres – eles realmente ficavam mais relaxados quando Imperador não estava por perto.

Em certo momento da noite, alguém a puxou levemente pelo braço como se para chamar a sua atenção. Em um dia qualquer esse tipo de atitude não a incomodaria, todavia Isabella era uma alteza agora e, mesmo que não tivesse se sentido realmente ofendida, ainda precisava mostrar um pouco de orgulho. Ela virou-se para o indivíduo, pronta para confortá-lo, dando de cara com um monte de cabelo ruivo esgrouvinhado.

- E aí? – disse a criatura com um sorriso que mais se assemelhava a um rosnar.

Da última vez, Isabella não pôde vê-la muito bem já que estava distante, mas agora ela podia contemplar com clareza todas as suas sardas, seus olhos verde água, seu pequeno nariz, os detalhes de suas pestanas vermelhas e sua pele pálida de giz de cera. Usava um vestido rosa com mangas semitransparentes que pendiam feito fitas ao redor de seus braços gordinhos. Antigamente Isabella pensava que rosa não caia bem em pessoas ruivas, entretanto percebia que rosa e vermelho parecia a combinação perfeita para a dama diante de si.

- Saudações, princesa Valéria, é um verdadeiro prazer finalmente ser capaz de conhecê-la – cumprimentou respeitosamente.

- Não precisa ser tão formal – disse sorridente, em seguida estendeu a mão para a garota de cabelos dourados.

Isabella ponderou sobre a atitude que deveria tomar nessa situação. A princesa a sua frente outrora fora uma das possíveis candidatas a imperatriz. A jovem mirou para a delicada mão de Valéria, em seguida para seu sorriso arreganhado, concluindo que contato que a princesa não demonstrasse hostilidade, não seria qualquer problema se associar a ela. Poderia ser, inclusive, benéfico para que os dois reinos formassem relações amigáveis.

Isabella tocou a mão de Valéria sentindo seu aperto firme apesar de seu talhe delicado. O sorriso da princesa se alargou ainda mais.

- Acho que agora podemos ser consideradas amigas, não é? – inquiriu soltando sua palma.

Podemos? Perguntou Isabella em pensamentos. Não tinha ideia de que fazer amizades poderia ser tão espontâneo.

- Presumo que sim – retorquiu piscando os olhos.

- Então, deixa eu te perguntar, como foi que você conquistou o Imperador? – Essa foi a primeira questão pertinente que a jovem loira teve de enfrentar àquela noite. Que atitude ela deveria tomar nessa situação? Irritar-se, recusar-se a responder, sair andando e deixar com que a princesa falasse sozinha. Nenhuma dessas opções lhe parecia muito boa.

Valéria provavelmente percebeu a expressão consternada de Isabella porque acrescentou – se for uma pergunta muito pessoal, não precisa responder. Eu fiquei curiosa então decidi perguntar. Desculpa se fui muito insensível.

- Tudo bem, eu entendo – consolou sorridente, ainda assim decidiu não replicar aquela questão.

A princesa ruiva coçou a cabeça e moveu os lábios em um trejeito selvagem – As pessoas sempre dizem que sou um pouco avoado e insensível, mas eu juro que não faço por maldade.

Isabella não sabia se avoada era palavra certa para descrever a pessoa a sua frente, franca soava mais preciso.

- Você pareceu uma pessoa legal, princesa Valéria – elogiou. Nesse instante um mordomo passou carregando taças de vinho em uma bandeja, a jovem agarrou duas rapidamente, piscando para o rapaz e oferecendo uma à garota a sua frente. – Por que não me conta um pouco sobre você?

A princesa aceitou o vinho mostrando suas fileiras de dentes perfeitos. – Eu não sei se você sabe, mas eu já fui uma das candidatas a noiva do Imperador. – Isabella fez que não, embora soubesse perfeitamente que sim. Rowa lhe contara que as pessoas abaixariam a guarda naturalmente caso se fizesse de desentendida. Isso faz com que te digam mais coisas, foi o que dissera. – Um dia, meu pai me disse Val, tá na hora de você assumir suas responsabilidades, eu não estava muito interessada em nada disso, mas todos tem suas próprias obrigações para carregar e eu não era melhor que ninguém para fugir das minhas. Meu pai queria que eu me casasse, Você tá na idade certa, Val. Não deu para recusar, nosso reino vinha passando por uns momentos difíceis. Não tinha muitos príncipes por aí solteiros, talvez uns velhos reis viúvos, mas eu não queria me casar com um cara que tinha o dobro da minha idade. A nossa única opção foi o Imperador Vermelho. Meus pais não ficaram lá muito felizes com isso considerando o histórico dele, só que a gente precisava de ajuda urgente. Assim que ouvimos que o Imperador de Licrya daria um baile, nos apressamos e viemos para cá. Eu não estava planejando conquistar ele nem nada, queria conversar com ele, tentar ser razoável. Só que na hora da dança, eu me acovardei. Eu já sabia que o Imperador só dançava com uma pessoa por festa, mas na hora de ir falar com ele, meus pés travaram e eu perdi minha chance. Quem dançou com o Imperador naquela noite foi a princesa Margaret. Depois que os dois terminaram, eu ainda fui tentar minha chance, mas fui recusada. Cara, na hora eu senti tanta vergonha. Depois daquilo eu voltei para Guliav, a situação não podia ser pior. Aí se passou uns meses e eu recebi a notícia de que ele estava noivando e, para minha surpresa, era com uma plebeia. Sem querer te ofender. Depois daquilo, eu realmente fiquei curiosa para saber o que exatamente tinha acontecido, quando vi você aqui, eu não pude aguentar e quis perguntar.

Isabella piscou sem se sentir saciada. Deu um gole profundo em sua taça e inquiriu abelhudamente – Mas o que aconteceu com seu reino? E por que ele estava passando por dificuldades?

Valéria sorriu, seus olhos não. – Monstros – respondeu simplesmente –, nosso reino estava sendo constantemente atacados por eles. Geralmente, em reinos pequenos como Guliav, não há guerreiros como Goliak ou o Imperador, tampouco recursos, para lidar com eles. Monstros reis só podem ser vencidos as custas das vidas de centenas de soldados. Nossa a única alternativa era contratar serviços de mercenários, guerreiros andarilhos ou de soldados de outros reinos para minimizar os danos, e mesmo assim não era suficiente. Naquele ritmo Guliav não duraria mais que cinco anos antes de cair. Não sei exatamente como ou porque, mas há cerca de nove meses atrás os ataques dos monstros diminuíram exponencialmente, até quase desaparecer. E agora as coisas estão melhores, mas não dá para saber por quanto tempo mais isso vai durar.

Estranho, pensou consigo mesma, apertando a taça de vinho. Os ataques de Licrya aumentaram, mas os de Guliav diminuíram? Os monstros estavam se focando só em Licrya? Por que eles fariam isso? As inquisições na cabeça da jovem giravam e se embaralhavam em um fluxo que não tinha mais fim. Isabella queria saber mais, todavia antes que pudesse, princesa Valéria já se despedia.

- Meus pais estão me chamando – avisou apontando com o polegar para trás de si. A garota de cabelos dourados seguiu seu dedo com os olhos, atravessando o ombro da jovem e pousando em um casal de cabelos encarnados como o da filha. O homem tinha um bigode cheio e a face vermelha, e a mulher possuía olhos verdes e uma pele de giz, tal qual Valéria. – Até mais, espero que possa me contar um pouco mais sobre você na próxima vez que nos vermos. Da próxima vez, tente não se fazer de misteriosa. – E foi embora.

Isabella demorou-se um tempo ainda pensando na anômala conjuntura, caminhou pelo salão sem se focar em nada específico com sua taça vazia na mão. A nove meses atrás, quando adentrei nesse mundo. Uma coincidência. Só isso e nada mais. Conquanto a dúvida lhe corroía. Será mesmo?

Antes que ela pudesse concluir sua linha de pensamentos, um homem trajado com galhardia postou-se a sua frente. Ele cheirava a perfume amadeirado e problemas. Não havia sequer um momento descanso em um baile imperial.

- Olá, Vossa Alteza – cumprimentou educado.

A jovem passou seus olhos por ele, rapidamente o reconhecendo.

- Boa noite, Duque Meliakos.

Ele era um dos poucos nobres que abertamente favoreciam a maneira que as coisa eram gerenciadas no reinado anterior; ou seja, um dos maiores apoiadores do falecido Imperador Ikaros.

Ele arqueou as sobrancelhas e estendeu as mãos no ar. – Na verdade, eu tenho algumas preocupações que gostaria de compartilhar com a senhorita.

- Eu ainda tenho pouco poder em minhas mãos, entretanto farei questão de repassar suas preocupações ao Imperador. Sinta-se à vontade. – Aquilo não estava lhe cheirando bem, contudo não podia simplesmente ignorar alguém sem um motivo válido.

- Ótimo! – regozijou-se andando em volta de Sua Alteza. – A verdade é que o meu problema é... você.

As feições de Isabella escureceram.

O Duque a olhou de cima a baixo, então acariciou o queixo reflexivo. O gesto fez com que a jovem se tornasse rígida.

- Então você é a pessoa que aquele garoto escolheu, hum... – murmurou sorridente. – Você é bonita, de fato, eu diria deslumbrante até, mas não faz o tipo de Sua Majestade. E sua personalidade, vejamos, parece desinteressante. Nem boa, nem má, apenas normal.

Isabella imediatamente entendeu o plano do homem a sua frente. Queria fazê-la perder a cabeça e então taxá-la como uma pessoa temperamental e inadequada para governar enquanto se passava como um nobre preocupado com a situação de Licrya. Ela só precisava manter a compostura e tudo acabaria bem. Fora treinada para esse tipo de situação.

- Não parece haver nada de especial em você. Duvido que tenha algum talento e olhando para suas mãos posso perceber que deve ter feito serviços braçais a vida inteira. Não aparenta ser muito inteligente. É ingênua e inadequada para governar.

Isabella tentou esconder sua irritação, mas sua mão trêmula revelou tudo que o Duque queria saber para dar o golpe final – não entendo como o Imperador pôde torna-la sua noiva quando ele sequer sabe por onde você andou, com quem você andou ou com quantos. Imagino, inclusive, que você não seja mais limpa.

Aquilo foi a gota da água. Isabella de fato não era nenhuma virgem, mas isso não era da conta de Duque e não era algo que ela precisasse se envergonhar sobre. A vida sexual dela, só a ela mesma pertencia e ninguém tinha direito de julgá-la por isso.

A jovem sorriu. Sorriu mesmo. Um daqueles sorrisos excepcionalmente etéreos. Todavia seu olhos tornaram-se glaciais.

- Duque Meliakos, você sabia que os pastores quebram as pernas das suas ovelhas quando elas continuam teimando em fugir – sibilou com um tilintar fascinante. – Não os entenda mal, eles não fazem por crueldade, é para próprio bem das ovelhas já que são criaturas estúpidas que precisam ser cuidadas dentro de um cercado ou morrerão rapidamente na natureza. Eu me pergunta o que o se deve fazer com uma pessoa que fala demais sem realmente entender seus limites. Talvez devêssemos cortar suas línguas fora ou então quebrar suas mandíbulas para que eles nunca mais digam uma só palavra. O que acha, Duque?

Meliakos piscou os olhos cinicamente e pousou a mão sobre o peito em um gesto ensaiado. – Vossa Alteza, a senhorita poderia estar me ameaçando?

Isabella aplaudiu e então riu. Não pare de sorrir, os abutres estão vendo.

– É claro que não! Eu só estou te fazendo uma pergunta! Por que vosmecê acharia isso? – Então ela parou repentinamente e fitou com seus olhos índigos. – Pode ser que o Duque tenha dito algo para me ofender por isso acha que eu estou o ameaçando?

- Claro que não, Vossa Alteza – replicou dando um sorriso amarelo.

Então a jovem de cabelos dourados voltou a gargalhar. – É claro que não! – repetiu em um tom que não dava para saber ao certo se era sarcástico ou não. – Definitivamente passarei sua questão ao Imperador – balbuciou pousando a mão sobre o braço magricela do Duque e sorrindo docilmente. – Agora eu tenho que cumprimentar os outros convidados, se me dá licença.

E Isabella se retirou enquanto Meliakos se curvava e resmungava algumas palavras inaudíveis.

Essa foi uma das lições que Kevona lhe ensinara; a alta sociedade não é nada mais que um covil de serpentes formadas na arte das guerras psicológicas. Se você não pode com as artimanhas deles, seja duas vezes mais ardilosa do que eles, e esmague-os sob seus pés feito insetos sem que eles sequer percebam o desastre até que seja tarde demais.

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